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Pinceladas de Ciúme e a Anatomia do Segredo
A manhã na mansão de Emanuel começou com o habitual contraste de energias. Na cozinha de mármore branco, Sara desfilava com um baby-doll de seda preta que deixava muito pouco para a imaginação, enquanto tomava seu café expressivo e conferia as notificações de seu Instagram. Eduarda, por outro lado, estava sentada à mesa com um cardigan leve sobre os ombros, mexendo distraidamente em uma tigela de iogurte com frutas, os olhos fixos em um cronograma de aulas que parecia deixá-la particularmente ansiosa.
Emanuel entrou na cozinha já vestido para o trabalho — uma camisa polo preta que delineava seus braços tatuados e uma calça jeans escura. Ele exalava aquela aura de autoridade cansada que ambas, de formas diferentes, adoravam.
— Bom dia — disse ele, inclinando-se para dar um beijo rápido no topo da cabeça de Eduarda e, em seguida, permitindo que Sara o puxasse pelo colarinho para um beijo muito mais demorado e úmido.
— Bom dia, meu tatuador favorito — Sara ronronou, passando a unha pintada de vermelho pelo queixo dele. — Dormiu bem? Ou ficou pensando naquelas peças de renda que compramos ontem?
— Dormi o suficiente para saber que o dia hoje vai ser longo — Emanuel respondeu, desvencilhando-se gentilmente para pegar uma caneca de café. Ele olhou para Eduarda, que permanecia em silêncio. — E você, Duda? Está muito quieta. Algum problema com a faculdade?
Eduarda deu um sobressalto, fechando o caderno de anotações com uma rapidez suspeita.
— Não! Não é nada, Emanuel. Só uma aula nova hoje... História da Arte Moderna. É um pouco complexo.
— "Complexo" é o nome que ela dá para "chato" — Sara interrompeu, revirando os olhos. — Por que você não faz algo útil, tipo administração? Pelo menos você aprende a gerir o dinheiro que o Emanuel gasta com você.
— Eu gosto do que faço, Sara — Eduarda respondeu com a voz mansa, mas firme. — E hoje é uma aula prática importante. Preciso ir logo para não perder o lugar na frente.
Emanuel arqueou uma sobrancelha. Ele conhecia Eduarda o suficiente para saber quando ela estava omitindo algo. Havia um brilho de nervosismo em seus olhos que não condizia com uma simples aula teórica.
— Quer que eu te leve? — ele ofereceu.
— Não precisa! O ônibus da universidade passa aqui perto, eu... eu quero ir lendo — ela disse, levantando-se apressadamente e pegando sua bolsa de lona. — Tchau, Emanuel. Tchau, Sara.
Assim que a porta da frente se fechou, Sara soltou uma risadinha maliciosa.
— Ela está escondendo alguma coisa, você sabe, não sabe? Aquela carinha de santa não me engana.
— Ela só é reservada, Sara — Emanuel disse, embora a dúvida tivesse sido plantada. — Nem todo mundo precisa anunciar cada passo que dá como se fosse um evento de gala.
— Veremos, querido. Veremos.
Horas depois, no ateliê da faculdade de História da Arte, o ambiente era impregnado pelo cheiro de tinta a óleo e terebentina. Eduarda estava posicionada diante de seu cavalete, as mãos levemente trêmulas enquanto segurava o pincel. No centro da sala, sobre um tablado circular, estava o "objeto" de estudo: um modelo vivo chamado Ricardo.
Ricardo era um homem de cerca de trinta anos, com um corpo atlético e uma pele bronzeada que parecia brilhar sob as luzes do estúdio. Ele estava completamente nu, em uma pose clássica de contrapposto, exibindo cada músculo definido e cada curva anatômica que os alunos deveriam transpor para a tela.
— Lembrem-se — disse o professor, caminhando entre os alunos —, o objetivo não é o erotismo, mas a compreensão da forma humana. Observem a tensão nos tendões, a sombra projetada pelo quadril.
Eduarda respirou fundo. Na aula anterior, ela mal conseguira olhar para Ricardo sem corar violentamente. Hoje, ela precisava terminar o esboço e começar a aplicação das cores carnais. Ela mergulhou o pincel na paleta, tentando se concentrar apenas na técnica, mas era difícil ignorar que estava passando horas observando a nudez de um estranho enquanto, em casa, Emanuel era o único homem que ela permitia que a tocasse.
Enquanto isso, no centro da cidade, Emanuel terminava uma sessão de tatuagem em um cliente VIP. Ele estava limpando suas máquinas quando o celular vibrou. Era uma mensagem de Sara.
"A princesinha esqueceu o caderno de esboços no banco do jardim. Eu dei uma olhada... Acho que você vai adorar a 'arte moderna' que ela está estudando. Vem pra casa almoçar?"
Emanuel sentiu uma pontada de irritação, mas a curiosidade foi maior. Ele deixou seu assistente cuidando do estúdio e dirigiu até a mansão. Quando chegou, encontrou Sara sentada na varanda, com um sorriso de vitória e o caderno de Eduarda aberto sobre o colo.
— Olha só isso, Emanuel — disse ela, apontando para uma página onde desenhos detalhados de anatomia masculina preenchiam o papel. — Pernas, braços, peitorais... e olha esse aqui. É um esboço completo. De frente.
Emanuel pegou o caderno. Seus olhos percorreram os traços finos de Eduarda. Eram desenhos técnicos, sim, mas havia uma precisão neles que o incomodou profundamente. Ele reconheceu a estrutura de um corpo que não era o dele.
— Ela tem aula de modelo vivo hoje — Emanuel murmurou, a voz ficando mais grave.
— Modelo vivo? — Sara gargalhou. — O nome disso na minha terra é outra coisa. Ela passa a tarde olhando para um cara pelado e depois volta para casa fazendo manha para você? Que fofa ela é, não?
Emanuel fechou o caderno com força. O ciúme, um sentimento que ele raramente se permitia sentir de forma tão bruta, subiu por sua garganta. Ele era um artista, ele entendia a necessidade do estudo da anatomia, mas a ideia de Eduarda — sua Eduarda, tão tímida e recatada — passando horas analisando a nudez de outro homem sem ter dito uma palavra a ele, parecia uma traição à confiança que eles tinham.
— Onde é a faculdade dela exatamente? — ele perguntou.
— Ah, eu sabia que você ia querer ver a 'exposição' de perto — Sara levantou-se, vitoriosa. — Eu vou com você. Quero ver se o modelo é tão bom quanto o desenho.
O SUV de Emanuel estacionou de forma brusca em frente ao prédio de artes. Ele desceu do carro com passos pesados, ignorando os olhares dos estudantes. Sara vinha logo atrás, balançando os quadris em um vestido justo de oncinha, atraindo assobios que ela respondia com beijos soprados.
Emanuel não precisou perguntar onde era a sala; o cheiro de tinta o guiou. Ele abriu a porta dupla do ateliê sem bater.
O silêncio da sala foi quebrado pelo som dos passos de Emanuel no chão de madeira. Eduarda, que estava concentrada em misturar um tom de ocre para a coxa do modelo, virou-se bruscamente. O pincel caiu de sua mão, manchando seu avental.
— Emanuel? — ela sussurrou, o rosto perdendo toda a cor.
O olhar de Emanuel não foi para ela primeiro, mas para o homem nu no centro da sala. Ricardo, o modelo, manteve a pose profissional, mas seus olhos vacilaram diante da presença intimidadora do homem tatuado que parecia pronto para quebrar o cavalete ao meio.
— Então é aqui que você passa as suas tardes, Eduarda? — a voz de Emanuel ecoou, fria e cortante.
Sara entrou logo em seguida, parando ao lado de Emanuel e assobiando baixo enquanto olhava para Ricardo de cima a baixo.
— Nossa, Duda! Agora eu entendo por que você gosta tanto de História da Arte. O material didático é... impressionante.
— Não é o que vocês estão pensando! — Eduarda disse, aproximando-se de Emanuel com as mãos sujas de tinta estendidas, mas parando antes de tocá-lo. — É uma aula! Todos estão fazendo!
Emanuel caminhou até o cavalete de Eduarda. Ele olhou para a tela. O desenho estava excelente. Ela havia capturado a luz incidindo sobre o abdômen do modelo com uma sensibilidade que, para Emanuel, parecia íntima demais.
— Por que você não me contou? — ele perguntou, voltando os olhos para ela. O brilho de mágoa em seus olhos cinzentos era visível.
— Eu... eu tive medo — Eduarda baixou a cabeça, os ombros subindo enquanto ela começava a soluçar silenciosamente. — Eu sabia que você ficaria bravo. E a Sara ia fazer piada... eu só queria ser uma boa aluna.
— Uma boa aluna ou uma admiradora de talentos ocultos? — Sara provocou, caminhando ao redor do modelo vivo como se estivesse avaliando uma mercadoria. — Diz aí, bonitão, a princesinha aqui te deu alguma "nota" especial?
— Sara, cala a boca! — Emanuel rugiu.
Ele se voltou para o professor, que tentava intervir.
— Essa aula acabou para ela hoje.
— Senhor, você não pode simplesmente... — o professor começou.
— Eu posso e eu vou — Emanuel disse, pegando o braço de Eduarda com firmeza. — Vamos para casa. Agora.
— E o modelo? — Sara perguntou, lançando um olhar de despedida para Ricardo. — Ele não vem junto?
Emanuel lançou um olhar tão gélido para Sara que ela finalmente decidiu que era melhor ficar quieta.
O trajeto de volta foi um inferno de silêncio. Eduarda chorava baixinho no banco de trás, enquanto Sara retocava as unhas no banco do passageiro, visivelmente satisfeita por ter causado o caos. Emanuel dirigia com as mãos apertando o volante com tanta força que o couro rangia.
Ao chegarem na mansão, Emanuel arrastou Eduarda para o escritório, deixando Sara do lado de fora.
— Emanuel, por favor... — Eduarda implorou, as lágrimas escorrendo pelo rosto doce. — É apenas arte! Você também desenha corpos! Você tatua pessoas!
— Eu tatuo pessoas porque é o meu trabalho, Eduarda! E eu nunca escondi de você quem entra ou sai do meu estúdio — ele disse, batendo a porta e encostando-se nela. — Mas você me mentiu. Você me disse que ia ter aula de teoria. Você me deixou acreditar que estava lendo livros, enquanto estava lá, olhando para aquele cara... analisando cada detalhe dele.
— Eu não estava olhando para ele como um homem! — ela gritou, uma rara explosão de temperamento. — Eu estava olhando para ele como luz, sombra e proporção! Você é tão seguro de si, Emanuel, por que isso te atinge tanto?
Emanuel deu um passo à frente, encurtando a distância entre eles. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, seus polegares limpando as lágrimas, mas seu aperto era possessivo.
— Porque eu conheço o jeito que você olha para o que ama, Eduarda. Você olha com uma intensidade que me desarma. E a ideia de você dar esse olhar para qualquer outra coisa, mesmo que seja para uma "proporção", me deixa louco.
Eduarda amoleceu sob o toque dele, sua natureza manhosa vindo à tona. Ela se inclinou contra o peito dele, escondendo o rosto em sua camisa.
— Eu só olho para você desse jeito, Emanuel. O resto é só tinta e papel. Eu juro.
A porta do escritório se abriu de repente. Sara estava lá, segurando duas taças de vinho, com uma expressão de tédio.
— Ah, que lindo. O drama mexicano acabou? Porque eu estou com fome e a discussão de vocês está atrasando o almoço. E honestamente, Emanuel, se você está tão incomodado com o modelo da faculdade, por que não se oferece para ser o modelo dela?
Emanuel e Eduarda olharam para Sara. Pela primeira vez em muito tempo, ela havia dito algo que fazia sentido lógico.
Emanuel olhou para Eduarda, um brilho perigoso surgindo em seus olhos.
— Você quer pintar um corpo, Duda?
Eduarda piscou, confusa.
— Sim... eu preciso terminar o semestre.
— Então você vai pintar o meu — ele sentenciou. — No nosso quarto. Sem professores, sem outros alunos e, definitivamente, sem aquele sujeito de hoje.
Sara soltou uma gargalhada, bebendo um gole generoso de vinho.
— E eu? Eu fico com a parte de fiscalizar a "anatomia" para garantir que a Duda não perca nenhum detalhe. Afinal, eu sou formada em administração, sou ótima em controle de qualidade.
Emanuel suspirou, a tensão começando a se transformar em algo mais quente e familiar.
— Sara, você vai ficar longe enquanto ela trabalha. Ou eu vou garantir que você tenha suas próprias "atividades" para ocupar o tempo.
— Ui, que medo! — Sara provocou, mas se aproximou de Eduarda e deu um tapinha amigável no ombro da moça. — Viu só, santinha? No fim, eu te ajudei a conseguir um modelo muito melhor. Mas se eu pegar você pintando um detalhe maior do que é na realidade, eu conto pra todo mundo.
Eduarda não sabia se ria ou se chorava, mas sentiu o alívio percorrer seu corpo. Ela olhou para Emanuel, que ainda a observava com aquela possessividade latente.
— Você faria mesmo isso? — ela perguntou. — Ficaria parado para eu te pintar?
— Eu faria qualquer coisa para garantir que seus olhos não precisem procurar beleza em mais ninguém — ele sussurrou, beijando-lhe a testa.
Naquela tarde, o quarto principal da mansão foi transformado em um estúdio improvisado. Emanuel, despido de suas roupas e de sua armadura de homem de negócios, posicionou-se diante da janela, a luz do sol poente destacando cada uma de suas tatuagens, que contavam histórias de sua própria vida.
Eduarda estava sentada diante do cavalete, mas desta vez suas mãos não tremiam. Ela olhava para Emanuel com a adoração que ele tanto exigia, traçando no papel não apenas músculos, mas o homem que ela amava.
Sara, é claro, não cumpriu a promessa de ficar longe. Ela estava deitada na cama de dossel, observando a cena com um sorriso cínico, comentando ocasionalmente sobre como a "luz" favorecia certas partes do corpo de Emanuel.
— Mais para a esquerda, Emanuel! — Sara gritava. — Deixa a luz bater no tríceps, a Duda é lenta, ela precisa de contraste!
— Sara, se você não ficar quieta, eu vou te expulsar daqui agora — Emanuel avisou, sem se mover.
— Tente me tirar daqui e eu estrago a pintura da sua protegida — ela desafiou, piscando para Eduarda.
Eduarda sorriu para a tela. Entre os ciúmes explosivos de Emanuel e as provocações constantes de Sara, ela percebeu que aquele era o seu mundo. Um mundo caótico, vulgar, sensível e profundo, onde a arte e a possessividade caminhavam de mãos dadas, e onde ela, com seus pincéis e sua doçura, era o único fio que mantinha tudo unido.
— Está ficando perfeito — Eduarda sussurrou, capturando o olhar de Emanuel na tela.
— É claro que está — disse Emanuel, olhando fixamente para ela. — Você finalmente tem o modelo certo.