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O Labirinto de Vidro e a Rebeldia da Seda

O silêncio na mansão de Emanuel era um luxo caro, mas naquela manhã de terça-feira, ele fora estilhaçado por um som que o tatuador detestava mais do que agulha cega: o choro rítmico e persistente de Eduarda. Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro no escritório, tentando se concentrar nos esboços de uma cobertura de costas inteira para um cliente que viria de Londres, mas a cada cinco minutos, a porta se abria um centímetro e um par de olhos castanhos e marejados aparecia na fresta.

— Emanuel... — a voz dela era um sussurro trêmulo, carregado de toda a manha que ela sabia que o desarmava.

— Já conversamos sobre isso, Eduarda — ele respondeu, sem tirar os olhos do papel. Sua voz era firme, a voz de um homem que estava acostumado a dar ordens e ser obedecido por centenas de funcionários. — Volte para o seu quarto.

— Mas são sete dias, Manu! Sete dias em Búzios com o pessoal da faculdade! — Ela entrou no escritório, arrastando os pés, vestindo um robe de seda branca que ele mesmo havia comprado. Ela parecia uma criança perdida em um palácio. — A Bia vai, o Ricardo vai, até o professor de Estética vai! É uma viagem cultural, eu juro.

Emanuel largou o lápis e finalmente a encarou. O olhar dele era gélido, mas havia aquela centelha de possessividade que sempre surgia quando o assunto era Eduarda longe de sua supervisão.

— Eu já dei a minha última palavra. Você pode ir na sexta-feira de manhã e eu mando o motorista te buscar no domingo à tarde. Dois dias são mais do que suficientes para você ver o mar e conversar sobre "estética" com seus amigos. Sete dias é uma eternidade para você ficar sem a minha proteção.

— Proteção ou vigilância? — Ela bateu o pé no tapete persa, os lábios tremendo. — Você não confia em mim! Você acha que eu vou fazer o quê? Fugir com um hippie que pinta aquarelas na areia?

— Eu não confio no resto do mundo, Eduarda. E eu não gosto de dormir em uma cama vazia por uma semana inteira porque você decidiu que quer ter uma "experiência universitária" — ele se levantou, caminhando até ela. Emanuel era muito mais alto, sua presença física era uma parede de músculos e tatuagens que costumava silenciar qualquer um.

Mas Eduarda estava em um mês de campanha. Ela vinha pedindo aquela viagem há trinta dias, e a negativa final de Emanuel havia rompido a última barragem de sua paciência sensível.

— Se eu não for os sete dias, eu não vou nenhum! — ela gritou, a voz subindo uma oitava. — E eu vou embora! Eu vou morar com os meus pais de novo! Eles pelo menos me deixam sair de casa sem pedir autorização por escrito!

Emanuel soltou uma risada curta e seca, cruzando os braços.

— Seus pais moram em um apartamento de dois quartos no subúrbio, Duda. Você não aguenta dois dias sem o seu conforto, sem as suas roupas de grife e sem... mim. Pare de fazer drama.

O rosto de Eduarda ficou vermelho. O insulto à sua independência, embora tecnicamente correto, foi a gota d'água. Ela se jogou no sofá do escritório, escondendo o rosto nas almofadas e soltando um grito abafado de frustração.

— Eu te odeio! Você é um monstro controlador! Eu sou sua namorada, não uma das suas tatuagens que você retoca quando quer!

Nesse momento, a porta do escritório se abriu com um estrondo. Sara entrou, usando um biquíni de oncinha e um salto agulha dourado, segurando uma taça de champanhe às dez da manhã.

— Mas que zona é essa? Dá para ouvir os gritos da Duda lá da piscina — Sara disse, encostando-se na mesa de Emanuel e olhando para a rival com um desprezo divertido. — O que foi agora, santinha? O papai não deixou você ir brincar no parquinho?

— Cala a boca, Sara! — Eduarda levantou o rosto, as bochechas manchadas de rímel. — Você não entende nada! Você não estuda, você não tem amigos, você só vive para gastar o dinheiro do Emanuel e se exibir!

— Pelo menos eu não preciso implorar para viajar — Sara deu um gole no champanhe, sorrindo com malícia. — Eu simplesmente vou. Mas claro, eu não finjo ser uma bonequinha de porcelana que quebra se alguém soprar. Se você quer liberdade, Duda, tem que ter peito para aguentar as consequências. Mas você prefere ficar aí, choramingando e fazendo manha. É patético.

— Saiam as duas. Agora — a voz de Emanuel vibrou, baixa e perigosa.

Sara deu de ombros e saiu rebolando, mas Eduarda não se moveu. Ela se levantou, os olhos brilhando com uma determinação desesperada que Emanuel nunca vira nela.

— Se você não me deixar ir, Emanuel... eu juro... eu pulo dessa janela! — Ela correu em direção à grande vidraça que dava para os jardins do segundo andar.

Emanuel não se moveu. Ele conhecia o teatro de Eduarda, mas uma parte dele, a parte controladora que temia qualquer dano à sua "propriedade" mais preciosa, sentiu um solavanco de adrenalina.

— Eduarda, saia de perto dessa janela — ele ordenou, sua voz soando como um chicote.

— Não! — Ela abriu o trinco, o vento frio da manhã bagunçando seus cabelos finos. — Eu prefiro me quebrar toda lá embaixo do que continuar vivendo nessa jaula de ouro! Você não me ama, você só me possui!

— Duda, para com isso! — Sara gritou do corredor, voltando para ver a cena, seu tom de deboche substituído por uma surpresa genuína. — Você é louca? É o segundo andar, você só vai quebrar as pernas e ficar ainda mais dependente dele!

— Eu não me importo! — Eduarda subiu no parapeito, o robe de seda esvoaçando. Ela olhou para baixo, para o gramado perfeitamente aparado. Sua respiração estava curta, o coração martelando contra as costelas. Ela estava apavorada, mas a chantagem emocional era a única arma que lhe restava contra o gigante de gelo que era Emanuel.

Emanuel caminhou lentamente, as mãos espalmadas à frente do corpo, tentando manter a voz o mais neutra possível, embora estivesse fervendo de raiva e preocupação.

— Eduarda, desça daí. Agora. Estamos sendo razoáveis. Eu disse que você pode ir no final de semana.

— Não é o suficiente! Eu quero a semana toda! Eu quero ser como as outras garotas! Eu quero que você pare de me rastrear, que pare de ligar de dez em dez minutos! — Ela soluçou, segurando-se no batente. — Ou você diz que eu posso ir agora, ou eu pulo!

— Você está tentando me chantagear? — Emanuel parou a dois metros de distância. Seus olhos cinzentos estavam escuros. — Você acha que eu vou ceder porque você está fazendo uma cena de novela mexicana?

— Tenta a sorte, Emanuel! — Ela ameaçou soltar uma das mãos.

Houve um segundo de silêncio absoluto. Sara observava da porta, a taça de champanhe esquecida na mão. Emanuel viu o tremor nas pernas de Eduarda. Ele sabia que ela não teria coragem de pular, mas sabia que, em seu estado emocional instável, ela poderia escorregar. E a ideia de Eduarda machucada, de sua pele perfeita marcada por algo que não fosse a sua própria vontade, era insuportável.

— Tudo bem — Emanuel disse, as palavras saindo como se fossem pedras pesadas. — Você venceu. Sete dias.

Eduarda congelou. Ela piscou, as lágrimas parando por um instante.

— O quê?

— Você ouviu. Sete dias em Búzios. Com seus amigos. Sem o meu motorista na porta — ele deu mais um passo, agora perto o suficiente para segurar a cintura dela e puxá-la para dentro com um movimento brusco e possessivo.

Ele a prensou contra a parede ao lado da janela, suas mãos prendendo os pulsos dela acima da cabeça. O rosto de Emanuel estava a centímetros do dela, e a fúria que ele estava contendo finalmente transbordou em seu olhar.

— Você vai — ele sussurrou, a voz carregada de uma promessa sombria. — Mas escute bem, Eduarda. Se eu descobrir que você mentiu, se eu souber que aquele tal de Ricardo encostou um dedo em você, ou se você deixar de atender uma única ligação minha... eu vou buscar você pelos cabelos. E quando você voltar, eu vou garantir que você nunca mais sinta vontade de sair deste quarto, muito menos desta casa. Entendeu?

Eduarda estremeceu, a vitória doce sendo rapidamente temperada pelo medo que a autoridade dele sempre lhe causava. Ela assentiu levemente, o corpo mole contra a parede.

— Entendi, Manu... obrigada... — ela tentou ser carinhosa, mas ele a soltou bruscamente.

— Saia da minha frente. Vá arrumar suas malas antes que eu mude de ideia.

Eduarda saiu do escritório quase correndo, o robe de seda farfalhando. Sara, que assistira a tudo, soltou um assobio baixo.

— Uau. Ela realmente conseguiu dobrar você, Emanuel. Nunca achei que veria o dia em que a santinha ganharia uma queda de braço contra o grande ditador.

Emanuel voltou para sua mesa, pegando o copo de uísque que deixara pela metade. Ele virou o líquido de uma vez, sentindo-o queimar.

— Ela não ganhou nada, Sara. Ela só esticou a corda. E eu vou deixar que ela vá para que ela perceba, sozinha, que o mundo lá fora não é tão acolhedor quanto ela pensa. Ela vai sentir falta da segurança, vai sentir falta do luxo... e vai sentir falta de mim de um jeito que a fará implorar para voltar antes do prazo.

— Ou ela vai descobrir que ser livre é maravilhoso e você vai perder seu brinquedo favorito — Sara provocou, sentando-se no colo dele de forma vulgar, passando as unhas longas pelo pescoço tatuado de Emanuel. — Talvez você devesse focar em quem realmente sabe apreciar o que você dá, sem precisar de chantagem.

Emanuel segurou a nuca de Sara, puxando-a para um beijo bruto que cheirava a álcool e possessividade. Ele precisava de algo real, algo agressivo para aplacar a irritação que Eduarda deixara em seus nervos.

— Você não vai a lugar nenhum, Sara — ele disse contra os lábios dela. — Pelo menos uma de vocês eu vou manter sob rédea curta esta semana.

— Eu não me importo de ser a sua prisioneira, querido — ela sorriu, mordendo o lábio inferior dele. — Contanto que você use as algemas certas.

Enquanto isso, no quarto de hóspedes que Eduarda usava para guardar suas coleções de arte, a jovem estava sentada no chão, cercada por malas de grife. Ela estava radiante, mas seu coração ainda batia de forma irregular. Ela conseguira. Pela primeira vez, ela quebrara o controle de ferro de Emanuel.

Mas, ao começar a dobrar seus vestidos de linho e suas lingeries de renda, um pensamento incômodo surgiu em sua mente. Ela olhou para o celular sobre a cama. Emanuel não havia dito que não mandaria segurança secreta. Ele não havia dito que não hackearia as câmeras do hotel.

Eduarda suspirou, abraçando um de seus travesseiros. Ela sabia que a liberdade que conquistara era um labirinto de vidro. Ela podia ver o mundo lá fora, mas as paredes de Emanuel ainda estavam lá, invisíveis e indestrutíveis. A viagem a Búzios não seria apenas uma diversão; seria um teste de sobrevivência entre a sua necessidade de ser independente e a sua natureza manhosa que clamava pelo domínio do homem que a esperava em casa.

Ela pegou o telefone e mandou uma mensagem para o grupo da faculdade: "Consegui a semana toda! Vejo vocês na segunda!".

Mal a mensagem foi enviada, o celular vibrou com uma notificação do sistema de segurança da mansão. Emanuel acabara de ativar o rastreamento em tempo real do veículo que a levaria.

Eduarda sorriu tristemente, limpando uma última lágrima. A guerra entre eles estava longe de terminar, e ela sabia que, no final daquela semana, o preço da sua rebeldia seria cobrado em juros de submissão que só Emanuel sabia como aplicar. Mas, por enquanto, o cheiro do mar parecia mais forte que o cheiro de tinta de tatuagem, e isso era tudo o que importava.

No andar de baixo, Emanuel observava o ponto azul no mapa do seu tablet. Ele já havia ligado para um contato em Búzios, o dono de um dos clubes mais exclusivos da península.

— Quero um relatório diário — Emanuel disse ao telefone, sua voz fria voltando ao normal. — Fotos, nomes de quem falar com ela, horários. Se ela entrar em um barco, eu quero saber antes da âncora subir.

Ele desligou e olhou para a escada. Eduarda achava que estava indo para o paraíso, mas ela estava apenas entrando em uma extensão do seu domínio. E ele se certificaria de que, ao fim dos sete dias, ela voltaria correndo para os seus braços, implorando pela jaula de ouro que ela tanto dizia odiar. Porque, no mundo de Emanuel, ninguém era verdadeiramente livre — especialmente as mulheres que ele escolhera para amar.