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Instinto de Caça sob o Luar de Prata
A casa de campo, uma estrutura imponente de madeira escura e vidro encravada nos arredores de uma floresta densa e úmida, parecia o cenário perfeito para o isolamento que Emanuel buscava. No entanto, o isolamento era um conceito abstrato quando se viajava com amigos e, principalmente, com Sara e Eduarda. O ar da montanha era frio, carregado com o aroma de pinheiros e terra molhada, mas dentro da mansão, a temperatura era ditada pela tensão constante entre as duas mulheres.
Emanuel estava encostado na varanda, observando a névoa que começava a descer sobre as árvores. Aos vinte e cinco anos, ele já possuía a postura de um homem que havia visto e conquistado o mundo, mas seus olhos, escuros e cansados, refletiam o peso de gerenciar egos tão colossais quanto os seus lucros. Ele vestia um suéter de lã cinza e calças escuras, uma simplicidade que contrastava com a opulência do relógio de luxo em seu pulso.
— Você está com aquela cara de quem queria estar tatuando um braço inteiro em vez de estar aqui — a voz de Sara surgiu vinda de dentro, acompanhada pelo estalar de seus saltos altos contra o piso de madeira.
Ela saiu para a varanda, segurando uma taça de gim. Sara não se vestia para o campo; ela se vestia para ser o centro das atenções. Usava um conjunto de seda preta que mal escondia o contorno de seus seios siliconados, e seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e impecável.
— Estou tentando aproveitar o silêncio, Sara — disse Emanuel, sem desviar o olhar da floresta. — Algo que você raramente permite.
— O silêncio é superestimado, Emanuel. E aquela ali — ela apontou com o queixo para o interior da sala, onde Eduarda conversava baixinho com a esposa de um dos sócios de Emanuel — só usa o silêncio para parecer uma santa. Ela está lá dentro, com aquela carinha de quem não quebra um prato, mas aposto que está planejando como te tirar de perto de mim o resto da noite.
Emanuel suspirou, sentindo a irritação familiar subir pela nuca.
— Ela não está planejando nada. Eduarda só quer se sentir segura.
— Ela quer ser o seu bichinho de estimação — Sara deu um gole na bebida, os olhos brilhando com malícia. — E você adora o papel de dono. É patético ver um homem como você, que comanda estúdios em Londres e Tóquio, derreter porque uma menina de vinte anos usa laços no cabelo.
Antes que Emanuel pudesse responder, a porta de vidro se abriu novamente. Eduarda apareceu, e o contraste foi imediato. Ela parecia ter saído de um editorial de moda *coquette* campestre. Vestia sua saia jeans curtíssima, que exibia as pernas pálidas e macias, e a bata branca de babados que Emanuel tanto gostava, mas agora com um cardigã de tricô rosa claro por cima. Seus cabelos castanhos estavam presos em duas tranças frouxas, e ela segurava uma pequena cesta de vime que havia encontrado na cozinha.
— Manu... — ela chamou, a voz manhosa, ignorando a presença de Sara como se ela fosse apenas parte da mobília. — O pessoal está começando a abrir os vinhos, mas eu não quero ficar lá dentro. Está muito barulhento.
— Viu só? — Sara murmurou, irônica. — A donzela precisa de resgate.
Eduarda aproximou-se de Emanuel, deslizando as mãos pequenas pelo braço dele até alcançar sua mão, entrelaçando seus dedos. Ela olhou para a floresta, o rosto iluminado pela luz fraca do entardecer.
— Emanuel, você lembra daquela história que meu avô contava? Sobre o lobo e o coelhinho? — Ela deu um sorriso tímido, mas seus olhos brilharam com uma centelha de travessura que ele raramente via.
— Lembro, Duda. Por que? — perguntou ele, sentindo o aperto da mão dela.
— Eu vou ser o coelhinho — ela sussurrou, aproximando-se do ouvido dele, o perfume de baunilha nublando os sentidos do homem. — Ou talvez a Chapeuzinho Vermelho. E você é o lobo. Se você me encontrar na floresta antes da lua subir totalmente... eu sou toda sua. Sem a Sara. Sem os seus amigos. Só nós.
Emanuel sentiu um solavanco no peito. O tom dela era doce, mas o desafio era puramente instintivo.
— Eduarda, está escurecendo. A floresta é perigosa — advertiu ele, embora sua voz tivesse baixado uma oitava, tornando-se mais rouca.
— Então é melhor você ser um lobo bem rápido, Manu — ela soltou a mão dele e, com uma agilidade que ele não esperava, saltou os degraus da varanda e correu em direção à linha das árvores.
— Mas o que é isso? — Sara exclamou, chocada. — Ela enlouqueceu? Emanuel, você não vai atrás dessa idiota, vai? É uma armadilha infantil!
Emanuel não respondeu. Ele observou a bata branca de Eduarda desaparecer entre os troncos grossos dos pinheiros. Algo dentro dele, algo que ele passava a maior parte do tempo sufocando sob ternos caros e planilhas de negócios, despertou. Era um instinto primitivo, uma necessidade de possessão que ia além do racional. Ele era um homem prático, mas também era um artista que lidava com a dor e a marcação de território na pele das pessoas.
— Fique aqui, Sara — disse Emanuel, sua voz agora fria e absoluta.
— Você está brincando! Vai mesmo entrar no mato atrás daquela garotinha? — Sara estava vermelha de raiva, a vulgaridade transparecendo em seus gestos bruscos. — Ela está te fazendo de palhaço!
Emanuel virou-se para ela, e a intensidade em seu olhar fez Sara dar um passo atrás.
— Eu disse para ficar aqui.
Sem olhar para trás, ele desceu os degraus. O ar frio atingiu seu rosto, mas ele mal sentiu. Seus sentidos estavam aguçados. Ele conhecia o terreno; havia estudado o mapa da propriedade antes de chegarem. Eduarda achava que era uma brincadeira, um jogo de sedução inocente para tirar sua atenção de Sara, mas ela não entendia o que estava provocando.
Ele entrou na floresta. O som de seus passos sobre as folhas secas era o único ruído além do vento uivando suavemente entre os galhos.
— Duda? — ele chamou, a voz baixa, quase um rosnado.
Nenhuma resposta. Apenas o som de um galho quebrando à sua direita.
Ele começou a andar mais rápido. A cada metro que avançava, a civilização parecia ficar mais distante. O cheiro da floresta, a penumbra crescente e a ideia de Eduarda — vulnerável, pequena, vestida naquelas roupas delicadas — perdida em algum lugar ali, faziam seu sangue ferver. Ele não estava mais irritado com a briga das duas; ele estava focado na caçada.
Lá adiante, ele viu um lampejo branco. A bata dela.
— Eu te vi — ele murmurou para si mesmo.
Eduarda estava escondida atrás de um carvalho antigo. Ela espiou, vendo a silhueta alta e poderosa de Emanuel se aproximando. O coração dela batia forte contra as costelas. Ela queria apenas um momento a sós, queria que ele a desejasse com a mesma intensidade que ele dedicava ao trabalho ou à paciência que gastava com Sara. Mas quando viu a expressão no rosto dele através das sombras — os olhos fixos, a mandíbula travada — ela sentiu um frio na espinha que não era de medo, mas de uma antecipação avassaladora.
Ela correu novamente, rindo baixinho, o som ecoando de forma etérea entre as árvores.
— Não vale, Manu! Você está muito perto!
— Você não sabe onde se meteu, Eduarda — a voz dele veio de algum lugar atrás dela, soando muito mais próxima do que deveria.
Ela tropeçou em uma raiz saliente e soltou um grito curto, caindo sobre o tapete de musgo macio. Antes que pudesse se levantar, sentiu uma presença dominadora sobre ela. Emanuel a alcançou.
Ele pairava acima dela, as mãos apoiadas nos troncos de duas árvores baixas, encurralando-a no chão. A luz da lua, agora começando a filtrar-se entre as copas, iluminava o rosto dele, revelando uma ferocidade que Eduarda nunca tinha visto.
— Te peguei — disse ele, a respiração pesada.
Eduarda olhou para cima, o peito subindo e descendo rapidamente sob os babados da bata branca. Sua saia jeans havia subido com a queda, revelando a curva de seus quadris e a pele macia de suas coxas. Ela tentou manter o tom de brincadeira, embora sua voz estivesse trêmula.
— O lobo foi rápido...
Emanuel ajoelhou-se entre as pernas dela, as mãos descendo para segurar os pulsos de Eduarda contra o musgo. O contato era firme, quase rude, mas carregado de uma eletricidade que fazia o corpo dela vibrar.
— Você acha que isso é um jogo, não é? — Emanuel perguntou, inclinando o rosto até que seus lábios estivessem a milímetros dos dela. — Você corre para a floresta, se veste como uma boneca e espera que eu venha atrás de você com flores e poesias?
— Manu... você está me apertando — ela sussurrou, a manha voltando, mas seus olhos estavam dilatados de desejo.
— Eu estou farto, Eduarda — ele rugiu baixinho, a frustração acumulada de dias de brigas entre ela e Sara explodindo em uma necessidade física. — Farto de ser puxado de um lado para o outro. Se você quer brincar de caça, precisa entender que o lobo não pede licença quando encontra a presa.
Ele soltou os pulsos dela apenas para segurar seu rosto com as duas mãos, forçando-a a encarar a escuridão em suas pupilas.
— Você é minha. Entendeu? Não importa o que a Sara diga, não importa o quanto ela grite. Mas você não vai mais fugir de mim para chamar atenção. Se você quer minha atenção, você a tem. Toda ela. Agora.
Eduarda sentiu um calor intenso inundar seu ventre. A timidez que ela usava como escudo derreteu sob a força de Emanuel. Ela envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para mais perto, sentindo a textura áspera de seu suéter contra sua pele sensível.
— Então me leva, Manu... — ela murmurou, os lábios roçando os dele. — Me leva para longe delas.
Emanuel a beijou com uma fome voraz, um beijo que não tinha nada de romântico ou gentil. Era um beijo de posse, de um homem que havia recuperado o controle de seu território. Suas mãos desceram pela bata de Eduarda, sentindo a maciez de seu corpo, enquanto o silêncio da floresta os envolvia como um manto.
Enquanto isso, na casa de campo, Sara andava de um lado para o outro na varanda, a taça de gim agora vazia. Ela olhava para a escuridão da floresta com uma mistura de ódio e inveja. Ela sabia que, naquele momento, Eduarda havia vencido. Não pela inteligência ou pela força, mas pela capacidade de despertar em Emanuel algo que Sara, com toda sua vulgaridade e agressividade, nunca conseguiu tocar totalmente: a necessidade de proteger e possuir o que é delicado.
Minutos — ou talvez horas — depois, Emanuel emergiu da trilha. Ele carregava Eduarda no colo. Ela estava com o rosto escondido em seu pescoço, a cesta de vime esquecida em algum lugar entre os pinheiros. Suas roupas estavam levemente desalinhadas, e havia fragmentos de folhas em seus cabelos, mas a expressão em seu rosto era de uma serenidade vitoriosa.
Emanuel caminhou em direção à casa, passando por Sara sem sequer olhá-la.
— Onde vocês estavam? — Sara gritou, a voz estridente quebrando a paz da noite. — Vocês têm ideia de como isso foi ridículo?
Emanuel parou na porta, virando apenas o rosto o suficiente para que Sara visse o brilho frio em seus olhos.
— Vá para dentro, Sara. E não diga mais uma palavra sobre a Eduarda hoje. Ou eu mesmo garanto que você pegue o primeiro voo de volta amanhã de manhã.
Sara engoliu em seco, o insulto morrendo em sua garganta. Ela viu a mão de Emanuel apertar a coxa de Eduarda com uma firmeza possessiva, e percebeu, com um amargor na boca, que a "garotinha" tinha garras muito mais profundas do que ela imaginava.
Emanuel entrou na casa, subindo as escadas em direção ao quarto principal. Ele não se importava com os amigos na sala ou com o escândalo que Sara poderia fazer depois. Naquela noite, sob o teto de madeira e o cheiro de floresta que ainda impregnava suas peles, o lobo havia reivindicado o que era seu. E Eduarda, aninhada em seus braços, sorriu contra a pele dele, sabendo que, entre a seda e o ferro, ela havia encontrado a forma perfeita de domar o homem que todos temiam, mas que apenas ela sabia como fazer ajoelhar.