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O Labirinto de Vidro e a Fúria do Escarlate

A manhã na casa de campo nasceu envolta em uma névoa densa, mas o clima dentro da residência era ainda mais pesado. Emanuel estava na cozinha, o som da cafeteira italiana sendo o único ruído rítmico naquele ambiente de luxo rústico. Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza, exibindo as tatuagens complexas que cobriam seus ombros e desciam pelos braços, contando histórias de dor e triunfo em tinta preta.

Eduarda desceu as escadas lentamente, parecendo uma visão saída de um sonho romântico. Ela usava um vestido de seda leve, num tom de azul-celeste tão pálido que quase parecia branco. O decote era quadrado, adornado com pequenas rendas feitas à mão, e as mangas bufantes caíam delicadamente sobre seus braços finos. O comprimento ia até o meio das coxas, revelando suas pernas impecáveis. Ela parecia radiante, com as bochechas ainda levemente coradas pelos eventos da noite anterior na floresta.

— Bom dia, Manu — murmurou ela, aproximando-se dele com aquele jeito manhoso que sempre desarmava as defesas do homem.

Emanuel deixou um meio sorriso escapar enquanto servia o café. Ele a puxou pela cintura, sentindo a textura macia da seda sob seus dedos calejados.

— Bom dia, pequena. Dormiu bem? — Ele depositou um beijo no topo da cabeça dela, ignorando por um segundo o mundo exterior.

— Como um anjo — ela respondeu, aninhando-se no peito dele.

A paz, entretanto, durou pouco. O som estridente de saltos agulha contra a madeira anunciou a chegada de Sara. Ela entrou na cozinha como um furacão, vestindo um robe de cetim vermelho curto demais, que deixava muito pouco à imaginação, e carregando uma expressão de puro veneno.

— Que cena patética — disparou Sara, indo direto para a bancada e pegando uma xícara com força excessiva. — O grande Emanuel, o rei das tatuagens, reduzido a um poste de carinho para essa boneca de pano.

Emanuel sentiu a tensão subir instantaneamente. Ele soltou Eduarda, mas manteve uma mão protetora em seu ombro.

— Sara, não comece. O café está pronto, beba e se acalme.

— Me acalmar? — Sara riu, uma risada seca e carregada de escárnio. — Eu passei a noite ouvindo o silêncio daquela floresta enquanto você brincava de caçador com essa sonsa. Você acha que eu não percebi a palhaçada? "Ai, Manu, me caça na floresta" — debochou ela, imitando a voz de Eduarda de forma grosseira.

Eduarda encolheu os ombros, os olhos grandes se enchendo de uma umidade súbita.

— Foi só uma brincadeira, Sara... — disse a jovem, a voz falhando.

— Uma brincadeira que você usou para prendê-lo lá fora por horas! — Sara deu um passo à frente, a vulgaridade de seus gestos contrastando com a elegância contida de Eduarda. — Pois bem, Emanuel. Se é de jogos que você gosta, agora é a minha vez.

Ela jogou o cabelo loiro para trás e olhou para Emanuel com um desafio ardente, as mãos nos quadris, enfatizando suas curvas trabalhadas.

— Eu vou sair agora. Vou entrar naquela floresta e vou me esconder. E eu exijo que você venha me buscar. Eu quero a minha vez de ser caçada. Quero ver se você tem o mesmo fôlego para uma mulher de verdade, e não para uma criança que se veste como se estivesse indo para um batizado.

Emanuel deixou a xícara de café sobre a mesa com um baque surdo. Ele encarou Sara com uma frieza que teria feito qualquer outra pessoa recuar.

— Não.

Sara piscou, pega de surpresa pela resposta curta e grossa.

— Como assim, não?

— Essa brincadeira não daria certo com você, Sara — disse Emanuel, cruzando os braços sobre o peito largo. — O que aconteceu ontem com a Eduarda foi orgânico. Foi sobre a natureza dela, sobre o jeito que ela se integra ao ambiente. Com você, seria apenas um espetáculo forçado.

— Você está dizendo que eu não sou interessante o suficiente para ser caçada? — A voz de Sara subiu uma oitava, a fúria começando a transbordar.

— Estou dizendo que você não sabe ser caça — Emanuel explicou, sua voz mantendo um tom racional e cortante. — Você é predadora por natureza, Sara. Você entra em um lugar querendo dominar, querendo ser vista, querendo gritar sua presença. A caçada exige silêncio, exige entrega, exige que o outro queira ser encontrado. Você só quer competir. E eu não vou entrar na floresta para participar de uma competição de ego.

Sara sentiu o sangue subir ao rosto. O insulto de Emanuel atingiu o ponto exato de sua insegurança, aquela que ela escondia atrás de camadas de silicone e roupas de grife.

— Você está me chamando de vulgar? De óbvia? — Ela caminhou até ele, apontando o dedo para o peito tatuado do homem. — Eu sou a mulher que esteve ao seu lado nos eventos de gala, a mulher que sabe administrar uma conversa com seus sócios, enquanto essa aí mal consegue pedir um prato em um restaurante sem gaguejar!

— E é por isso que você é ótima em um escritório ou em um evento — rebateu Emanuel, os olhos semicerrados —, mas é péssima em um jogo de sedução que exige vulnerabilidade. A Eduarda tem uma doçura que você nunca vai entender, porque você está ocupada demais tentando ser a dona da situação.

Eduarda, que assistia a tudo em silêncio, sentiu uma mistura de triunfo e medo. Ela odiava conflitos, mas ouvir Emanuel defendê-la daquela forma, reconhecendo sua essência, era como um bálsamo.

— Manu, por favor... não briguem — pediu Eduarda, tocando o braço dele.

— Não se meta, sua idiota! — gritou Sara, virando-se para a garota. — Você acha que ganhou, não é? Acha que esse vestidinho de virgem e esse olhar de coitadinha vão mantê-lo interessado para sempre? Homens como o Emanuel cansam de açúcar, Eduarda. Eles precisam de sal, precisam de fogo!

— Mas o seu fogo só queima, Sara — disse Emanuel, intervindo com autoridade. — Ele não aquece. Agora, chega disso. Eu não vou caçar você, não vou alimentar esse seu surto de ciúmes. Se você quer ir para a floresta, vá. Mas não espere que eu vá atrás.

Sara ficou estática por um momento, a respiração ofegante fazendo seus seios subirem e descerem rapidamente sob o cetim. A humilhação de ser rejeitada na frente de sua maior rival era insuportável.

— Você vai se arrepender disso, Emanuel — sibilou ela, as lágrimas de raiva finalmente começando a borratar sua maquiagem impecável. — Você prefere essa... essa água morna? Pois fique com ela. Mas não venha me procurar quando sentir falta de uma mulher que realmente saiba o que fazer com você entre quatro paredes.

— Eu nunca precisei ir te procurar, Sara — disse Emanuel, voltando-se para o café, dando as costas para ela em um gesto final de desdém. — Você sempre esteve lá, disponível e barulhenta. Talvez esse seja o seu problema.

Sara soltou um grito abafado de frustração e saiu correndo da cozinha, o som de seus passos subindo as escadas ecoando como tiros pela casa. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado com o resíduo da tempestade que acabara de passar.

Emanuel suspirou profundamente, passando a mão pelo rosto, o cansaço visível em seus traços. Eduarda se aproximou por trás dele, envolvendo sua cintura com os braços, colando o rosto em suas costas largas.

— Desculpa, Manu. Eu não queria causar isso — sussurrou ela, a voz carregada de uma culpa genuína.

Emanuel virou-se no círculo dos braços dela e a ergueu, sentando-a no balcão de mármore da cozinha. Ele se posicionou entre as pernas dela, as mãos repousando sobre as coxas cobertas pela seda azul do vestido.

— Você não causou nada, Duda — disse ele, olhando-a nos olhos. — A Sara é assim. Ela não suporta não ser o centro do universo. Mas eu fui sincero... eu não conseguiria caçá-la. Não há mistério nela.

Ele deslizou as mãos para cima, sentindo a delicadeza do corpo de Eduarda.

— Você, por outro lado... — ele continuou, a voz tornando-se mais baixa e rouca — ...você é um labirinto. Às vezes eu acho que te conheço, e aí você faz algo como ontem. Você me desafia sem dizer uma palavra.

Eduarda sorriu, aquele sorriso tímido que sempre o enlouquecia, e passou os dedos pelos cabelos curtos dele.

— Eu só queria que você me visse de verdade. Sem as câmeras, sem os estúdios, sem ela.

— Eu vejo você, pequena. Mais do que você imagina — Emanuel inclinou-se e a beijou, um beijo lento que carregava todo o estresse que ele estava tentando dissipar.

Lá em cima, o som de uma porta batendo com força e o barulho de objetos sendo jogados contra a parede indicavam que Sara ainda estava em seu ápice de fúria. Mas ali, na cozinha iluminada pelo sol da manhã, Emanuel e Eduarda estavam em seu próprio mundo.

— O que vamos fazer com ela? — perguntou Eduarda, após o beijo, referindo-se à Sara.

Emanuel olhou para a escada e depois de volta para a menina em seu colo.

— Por enquanto, nada. Deixe que ela queime o próprio oxigênio com esse ódio. Nós vamos sair.

— Sair? Para onde?

— Para longe daqui. Tem uma cachoeira a alguns quilômetros. Só eu e você. Sem jogos de caça, apenas paz.

Eduarda brilhou, os olhos faiscando de alegria.

— Eu vou trocar de roupa!

— Não — disse ele, segurando-a pela cintura quando ela tentou descer do balcão. — Vá exatamente assim. Esse vestido... ele faz você parecer algo que eu preciso proteger e, ao mesmo tempo, algo que eu quero desvendar centímetro por centímetro.

Eduarda corou intensamente, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Você é mau, Emanuel.

— Eu sou prático, Duda. E agora, minha praticidade me diz que eu preciso tirar você desta casa antes que a Sara decida atear fogo em tudo.

Enquanto Emanuel a ajudava a descer do balcão e a guiava para a porta dos fundos, ele sabia que a trégua era temporária. Sara não aceitaria a derrota tão facilmente. Ela era administrativa, estratégica e movida a vingança. Mas, por aquele momento, ele escolheu a suavidade. Ele escolheu o azul-celeste em vez do vermelho-sangue.

Eles caminharam em direção ao jipe estacionado sob as árvores, deixando para trás a mansão e a fúria loira que nela habitava. Emanuel ligou o motor, sentindo o peso do mundo diminuir conforme se afastava. Ele era o mestre de seus estúdios, o dono de um império de arte na pele, mas ali, com Eduarda ao seu lado, ele era apenas um homem tentando encontrar o equilíbrio entre a paz que desejava e o caos que o alimentava.

E no espelho retrovisor, ele viu a cortina do quarto de Sara se fechar bruscamente. A guerra estava longe de terminar, mas aquela batalha, a batalha pelo seu desejo e pela sua atenção, havia sido vencida pela timidez armada de seda e manha.