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O Sal da Saudade e a Redoma de Vidro

O sol de Búzios era de um dourado quase ofensivo, refletindo-se nas águas da Praia da Ferradura com uma intensidade que fazia os olhos de Eduarda arderem por trás dos óculos escuros de grife. No quarto dia de viagem, o que deveria ser o ápice da sua liberdade acadêmica e pessoal havia se transformado em uma espécie de exílio sensorial. Ela estava sentada em uma espreguiçadeira de madeira nobre, em um canto reservado do beach club mais exclusivo da península — um privilégio que, embora ela tentasse ignorar, sabia que fora garantido por um telefonema silencioso de Emanuel.

Ao seu redor, o grupo da faculdade de História da Arte celebrava a vida com uma energia que Eduarda, subitamente, achava exaustiva. Bia dançava com um copo de caipirinha na mão, e Ricardo, o rapaz que Emanuel tanto detestava, tentava há horas manter uma conversa sobre as influências do barroco mineiro na arquitetura contemporânea, mas Eduarda mal conseguia focar nas palavras dele.

— Duda, você está no mundo da lua desde que chegamos ao almoço — disse Ricardo, aproximando-se e sentando-se na beirada da espreguiçadeira dela. — O mar está perfeito, a companhia é ótima... o que está faltando?

Eduarda forçou um sorriso, ajeitando a alça do seu biquíni de crochê — uma peça delicada, romântica, bem ao seu estilo, mas que parecia estranhamente "vazia" sem o olhar possessivo de Emanuel para avaliá-la.

— Só estou um pouco cansada, Ricardo. O sol daqui é mais forte do que eu estou acostumada.

— Ou talvez você esteja sentindo falta daquela sombra gigantesca que costuma andar atrás de você — provocou Bia, aproximando-se e sentando-se do outro lado. — Vamos lá, amiga! Você lutou como uma leoa para ter esses sete dias. Já passamos da metade! Esquece o "Tatuador Ditador" por um momento.

Eduarda soltou um suspiro longo. Ela queria esquecer. Queria provar para si mesma que era autossuficiente, que podia rir, beber e discutir arte sem precisar checar o celular a cada cinco minutos. Mas a verdade era que o silêncio de Emanuel a estava matando. Desde que ela saíra da mansão, ele não havia ligado nenhuma vez. Não havia mandado mensagens de controle, não havia exigido fotos. Ele simplesmente a deixara ir, exatamente como prometera.

E esse era o maior castigo que ele poderia ter imposto.

A liberdade, sem o contraponto da autoridade de Emanuel, parecia insossa. Eduarda sentia falta da tensão, do cheiro de tinta e couro que impregnava as roupas dele, e até mesmo das brigas constantes com Sara, que, por mais irritantes que fossem, davam um ritmo vibrante à sua rotina. Ali, cercada por jovens da sua idade que falavam de ideais e sonhos, ela se sentia uma estrangeira. Ela não era mais apenas uma estudante de vinte anos; ela era a mulher de Emanuel, moldada por suas mãos, protegida por seu dinheiro e amada por sua obsessão.

— Eu vou ao banheiro — mentiu Eduarda, levantando-se e pegando sua saída de praia de renda.

Ela caminhou em direção à área interna do clube, mas seus pés a levaram para um canto mais isolado, perto das palmeiras que cercavam a piscina de borda infinita. Com o coração batendo forte, ela pegou o celular na bolsa. Não havia notificações. Nada.

— Ele me esqueceu — sussurrou para si mesma, sentindo os olhos encherem-se de lágrimas. — Ele realmente me deixou aqui para eu perceber que não sou nada sem ele.

A manha, aquela necessidade visceral de ser cuidada e notada, aflorou com uma força avassaladora. Eduarda não queria mais o sal do mar; ela queria o peso das mãos de Emanuel em seus ombros. Ela não queria a conversa intelectual de Ricardo; ela queria a voz rouca de Emanuel ordenando que ela se vestisse de forma mais discreta.

Decidida, ela discou o número dele. Chamou uma, duas, três vezes. Quando ela achou que ele não atenderia, a ligação foi completada. O barulho de uma máquina de tatuar ecoou do outro lado, um som que, para Eduarda, soou como a música mais linda do mundo.

— Emanuel? — ela chamou, a voz saindo pequena e embargada.

Houve um silêncio do outro lado. O som da máquina parou.

— O que foi, Eduarda? Aconteceu alguma coisa? — A voz dele era profissional, neutra, desprovida de qualquer emoção óbvia.

— Não... nada aconteceu. Eu só... eu queria saber como você está.

— Estou trabalhando. Tenho uma agenda cheia hoje e um estúdio para gerenciar. Achei que você estivesse ocupada demais sendo "livre" para se preocupar com a minha rotina.

Eduarda sentiu a pontada de sarcasmo e, curiosamente, isso a confortou. Era o Emanuel que ela conhecia.

— Eu estou na praia, Manu. Com o pessoal.

— Eu sei exatamente onde você está, Eduarda. Sei que está no beach club, sei que está bebendo água de coco e sei que o Ricardo está a menos de dois metros de você há quarenta minutos.

Eduarda arregalou os olhos, olhando ao redor, procurando por algum segurança ou câmera.

— Você está me vigiando? Você prometeu que não faria isso!

— Eu prometi que não mandaria o motorista te buscar — ele corrigiu, o tom agora mais sombrio e possessivo. — Eu nunca disse que deixaria você desprotegida em uma cidade cheia de idiotas oportunistas. Mas não se preocupe, eu não interferi em nada. Você queria sete dias, não queria? Faltam três. Aproveite.

— Eu não quero mais os três dias, Emanuel! — ela explodiu, as lágrimas finalmente caindo. — Eu quero voltar para casa! Eu odeio este lugar, odeio essas pessoas e odeio me sentir assim... solta!

— Ah, a liberdade perdeu o brilho tão rápido? — Emanuel soltou uma risada curta, sem humor. — Você fez um escândalo, ameaçou pular de uma janela por esse tempo, Eduarda. Agora aguente até o fim. Mostre que você é a mulher independente que diz ser.

— Eu não sou independente! — ela gritou, sem se importar se alguém ouvia. — Eu sou sua! Eu sou manhosa, eu sou sensível e eu quero que você venha me buscar agora! Por favor, Manu... eu não aguento mais uma noite sem você.

Houve um longo silêncio do outro lado da linha. Eduarda conseguia imaginar Emanuel sentado em sua cadeira de tatuador, limpando o suor da testa com o antebraço, os olhos cinzentos fixos em algum ponto da parede enquanto processava a rendição dela.

— Você tem certeza do que está pedindo, pequena? — a voz dele baixou o tom, tornando-se aquela vibração perigosa que fazia as pernas de Eduarda tremerem. — Se eu for buscar você agora, a brincadeira de "garota livre" acaba para sempre. Você vai voltar para a minha redoma, e as regras serão dez vezes mais rígidas do que eram antes. Você não vai ter mais viagens de faculdade, não vai ter mais festinhas com "Ricardos" e vai ter que me agradecer todos os dias por eu ainda querer você depois desse show de rebeldia.

— Eu não ligo! — ela soluçou, sentando-se no chão de madeira, escondendo o rosto entre os joelhos. — Eu faço o que você quiser. Eu só quero o seu cheiro, o seu abraço... eu sinto falta até das reclamações da Sara! Por favor, vem me buscar...

— Mande sua localização exata — ele ordenou, a autoridade retomando o controle total. — O jato vai decolar em trinta minutos. Esteja no aeroporto de Búzios em uma hora. E Eduarda...

— Sim?

— Vá trocar de roupa. Não quero você circulando em um aeroporto público com esse biquíni que não esconde nada. Coloque algo que me pertença.

— Eu vou, Manu... eu vou agora mesmo.

Ela desligou o telefone e sentiu um alívio tão profundo que quase desmaiou. A angústia dos últimos quatro dias evaporou, substituída por uma antecipação doce e submissa. Ela correu de volta para a pousada, ignorando os chamados de Bia e Ricardo. Em seu quarto, ela jogou as roupas na mala de qualquer jeito, mas parou diante do espelho.

Ela tirou o biquíni e vestiu um conjunto de lingerie de seda branca que Emanuel havia escolhido para ela meses atrás, por cima, colocou um vestido leve, mas elegante, e um lenço que ele lhe dera de presente. Ela queria parecer a "bonequinha" dele novamente.

Enquanto isso, na mansão em São Paulo, Emanuel desligou o celular com um movimento brusco. Sara estava deitada no sofá do escritório, lixando as unhas e observando-o com um sorriso de escárnio.

— Eu te disse — Sara comentou, sem levantar os olhos. — A santinha não aguenta o tranco. Ela gosta da coleira, Emanuel. Ela só precisa fingir que não gosta de vez em quando para ganhar atenção.

— Cale a boca, Sara — Emanuel disse, pegando as chaves do carro e vestindo sua jaqueta de couro preta. — Prepare-se. A Eduarda está voltando, e eu não vou estar com um humor paciente hoje. Se você começar com suas provocações vulgares assim que ela pisar aqui, eu vou trancar as duas no porão e deixar que vocês se resolvam sozinhas.

— Ah, eu adoro quando você fica autoritário — Sara levantou-se, caminhando até ele e passando as unhas pelo peito dele. — Mas admita... você estava morrendo de saudades da manha dela, não estava? O silêncio da casa estava te deixando louco.

Emanuel não respondeu. Ele apenas a afastou e saiu do escritório com passos pesados. Sim, o silêncio o estava matando. A quietude da mansão sem o choro baixo de Eduarda ou seus pedidos de carinho era insuportável. Ele precisava do equilíbrio — a agressividade de Sara e a fragilidade de Eduarda. Sem uma das partes, seu mundo perdia o eixo.

Duas horas depois, o jato de Emanuel pousava na pista privada de Búzios. O sol já começava a baixar, tingindo o céu de laranja e violeta. Eduarda estava lá, de pé na pista, segurando sua mala pequena, parecendo minúscula diante da imensidão do aeroporto.

Quando a porta do jato se abriu e Emanuel desceu as escadas, Eduarda não conseguiu se conter. Ela correu em direção a ele, soltando a mala no meio do caminho, e se jogou em seus braços.

— Manu! — ela gritou, escondendo o rosto no pescoço dele, aspirando o cheiro de tabaco e perfume que tanto lhe fizera falta.

Emanuel a segurou com força, seus braços tatuados fechando-se ao redor dela como uma armadura. Ele a apertou contra o peito, sentindo o tremor do corpo dela, e por um momento, toda a sua fúria por causa da desobediência dela se dissolveu em um alívio possessivo.

— Você é uma tonta, Eduarda — ele murmurou contra o cabelo dela, mas sua voz não tinha mais o gelo de antes. — Uma tonta mimada que não sabe o que quer.

— Eu sei o que eu quero agora — ela soluçou, olhando para ele com os olhos vermelhos e suplicantes. — Eu quero você. Eu quero ir para casa. Me perdoa... eu nunca mais vou pedir para sair de perto de você.

Emanuel segurou o queixo dela, forçando-a a olhar diretamente em seus olhos cinzentos.

— Você está me dando a sua palavra? Porque se você quebrar essa promessa, Eduarda, eu não vou ser apenas o "monstro controlador". Eu vou ser o seu pior pesadelo. Você entende o peso do que está dizendo?

— Entendo — ela disse, firme. — Eu prefiro ser sua prisioneira do que ser livre sem você.

Emanuel a beijou. Foi um beijo punitivo, possessivo, que reivindicava cada centímetro dela. Ele a beijou até que ela ficasse sem fôlego, até que o gosto de sal do mar fosse substituído pelo gosto dele. Ele a pegou no colo e a levou para dentro do jato, sem olhar para trás.

Lá dentro, o luxo silencioso da cabine os envolveu. Emanuel sentou-se na poltrona larga e puxou Eduarda para o seu colo, mantendo-a ali, como uma criança que acabara de ser resgatada.

— Sara está esperando em casa — ele disse, enquanto o jato começava a taxiar. — Ela já está preparando o arsenal de piadas sobre a sua "grande aventura" que durou menos de uma semana.

Eduarda sorriu fraco, aninhando-se no peito dele.

— Eu não me importo. Ela pode falar o que quiser. Contanto que eu esteja aqui, com você.

— Você vai ter muito o que compensar, Duda — Emanuel avisou, sua mão subindo pela coxa dela sob o vestido, apertando a carne macia com uma firmeza que prometia uma noite longa. — Eu perdi quatro dias de trabalho e de paz por causa desse seu capricho. Vou querer cada minuto de volta em submissão.

— Eu vou te dar tudo, Manu — ela sussurrou, fechando os olhos, finalmente sentindo-se segura. — Eu sou toda sua.

O voo de volta para São Paulo foi curto, mas para Eduarda, foi o retorno triunfal ao seu verdadeiro lar. Ao aterrissarem e serem levados de volta para a mansão, o cenário era familiar: as luzes de segurança iluminando os muros altos, o jardim impecável e, na porta principal, Sara, encostada no batente com uma taça de vinho e um olhar de pura diversão maldosa.

— Olha só quem decidiu que o mundo lá fora é assustador demais para uma princesinha — Sara exclamou quando eles saíram do carro. — Bem-vinda de volta ao calabouço, Duda. Sentiu falta do chicote ou foi só do cartão de crédito?

Eduarda não respondeu com lágrimas desta vez. Ela apenas segurou a mão de Emanuel com mais força e caminhou para dentro da casa, de cabeça erguida. Ela sabia que Sara continuaria sendo sua rival, que Emanuel continuaria sendo seu dono e que sua vida seria um eterno cabo de guerra emocional.

Mas, enquanto Emanuel a guiava para o andar de cima, ignorando os comentários de Sara e focando apenas na mulher que ele tinha sob seu controle, Eduarda percebeu que a redoma de vidro não era uma prisão. Era o único lugar onde ela se sentia verdadeiramente viva. No labirinto de possessividade de Emanuel, ela encontrara o seu caminho, e o sal da saudade que a consumira em Búzios agora era apenas uma lembrança amarga, rapidamente substituída pela doçura perigosa de pertencer a um homem que nunca a deixaria partir novamente.

Emanuel trancou a porta do quarto principal, o som do trinco ecoando como um veredito final. Ele se virou para Eduarda, que já estava abrindo o zíper do vestido, oferecendo-se a ele com a manha que era sua marca registrada.

— Agora — Emanuel disse, sua voz enchendo o quarto com uma autoridade absoluta —, vamos ver se você ainda se lembra de como ser uma boa menina.

Eduarda sorriu, entregando-se ao seu mestre, sabendo que, naquela noite, a liberdade seria a última coisa em sua mente.