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D

O Labirinto de Vidro e Navalhas

A atmosfera na cobertura nunca esteve tão carregada. O ar parecia ter se tornado um elemento sólido, difícil de respirar, onde cada partícula carregava o perfume doce e infantil de Eduarda ou a fragrância agressiva e cara de Sara. Emanuel sentia-se como um mediador de uma guerra fria que, a qualquer momento, se tornaria sangrenta. Ele estava sentado em seu escritório particular, as paredes adornadas com esboços de tatuagens que pareciam observar o caos crescente daquela casa.

Ele sabia que a decisão de trazer Eduarda para morar ali tinha sido impulsiva, algo raro em sua vida pautada pela lógica. Mas, toda vez que ele via o olhar de desamparo dela, o instinto de proteção falava mais alto que qualquer razão.

A porta do escritório se abriu sem cerimônias. Sara entrou, os saltos agulha estalando contra o piso de madeira nobre. Ela não parecia mais a mulher furiosa de ontem à noite; agora, exibia um sorriso gélido, o tipo de sorriso que Emanuel aprendera a temer durante os quatro meses de namoro.

— Emanuel, querido, precisamos conversar sobre as regras da casa — disse ela, sentando-se na beirada da mesa e cruzando as pernas torneadas. — Já que você decidiu transformar nossa suíte em uma creche, eu preciso saber até onde vai a minha paciência.

Emanuel largou a caneta e encostou-se na cadeira, observando a namorada.

— Não há regras novas, Sara. Apenas convivência. Eu quero que você a respeite.

— Respeito é uma via de mão dupla, não acha? — Ela inclinou-se para frente, o decote generoso quase tocando os papéis dele. — Aquela menina entra na cozinha e nem consegue me dar bom dia. Ela se encolhe como se eu fosse bater nela. Isso me irrita, Emanuel. Me irrita profundamente essa cena de "coitadinha".

— Ela é tímida, você sabe disso. Eduarda não tem a sua... — ele pausou, escolhendo a palavra — ...expansividade.

— Expansividade? — Sara soltou uma gargalhada curta e seca. — Você quer dizer que ela não é vulgar como eu, não é? Pode falar, eu sei o que você pensa. Mas lembre-se, foi a minha "vulgaridade" que te manteve interessado até agora. Foi a minha ideia trazer uma terceira pessoa. Eu abri a porta, Emanuel. Mas eu não esperava que você fosse deixar a visita se mudar para o meu quarto.

— Ela tem o quarto dela, Sara.

— Mas ela tem o seu coração, não tem? — O tom dela mudou para algo mais sombrio, uma mistura de mágoa e ameaça.

Antes que Emanuel pudesse responder, um som baixo de batidas na porta interrompeu a tensão. A porta abriu-se apenas uma fresta, e o rosto delicado de Eduarda apareceu. Ela usava um cardigã oversized de cor creme e meias rendadas, o cabelo preso em um coque frouxo com um laço de fita.

— Emanuel... — ela sussurrou, a voz manhosa e hesitante. — Desculpa interromper. Eu não sabia que você estava ocupada.

Ela olhou para Sara e, imediatamente, seus ombros se contraíram. O olhar de Eduarda caiu para os próprios pés.

— Entre, Duda — disse Emanuel, suavizando a expressão instantaneamente.

Eduarda caminhou até ele, ignorando a presença de Sara como se estivesse tentando atravessar um campo minado. Ela parou ao lado da cadeira de Emanuel e tocou timidamente o ombro dele.

— Eu não estou conseguindo ligar a TV do quarto... e eu queria ver aquele desenho que você me falou.

Sara revirou os olhos de forma teatral, soltando um suspiro de tédio.

— Viu só? Ela nem consegue ligar uma televisão. Emanuel, você arrumou uma namorada ou uma boneca de ventríloquo?

Eduarda estremeceu, os dedos apertando o tecido da camisa de Emanuel.

— Eu só... eu não queria mexer em nada errado — murmurou ela, os olhos começando a brilhar com lágrimas contidas.

— Está tudo bem — Emanuel disse, segurando a mão pequena de Eduarda e levando-a aos lábios. — Eu vou lá resolver para você em cinco minutos.

— Cinco minutos? — Sara interveio, levantando-se da mesa. — Nós não terminamos aqui, Emanuel.

— Terminamos sim, Sara. Por agora.

Sara lançou um olhar de puro ódio para Eduarda. Ela se aproximou da garota, parando a poucos centímetros. A diferença de altura e de postura era gritante: Sara era uma torre de confiança e agressividade; Eduarda era um lírio curvado pelo vento.

— Aproveite enquanto a novidade dura, bonequinha — sibilou Sara, perto do ouvido de Eduarda. — Homens como o Emanuel se cansam rápido de brinquedos que não sabem brincar de volta.

Sara saiu do escritório, batendo a porta com tanta força que os quadros na parede tremeram. Eduarda soltou um soluço baixo e enterrou o rosto no pescoço de Emanuel, que a puxou para o seu colo.

— Ela me odeia... — choramingou Eduarda, as mãos rodeando o pescoço dele. — Por que ela é tão má comigo? Eu não fiz nada para ela.

— Ela está apenas com ciúmes, pequena. Ela vai se acostumar — Emanuel tentou consolar, embora no fundo soubesse que Sara nunca se acostumaria com a derrota.

— Eu quero ir embora, Emanuel... mas eu não quero te deixar — disse ela, escondendo-se no peito dele, aspirando o cheiro de tinta e perfume amadeirado. — Eu gosto de estar aqui com você. Você é tão cuidadoso... ninguém nunca cuidou de mim assim.

Emanuel sentiu aquela onda familiar de possessividade. Ele adorava como ela dependia dele, como ela o via como um gigante capaz de protegê-la de tudo. Era um contraste viciante com Sara, que sempre o desafiava e tentava estar no controle.

— Você não vai a lugar nenhum. Eu decidi que você fica, e eu sempre consigo o que eu quero.

Ele a levou para o quarto dela — um ambiente que ele mesmo decorara em tons pastéis, longe da estética moderna e agressiva do resto do apartamento. Depois de ligar a TV e garantir que ela estivesse confortável, ele desceu para a cozinha.

Sara estava lá, bebendo vinho diretamente da garrafa, olhando para a vista da cidade através da imensa parede de vidro.

— Você vai acabar destruindo ela, Emanuel — disse Sara, sem se virar. — Ou eu vou.

— Você não vai encostar um dedo nela, Sara. Eu estou falando sério.

— Eu não preciso encostar nela para destruí-la. Você é um tatuador, Emanuel. Você sabe que o que dói não é a agulha, é o que ela deixa para trás. Aquela menina é pura, é virgem de espírito também. Ela não aguenta o nosso mundo. Ela não aguenta o que a gente faz entre quatro paredes quando ela não está olhando.

Emanuel aproximou-se dela, tirando a garrafa de sua mão.

— Eu não vou abrir mão de você, Sara. Eu gosto da sua intensidade. Mas eu preciso da doçura dela. Por que você não pode simplesmente aceitar? Nós temos tudo.

— Porque eu não sou metade de nada! — ela gritou, virando-se para ele com o rosto transformado pela raiva. — Eu sou a Sara! Eu sou a mulher que estava com você quando você abriu o terceiro estúdio! Eu sou a mulher que aguenta seus humores e suas obsessões! E agora você quer que eu divida minha mesa e meu homem com uma menina que pede licença para existir?

— Ela não tira nada de você.

— Ela tira a sua atenção! Ela tira o seu olhar! — Sara deu um passo à frente, batendo no peito dele. — Ontem à noite, no quarto... você não olhou para mim nem uma vez enquanto estava com ela. Você a tratou como se ela fosse uma deusa, e a mim... a mim você tratou como se eu fosse apenas uma espectadora.

Emanuel ficou em silêncio. Ele sabia que ela tinha razão. A fragilidade de Eduarda despertava nele uma faceta que Sara nunca conheceria: a ternura. Com Sara, era combate; com Eduarda, era rendição.

— Ela precisa de mim, Sara. Você é forte. Você sobrevive a qualquer coisa.

— Esse é o seu erro — disse Sara, a voz subitamente baixa e perigosa. — Achar que, porque eu não choro e não faço manha, eu não posso sangrar.

Ela saiu da cozinha, deixando Emanuel sozinho na penumbra. Ele sentia-se dividido entre dois mundos. De um lado, o fogo de Sara, que o consumia e o mantinha alerta; do outro, as águas calmas de Eduarda, onde ele podia finalmente descansar. Ele queria as duas, mas o equilíbrio estava se tornando impossível.

Nas semanas seguintes, a convivência tornou-se um exercício de tortura psicológica. Sara começou a ser sutil. Ela deixava lingeries provocantes jogadas no caminho de Eduarda, fazia comentários maldosos sobre o corpo "infantil" da garota e, sempre que Emanuel não estava por perto, cercava Eduarda com perguntas invasivas sobre sua vida sexual.

— Então, ele foi gentil com você, não foi? — perguntou Sara um dia, encontrando Eduarda na biblioteca. — Ele gosta de fingir que é um cavalheiro com meninas como você. Mas saiba que, comigo, ele é um animal. Ele gosta de marcas, gosta de gritos. Você acha que consegue dar a ele o que ele realmente precisa?

Eduarda sentiu o rosto queimar. Ela apertou o livro contra o peito, sentindo-se pequena e inadequada.

— O Emanuel gosta de mim do jeito que eu sou — respondeu ela, a voz falhando.

— Por enquanto — Sara sorriu, aproximando-se e tocando uma mecha do cabelo de Eduarda. — Mas a inocência é como uma tatuagem nova, querida. No começo é linda, mas depois de um tempo, ela cicatriza e vira apenas parte da pele. E aí, ele vai querer outra coisa. Outra emoção. E você não tem nada para oferecer além desse silêncio irritante.

Eduarda saiu correndo da sala, as lágrimas escorrendo livremente. Ela se trancou no quarto e chorou até que Emanuel chegasse em casa.

Quando ele entrou e a viu naquele estado, a fúria dele atingiu o ápice. Ele não precisou de explicações; ele sabia quem era a culpada.

Ele caminhou até o quarto de Sara. Ela estava sentada diante da penteadeira, removendo a maquiagem.

— O que você disse para ela? — perguntou ele, a voz fria como aço.

— Apenas a verdade, Emanuel. A verdade dói para quem vive em um conto de fadas.

— Chega, Sara. Eu não vou mais tolerar isso. Se você não consegue conviver em paz, talvez seja melhor você passar um tempo em um dos meus apartamentos em Miami.

Sara parou o movimento da mão. Ela olhou para ele através do espelho. O choque em seus olhos foi rapidamente substituído por uma determinação gélida.

— Você está me expulsando? Por causa dela?

— Não estou te expulsando. Estou dando um tempo para as coisas se acalmarem.

— Você vai se arrepender disso, Emanuel — disse ela, levantando-se devagar. — Você acha que ela é um anjo, mas até os anjos caem. E quando ela cair, eu não estarei aqui para te ajudar a juntar os pedaços.

Sara pegou uma mala de grife e começou a jogar suas roupas dentro, com uma fúria controlada. Emanuel observava, sentindo um peso no peito. Ele ainda a amava, mas a paz de Eduarda tinha se tornado sua prioridade absoluta.

Naquela noite, o apartamento ficou silencioso. Sara partira com um rastro de perfume e promessas de vingança. Emanuel foi até o quarto de Eduarda. Ela estava deitada, os olhos inchados, parecendo ainda mais frágil sob os lençóis.

— Ela foi embora? — perguntou ela, em um sussurro.

— Por um tempo — ele respondeu, sentando-se na beirada da cama e acariciando o rosto dela. — Agora somos só nós dois.

Eduarda sorriu, um sorriso pequeno e vitorioso que Emanuel não percebeu. Ela se aconchegou nos braços dele, sentindo-se finalmente segura.

— Eu te amo, Emanuel. Obrigada por me proteger.

— Eu sempre vou te proteger, pequena.

Emanuel acreditava que tinha resolvido o problema. Ele acreditava que, removendo o elemento caótico, a harmonia reinaria. Mas ele não conhecia Sara o suficiente para saber que ela nunca abandonaria o campo de batalha de forma definitiva. E ele não conhecia Eduarda o suficiente para perceber que, por trás daquela timidez e daquela manha, havia uma necessidade de posse tão grande quanto a dele.

Enquanto Emanuel adormecia com Eduarda em seus braços, em algum lugar da cidade, Sara ligava para o primo de Emanuel, Rodrigo.

— Precisamos conversar, Rodrigo — disse Sara, a voz carregada de veneno. — O Emanuel cometeu o maior erro da vida dele, e eu vou precisar da sua ajuda para mostrar isso a ele.

A guerra não havia terminado. Ela apenas mudara de cenário. E no centro de tudo, Emanuel continuava tentando tatuar a felicidade em uma pele que já estava marcada demais pelo conflito entre a vulgaridade que o excitava e a doçura que o acalmava. O que ele ainda não sabia era que, no final, talvez não sobrasse pele intacta para ninguém.