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Noites de Caos e Mal-entendidos Históricos
A noite de Emanuel havia começado com o que ele considerava um luxo raro: silêncio. Após o estresse na boutique de lingerie, ele esperava que as duas se recolhessem aos seus respectivos cantos. Mas, em seu mundo, o silêncio nunca era sinal de paz; era apenas o pavio curto queimando antes da explosão.
Ele estava em seu escritório, revisando os esboços de uma nova série de tatuagens realistas, quando o GPS de segurança em seu celular — um recurso que ele instalara nos aparelhos das namoradas "para a segurança delas", ou assim ele dizia — começou a apitar freneticamente.
— Mas que inferno... — Emanuel murmurou, massageando as têmporas.
O ponto vermelho que representava Sara estava parado em uma zona industrial conhecida por seus clubes de strip-tease de quinta categoria. O ponto de Eduarda, por outro lado, estava se movendo para uma região rural, um lugar onde o asfalto terminava e a dignidade humana costumava ser opcional.
Emanuel pegou a chave de seu SUV, os olhos brilhando com uma mistura de irritação profunda e aquele senso de humor sombrio que só os homens ricos e exaustos possuem.
— Se eu não fosse um homem de negócios, eu diria que isso é uma conspiração para me matar de infarto antes dos trinta — resmungou ele, saindo da garagem com os pneus cantando.
O primeiro destino foi o "Club Inferno", um lugar com luzes de neon piscando e um cheiro de cerveja barata que podia ser sentido a quilômetros. Emanuel entrou no recinto como um furacão de elegância sombria. Sua presença, marcada pelas tatuagens que subiam pelo pescoço e o terno sob medida, fez os seguranças darem um passo atrás.
No centro do palco, um gogo boy besuntado em óleo de bebê fazia movimentos que desafiavam a anatomia humana. E lá estava ela, na primeira fila. Sara.
Ela estava em pé, gritando, enquanto tentava enfiar uma nota de cem dólares no elástico da cueca do dançarino. O batom vermelho estava levemente borrado e ela segurava uma margarita que parecia ter mais tequila do que gelo.
— Vai, bonitão! Mostra o que a administração não me ensinou! — Sara berrava, rindo de forma escandalosa.
Emanuel não disse uma palavra. Ele atravessou a multidão como se estivesse cortando manteiga. Quando chegou ao lado dela, Sara nem percebeu, ocupada demais em dar um tapa na coxa do gogo boy.
— A diversão acabou, Sara — a voz de Emanuel soou como um trovão baixo, cortando a música eletrônica barulhenta.
Sara virou-se, os olhos arregalados, mas logo substituídos por um sorriso desafiador e embriagado.
— Emanuel! Querido! Você veio ver o show? Esse aqui é o... como é seu nome mesmo, gracinha?
— O nome dele é "Problema Seu" se você não sair daqui agora — Emanuel disse, cerrando os dentes.
— Ah, não seja estraga-prazeres! Eu sou uma mulher livre, formada, decidida... — Ela tentou se afastar, mas Emanuel foi mais rápido.
Ele não a machucou, mas sua mão se fechou com firmeza nos fios loiros e impecáveis da nuca de Sara. Não foi um puxão violento, mas foi o suficiente para fazê-la inclinar a cabeça para trás e encontrar o olhar gélido do namorado.
— Ai! Emanuel, meu cabelo! — ela protestou, embora houvesse um brilho de excitação em seus olhos pela dominância dele.
— Para o carro. Agora. Ou eu juro que cancelo todos os seus cartões e deixo você voltar para casa a pé com esses saltos — ele sentenciou, arrastando-a levemente em direção à saída.
— Você é um bruto! Um troglodita! — ela gritava enquanto era escoltada para fora, mas não parava de rir. — Viu só, garotas? É assim que se consegue atenção!
Emanuel a jogou no banco de trás do carro com a delicadeza de quem descarta um saco de batatas de luxo.
— Fique aí. Não abra a boca. Eu ainda tenho que salvar a outra idiota — ele rosnou, batendo a porta.
— A Eduarda? O que aquela santinha fez? Foi rezar em latim numa boate alternativa? — Sara provocou, ajeitando o decote.
Emanuel não respondeu. Ele acelerou, o GPS agora indicando que Eduarda havia parado em um lugar chamado "Estrela do Oriente". O nome soava romântico, mas a localização — entre um lixão e um posto de gasolina abandonado — sugeria algo muito menos poético.
Enquanto isso, a quilômetros dali, Eduarda estava parada na entrada de um estabelecimento de madeira apodrecida, segurando seu caderno de anotações e usando seus óculos de leitura. Ela vestia um vestido de linho bege, discreto e elegante, parecendo uma flor de lótus em um pântano.
— Com licença — disse ela para um homem sem camisa que fumava na porta —, este é o local da palestra sobre "A Estética da Decadência: Os Cabarés do Século XIX como Espaços de Subversão Artística"?
O homem soltou uma lufada de fumaça na cara dela e soltou uma gargalhada rouca.
— É, boneca. Tem muita subversão aqui dentro. Entra aí, a "palestra" já vai começar no pole dance.
Eduarda sorriu, ajustando os óculos.
— Que fascinante! Uma abordagem imersiva. O professor realmente se superou na escolha do realismo sujo.
Ela entrou. O ambiente estava enfumaçado, com cheiro de gordura frita e desinfetante barato. No palco, uma mulher com uma máscara de coelho fazia movimentos cansados enquanto homens de meia-idade batiam palmas descompassadas.
Eduarda sentou-se em um banco de couro rasgado, abriu o caderno e começou a escrever freneticamente.
— "Observação 1: A iluminação precária remete ao expressionismo alemão, evocando a angústia do proletariado..." — sussurrava ela para si mesma.
Uma garçonete com roupas mínimas se aproximou.
— Vai querer o quê, miúda?
— Oh, eu gostaria de um chá de camomila, se possível. Ou talvez um vinho tinto seco para acompanhar a análise iconográfica — Eduarda respondeu com sua voz doce e educada.
A garçonete olhou para ela como se Eduarda fosse um alienígena.
— A gente só tem cachaça e cerveja morna.
— Entendo... uma metáfora para a escassez de recursos da classe operária. Aceito a cerveja, em nome da experiência antropológica — concluiu a estudante, anotando mais algo no caderno.
Foi nesse momento que a porta do "Estrela do Oriente" quase saiu das dobradiças. Emanuel entrou, seguido por uma Sara que ainda tentava retocar o batom enquanto tropeçava nos próprios pés.
Emanuel parou no meio do recinto. A visão de Eduarda, sentada entre um caminhoneiro adormecido e uma mancha de óleo, escrevendo em seu caderno de História da Arte, quase o fez ter um colapso nervoso.
— Eduarda! — o grito dele fez a música de corno que tocava no rádio parar.
Eduarda levantou os olhos, radiante.
— Emanuel! Que surpresa maravilhosa! Você também veio para a aula prática? Veja aquela composição ali no canto — ela apontou para uma briga que começava perto do banheiro —, a disposição dos corpos é puramente barroca! O jogo de luz e sombra...
Emanuel caminhou até ela em três passos largos. Ele fechou o caderno de Eduarda com um estalo seco.
— Duda, pelo amor de tudo o que é sagrado... isso não é uma aula. Isso é um cabaré de beira de estrada.
— Não seja bobo, Emanuel — ela disse, manhosa, fazendo um biquinho —. O e-mail do diretório acadêmico dizia claramente que o endereço era este. "Estética e Carne: Uma Noite na Margem".
— Alguém hackeou o e-mail da sua faculdade para fazer uma piada, sua tonta! — Sara gritou lá de trás, rindo tanto que precisou se apoiar em uma mesa. — Olha só para esse lugar! Até as pulgas têm medo de pegar doença aqui!
Eduarda olhou ao redor. Ela viu a mulher no palco tirar a máscara de coelho e revelar um olhar de puro tédio. Viu o homem ao seu lado tentar passar a mão em sua perna. A ficha finalmente caiu.
— Oh... — os olhos de Eduarda se encheram de lágrimas instantaneamente. — Eu... eu achei que era cultura.
— É cultura de bactérias, no máximo — Emanuel suspirou, sentindo a raiva ser substituída por aquela proteção automática que Eduarda sempre despertava nele.
Ele a pegou pelo braço, mas quando ela tentou protestar sobre seu caderno, ele simplesmente passou a mão por entre os cabelos castanhos dela, segurando-os com firmeza, mas com uma suavidade que contrastava com o modo como tratara Sara.
— Vamos embora. Agora. As duas — ordenou ele.
— Mas meu caderno! — Eduarda choramingou.
— Eu compro um museu para você amanhã, mas se você ficar mais cinco minutos aqui, vai acabar pegando tétano só de respirar — Emanuel disse, arrastando-a para fora enquanto Sara vinha logo atrás, fazendo piadas sobre a "pureza intelectual" da rival.
Do lado de fora, o ar da noite parecia puro perto do que tinham deixado para trás. Emanuel parou diante do carro, olhando para as duas. Sara, a loira siliconada que parecia ter saído de um clipe de funk proibido. Eduarda, a estudante tímida que parecia uma bibliotecária perdida em um filme de terror.
— Eu não consigo deixar vocês sozinhas por duas horas? — perguntou ele, a voz carregada de um humor seco. — Uma vai para um strip-club gastar meu dinheiro com gogo boys e a outra tenta fazer tese de mestrado em um prostíbulo de caminhoneiros?
— Eu queria diversão! — exclamou Sara.
— Eu queria conhecimento! — exclamou Eduarda, limpando uma lágrima.
Emanuel soltou uma risada curta e sombria, encostando-se no carro.
— Vocês são um desastre. Um desastre lindo e caro.
— Você nos ama assim — Sara disse, aproximando-se e passando os braços pelo pescoço dele, ignorando o olhar de reprovação de Eduarda. — Admita, Emanuel. Sua vida seria um tédio sem a minha "vulgaridade" e a "esquizofrenia acadêmica" da Duda.
— Seria uma paz celestial — ele corrigiu, mas não a afastou. — Entrem no carro.
No caminho de volta, o clima era uma mistura bizarra de tensão e comédia. Sara tentava contar quanto o gogo boy "valia" em comparação ao carro de Emanuel, enquanto Eduarda tentava explicar por que a decadência social era um tema recorrente na pintura a óleo.
— Silêncio! — Emanuel comandou, aumentando o som do rádio. — Se eu ouvir mais uma palavra sobre "músculos oleosos" ou "análise iconográfica", eu deixo as duas no próximo posto de gasolina.
As duas se calaram, mas trocaram um olhar de puro ódio pelo retrovisor.
Ao chegarem na mansão, Emanuel estacionou e desligou o motor. Ele permaneceu sentado por um momento, olhando para o volante.
— Amanhã — começou ele, a voz baixa e autoritária — as duas vão ficar em casa. Sara, você vai ler um livro. Qualquer livro que não tenha fotos de homens nus. Eduarda, você vai assistir a um filme de ação. Nada de documentários franceses sobre o nada.
— Isso é castigo? — perguntou Eduarda, abraçando seu caderno recuperado.
— Isso é um experimento — Emanuel respondeu, virando-se para elas com um sorriso de lado que era ao mesmo tempo atraente e perigoso. — E se vocês se comportarem, talvez eu mostre para vocês que a "estética" e a "ação" podem ser muito bem combinadas no meu quarto.
Sara mordeu o lábio, os olhos brilhando. Eduarda corou violentamente, escondendo o rosto atrás do caderno.
Emanuel saiu do carro, sentindo o peso do dia finalmente se dissipar. Ele sabia que, na manhã seguinte, Sara provavelmente acordaria reclamando do café e Eduarda estaria triste por causa de alguma pintura esquecida, e as duas estariam trocando farpas antes das dez da manhã.
Mas, enquanto as via entrar em casa — uma rebolando com confiança e a outra caminhando com uma elegância tímida —, ele percebeu que, por mais que reclamasse, ele era o único homem no mundo capaz de domar aquele caos específico.
— É — murmurou ele para si mesmo, olhando para as estrelas antes de trancar a porta —. Definitivamente, eu preciso de um aumento de salário de mim mesmo.
A noite terminou com o som de uma discussão distante sobre qual filme assistir, mas Emanuel apenas sorriu. Ele era o mestre das tatuagens e o dono de impérios, mas ali, entre a seda e a vulgaridade, ele era apenas um homem tentando manter seu mundo — e suas mulheres — sob um controle que ele, no fundo, adorava perder.