Voltar ao resumo

d

A Dança Proibida da Seda e do Ferro

O silêncio no loft de Emanuel era cortante, interrompido apenas pelo som rítmico dos dedos dele batucando no tampo de mármore da ilha da cozinha. O relógio marcava dez da manhã de um sábado que deveria ser dedicado aos preparativos para o casamento de luxo do primo de Emanuel, um evento que reuniria a alta sociedade e os maiores nomes do mundo da tatuagem e dos negócios.

— Eu já disse que não, Eduarda. É uma questão de logística, não de vontade — Emanuel falou, sua voz mantendo aquele tom baixo e controlado que ele usava antes de perder a paciência de vez. — A boutique onde a Sara vai é no centro, a caminho da galeria onde tenho que passar à tarde. Essa sua costureira fica a duas horas de distância, em uma estrada que eu nem sei se o GPS reconhece.

Eduarda estava parada perto da janela, a luz do sol acentuando a delicadeza de sua bata branca de babados, que contrastava com a saia jeans curtíssima que ela insistia em usar para provocá-lo. Seus olhos já estavam vermelhos, e o lábio inferior tremia de uma forma que Emanuel conhecia bem.

— Mas Manu... o vestido da loja é igual ao de todo mundo — ela murmurou, a voz carregada de manha. — A Dona Odete faz rendas que parecem poesia. Eu quero ser a sua acompanhante mais bonita, não um manequim de vitrine como a... como outras pessoas.

— Outras pessoas têm senso prático, querida — a voz de Sara surgiu vinda do corredor, carregada de veneno.

Sara apareceu usando um robe de seda preta que deixava suas pernas longas e bronzeadas à mostra, o cabelo loiro já perfeitamente escovado. Ela caminhou até Emanuel e passou a mão pelo ombro dele, ignorando Eduarda como se ela fosse um móvel incômodo.

— Emanuel, não perca tempo. O horário na loja é exclusivo. Se não formos agora, vamos perder a reserva. Deixe a menina com os caprichos dela. Se ela quer se vestir de camponesa, que vá de ônibus.

Eduarda bateu o pé no chão, um som seco que fez Emanuel fechar os olhos por um segundo, sentindo a têmpora latejar.

— Eu não vou de ônibus! E eu não vou ao casamento se não for com o vestido da Dona Odete! — Eduarda gritou, as lágrimas finalmente transbordando. — Você sempre faz o que a Sara quer! Você é egoísta, Emanuel!

— Eu sou prático, Eduarda! — Emanuel explodiu, levantando-se da cadeira. — Chega de birra. Você tem vinte anos, não dez. Ou você entra no carro e compra o vestido na loja com a Sara, ou você fica em casa. Eu não vou cruzar o estado por causa de um pedaço de renda.

— Então eu não vou! — ela soluçou, girando nos calcanhares e correndo para o quarto, batendo a porta com tanta força que um dos vasos de cristal na sala vibrou.

Emanuel soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo rosto.

— Mimada — ele murmurou, embora o coração estivesse apertado.

— Exatamente — Sara concordou, pegando sua bolsa de grife. — Vamos, Manu. Ela vai chorar um pouco, dormir e, quando acordarmos, ela vai estar pedindo desculpas e querendo o cartão de crédito para comprar algo caro no shopping. Você conhece o tipo.

Emanuel permitiu-se ser levado. No trajeto até a boutique de luxo, ele tentou focar no trabalho, nas mensagens dos seus estúdios em Londres, mas a imagem de Eduarda chorando não saía de sua cabeça. No entanto, ao entrar na loja climatizada, cercado por vendedoras que o tratavam como um rei e vendo Sara desfilar vestidos de milhares de dólares, ele acabou se deixando levar pelo ambiente. O brilho das joias, o champanhe servido em taças de cristal e a conversa fútil de Sara sobre quem estaria no casamento o distraíram. Por algumas horas, ele esqueceu a pequena boneca de seda que deixara em casa.

— Este, Manu! Definitivamente este! — Sara exclamou, saindo do provador com um vestido vermelho sangue, colado ao corpo e com um decote que desafiava a gravidade.

— Está ótimo, Sara. Leve o que quiser — ele respondeu, distraído, enquanto assinava a conta astronômica.

Foi só quando voltaram para o carro, no fim da tarde, que o silêncio de seu celular o incomodou. Não havia mensagens de Eduarda. Nenhuma ligação perdida. Nada.

Ao chegar no loft, o ambiente estava silencioso demais. Emanuel caminhou até o quarto de Eduarda e abriu a porta.

— Duda? — chamou, esperando encontrá-la deitada, talvez ainda emburrada.

O quarto estava vazio. A cama estava feita com uma perfeição irritante. Ele olhou para o closet e percebeu que a bolsa pequena que ela costumava usar e um par de sapatilhas haviam sumido.

Um frio súbito percorreu a espinha de Emanuel. Ele correu até o iPad dela, que ficava sobre a mesa de cabeceira, e tentou acessar o rastreador do celular.

"Dispositivo Offline".

— Que inferno! — ele rugiu, jogando o iPad sobre a colcha.

— O que foi agora? — Sara perguntou, entrando no quarto com suas sacolas de compras.

— Ela sumiu, Sara. A Eduarda não está aqui e desligou o rastreador.

— Ah, ela deve ter ido ao cinema ou tomar um sorvete para te irritar — Sara deu de ombros, revirando os olhos. — Daqui a pouco ela volta com aquela carinha de cachorro que caiu da mudança.

Mas Emanuel sabia que era diferente. Ele ligou para o motorista, para o porteiro, para as amigas da faculdade. Ninguém a vira. Ele passou as próximas três horas andando de um lado para o outro, a irritação se transformando em uma ansiedade possessiva e sombria. Como ela se atrevia? Como ela ousava sair debaixo de sua proteção sem avisar, especialmente depois de uma briga?

Já passava das oito da noite quando o celular de Emanuel vibrou. O nome "Duda" brilhou na tela. Ele atendeu no primeiro toque, a voz saindo como um rosnado.

— Onde você está, Eduarda? Eu vou buscar você agora mesmo! Você tem noção do que eu estou passando?

Do outro lado da linha, houve um pequeno silêncio, seguido por uma risadinha cristalina e suave, que fez o sangue de Emanuel ferver.

— Oi, Manu... — a voz dela era pura manha, mas com um tom de confiança que ele raramente ouvia. — Por que você está gritando? O ar aqui está tão puro, o som dos grilos é tão relaxante... você devia tentar se acalmar.

— Eduarda, não brinque comigo! — Emanuel gritou, caminhando até a varanda, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o aparelho. — Me dê a sua localização agora. Você desligou o rastreador! Você sabe que eu não admito isso!

— Ah, eu desliguei? — ela perguntou, fingindo surpresa. — Talvez a bateria tenha acabado... ou talvez eu só quisesse um pouco de privacidade para conversar com a Dona Odete. Manu, você não tem ideia do vestido que ela está fazendo. É... divino.

— Eu não quero saber da droga do vestido! — ele berrou, a veia em sua testa saltando. — Você pegou um táxi para o interior sozinha? À noite? Você perdeu o juízo?

— Eu estou muito bem, Manu — ela disse, e ele podia jurar que ela estava sorrindo. — A Dona Odete me deu chá de erva-cidreira e um pedaço de bolo de fubá. Eu estou tão feliz... acho que vou ficar aqui para ver o nascer do sol.

— Você não vai ficar em lugar nenhum! — Emanuel sentiu uma onda de fúria possessiva. A ideia de Eduarda em uma casa desconhecida, longe de seus olhos, era insuportável. — Me dê o endereço agora ou eu juro que...

— Ou o quê, Manu? — ela o interrompeu, a voz baixinha e provocadora. — Você vai me colocar de castigo? Você vai gritar mais alto? Sabe... se você continuar gritando desse jeito, eu acho que vou acabar esquecendo de ligar o celular amanhã também. Talvez eu só volte na segunda-feira.

Emanuel ficou mudo por um segundo, chocado com a audácia. A doce, tímida e submissa Eduarda estava desafiando-o abertamente, usando a própria distância como arma.

— Você não sabe com quem está brincando, Eduarda — ele disse, sua voz caindo para um tom perigosamente baixo e rouco. — Quando eu te encontrar... e eu vou te encontrar... você vai se arrepender de cada segundo dessa provocação.

— Ui, que medo do lobo mau — ela riu, uma risada curta e deliciosa que o atingiu como um soco no estômago. — Mas para me encontrar, você teria que ter prestado atenção quando eu te mostrei o mapa, não é? Mas você estava ocupado demais chamando a Sara para ir comprar vestidos de plástico.

— Eduarda, chega! — ele tentou retomar o controle. — Me diga onde você está. Agora. É uma ordem.

— Eu não recebo ordens de quem me esquece em boutiques luxuosas, Manu — ela respondeu, e o tom de manha voltou com força total. — Agora eu vou desligar. O quarto que a Dona Odete preparou para mim tem cheiro de lavanda. É muito melhor do que o cheiro de perfume caro do seu loft. Boa noite, Manu. Tente não quebrar nada aí enquanto eu me divirto aqui.

— Eduarda! Se você desligar esse celul...

O som de sinal ocupado foi a única resposta.

Emanuel olhou para o telefone, incrédulo. Ele sentiu uma vontade avassaladora de arremessar o aparelho contra a parede de vidro, mas conteve-se. Sua mente trabalhava a mil por hora. Ela estava gostando daquilo. Ela estava saboreando o poder de deixá-lo no escuro, de fazê-lo perder o controle racional que ele tanto prezava.

— Ela me paga — ele sibilou para o vazio.

Sara apareceu na porta da varanda, observando-o com uma sobrancelha erguida.

— Pela sua cara, a princesinha não vai voltar para o jantar, não é?

— Saia da minha frente, Sara — Emanuel disse, passando por ela como um trator.

Ele foi até seu escritório e começou a revirar as gavetas de Eduarda. Ele sabia que ela guardava tudo. Recortes, fotos, lembretes de faculdade. Tinha que haver uma pista. Depois de dez minutos de busca frenética, ele encontrou um pequeno cartão de visitas de papel pardo, com um desenho de uma renda e um número de telefone fixo escrito à mão: "Dona Odete - Estrada Velha do Vale".

Emanuel pegou as chaves do carro.

— Onde você vai? — Sara perguntou, vendo a determinação assassina nos olhos dele.

— Vou buscar o que é meu — ele respondeu, sem olhar para trás.

A estrada era escura e sinuosa, exatamente como ele previra. O asfalto dava lugar à terra batida em certos trechos, e a neblina começava a descer sobre a serra. Emanuel dirigia com uma agressividade contida, os dedos apertando o volante com tanta força que as juntas estavam brancas. Ele estava furioso, sim, mas havia algo mais. Uma excitação sombria. Eduarda havia saído do roteiro, ela havia mostrado garras que ele não sabia que ela possuía, e a caçada estava despertando nele um instinto primitivo.

Cerca de uma hora e meia depois, ele viu uma pequena luz no fim de uma trilha. Uma casa de madeira antiga, cercada por flores que brilhavam sob a luz da lua. O carro parou bruscamente, levantando uma nuvem de poeira.

Emanuel saltou do veículo e caminhou até a varanda. Antes que ele pudesse bater, a porta se abriu.

Eduarda estava lá.

Ela usava uma camisola de algodão branco com pequenas rendas no decote, algo que devia pertencer à costureira, mas nela parecia a roupa de uma rainha camponesa. Seus cabelos estavam soltos e bagunçados, e ela segurava uma xícara de chá.

— Você demorou, Manu — ela disse, encostando-se no batente da porta, um sorriso vitorioso e manhoso brincando em seus lábios. — Eu achei que você fosse um rastreador melhor.

Emanuel parou a poucos centímetros dela. Ele era muito mais alto, sua presença física preenchendo o espaço da varanda de forma esmagadora. Ele podia sentir o calor vindo do corpo dela, o cheiro de mato e chá.

— Você tem ideia do que eu vou fazer com você por causa dessa brincadeira? — ele perguntou, a voz saindo como um sussurro perigoso, os olhos fixos nos dela.

Eduarda não recuou. Ela deu um gole no chá, olhando-o por cima da borda da xícara com uma inocência fingida que o enlouquecia.

— Você vai me dar um sermão? Ou vai me levar para casa e me obrigar a pedir desculpas para a Sara?

— A Sara não existe agora — Emanuel disse, segurando o rosto dela com uma das mãos, o polegar pressionando o lábio inferior de Eduarda. — Só existe você e a sua insolência. Você acha que pode fugir de mim? Acha que pode me provocar pelo telefone e sair impune?

Eduarda soltou a xícara em uma mesinha lateral e envolveu o pescoço de Emanuel com os braços, puxando-o para mais perto, o corpo macio colando-se ao peito rígido dele.

— Eu não fugi, Manu... eu só queria que você viesse me buscar. Eu queria ver se você ainda sabia o caminho para onde eu estou, ou se você estava perdido demais naquele mundo de plástico da Sara.

Emanuel sentiu a raiva se transformar em algo muito mais potente e denso. Ele a pegou pela cintura, erguendo-a do chão, e a pressionou contra a parede de madeira da casa. A bata branca dela subiu, revelando a pele macia das coxas.

— Eu sempre sei onde você está, Eduarda. Mesmo quando você desliga o mundo, você ainda está gravada em mim. Mas nunca mais... nunca mais faça isso de novo. Entendeu?

— Ou o quê? — ela sussurrou contra o pescoço dele, dando uma pequena mordida na pele tatuada.

Emanuel soltou um rosnado baixo e a beijou. Foi um beijo de posse, de punição e de um desejo que vinha sendo alimentado pela fúria das últimas horas. Eduarda correspondeu com a mesma intensidade, suas mãos enterradas nos cabelos dele, soltando pequenos sons manhosos que o faziam perder o que restava de sua sanidade.

— Vamos embora — ele disse entre os beijos, a respiração pesada.

— Agora não... — ela murmurou, afastando-se apenas o suficiente para olhá-lo. — A Dona Odete está dormindo. E o meu vestido... ele só fica pronto de manhã. Você vai ter que ficar aqui, Manu. No escuro. Comigo.

Emanuel olhou para a estrada escura atrás dele e depois para a mulher em seus braços. Ele era o mestre do controle, o dono de um império, o homem que nunca se deixava levar por caprichos. Mas ali, sob a luz da lua e o cheiro de lavanda, ele percebeu que a manha de Eduarda era a única lei que ele estava disposto a seguir naquela noite.

— Você ganhou, pequena — ele sussurrou, rendendo-se. — Mas amanhã, quando voltarmos... você vai descobrir que o preço de me fazer vir até aqui vai ser muito alto.

Eduarda sorriu, escondendo o rosto no peito dele, sabendo que, embora Emanuel falasse em punição e controle, era ela quem detinha os fios de seda que o mantinham exatamente onde ela queria. Sara podia ter o brilho, o silicone e a vulgaridade, mas Eduarda tinha a alma de Emanuel presa em suas rendas, e ela não pretendia soltá-lo tão cedo.