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O Banquete do Caos e o Decote da Discórdia
O silêncio na casa de campo era quase absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico da agulha de Emanuel deslizando sobre uma pele sintética. Ele estava em seu escritório improvisado, mas sua mente não estava no desenho. Seus olhos vagavam constantemente para a câmera de segurança que mostrava a sala de estar. Russo fora afastado — uma demonstração de força, diplomacia sombria e alguns milhões de dólares em acordos portuários haviam garantido que o gângster procurasse outra "flor" para seu jardim de perversões. Mas a paz tinha um preço: o cansaço emocional.
Emanuel sentia o peso de ser o eixo entre dois polos opostos. De um lado, Eduarda, que florescia na calmaria da propriedade isolada, lendo seus livros de arte sob os carvalhos. Do outro, Sara, que estava prestes a sofrer uma combustão espontânea por falta de atenção, flashs e o barulho da vida urbana.
— Eu não aguento mais ver vacas, Emanuel! — Sara entrou no escritório como um furacão, usando um conjunto de seda neon que cegaria um homem menos acostumado a excessos. — Eu sou uma mulher cosmopolita, não uma camponesa do século XIX. Se eu passar mais uma noite comendo o risoto de aspargos da sua cozinheira e ouvindo os grilos, eu vou ter um surto psicótico e raspar o cabelo.
Emanuel suspirou, largando a máquina de tatuar. Ele olhou para Sara. Apesar de toda a vulgaridade e do ego inflado, ele sabia que tinha negligenciado a loira durante a crise com o Russo. Ele tinha um carinho possessivo por ela; Sara era o fogo que o mantinha alerta, enquanto Eduarda era a água que o acalmava.
— Tudo bem, Sara. Você venceu — disse ele, massageando as têmporas. — Onde você quer ir?
— No *L'Ambroisie* — ela respondeu instantaneamente, os olhos brilhando. — É o restaurante mais exclusivo da cidade. Preciso ser vista, Emanuel. Preciso que as pessoas saibam que a rainha voltou de Milão e que continua por cima.
— Prepare-se. Vamos em duas horas — Emanuel cedeu.
Ele saiu do escritório e encontrou Eduarda na biblioteca. Ela estava encolhida em uma poltrona, usando um par de óculos de leitura que a deixava ainda mais adorável. O medo de deixá-la sozinha, mesmo com seguranças, ainda era uma ferida aberta em sua psique.
— Pequena, se arrume — disse ele, beijando o topo da cabeça dela. — Vamos jantar na cidade.
— Ah, Manu... eu prefiro ficar aqui. O movimento me cansa — ela murmurou, fechando o livro.
— Você não fica sozinha, Duda. Nem por um segundo. É para a sua segurança, e porque eu quero você por perto.
***
Duas horas depois, o contraste no banco de trás da SUV blindada era cômico. Sara usava um vestido de bandagem dourado, tão justo que parecia ter sido pintado em seu corpo, com um decote que desafiava as leis da física e da gravidade, exibindo orgulhosamente seus generosos seios turbinados. Eduarda, por sua vez, estava etérea em um vestido de tule azul-marinho, com mangas transparentes e pequenos bordados de estrelas. Ela parecia uma fada perdida em uma convenção de modelos da Victoria's Secret.
Ao chegarem ao restaurante, o *maître* os conduziu à mesa mais central. Sara desfilava, parando para cumprimentar conhecidos imaginários e garantindo que todos notassem sua presença. Emanuel caminhava entre as duas, uma mão na cintura de Eduarda e o olhar atento a qualquer movimento suspeito.
— Peça o que quiser, Sara. Só, por favor, mantenha o volume da voz abaixo de um show de rock — pediu Emanuel, sentando-se.
— Ai, como você é chato! — Sara riu, pedindo a garrafa de vinho mais cara da carta. — Vamos celebrar! A Duda sobreviveu ao gângster e eu sobrevivi ao tédio.
O jantar transcorreu em uma paz relativa, até que o álcool começou a subir à cabeça de Sara. Ela começou a rir mais alto, gesticulando com as mãos e fazendo o decote do vestido dourado descer alguns milímetros perigosos a cada movimento.
Na mesa ao lado, um casal de socialites parecia não estar gostando da "energia" de Sara. O homem, um tipo atlético e com cara de herdeiro, não conseguia desviar os olhos do busto de Sara. Sua namorada, uma mulher de cabelos curtos e expressão severa chamada Letícia, estava ficando roxa de raiva.
— Dá para você parar de se oferecer para o meu namorado? — A voz de Letícia cortou o som ambiente do restaurante, fazendo Eduarda dar um pulinho na cadeira.
Sara parou com a taça de vinho no meio do caminho. Ela olhou para a mulher com um desdém que só uma loira siliconada de 25 anos consegue projetar.
— Desculpe, querida, você falou comigo ou com o garçom? — provocou Sara, ajeitando o busto de forma provocativa. — Porque se for comigo, eu não tenho culpa se o seu namorado tem bom gosto e olhos funcionais.
— Sua piranha vulgar! — Letícia levantou-se, batendo na mesa. — Você está se esfregando visualmente nele desde que chegou!
Emanuel sentiu a tensão subir. Ele colocou a mão sobre a de Eduarda, que já estava pálida.
— Sara, ignore. Vamos embora — ordenou Emanuel, a voz sombria.
— Eu não vou a lugar nenhum! — Sara retrucou, levantando-se também. — Eu paguei por este jantar e não vou ser insultada por uma mulher que usa um corte de cabelo de um soldado da recruta.
— O que você disse?! — Letícia não esperou. Ela avançou sobre a mesa e puxou o cabelo platinado de Sara.
— AH! MINHA EXTENSÃO! — gritou Sara, partindo para o revide.
Em questão de segundos, o restaurante de luxo virou um ringue de luta na lama, mas sem a lama. Sara e Letícia se embolaram, caindo sobre a mesa de sobremesas. Pratos de porcelana voaram, taças de cristal estouraram e o som de tapas e puxões de cabelo preencheu o ar.
— Sara! Pare com isso! — Emanuel rugiu, levantando-se e tentando separar as duas.
O namorado de Letícia, em vez de ajudar, tentou empurrar Emanuel para que a namorada "vencesse" a briga.
— Não toca nela, cara! — gritou o rapaz.
Emanuel, cuja paciência já havia evaporado meses atrás, segurou o rapaz pelo colarinho e o prensou contra a parede com uma mão só.
— Fica. No. Seu. Canto. — A voz de Emanuel era puro gelo.
Enquanto isso, no chão, a luta continuava. Eduarda estava encolhida em um canto, observando tudo com os olhos arregalados, parecendo uma criança assistindo a um filme de terror.
— Manu! Faz elas pararem! — ela implorou, a voz manhosa sumindo no meio da confusão.
Emanuel soltou o rapaz e mergulhou no meio das duas mulheres. Ele segurou Letícia pela cintura e a afastou, enquanto o *maître* tentava segurar Sara. Mas o vestido de bandagem de Sara, projetado para ser estático e não para uma luta corporal, finalmente cedeu.
Com um som de tecido esticando ao limite, as alças finas arrebentaram.
— OPA! — gritou um dos clientes do fundo.
Sara parou de lutar instantaneamente quando sentiu a brisa do ar-condicionado em lugares onde não deveria sentir. Ela olhou para baixo e percebeu que seu vestido havia descido até a cintura, deixando seus seios siliconados, perfeitamente redondos e agora levemente manchados de *mousse* de chocolate, totalmente à mostra para o restaurante inteiro.
Houve um silêncio mortal por três segundos.
Letícia, vendo a rival exposta, começou a rir histericamente.
— Aí está a sua "rainha", Emanuel! Uma stripper de luxo!
Sara, em vez de se encolher de vergonha, olhou para os próprios seios, depois para a plateia de queixos caídos, e soltou uma risada estridente e nervosa.
— Bom, pelo menos os meus são reais... quer dizer, pagos e bonitos! — ela gritou, tentando puxar o vestido para cima, mas o tecido estava preso em um carrinho de doces. — Emanuel! Me ajuda aqui!
Emanuel, sentindo que sua dignidade estava sendo enterrada a sete palmos de profundidade, tirou o paletó e o jogou sobre os ombros de Sara, cobrindo-a de qualquer maneira.
— Nós vamos embora. Agora — ele disse, pegando Eduarda pela mão com uma força possessiva e arrastando Sara pelo braço.
— Mas eu nem comi a sobremesa! — reclamou Sara, tropeçando no paletó dele enquanto tentava esconder a nudez parcial.
***
A viagem de volta foi um espetáculo à parte. Emanuel dirigia em silêncio absoluto, uma veia saltada em sua testa denunciando que ele estava a um passo de um colapso nervoso. No banco de trás, Sara tentava se recompor, usando o paletó de Emanuel como um vestido improvisado.
— Você viu a cara daquela mulher? — Sara riu, limpando um pouco de creme de baunilha do ombro. — Eu acabei com ela. E o meu busto? Admita, Emanuel, eu causei um impacto.
— Você causou um boletim de ocorrência e a proibição vitalícia de eu entrar naquele restaurante, Sara — Emanuel rosnou. — Você é impossível.
Eduarda, que estava sentada no banco do passageiro, finalmente soltou o ar que parecia estar prendendo desde o restaurante. Ela olhou para Emanuel e depois para Sara pelo retrovisor.
— Sara... você está com chocolate no mamilo esquerdo — disse Eduarda, com sua sinceridade ingênua e doce.
Sara olhou para baixo, limpou a mancha com o dedo e provou.
— Hum, é belga. Pelo menos o prejuízo teve bom gosto.
Emanuel não aguentou. A situação era tão absurda, tão surreal, que a rigidez de sua máscara de controle rachou. Ele começou a rir. Não era uma risada alegre, era uma risada de quem aceitou que sua vida era um hospício de luxo.
— O que foi? — perguntou Sara, confusa.
— Eu sou um dos tatuadores mais respeitados do mundo — disse Emanuel, entre risos secos — e acabei de sair de um restaurante escoltando uma loira seminua coberta de doce e uma universitária que parece que viu um fantasma.
— Eu não sou um fantasma, Manu — Eduarda protestou, fazendo um biquinho. — Eu só achei a moça muito agressiva.
— Ela era uma recalcada, Duda — Sara disse, inclinando-se para frente e tocando o ombro de Eduarda. — Mas você foi bem, não chorou nem nada.
— Eu estava ocupada demais tentando não ser atingida por um *petit gâteau* voador — respondeu Eduarda, e as duas mulheres acabaram rindo juntas, um momento raro de trégua.
Emanuel olhou para as duas. Ali estavam elas. O veneno e a doçura. A confusão e a paz. Ele percebeu que, por mais que tentasse controlar cada aspecto de suas vidas, elas eram forças da natureza que ele apenas podia esperar direcionar, nunca domar.
Ao chegarem na casa de campo, Emanuel estacionou o carro e respirou fundo.
— Sara, para o seu quarto. Limpe-se e tente não destruir nada no caminho.
— Sim, senhor, capitão — ela disse, saindo do carro com o paletó arrastando no chão, mantendo a pose de modelo mesmo em frangalhos.
Emanuel voltou-se para Eduarda. Ele a puxou para perto, sentindo o perfume de lavanda que o acalmava.
— Você está bem, pequena? — ele perguntou, a voz agora suave e carregada de uma proteção genuína.
— Estou, Manu. Só... promete que o próximo jantar vai ser um piquenique? Só nós dois? Sem chocolate voador?
— Eu prometo — ele disse, beijando-a com ternura.
Ele a levou para dentro, mas antes de entrar, olhou para o céu estrelado da fazenda. Ele sabia que a paz duraria pouco. Amanhã Sara estaria reclamando do café, Russo talvez mandasse outro presente, e Eduarda teria alguma nova crise de insegurança acadêmica. Mas, por enquanto, ele tinha as duas sob seu teto, seguras e, de uma forma distorcida e caótica, felizes.
Emanuel fechou a porta pesada de madeira, trancando o mundo lá fora. Ele era o mestre das tintas, o dono das agulhas e o guardião daquelas duas mulheres. E, apesar de todo o caos, ele não trocaria aquele hospício por nenhuma galeria de arte silenciosa do mundo.
— Manu? — Eduarda chamou do topo da escada.
— Sim?
— A Sara deixou o sutiã no banco do carro. Acho que ela esqueceu que não estava usando um.
Emanuel fechou os olhos e encostou a testa na porta.
— Eu pego amanhã, Duda. Eu pego amanhã.
O dragão finalmente fechou os olhos, exausto, enquanto no quarto de hóspedes, a "Vênus de Tinta" já planejava como postar sobre o "incidente fashion" no Instagram para ganhar mais seguidores. A vida de Emanuel Rossi nunca seria uma linha reta, mas ele finalmente estava aprendendo a apreciar as curvas — especialmente as que causavam tanta confusão.