Voltar ao resumo

D

Entre a Inocência e a Possessão

O silêncio no quarto luxuoso era quebrado apenas pelo som da respiração descompassada de Eduarda e pelo tilintar do gelo no copo de champanhe que Sara segurava, sentada na poltrona de veludo próxima à cama, observando a cena como uma rainha em seu trono de desdém. Emanuel estava posicionado entre as pernas de Eduarda, a pele bronzeada e coberta por tatuagens complexas contrastando violentamente com a brancura quase etérea da jovem de vinte anos.

— Calma, Duda... olha para mim — Emanuel sussurrou, a voz saindo como um trovão baixo e protetor.

Eduarda apertou os lençóis de seda, os dedos pequenos e delicados ficando brancos pela força. Seus olhos estavam marejados, uma mistura de medo do desconhecido e uma entrega absoluta que Emanuel nunca tinha visto em mulher nenhuma. Ela não era como as modelos e socialites que ele tatuava; ela era real de uma forma que o desarmava.

— Emanuel... — ela murmurou o nome dele como se fosse uma prece, a voz manhosa e trêmula. — Dói um pouco.

— Eu sei, pequena. Eu vou parar se você quiser — ele respondeu, sentindo o suor frio na nuca.

Emanuel, o homem que comandava impérios de tinta e lidava com a dor alheia diariamente com indiferença profissional, estava com as mãos trêmulas. Ele sentia a resistência da virgindade dela, um limiar que ele estava prestes a cruzar com uma reverência que Sara jamais recebera.

— Não para... — Eduarda pediu, escondendo o rosto no travesseiro, mas buscando o toque dele com o quadril de forma instintiva. — Eu quero que seja você.

Sara soltou uma risada curta, carregada de sarcasmo, lá do canto do quarto.

— Pelo amor de Deus, parece que estamos em um convento. Emanuel, deixa de frescura e acaba logo com isso. Ela não vai quebrar.

Emanuel lançou um olhar cortante para a namorada. A vulgaridade de Sara, que antes ele achava excitante, agora soava como um ruído estático irritante.

— Fica quieta, Sara — ele ordenou, seco.

Ele voltou sua atenção para Eduarda. Com um movimento lento, firme e carregado de um cuidado quase paternal, Emanuel avançou. Eduarda soltou um gemido agudo, uma nota de dor que rapidamente se transformou em um suspiro longo e rendido. Ele sentiu o corpo dela relaxar sob o dele, a barreira finalmente rompida.

— Pronto... passou — ele murmurou, beijando a testa dela, o suor de ambos se misturando. — Você foi perfeita.

Eduarda abriu os olhos, e Emanuel viu neles uma devoção que o assustou. Ela não parecia apenas uma mulher que tinha acabado de perder a virgindade; ela parecia alguém que tinha acabado de encontrar seu dono. Ela se encolheu contra o peito dele, buscando o calor das tatuagens dele, ignorando completamente a presença de Sara.

A noite prosseguiu sob esse clima estranho. Sara tentou se aproximar, tentou fazer com que o ménage que ela idealizara acontecesse de fato, mas Emanuel a bloqueava sutilmente. Ele não queria que as mãos carregadas de anéis e unhas compridas de Sara tocassem a pele macia de Eduarda. Para ele, naquele momento, Eduarda era algo sagrado que não podia ser contaminado pela malícia da namorada.

Quando a madrugada chegou e o cansaço finalmente venceu Eduarda, ela adormeceu nos braços de Emanuel. Sara, irritada e sentindo-se deixada de lado, vestiu um robe de seda transparente e saiu para a varanda.

— Foi só uma noite, Emanuel — disse Sara, quando ele apareceu na porta da varanda minutos depois, fechando a porta de vidro para não acordar a menina. — Ela é uma fofa, mas é sem sal. Amanhã a gente manda um motorista levar ela de volta para o buraco de onde saiu.

Emanuel não respondeu de imediato. Ele acendeu um cigarro, observando as luzes de São Paulo.

— Ela não é sem sal, Sara. Ela é... diferente.

— Diferente porque é virgem? — Sara riu, encostando o corpo siliconado no dele, tentando recuperar o território perdido. — Querido, a novidade passa rápido. Agora que o hímen já era, ela é só mais uma garota tímida que não sabe nem abrir as pernas direito sem pedir desculpas.

Emanuel sentiu uma irritação profunda crescer em seu peito. Ele olhou para Sara, para o batom borrado e a expressão predatória, e depois olhou através do vidro para Eduarda, que dormia em posição fetal, parecendo uma pintura renascentista sob a luz da lua.

— Veremos — foi tudo o que ele disse.

Nos dias que se seguiram, a vida de Emanuel deveria ter voltado ao normal. Mas ele não conseguia tirar o cheiro de baunilha de Eduarda do nariz. Ele estava em seu estúdio principal, finalizando uma peça nas costas de um cliente, quando se pegou olhando para o celular.

— Rodrigo? — ele atendeu a ligação do primo. — Onde ela está?

— Quem? A Eduarda? Cara, ela voltou para a faculdade. A Beatriz disse que ela está meio aérea, suspirando pelos cantos. Você realmente deixou uma marca na garota.

— Mande o endereço dela para mim. Agora.

Emanuel não apenas mandou flores. Ele mandou um conjunto de joias delicadas, ouro rosé com pequenas safiras que combinavam com a aura suave de Eduarda. Ele começou a aparecer "por acaso" na cafeteria perto da universidade dela.

Eduarda, sempre que o via, ficava vermelha como um morango. Ela se aproximava dele com aquele jeito manhoso, segurando na gola da jaqueta de couro dele, os olhos brilhando de alegria.

— Você veio... — ela dizia, a voz doce agindo como um bálsamo para o estresse de Emanuel.

— Eu estava por perto — ele mentia, sentindo o desejo absurdo de pegá-la no colo e levá-la para longe de tudo. — Você gostou das joias?

— São lindas, Emanuel... mas você não precisava. Eu só... eu sinto sua falta.

A confissão simples e direta dela desarmava Emanuel. Com Sara, tudo era um jogo de poder, uma troca de interesses ou uma disputa de quem gritava mais alto. Com Eduarda, era paz. Era o refúgio que ele nem sabia que precisava.

No entanto, o conflito interno de Emanuel era real. Ele ainda sentia o fogo por Sara. Ele amava a energia dela, a forma como ela não tinha medo de nada, a história de quatro meses que eles haviam construído entre festas e luxúria. Mas o sentimento por Eduarda era algo novo, uma raiz que se enterrava fundo em seu lado protetor.

Ele tomou uma decisão racional, ou o que ele achava ser racional em sua mente possessiva: ele teria as duas.

— Eu quero que você more comigo — ele disse para Eduarda, em uma tarde chuvosa dentro de seu carro blindado.

Eduarda arregalou os olhos, as mãos pequenas apertando a bolsa.

— Mas... e a Sara? Ela mora lá. Ela é sua namorada.

— Eu vou resolver isso, Duda. Eu quero cuidar de você. Quero que você tenha tudo o que há de melhor. Você não precisa se preocupar com ela.

— Eu tenho medo dela, Emanuel — confessou Eduarda, a voz sumindo. — Ela olha para mim como se eu fosse um inseto.

— Ela não vai te tocar. Eu prometo.

O problema é que Sara não era uma mulher que aceitava ser dividida. Ela começou a notar as ausências de Emanuel, os gastos excessivos com joias que não eram para ela, e o brilho diferente nos olhos dele.

Uma noite, Sara encontrou uma nota fiscal de um colar de pérolas na gaveta do escritório de Emanuel. Não era o estilo dela. Era clássico demais, "comportado" demais.

— Emanuel! — ela gritou, entrando no quarto onde ele se trocava. — Que porra é essa? Você está comprando joias para aquela virgenzinha de merda?

Emanuel continuou abotoando sua camisa, a expressão gélida.

— O nome dela é Eduarda. E sim, eu estou.

— Você está brincando comigo? Aquilo foi um brinquedo, Emanuel! Um brinquedo que eu trouxe para a gente! Você não pode estar apaixonado por aquela sonsa.

— Eu não disse que estou apaixonado — ele mentiu, a voz firme. — Mas ela agora faz parte da minha vida. E ela vai vir morar aqui.

Sara soltou uma gargalhada histérica, os olhos injetados de raiva.

— Aqui? Nesta casa? Você enlouqueceu de vez! Eu não vou dividir meu teto com aquela coisinha insignificante. Ou ela sai, ou eu acabo com a vida dela.

Emanuel caminhou até Sara e segurou seu braço com firmeza, não para machucar, mas para impor sua autoridade.

— Você não vai fazer nada, Sara. Você gosta da vida que tem aqui, não gosta? Do dinheiro, do status, das viagens? Então você vai aceitar a Eduarda. Eu não vou abrir mão de você, mas eu também não vou deixá-la.

Sara sentiu um frio na espinha. Ela conhecia aquele olhar de Emanuel. Era o olhar de quem tinha decidido algo e não voltaria atrás. Ela sentiu uma pontada de ódio profundo por Eduarda, uma raiva que queimava mais que qualquer desejo.

— Você vai se arrepender disso, Emanuel — ela sibilou, soltando-se dele. — Você acha que pode ter o anjo e o demônio na mesma cama? Uma hora, um dos dois vai ter que queimar.

— Então que queime — ele respondeu, voltando-se para o espelho.

No dia seguinte, Eduarda chegou com suas poucas malas. Ela parecia uma boneca de porcelana entrando em um castelo de dragões. Sara a esperava no topo da escada, usando um conjunto de seda preta, os braços cruzados sobre os seios siliconados, um sorriso cruel nos lábios.

— Bem-vinda ao inferno, querida — disse Sara, a voz carregada de veneno.

Eduarda estremeceu e buscou imediatamente a mão de Emanuel. Ela se apertou contra o braço dele, escondendo o rosto em seu ombro.

— Emanuel... — ela chamou, manhosa, buscando proteção.

— Está tudo bem, pequena. Vem, vou te mostrar seu quarto — ele disse, ignorando o olhar furioso de Sara.

Emanuel acreditava que poderia mediar aquele conflito com lógica e autoridade. Ele achava que sua riqueza e seu poder poderiam comprar a paz entre a vulgaridade agressiva de Sara e a doçura frágil de Eduarda. Mas, enquanto ele subia as escadas com Eduarda nos braços, ele não viu o olhar de Sara.

Era o olhar de uma mulher que tinha sido trocada em sua própria casa. E Sara não era do tipo que aceitava a derrota. Ela sabia que a timidez de Eduarda era sua maior fraqueza, e ela planejava usar cada pedaço daquela sensibilidade para destruir a garota de dentro para fora.

A guerra estava declarada, e Emanuel, em sua arrogância de tatuador renomado e homem de negócios, achava que ainda tinha o controle da agulha. Ele não percebia que a tinta daquela situação já estava borrando, criando uma mancha que ninguém conseguiria limpar.

Naquela noite, o jantar foi um espetáculo de tensão. Emanuel sentava-se à cabeceira, com Sara à sua direita e Eduarda à sua esquerda. Sara fazia questão de falar sobre suas aventuras sexuais passadas com Emanuel, usando palavras vulgares e descrições gráficas, apenas para ver Eduarda baixar a cabeça, envergonhada, quase chorando sobre o prato de porcelana.

— Sara, chega — Emanuel advertiu, vendo o lábio de Eduarda tremer.

— O que foi? Ela não queria ser mulher? Agora ela é. Tem que aguentar conversa de gente grande — Sara retrucou, servindo-se de mais vinho.

Eduarda, sem dizer uma palavra, esticou a mão por baixo da mesa e apertou a coxa de Emanuel. Era um pedido silencioso de socorro, um toque suave que dizia "me tira daqui".

Emanuel sentiu o coração apertar. Ele olhou para a namorada loira, cheia de fúria e vida, e para a jovem ao seu lado, que parecia murchar sob o ataque. Ele queria as duas, mas o preço de manter a pureza de Eduarda intacta enquanto convivia com a toxicidade de Sara estava começando a parecer alto demais.

— Duda, vai para o quarto. Eu já vou lá ficar com você — ele disse, com uma suavidade que fez Sara quebrar a taça de cristal na mão.

Eduarda levantou-se rapidamente, lançando um olhar rápido e assustado para Sara antes de quase correr para o andar de cima.

— Você está tratando ela como uma filha, Emanuel! — gritou Sara, o sangue da mão cortada manchando a toalha branca. — Isso é doentio!

— Não, Sara — ele disse, levantando-se e caminhando até ela com uma calma assustadora. — Eu estou tratando ela como algo que você nunca soube ser: alguém que precisa de mim.

Ele saiu da sala, deixando Sara sozinha com seus cacos de vidro e seu ódio. Emanuel subiu as escadas, sabendo que no quarto ao fim do corredor, uma menina-mulher o esperava com a manha e a doçura que estavam se tornando sua maior obsessão. Ele não sabia como aquilo terminaria, mas pela primeira vez em sua vida racional, ele não se importava com as consequências. Ele queria o caos de Sara e a paz de Eduarda, mesmo que isso significasse destruir a si mesmo no processo.