Voltar ao resumo

D

O Labirinto de Máscaras e o Rugido do Dragão

A tensão no loft de Emanuel era tão espessa que poderia ser cortada com uma das agulhas de seu estúdio. O som de um envelope sendo jogado sobre a mesa de mogno ecoou como um tiro. Sara, com um sorriso de satisfação que não alcançava seus olhos calculistas, cruzou as pernas longas, deixando o robe de seda deslizar perigosamente.

— É uma oferta irrecusável, Emanuel. A capa da *Vogue* foi o começo, mas a *Exposed* quer algo... artístico. Eles querem o meu corpo como a tela principal. — Ela jogou o cabelo loiro platinado para trás, desafiadora. — Vou posar nua. É bom para a minha marca.

Emanuel, que limpava uma de suas máquinas de tatuagem com uma precisão quase cirúrgica, parou o movimento. Ele levantou o olhar, e a escuridão em suas íris fez o ar esfriar.

— Não. — A palavra foi curta, seca, definitiva.

— Como disse? — Sara riu, uma risada anasalada e irônica. — Eu não estava pedindo permissão, querido. Estou comunicando. Sou formada em administração, sei gerenciar minha imagem melhor do que ninguém.

Emanuel levantou-se lentamente. Sua presença física parecia ocupar todo o espaço da sala, a postura firme de quem comanda impérios. Ele caminhou até ela, parando a centímetros de distância.

— Você não vai expor o que me pertence para o mundo inteiro babar em cima, Sara. Eu não sou um homem de compartilhar. Se você assinar esse contrato, considere-se fora desta casa e da minha vida. Eu disse não.

— Você é um dinossauro possessivo! — ela gritou, levantando-se também, o peito siliconado subindo e descendo com a fúria. — Eu vou fazer mesmo assim. Você não é meu dono!

Enquanto a tempestade desabava na sala, Eduarda observava tudo da fresta da porta do corredor, encolhida em seu cardigã de tricô rosa bebê. Seus dedos apertavam um panfleto colorido que ela havia recebido na faculdade de História da Arte. Seus olhos estavam úmidos; ela odiava os gritos, odiava como Emanuel ficava quando a raiva o dominava.

— Manu... — ela sussurrou, mas o som foi engolido por outra exclamação de Sara.

Eduarda recuou para o quarto. Ela se sentia invisível, um peso morto, exatamente como Sara dissera no salão. Ela precisava provar que também tinha uma vida, que também entendia de arte. Olhou para o panfleto: *"Exposição de Arte Corporal: Uma Celebração da Pele e da Estética. Traje: Ousadia e Mistério. Local: Mansão das Sombras."*

— É isso — murmurou Eduarda para si mesma, tentando convencer seu coração trêmulo. — É um evento acadêmico. Arte corporal... deve ser sobre tatuagens, pinturas em tela humana. Eu vou sozinha. Vou mostrar para o Emanuel que eu posso ser independente.

***

Duas horas depois, Eduarda estava diante do espelho. Ela havia escolhido um vestido de seda champagne, com alças finas e um decote em "V" que, embora elegante, revelava a maciez de seus seios médios de uma forma que ela raramente ousava mostrar. O comprimento ia até o meio das coxas, e ela calçava saltos que a deixavam um pouco mais alta, mas ainda assim delicada.

— Você consegue, Duda. É só uma festa de faculdade — disse ela para o reflexo, retocando o batom rosado.

Ela saiu escondida pelos fundos, pegando um Uber enquanto Emanuel e Sara ainda discutiam aos gritos no escritório.

Quando o carro parou em frente a uma mansão de muros altos nos arredores da cidade, Eduarda estranhou a falta de cartazes da faculdade ou de jovens com mochilas. Havia apenas seguranças de terno preto e um tapete vermelho que levava a uma porta de carvalho maciço.

— Boa noite, senhorita. Sua máscara, por favor — disse um homem na entrada, estendendo uma máscara de renda preta.

— Ah, é um baile de máscaras? Que lúdico! — Eduarda sorriu, achando a ideia adorável. — A faculdade realmente se superou no orçamento deste ano.

Ao entrar, o perfume de incenso e algo mais profundo, como almíscar e couro, a atingiu. A iluminação era baixa, tons de vermelho e roxo banhavam as paredes. No centro do salão, pessoas circulavam usando roupas mínimas, algumas apenas com pinturas corporais elaboradas.

— Uau... — Eduarda ajustou a alça do vestido, sentindo-se subitamente muito vestida. — Que técnica de *body painting* impressionante. Aquela moça ali... ela parece estar usando um espartilho, mas é só tinta!

Ela caminhou mais para o centro, observando um casal que se acariciava de forma bastante... entusiasmada em um divã de veludo.

— Nossa, o pessoal da História da Arte é realmente muito expressivo — comentou baixinho, sentindo o rosto esquentar. — Eles levam a sério a ideia de "viver a obra".

— Você é nova aqui, docinho? — Um homem alto, usando apenas uma calça de couro e uma máscara de lobo, aproximou-se, passando a mão levemente pelo ombro de Eduarda.

Ela deu um pulinho, assustada, mas sorriu com sua ingenuidade habitual.

— Sim! Sou do terceiro semestre. É para entregar algum relatório sobre a exposição ou a presença é livre?

O homem parou por um momento, a mão estática. Ele soltou uma risada abafada.

— Relatório? Oh, sim. Podemos fazer um relatório bem detalhado lá em cima, nas salas privadas. O que acha?

— Salas privadas? — Os olhos de Eduarda brilharam. — Tem um acervo exclusivo? Que maravilha! Eu adoraria ver as técnicas de sombreamento de perto.

Enquanto isso, no loft, o silêncio finalmente havia caído, mas era um silêncio perigoso. Emanuel estava sentado no sofá, bebendo um uísque puro, quando seu celular vibrou. Era o rastreador do celular de Eduarda — algo que ele instalara por proteção, dada a fragilidade da jovem.

Ele franziu o cenho ao ver a localização.

— O que a Eduarda está fazendo no *L’Extase*? — ele rosnou, a voz saindo como um trovão.

Sara, que retocava o batom no espelho da sala, virou-se curiosa.

— O que é esse lugar? Algum museu chato que ela foi se esconder?

Emanuel levantou-se tão rápido que o copo de uísque quase virou. Seus olhos estavam injetados.

— É uma casa de swing, Sara. O clube mais exclusivo e depravado da cidade.

Sara arregalou os olhos, e então começou a rir descontroladamente.

— A santinha? Na casa de swing? Meu Deus, Emanuel, ela deve estar tentando achar a seção de artes sacras no meio das orgias!

Emanuel não respondeu. Ele pegou as chaves da SUV e saiu batendo a porta com tanta força que um quadro na parede entortou. Ele não estava apenas irritado; ele estava em um estado de fúria possessiva que beirava a loucura. A ideia de qualquer homem colocando os olhos na sua "pequena", na sua pureza, o fazia querer queimar o mundo.

***

Na mansão, Eduarda estava genuinamente confusa. Ela havia subido para o segundo andar com o "homem-lobo", esperando encontrar uma galeria de fotos. Em vez disso, ela se viu em um corredor com portas entreabertas de onde vinham sons de gemidos e estalos de chicotes.

— Com licença, senhor Lobo? — ela chamou, parando no meio do corredor. — Onde estão os quadros? E por que aquela moça está amarrada? Isso é alguma performance sobre a opressão feminina no período barroco?

O homem virou-se, tirando a máscara e revelando um sorriso predatório.

— Esqueça o barroco, boneca. Vamos focar no agora. — Ele tentou puxá-la pela cintura. — Você é muito fofa com esse papo de faculdade, mas aquele vestido está pedindo para ser tirado.

Eduarda finalmente sentiu o frio na espinha. A ficha começou a cair, mas de forma lenta e desajeitada.

— Tirado? Mas... eu não trouxe outra roupa. E o ar-condicionado está forte. O senhor não acha que estamos fugindo do tema da exposição?

Nesse exato momento, o som de algo quebrando no andar de baixo silenciou a música ambiente. Gritos de protesto dos seguranças foram abafados por uma voz que Eduarda reconheceria em qualquer lugar do mundo.

— SAIAM DA MINHA FRENTE ANTES QUE EU QUEBRE CADA OSSO DE VOCÊS!

— Manu? — Eduarda arquejou, sentindo um misto de alívio e pavor.

Emanuel subiu as escadas como um demônio saindo das profundezas. Ele estava sem paletó, as mangas da camisa social branca dobradas, revelando as tatuagens intrincadas que subiam por seus braços — dragões e sombras que pareciam ganhar vida com a tensão de seus músculos.

Quando ele virou o corredor e viu o homem segurando o braço de Eduarda, o tempo pareceu parar.

— Solte. Ela. Agora. — A voz de Emanuel era baixa, mas carregada de uma agressividade que fez o "lobo" soltar Eduarda instantaneamente e dar três passos para trás.

— Ei, cara, eu não sabia que ela tinha dono... ela estava falando de faculdade, eu achei que era um fetiche...

Emanuel não deu tempo para explicações. Ele avançou, segurando o homem pelo colarinho e o prensando contra a parede de forma brutal.

— Se você respirar perto dela de novo, eu garanto que a única arte corporal que você vai conhecer será a reconstrução do seu rosto no hospital. Fora!

O homem saiu correndo, tropeçando nos próprios pés. Emanuel respirava pesadamente, seus ombros subindo e descendo. Ele se virou para Eduarda, que estava encolhida contra uma porta, os olhos cheios de lágrimas.

— Manu... eu... eu achei que era uma exposição... — ela soluçou, a voz manhosa e trêmula. — O panfleto dizia arte corporal...

Emanuel caminhou até ela. Ele queria gritar, queria sacudi-la por ser tão absurdamente ingênua, mas ao ver a fragilidade dela naquele vestido de seda, a fúria se transformou em uma possessividade protetora avassaladora.

— Você é idiota, Eduarda? — ele perguntou, embora o tom estivesse suavizando para uma rigidez dolorida. — Olhe ao redor! Isso aqui é um antro de perdição. Você entrou em uma casa de swing sozinha!

— Eu queria ver as pinturas... — ela choramingou, escondendo o rosto nas mãos. — Eu queria ser culta como você e a Sara dizem que não sou.

Emanuel soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um segundo para tentar controlar o desejo de simplesmente carregá-la dali e trancá-la em um quarto para sempre. Ele tirou o próprio cinto de couro — um gesto que fez Eduarda arregalar os olhos — mas ele apenas o usou para ajustar a própria postura antes de envolver a cintura dela com o braço, puxando-a para perto de seu corpo quente e sólido.

— Vamos embora. Agora. — Ele a guiou pelo corredor, ignorando os olhares dos outros frequentadores. Seus olhos varriam o ambiente como um predador garantindo que ninguém ousasse olhar para as pernas de Eduarda.

Quando chegaram ao carro, o silêncio era punitivo. Eduarda chorava baixinho no banco do passageiro.

— Me desculpa, Manu. Eu estraguei tudo, não foi?

Emanuel apertou o volante, as veias de seus braços saltadas.

— Você não tem noção do que poderia ter acontecido, Duda. O mundo não é um livro de História da Arte. As pessoas são cruéis. Elas veriam essa sua carinha doce e te destruiriam em minutos.

— Mas você me achou — ela disse, esticando a mão e tocando o braço dele, buscando a proximidade que sempre a acalmava. — Você sempre me acha.

Emanuel olhou para ela. A raiva ainda estava lá, mas o amor distorcido e protetor que ele sentia era maior.

— Sim, eu achei. E por causa disso, você está proibida de sair de casa sem mim pelas próximas duas semanas. E aquele vestido? — Ele apontou para a seda champagne. — Eu vou queimá-lo assim que chegarmos. Ninguém mais vai te ver nele.

— Mas ele foi caro! — ela protestou, com um biquinho manhoso.

— Eu não me importo. Eu compro dez novos, desde que cubram você até o pescoço.

Ao chegarem no loft, Sara estava no sofá, com uma taça de vinho na mão, pronta para destilar seu veneno.

— Ora, ora, se não é a nossa exploradora urbana. Como foi a "exposição", Duda? Aprendeu novas posições de... anatomia?

Eduarda baixou a cabeça, mas Emanuel deu um passo à frente, sua sombra cobrindo Sara.

— Nem mais uma palavra, Sara. — O tom dele era de um aviso final. — Se você abrir a boca para provocar ela, eu assino aquele contrato da revista agora mesmo e te mando para o estúdio de fotografia com uma passagem só de ida para fora da minha vida.

Sara engoliu o deboche. Ela nunca tinha visto Emanuel tão instável, tão perigosamente protetor.

Emanuel pegou Eduarda pela mão e a levou para o quarto principal. Ele a sentou na cama e começou a tirar os sapatos dela com uma delicadeza que contrastava com a agressividade de minutos atrás.

— Você é minha responsabilidade, pequena — ele murmurou, olhando nos olhos dela. — E eu não sou bom em dividir minhas coisas. Entendeu?

Eduarda assentiu, sentindo-se estranhamente segura naquela possessividade sombria. Ela se deitou, puxando o edredom, enquanto Emanuel se sentava ao lado dela, vigiando seu sono como um dragão protegendo seu tesouro mais precioso.

Naquela noite, Sara dormiu sozinha, remoendo seu ódio. Eduarda dormiu sob a proteção de um homem que a amava de forma assustadora. E Emanuel... Emanuel não dormiu. Ele ficou sentado no escuro, limpando sua arma e suas máquinas de tatuar, planejando como fecharia aquela casa de swing no dia seguinte, apenas por terem permitido que a pureza de Eduarda cruzasse aquela porta.

Afinal, na arte de Emanuel, cada traço tinha um dono. E o traço de Eduarda pertencia exclusivamente a ele.