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O Eclipse da Inocência e o Rugido do Dragão

A sala de estar do loft estava mergulhada em uma luz azulada vinda do enorme telão de LED. Emanuel estava sentado na poltrona de couro, imóvel como uma gárgula, enquanto seus dedos apertavam o cristal do copo de uísque com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Na tela, o feed do Instagram de Sara passava em um carrossel de imagens que haviam quebrado a internet naquela manhã.

Lá estava ela. Sara, em ângulos impossíveis, a pele brilhando sob luzes de estúdio, usando nada além de joias estrategicamente posicionadas e a atitude de quem sabia que era o centro do universo. As fotos da revista *Exposed* não eram apenas nudes; eram um grito de guerra. "A Rainha das Tintas", dizia a legenda, uma clara provocação ao império de tatuagens de Emanuel.

— Ficou divina, não ficou? — A voz de Sara surgiu vinda da cozinha, carregada de um triunfo ácido. Ela caminhou até a sala vestindo apenas uma camisa social de Emanuel, aberta o suficiente para mostrar que as fotos não mentiam. — Dez milhões de curtidas em seis horas. Meu engajamento está maior do que o da sua marca, querido.

Emanuel não desviou o olhar da tela. Sua mandíbula estava travada.

— Você quebrou sua palavra — disse ele, a voz saindo como um rosnado baixo.

— Eu fiz o que era necessário para a minha carreira — ela rebateu, sentando-se no braço da poltrona dele e passando a unha de gel pelo ombro do tatuador. — E você não me expulsou. Sabe por quê? Porque você adora o fato de que todo mundo me deseja, mas só você me tem. Sua possessividade é alimentada pelo meu brilho, Emanuel.

Ele finalmente olhou para ela. Seus olhos eram poços de escuridão.

— Eu não te expulsei porque você é útil para os negócios, Sara. E porque eu ainda não decidi qual será o seu castigo. Mas não se engane: você está caminhando sobre gelo fino.

A tensão foi interrompida pelo som de passos leves e o arrastar de uma mochila pesada. Eduarda entrou na sala, parecendo mais pálida do que o normal. Ela usava um vestido de algodão branco com pequenas flores bordadas, o cabelo preso em um coque frouxo e alguns pingos de tinta azul manchando seus dedos finos.

— Oi... — sussurrou ela, tentando passar despercebida para o quarto.

— Ora, se não é a nossa pequena acadêmica — ironizou Sara, saltando da poltrona. — Viu as fotos, Duda? Aprenda: isso é o que uma mulher de verdade faz com o corpo, em vez de ficar escondendo ele em roupas de boneca de porcelana.

Eduarda parou, apertando as alças da mochila contra o peito. Ela olhou para o telão e depois para Emanuel, que a observava com uma intensidade que a fazia querer murchar e florescer ao mesmo tempo.

— Estão... bonitas, Sara. Você é muito bonita — disse Eduarda, com sua doçura habitual que sempre desarmava os conflitos, ou pelo menos tentava. — Mas eu tenho que estudar. Tenho uma aula importante amanhã.

Emanuel franziu o cenho. Havia algo na voz de Eduarda, uma hesitação que seus instintos protetores captaram imediatamente.

— Que aula, Duda? — perguntou ele, levantando-se e caminhando até ela.

— É... sobre pintura corporal. Complemento daquela exposição que eu... bem, que eu tentei ir — explicou ela, desviando o olhar.

Emanuel sentiu um tique nervoso na pálpebra. A última "exposição" quase terminou em um massacre na casa de swing.

— Pintura corporal. De novo — ele murmurou. — E o que exatamente você vai fazer nessa aula? Analisar slides?

Eduarda engoliu em seco. Ela sabia que a verdade era uma bomba-relógio, mas mentir para Emanuel era impossível. Ele lia sua alma através de seus olhos expressivos.

— É uma aula prática, Manu. O professor disse que a teoria não é nada sem a experiência do modelo vivo. Cada aluno tem que posar uma vez para o restante da turma... para que possamos entender a textura da pele como tela.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sara soltou uma risada curta e incrédula. Emanuel, por outro lado, parecia ter virado pedra.

— Deixe-me ver se eu entendi — disse Emanuel, a voz tão calma que era aterrorizante. — Você está me dizendo que amanhã, em uma sala cheia de estudantes de arte barbudos e cheirando a maconha, você vai tirar a roupa?

— Não é tirar a roupa assim! — Eduarda gesticulou, nervosa. — É arte! É para pintura! O professor disse que é um ambiente de respeito. E é a minha vez. Se eu não for, eu perco a nota do semestre.

— Você não vai — sentenciou Emanuel.

— Eu preciso ir, Manu! — Eduarda bateu o pé, um gesto de rebeldia infantil que raramente usava. — Você deixa a Sara posar para o mundo inteiro ver, mas eu não posso participar de uma aula acadêmica? Isso é injusto!

Sara cruzou os braços, observando a cena com um prazer sádico.

— Ela tem razão, Manu. Deixe a menina mostrar o que tem. Embora, coitados dos alunos, vão acabar pintando uma tábua de passar roupa em comparação comigo.

Emanuel ignorou Sara. Ele deu um passo à frente, cercando o espaço pessoal de Eduarda.

— A Sara é uma exibicionista, Eduarda. Ela vive do olhar dos outros. Você... você é minha. Você é pura. Eu não vou deixar um bando de moleques com pincéis tocarem na sua pele, nem mesmo com os olhos.

— Ninguém vai me tocar! — Eduarda exclamou, as lágrimas começando a brotar. — Eu vou usar uma proteção... um tapa-sexo e adesivos. É profissional!

Emanuel soltou uma risada sombria e sem humor.

— Adesivos. Que reconfortante.

Ele se virou e saiu da sala sem dizer mais nada, entrando em seu escritório e batendo a porta. Eduarda ficou ali, tremendo, enquanto Sara se aproximava com um sorriso venenoso.

— Boa sorte amanhã, querida. Se eu fosse você, levava um casaco bem grosso. O Emanuel tem olhos em todos os lugares. E ele não é muito fã de compartilhar os brinquedos dele.

***

Na manhã seguinte, a faculdade de História da Arte estava agitada. O ateliê 4 era um espaço amplo, com janelas altas que deixavam entrar a luz cinzenta de São Paulo. Cavaletes estavam dispostos em semicírculo, e o cheiro de tinta a óleo e terebintina impregnava o ar.

Eduarda estava no pequeno camarim atrás de um biombo de seda, o coração martelando contra as costelas. Ela usava apenas uma calcinha bege mínima e adesivos nos mamilos, como o professor havia instruído. Por cima, um roupão de cetim que ela apertava como se fosse uma armadura.

— Tudo pronto, Eduarda? — chamou o Professor Ricardo, um homem de meia-idade com óculos de aro grosso e uma boina que ele achava que o tornava mais interessante.

— Sim... eu acho — ela respondeu, a voz quase sumindo.

Ela saiu de trás do biombo e caminhou até o pequeno palanque no centro da sala. Os cerca de vinte alunos pararam de conversar. Alguns ajustaram os pincéis, outros apenas observaram a figura delicada e etérea que se posicionava diante deles. Eduarda era como uma estátua de mármore fino, sua pele clara parecendo brilhar sob a luz do estúdio.

— Muito bem — disse o professor. — Hoje vamos focar na fusão de cores primárias sobre a curvatura da coluna vertebral. Podem começar a preparar as paletas.

Eduarda fechou os olhos, tentando se desligar do mundo. Ela sentia o frio do ambiente e o peso dos olhares. Mas, antes que o primeiro aluno pudesse se aproximar com um pincel, a porta dupla do ateliê foi escancarada com um estrondo metálico.

O som de botas pesadas ecoou no chão de madeira.

Eduarda abriu os olhos e quase caiu do palanque. Emanuel estava parado na entrada. Ele não estava sozinho. Atrás dele, dois de seus seguranças mais imponentes, vestidos de preto, carregavam caixas de metal.

Emanuel estava impecável em um terno cinza-chumbo feito sob medida, que destacava seus ombros largos e sua postura de comando. Seus olhos varreram a sala com um desprezo tão evidente que alguns alunos recuaram com seus cavaletes.

— Quem é o responsável por esta... palhaçada? — perguntou Emanuel, a voz baixa e vibrante de autoridade.

O Professor Ricardo deu um passo à frente, tentando manter a dignidade.

— Sou eu. E quem é o senhor? Este é um ambiente acadêmico privado, não pode entrar assim...

Emanuel caminhou até o professor, parando a centímetros dele. O tatuador era mais alto e infinitamente mais perigoso.

— Eu sou Emanuel Rossi. E a "tela" que você está prestes a sujar com essas tintas baratas é de minha propriedade exclusiva.

— Manu! — Eduarda gritou, tentando se cobrir com o roupão que estava caído em seus braços. — O que você está fazendo aqui?

Emanuel olhou para ela. Por um breve segundo, a fúria em seus olhos foi substituída por uma possessividade ardente ao vê-la tão exposta. Ele tirou o próprio paletó e, em dois passos, subiu no palanque, envolvendo-a no tecido caro que cheirava a perfume amadeirado e poder.

— Eu disse que você não ia posar, Eduarda — ele sussurrou no ouvido dela, a voz sombria. — Mas como você é teimosa, eu decidi que, se alguém vai pintar este corpo, esse alguém serei eu.

— O senhor não pode fazer isso! — protestou um aluno do fundo. — É uma aula coletiva!

Emanuel virou-se para a turma.

— Meus seguranças acabaram de trazer dez kits de tatuagem profissional e tintas importadas da Alemanha. Eles vão distribuir para vocês. Vocês queriam aprender sobre arte corporal? Pois bem. Vão aprender com o melhor do mundo. Mas não nela.

Ele sinalizou para os seguranças, que abriram as caixas, revelando equipamentos que custavam mais do que o carro de qualquer pessoa naquela sala.

— Vocês têm laranjas e peles sintéticas naquelas caixas. Pratiquem nelas. Se alguém ousar levantar um pincel na direção da minha mulher, eu farei questão de que nunca mais consigam segurar uma caneta na vida.

O professor estava boquiaberto.

— O senhor é... o tatuador das celebridades? O dono da rede *Rossi Ink*?

— Em pessoa — disse Emanuel, voltando sua atenção para Eduarda. — E agora, se me dão licença, a aula vai começar.

Ele pegou um estojo de pincéis de cerdas naturais que um dos seguranças lhe entregou. Eram pincéis de maquiagem artística de altíssimo luxo. Ele abriu um frasco de tinta dourada e azul cobalto.

— Manu, você está louco — murmurou Eduarda, embora seu coração estivesse disparado e uma sensação de formigamento percorresse sua espinha.

— Shhh... — ele pediu, tocando o queixo dela e forçando-a a olhar para ele. — Fique parada, pequena.

Emanuel começou a pintar. Mas não era uma pintura comum. Com a precisão de quem já havia desenhado em milhares de corpos ao redor do globo, ele deslizava o pincel pela pele de Eduarda como se estivesse realizando um ritual sagrado. Ele começou pelo ombro, desenhando trepadeiras de flores que pareciam brotar da carne dela.

A sala estava em silêncio absoluto. Os alunos, esquecendo suas laranjas, aproximaram-se para ver o mestre trabalhar. O modo como Emanuel tocava Eduarda era uma mistura de agressividade controlada e uma ternura quase dolorosa. Ele a girava devagar, seus dedos longos e fortes deixando marcas de posse por onde passavam.

Ele pintou uma fênix que subia pela lateral das costelas dela, as asas se abrindo em direção aos seios que ele cobria estrategicamente com a mão esquerda enquanto pintava com a direita.

— Você é tão linda, Duda — ele sussurrou, apenas para ela ouvir, enquanto a ponta do pincel fazia cócegas na base de seu pescoço. — E agora todos sabem que você é uma obra de arte assinada por mim. Ninguém toca no que é meu.

Eduarda sentia-se em transe. O calor das mãos de Emanuel, a intensidade de seu olhar e o fato de ele ter invadido sua faculdade apenas para garantir que ninguém a visse nua a deixavam tonta. Era errado, era possessivo, era absurdo... e ela o amava por isso.

— E as fotos da Sara? — ela perguntou baixinho, enquanto ele terminava um detalhe em seu tornozelo.

Emanuel parou o pincel.

— A Sara é papel de parede, Eduarda. Todo mundo olha, mas ninguém realmente vê. Você é a minha obra-prima. O papel de parede a gente troca quando enjoa. A obra-prima a gente guarda em um cofre e mata qualquer um que tente roubar.

Ele terminou a pintura com um traço final de dourado no centro da testa dela. Eduarda estava coberta por desenhos intrincados que imitavam tatuagens, mas em cores vibrantes que pareciam brilhar sob a luz do ateliê.

Emanuel levantou-se, limpando as mãos em um lenço de seda.

— A aula acabou — anunciou ele para a sala atônita. — Podem ficar com os equipamentos. Considerem um patrocínio da *Rossi Ink*.

Ele pegou Eduarda no colo, como se ela não pesasse nada, e começou a caminhar em direção à saída.

— Manu! Meus livros! Minha mochila! — ela protestou, rindo e escondendo o rosto no pescoço dele.

— Meus homens pegam — ele disse, sem parar de andar. — Agora, nós vamos para casa. Eu levei duas horas para pintar isso e vou levar a noite inteira para tirar... centímetro por centímetro.

Ao passarem pelo corredor da faculdade, todos pararam para olhar. O homem mais sombrio e rico do mundo das tatuagens, carregando uma garota coberta de ouro e azul, enrolada em um paletó de grife.

Quando chegaram ao carro, Sara estava esperando no banco de trás, furiosa.

— Onde você estava, Emanuel? Eu tinha um jantar com os patrocinadores e você levou os seguranças com as chaves do cofre de... — Ela parou de falar ao ver Eduarda nos braços dele. — O que é isso? Ela virou um avatar?

Emanuel colocou Eduarda no banco da frente e fechou a porta. Ele olhou para Sara pelo vidro abaixado.

— Ela virou a única coisa que importa nesta casa, Sara. Se você quer atenção, vá postar mais uma foto nua. A Eduarda não precisa disso. Ela tem a mim.

Ele entrou no carro e deu partida, deixando para trás o rastro de pneus queimados e o eco de uma possessividade que não conhecia limites.

Aquela noite, no loft, não houve brigas. Houve apenas o silêncio do mestre apreciando sua tela. Emanuel usou óleos perfumados e água morna para limpar a pele de Eduarda, mas a cada traço que ele removia com a esponja, ele deixava um beijo, uma marca, uma promessa.

— Você ainda quer ser modelo de arte, pequena? — ele perguntou, enquanto ela se aninhava em seu peito, exausta e feliz.

— Só se o artista for você, Manu — ela respondeu, com sua voz manhosa.

Emanuel sorriu, um sorriso raro e perigoso.

— Bom. Porque eu já comprei o prédio da sua faculdade. Amanhã, o Professor Ricardo terá uma nova diretriz curricular: a única modelo permitida nas aulas de pintura será uma estátua de gesso. A minha modelo real fica em casa. Comigo.

Eduarda adormeceu sentindo o rugido do dragão em seu ouvido, sabendo que, naquela dança entre a doçura e a fúria, ela era a única que realmente dominava a fera.