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O Eclipse do Controle e o Peso das Mãos
O ar no escritório da casa de campo estava carregado com o cheiro metálico de tinta fresca e o aroma terroso de uísque envelhecido. Emanuel estava sentado atrás de sua escrivaninha de carvalho maciço, a luz de um abajur antigo projetando sombras longas e distorcidas que pareciam dançar sobre as tatuagens de seus antebraços. O incidente no restaurante não havia sido apenas uma quebra de protocolo social; para ele, fora uma falha de segurança e uma demonstração pública de que suas "mulheres" estavam fora de seu domínio. E Emanuel Rossi não aceitava nada menos que a ordem absoluta.
Sara estava encostada na estante de livros, os braços cruzados sob o busto, o olhar desafiador e uma expressão de tédio cuidadosamente ensaiada. Eduarda, por outro lado, estava sentada na ponta de uma cadeira de veludo, as mãos pequenas apertando a barra do vestido de seda, os olhos úmidos fixos no tapete persa.
— Eu avisei — começou Emanuel, sua voz saindo baixa, um barulho gutural que fez Eduarda estremecer. — Eu avisei que o isolamento nesta casa era para a proteção de vocês. E o que vocês fazem na primeira oportunidade? Transformam um jantar de luxo em um espetáculo de baixo nível.
— Ah, por favor, Emanuel — Sara interrompeu, revirando os olhos. — Foi uma briga de gatos. Acontece. Se você está tão irritado porque eu mostrei os peitos para metade de São Paulo, o problema é seu e do seu conservadorismo de fachada.
Emanuel levantou-se lentamente. A cadeira rangeu, um som seco que pareceu um tiro no silêncio da sala. Ele caminhou até a porta e girou a chave, o clique metálico ecoando como uma sentença.
— O problema, Sara, é que vocês duas esqueceram quem dita as regras aqui. Eu tentei ser paciente. Tentei usar a lógica. Mas vocês agem como crianças impulsivas. E crianças precisam de correção.
Eduarda levantou o olhar, o rosto pálido.
— Manu... por favor... eu não fiz nada, eu só estava lá — ela sussurrou, a voz manhosa e trêmula, buscando a proteção que ele sempre lhe dava.
— Exatamente, Eduarda. Você estava lá e permitiu que a Sara te arrastasse para o caos. Você não impôs limites, não se afastou. Você foi passiva enquanto o nome da nossa família era jogado no lixo — Emanuel parou diante delas, sua presença física ocupando todo o espaço. — Hoje, as palavras acabaram.
Ele apontou para o divã de couro no canto do escritório.
— Sara. Primeiro você.
A loira arqueou uma sobrancelha, um sorriso cínico brincando em seus lábios. Ela não tinha medo da dor física; ela era movida pelo confronto. Caminhou até o divã com um rebolado desafiador e se deitou de bruços, acomodando-se como se estivesse prestes a receber uma massagem.
— Faça o seu pior, mestre — provocou ela, virando o rosto para observá-lo.
Emanuel não hesitou. Ele se posicionou ao lado dela e a primeira palmada desceu com uma força seca e sonora. O impacto da palma da mão dele contra o tecido fino do vestido de Sara ecoou pelo escritório.
Sara soltou um suspiro agudo, mas não desviou o olhar. Seus dedos cravaram no couro do divã, mas ela manteve a cabeça erguida, os olhos fixos em Emanuel com uma mistura de ódio e excitação.
— É só isso? — ela provocou após a quarta palmada, embora sua pele já estivesse começando a arder intensamente.
Emanuel não respondeu com palavras. A sequência que se seguiu foi rítmica e implacável. Ele não estava batendo para machucar de forma permanente, mas para marcar a autoridade. A cada golpe, Sara sentia o fogo se espalhar, o choro subindo pela garganta, mas ela o engolia, recusando-se a dar a ele a satisfação de ouvi-la implorar. Ela era uma guerreira em seu próprio jogo distorcido, enfrentando a punição como uma medalha de rebeldia.
— Você... é um... animal — ela ofegou quando ele finalmente parou. Suas bochechas estavam vermelhas, o cabelo bagunçado, mas o olhar permanecia desafiador.
Emanuel a ignorou, seus olhos agora se voltando para a figura encolhida na cadeira.
— Eduarda. Sua vez.
— Não, Manu... por favor... — Eduarda começou a chorar de verdade, as lágrimas escorrendo por seu rosto delicado. — Eu prometo que vou ser boa, eu prometo que nunca mais saio de perto de você...
— Venha aqui, pequena. Agora.
Eduarda levantou-se, as pernas bambas. Ela caminhou até ele como se estivesse indo para o patíbulo. Quando Emanuel a segurou pela cintura e a posicionou sobre seus joelhos, sentando-se na poltrona, ela soltou um soluço desesperado.
— Manu, dói... eu tenho medo...
— Shhh... — ele murmurou, a mão acariciando o cabelo dela por um breve segundo antes de descer. — Isso é para você lembrar que o mundo não é um livro de arte, Duda. E que você precisa me obedecer para ficar segura.
A primeira palmada em Eduarda foi muito mais leve do que a de Sara, mas o efeito foi devastador. Ela soltou um grito abafado, escondendo o rosto no ombro dele, o corpo pequeno sacudindo com os soluços.
— Ai! Manu, para! Por favor! — ela gemia, a voz carregada de uma manha que sempre derretia o coração dele, mas desta vez ele se manteve firme.
Emanuel continuou, suas palmadas sendo dadas com uma firmeza paternal e possessiva. Para Eduarda, a dor era secundária à humilhação e ao choque emocional. No entanto, conforme o calor das mãos de Emanuel se espalhava por seu corpo, algo estranho começou a acontecer. Entre os soluços e o medo, uma sensação de segurança avassaladora a invadiu. Era como se, através da punição, ele estivesse reafirmando que ela pertencia a ele, que ele se importava o suficiente para corrigi-la.
Ela sentia o coração disparar, um formigamento que não era apenas de dor percorrendo sua espinha. Ela odiava o que estava acontecendo, mas ao mesmo tempo, sentia-se mais conectada a Emanuel do que nunca.
Quando ele finalmente parou, Eduarda não se moveu. Ela permaneceu deitada sobre os joelhos dele, o rosto escondido, chorando baixinho.
— Acabou — disse Emanuel, sua voz agora suave, a agressividade dissipada. Ele a levantou e a sentou em seu colo, abraçando-a com uma força protetora. — Você aprendeu a lição?
Eduarda apenas assentiu, escondendo o rosto no pescoço dele, aspirando o cheiro de uísque e pele. Ela nunca admitiria, nem sob tortura, que o peso das mãos dele sobre ela havia trazido um alívio sombrio para sua alma insegura.
Sara, que já estava de pé, observava a cena com um sorriso irônico enquanto ajeitava o vestido.
— Que cena tocante — disse a loira, embora sua voz ainda estivesse um pouco trêmula. — O monstro e a sua protegida. Você realmente tem um talento para o drama, Emanuel.
Emanuel olhou para Sara, o olhar ainda sério.
— Saia, Sara. Vá para o seu quarto. E não pense que isso foi um jogo. Se houver uma próxima vez, Milão vai parecer um paraíso perto do que eu farei.
Sara deu de ombros, caminhando até a porta com a cabeça erguida, apesar da queimação que sentia. Ela parou no portal, olhou para trás e piscou para Eduarda.
— Durma bem, santinha. Se é que você consegue depois dessa "aula de história".
A porta se fechou e o silêncio voltou a reinar no escritório. Eduarda continuava abraçada a Emanuel, as mãos dele agora acariciando suas costas com uma ternura quase dolorosa.
— Você está bem? — ele perguntou, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela.
— Você foi mau, Manu... — ela sussurrou, fazendo um biquinho, os olhos ainda vermelhos. — Eu achei que você me amasse.
— Eu amo você exatamente por isso, pequena — ele disse, beijando a testa dela. — Eu protejo o que é meu. E eu não deixo ninguém, nem mesmo você, destruir a sua pureza.
Eduarda suspirou, fechando os olhos. Ela se sentia pequena, vulnerável e totalmente dominada. Emanuel era um homem sombrio, agressivo em sua possessividade, mas ali, naquele ninho de autoridade, ela encontrava a paz que o mundo lá fora lhe negava.
— Você vai me perdoar? — ela perguntou, a voz manhosa voltando com força.
Emanuel sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, mas que carregava uma aceitação profunda.
— Eu já perdoei. Mas não se esqueça do que aconteceu hoje.
Ele a carregou para o quarto, colocando-a na cama com uma delicadeza que fazia as palmadas de minutos atrás parecerem um sonho distante. Ele a cobriu e ficou ao seu lado até que a respiração dela ficasse pesada e regular.
No corredor, ele encontrou Sara, que o esperava encostada na parede, fumando um cigarro eletrônico.
— Você foi duro com ela — disse Sara, a voz desprovida de sarcasmo por um momento.
— Ela precisava entender, Sara. Assim como você.
— Eu entendo muito bem, Emanuel — ela deu uma tragada longa. — Só não espere que eu me curve. Eu luto de volta. Sempre.
— Eu sei — ele disse, passando por ela. — É por isso que eu ainda não te mandei embora de vez.
Emanuel entrou em seu próprio quarto, sentindo a adrenalina finalmente baixar. Ele olhou para as próprias mãos, as palmas ainda levemente avermelhadas. Ele era um homem de controle, mas sabia que o equilíbrio entre aquelas duas mulheres era uma corda bamba que poderia se romper a qualquer momento.
Sara era o fogo que ele precisava combater para se sentir vivo. Eduarda era a luz que ele precisava proteger para não se perder na própria escuridão. E enquanto ele pudesse manter as mãos sobre as duas — seja para acariciar ou para corrigir — ele continuaria sendo o senhor daquele império de sombras e tintas.
Naquela noite, o silêncio na casa de campo era profundo. Sara dormia de bruços, o orgulho intacto e a pele ardendo. Eduarda dormia em posição fetal, sonhando com mãos fortes que a seguravam no escuro. E Emanuel... Emanuel apenas vigiava, o dragão sempre alerta, garantindo que ninguém, absolutamente ninguém, tocasse no que lhe pertencia.