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Ouro, Pranto e o Peso da Vontade

A luz da manhã entrava pelas frestas das persianas automatizadas do loft, criando um padrão de listras douradas sobre a cama de lençóis de algodão egípcio. Emanuel já estava de pé, o corpo tenso e os olhos fixos na tela do iPad enquanto analisava os relatórios financeiros de seu novo estúdio em Berlim. Ele era um homem de rotinas rígidas e decisões rápidas, mas aquela paz matinal era apenas a calmaria que precedia a tempestade de babados e manha que ele sabia que estava por vir.

Eduarda estava sentada na ponta da cama, vestida em sua inseparável saia jeans curtíssima, que subia perigosamente pelas coxas sempre que ela se movia, e uma bata branca de babados translúcidos que deixava seus ombros delicados à mostra. Ela segurava um pequeno catálogo de papel, antigo e desgastado, que destoava completamente do luxo minimalista do quarto.

— Manu... — a voz dela saiu pequena, quase um sussurro, carregada daquela doçura que Emanuel reconhecia como o prelúdio de um pedido difícil.

— Nem comece, Eduarda — disse Emanuel, sem tirar os olhos do tablet. — Eu já vi essa cara. O que foi agora? Outra costureira no fim do mundo?

— Não é uma costureira — ela murmurou, aproximando-se dele com passos leves, o perfume de baunilha e flores frescas começando a nublar o julgamento do homem. — É um ourives. O senhor Heitor. Ele trabalha com filigrana de ouro puro, Manu. Ele é o único que pode consertar o medalhão que era da minha bisavó.

— Mande por um seguro, Duda. Ou peça para o meu motorista levar — Emanuel respondeu, a voz firme. — Eu tenho uma reunião presencial com os investidores do prédio novo às onze horas. Não tenho como sair da cidade hoje.

Eduarda parou na frente dele, bloqueando sua visão do iPad. Seus olhos grandes e expressivos já estavam começando a brilhar com aquela umidade súbita que sempre o desarmava. O lábio inferior projetou-se para fora em um biquinho trêmulo.

— Não pode ser por seguro. Ele só atende com a pessoa presente, para medir o peso da alma da joia no corpo de quem vai usar — ela explicou, e uma lágrima solitária rolou pela bochecha pálida. — É em São Roque, Manu. É pertinho...

— São Roque não é pertinho quando se tem uma agenda lotada, Eduarda! — Emanuel exclamou, deixando o tablet de lado e levantando-se. — Por que tudo com você tem que ser um ritual místico em uma cidade vizinha?

— Porque eu valorizo o que é real! — ela soluçou, cobrindo o rosto com as mãos pequenas. — Você só se importa com seus estúdios, com suas máquinas de tatuagem modernas e com... com aquela loira vulgar!

Nesse exato momento, a porta do quarto se abriu com um estrondo. Sara entrou, já impecavelmente maquiada, usando um vestido de seda verde-esmeralda tão justo que parecia costurado ao corpo. Seus seios siliconados estavam em evidência, e o cheiro de seu perfume importado, forte e marcante, cortou a suavidade do ambiente.

— Eu ouvi meu nome e o adjetivo "vulgar" vindo dessa boquinha de boneca — Sara disse, cruzando os braços e exibindo as unhas longas e perfeitamente pintadas. — Emanuel, você não vai cair nesse teatrinho de novo, vai? São Roque? Para ver um velho mexer em ouro velho? Faça-me o favor.

— Não é ouro velho, é história! — Eduarda gritou, virando-se para Sara com o rosto banhado em lágrimas. — Coisa que você não tem, porque você é toda feita de plástico e inveja!

— Ah, cale a boca, sua pirralha manhosa! — Sara deu um passo à frente, a voz estridente. — Emanuel, nós temos aquele almoço com o pessoal da administração. Você prometeu que íamos discutir a minha entrada na gestão dos estúdios. Você não vai me trocar por uma viagem de campo para consertar sucata!

Emanuel sentiu a têmpora latejar. Ele estava no centro de um furacão. De um lado, a agressividade magnética de Sara, que o desafiava e exigia seu lado profissional e frio. Do outro, a fragilidade de Eduarda, que o puxava para um abismo de proteção e afeto irracional.

— Chega! As duas! — o grito de Emanuel silenciou o quarto. — Sara, saia. Agora.

— Mas Emanuel...

— Saia, Sara! — ele repetiu, o olhar escuro e autoritário.

Sara bufou, lançando um olhar de puro ódio para Eduarda antes de girar nos saltos e sair, batendo a porta com força suficiente para fazer os quadros na parede vibrarem.

Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ela ainda soluçava, o corpo miúdo tremendo sob os babados da bata branca. Ela parecia tão pequena, tão indefesa naquela saia jeans curta que revelava sua vulnerabilidade de forma quase cruel.

— Duda, olha para mim — ele pediu, a voz suavizando contra sua vontade.

— Você nunca me leva a sério — ela disse entre soluços, recusando-se a olhá-lo. — Você prefere o mundo dela, o mundo das aparências. Eu só queria... eu só queria que você participasse de algo que é importante para mim.

Ela se sentou no chão, um gesto de pura derrota e manha, espalhando a saia curta ao redor das coxas. O pranto aumentou, tornando-se aquele choro sofrido que Emanuel sabia que não era fingido, mas sim uma explosão de toda a insegurança que ela sentia por dividir o homem que amava com uma mulher como Sara.

Emanuel fechou os olhos e suspirou. Ele odiava perder o controle de sua agenda. Odiava a irracionalidade. Mas, acima de tudo, ele odiava ver Eduarda naquele estado.

— Tudo bem, Eduarda. Pare de chorar.

Ela levantou o rosto, os cílios grudados pelas lágrimas, a pele do nariz levemente avermelhada.

— Você está dizendo isso só para eu parar...

— Eu estou dizendo que vou cancelar a reunião — Emanuel disse, pegando o celular. — Vou avisar que tive uma emergência pessoal. Pegue suas coisas. Nós vamos para São Roque.

Eduarda deu um pulo, o choro cessando como se alguém tivesse desligado uma chave. Ela correu para ele e o abraçou pela cintura, escondendo o rosto em seu peito.

— Obrigada, Manu! Você é o melhor homem do mundo!

— Eu sou um idiota, isso sim — ele resmungou, mas sua mão já estava acariciando os cabelos castanhos dela por puro instinto. — Vá se calçar. E coloque algo menos... chamativo. Essa saia é curta demais para andar em oficina de ourives.

— É a minha favorita, Manu... — ela fez um biquinho, olhando para ele de baixo para cima. — Você disse que eu fico linda nela.

— Eu disse que você fica perigosa nela — ele corrigiu, dando um tapinha leve em seu quadril. — Vá logo, antes que eu mude de ideia.

A viagem foi marcada por um silêncio tenso no início. Emanuel dirigia seu SUV de luxo com uma mão no volante e a outra massageando a nuca. Eduarda, ao seu lado, parecia ter esquecido toda a tristeza. Ela mexia no rádio, escolhendo músicas suaves, e de vez em quando tocava o braço tatuado de Emanuel, apenas para ter certeza de que ele ainda estava ali.

— Você está muito bravo? — ela perguntou, depois de meia hora de estrada.

— Eu perdi uma manhã de trabalho importante, Eduarda. Como você acha que eu estou? — ele respondeu, sem desviar os olhos da rodovia.

— Eu vou compensar você — ela sussurrou, aproximando-se e deixando a mão deslizar pela coxa dele. — Eu prometo que vou ser a namorada mais boazinha do mundo o resto da semana.

Emanuel sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O contraste de Eduarda — aquela mistura de inocência romântica e uma sensualidade latente e intuitiva — era o que o mantinha preso a ela.

Quando chegaram a São Roque, o GPS os levou para uma área mais afastada, onde as casas eram cercadas por jardins bem cuidados e árvores antigas. A oficina do Sr. Heitor ficava nos fundos de uma casa de pedra. Era um lugar que cheirava a metal aquecido, carvão e história.

O ourives era um homem magro, de mãos firmes e olhos que pareciam enxergar através da matéria. Ele recebeu o medalhão de Eduarda com um respeito quase religioso.

— Filigrana antiga — comentou o velho, ajustando a lupa. — Precisa de paciência. O ouro precisa ser convencido a voltar à forma original, não forçado.

Eduarda observava tudo com fascínio, sentada em um banco alto, os pés balançando e a saia jeans subindo ainda mais, o que fazia Emanuel se posicionar estrategicamente atrás dela, como um escudo contra o olhar de qualquer outra pessoa que pudesse entrar ali.

— Vai demorar muito? — perguntou Emanuel, a impaciência voltando.

— O tempo que a alma do metal exigir — respondeu o Sr. Heitor, sem olhar para ele.

Eduarda olhou para Emanuel e sorriu, uma expressão de pura paz.

— Viu, Manu? Nem tudo é sobre relógios e prazos.

Emanuel cruzou os braços, sentindo-se deslocado naquele ambiente tão manual e lento. Mas, conforme os minutos passavam e ele observava a dedicação do velho e a alegria silenciosa de Eduarda, algo em sua tensão começou a ceder. Ele olhou para a namorada — a bata branca agora levemente amassada, os babados moldando seu corpo delicado, a expressão de admiração no rosto doce. Ela era a sua antítese. Ele era o asfalto, ela era o campo. Ele era a agulha da tatuagem que perfurava com precisão, ela era a renda que se entrelaçava com suavidade.

Duas horas depois, o medalhão estava restaurado. Brilhava com uma luz renovada, pendurado no pescoço fino de Eduarda.

— Ficou perfeito — ela exclamou, olhando-se em um pequeno espelho de bronze. — Obrigada, Sr. Heitor.

Na saída, enquanto caminhavam de volta para o carro sob a luz dourada do fim de tarde, Eduarda parou e abraçou Emanuel com força.

— Obrigada por ter vindo, Manu. Eu sei que foi difícil para você cancelar suas coisas.

Emanuel a segurou pelo queixo, forçando-a a olhar para ele. A irritação havia sumido, substituída por uma possessividade calma.

— Você é uma manipuladora de primeira categoria, sabia? — ele disse, a voz baixa. — Usa esse choro e esse jeito de menina indefesa para me fazer fazer tudo o que você quer.

— Eu não manipulo — ela sussurrou, os olhos brilhando. — Eu só te mostro o que realmente importa. Você precisava desse descanso tanto quanto eu precisava do medalhão.

— Não tente justificar sua manha com filosofia, Eduarda — ele brincou, embora houvesse verdade em suas palavras.

Eles entraram no carro, mas antes de dar a partida, Emanuel viu o celular brilhar com dez chamadas perdidas de Sara. Ele simplesmente desligou o aparelho e o jogou no console central.

— O que foi? — perguntou Eduarda.

— Nada. O mundo pode esperar até amanhã — ele respondeu, ligando o motor.

No caminho de volta, a atmosfera era diferente. A tensão de São Paulo parecia um problema distante. Eduarda, exausta pela descarga emocional da manhã, acabou pegando no sono, a cabeça pendida no ombro de Emanuel. Ele dirigia com cuidado, sentindo o peso leve dela contra seu corpo.

Ao chegarem no loft, a noite já havia caído. Sara não estava lá; provavelmente saíra para algum evento badalado para afogar sua frustração em champanhe e atenção de estranhos. O silêncio do apartamento era um alívio.

Emanuel carregou Eduarda no colo até o quarto. Ela acordou no meio do caminho, murmurando algo incompreensível e se aninhando ainda mais em seu pescoço.

— Chegamos, pequena — ele disse, colocando-a cuidadosamente sobre a cama.

Eduarda segurou a mão dele, impedindo-o de se afastar.

— Fica aqui... — ela pediu, a voz manhosa de sono. — Esquece o escritório por hoje.

Emanuel olhou para a porta do escritório, onde pilhas de contratos o esperavam, e depois para a mulher em sua cama. Eduarda, com sua saia curta e sua bata de babados, era o único contrato que ele realmente tinha medo de quebrar.

— Tudo bem — ele cedeu, retirando os sapatos e deitando-se ao lado dela.

Eduarda se acomodou em seus braços, o medalhão de ouro frio contra a pele quente de ambos.

— Manu? — ela chamou baixinho.

— Hum?

— Você ainda está bravo com o castigo que a Sara vai te dar amanhã por ter faltado ao almoço?

Emanuel soltou uma risada curta, beijando o topo da cabeça de Eduarda.

— A Sara é o menor dos meus problemas agora, Duda. Meu maior problema é como eu vou conseguir dizer "não" para você na próxima vez que você quiser visitar um fabricante de tecidos no interior de Minas Gerais.

Eduarda riu, um som cristalino que preencheu o quarto.

— Não se preocupe com isso agora. Eu já tenho o endereço de um artesão de seda em Tiradentes... mas podemos esperar até o mês que vem.

Emanuel gemeu teatralmente, fechando os olhos, mas apertou-a mais contra si. Ele sabia que, entre o ferro de seus negócios e o fogo de Sara, a seda de Eduarda era a única coisa capaz de realmente envolvê-lo e dar sentido ao império que ele construíra. E, enquanto ela estivesse ali, manhosa e carinhosa em seus braços, ele cruzaria qualquer estrada de terra que ela apontasse, apenas para ver aquele sorriso vitorioso brilhar mais que qualquer ouro puro.