Voltar ao resumo

D

O Labirinto de Vidro e o Peso da Proteção

O ar na cobertura de luxo parecia ter se tornado sólido, uma massa invisível de tensão que dificultava até o ato de respirar. Emanuel, agora com vinte e cinco anos, mas carregando a expressão de alguém que já viveu um século de batalhas, observava Eduarda através da fumaça de seu charuto. O escritório, adornado com esboços de tatuagens que valiam fortunas e troféus de suas conquistas empresariais, parecia pequeno demais para a discussão que se desenrolava.

Eduarda estava parada perto da janela, a silhueta de oito meses de gravidez destacada contra as luzes de São Paulo. Ela usava um vestido largo de algodão orgânico, os pés descalços afundando no tapete persa. A fragilidade que Emanuel tanto amava ainda estava lá, mas havia algo novo em seus olhos castanhos: uma centelha de resistência que ele nunca esperara encontrar.

— Eu já disse que não, Eduarda. Não é uma sugestão, é uma decisão. Amanhã você liga para a Helena e avisa que seu ciclo na galeria se encerrou. — A voz de Emanuel era firme, o tom de quem comanda impérios de tinta e investimentos.

Eduarda virou-se devagar, as mãos pequenas repousando sobre o ventre proeminente onde o pequeno Arthur se agitava.

— Você não pode fazer isso, Emanuel. Eu não sou uma das suas funcionárias que você demite quando o humor muda. Eu sou a mãe do seu filho. Eu sou a mulher que... — Ela hesitou, a voz falhando por um segundo. — Eu sou a mulher que encontrou um propósito naquele lugar.

— O seu propósito agora é garantir que esse bebê nasça saudável. Você está no oitavo mês! Você quase desmaiou na semana passada enquanto organizava aquele catálogo de arte contemporânea. Você acha que eu sou cego? — Ele se levantou, a estatura imponente projetando uma sombra sobre ela.

— Foi só um calor excessivo, Emanuel! — Ela deu um passo à frente, e para a surpresa dele, não recuou. — Eu passo o dia inteiro nesta casa sendo observada pela Sara, sentindo o julgamento dela em cada respiração. A galeria é o único lugar onde eu sou a Eduarda, a curadora assistente, e não apenas a "menina grávida" que você mantém em uma gaiola de ouro.

— A Sara não tem nada a ver com isso — mentiu ele, embora soubesse que a presença ácida da loira tornava a casa um ambiente tóxico. — Eu estou protegendo você. O mundo lá fora é perigoso, o estresse é perigoso.

Eduarda sentiu o lábio inferior tremer. O choro, sua arma mais antiga e instintiva, começou a transbordar. Mas desta vez, não era apenas tristeza; era uma manha misturada com desespero.

— Você quer me trancar! — Ela soluçou, as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto redondo e doce. — Você quer que eu fique aqui, murchando, enquanto você sai para o mundo. Eu não vou sair, Emanuel! Eu não vou!

— Eduarda, pare com esse escândalo. Sente-se. — Ele tentou se aproximar para tocá-la, mas ela se esquivou com um movimento rápido.

— Não me toque! — Ela se jogou na poltrona de couro, encolhendo as pernas e abraçando a barriga, soluçando de forma convulsiva. — Você é um tirano. Você diz que me ama, mas só ama o controle que tem sobre mim. Se você me tirar da galeria, eu... eu vou ficar doente de verdade. O Arthur vai sentir minha tristeza!

Emanuel passou a mão pelo cabelo curto, sentindo a irritação subir pela nuca. Ele odiava conflitos emocionais, especialmente com Eduarda, porque a vulnerabilidade dela era seu ponto fraco. Ver aquela criatura tão pequena e sensível desmoronando diante dele causava uma rachadura em sua armadura pragmática.

— Não faça isso, Duda. Não use o bebê contra mim.

— Eu não estou usando nada! — Ela gritou entre soluços, a voz ficando aguda e manhosa, quase infantil na sua dor. — Eu só quero ter algo que seja meu! Por que você me deixa ter joias, mas não me deixa ter um trabalho? Por que eu posso morar aqui, mas não posso respirar lá fora?

Do corredor, o som de saltos altos anunciou a chegada da tempestade. Sara apareceu na porta, encostada no batente com uma elegância predatória. A barriga de Valentina, embora discreta para os oito meses, era um lembrete constante da dualidade em que Emanuel vivia.

— Mas que sinfonia deliciosa — ironizou Sara, cruzando os braços sobre os seios siliconados. — O que foi agora? A bonequinha de porcelana descobriu que a vitrine tem tranca?

— Saia daqui, Sara — ordenou Emanuel, sem desviar os olhos de Eduarda.

— Ah, não, querido. Eu quero ver até onde vai essa atuação. — Sara caminhou até o centro da sala, ignorando o comando. — Ela é boa, Emanuel. Essa manha toda, esse choro... ela sabe que você se derrete. Mas quer saber a verdade? Ela tem razão. A galeria é o único lugar onde ela não tem que olhar para a minha cara e lembrar que você ainda me fode todas as noites.

Eduarda soltou um gemido de dor emocional, escondendo o rosto nas mãos.

— Pare com isso, Sara! — Emanuel rugiu, a paciência se esgotando.

— Pare você! — Sara rebateu, a voz subindo de tom. — Você a proíbe de trabalhar porque tem medo de que ela conheça alguém normal. Alguém que não seja um tatuador rico e possessivo que mantém duas mulheres grávidas em cativeiro emocional. Você tem medo de que ela perceba que pode ser feliz sem você.

Emanuel caminhou até Sara e segurou seu braço com firmeza, mas seus olhos voltaram-se para Eduarda, que agora soluçava baixinho, com os ombros sacudindo. O contraste era insuportável: a agressividade vulgar de Sara e a fragilidade manhosa de Eduarda.

— Eu não vou permitir que ela se coloque em risco — disse Emanuel, voltando-se para Eduarda. — Duda, olhe para mim.

Eduarda levantou o rosto, os olhos vermelhos e inchados, a expressão de uma criança perdida.

— Eu não vou sair — ela sussurrou, a voz trêmula, mas carregada de uma teimosia que Emanuel nunca vira. — Eu vou amanhã. E depois. E depois. Se você quiser me impedir, terá que me trancar no quarto.

Emanuel sentiu um soco no estômago. O instinto de proteção dele estava colidindo com o desejo dela de identidade. Ele olhou para a barriga dela, onde o Arthur parecia chutar em protesto ao estresse da mãe.

— Você está batendo o pé como uma criança, Eduarda.

— E você está agindo como um dono, Emanuel! — Ela se levantou com dificuldade, a respiração ofegante. — Eu amo você. Eu amo a vida que você me deu. Mas se eu perder a galeria, eu perco a última parte de mim que não pertence a você ou à Sara. E eu não vou entregar isso.

Ela passou por ele, esbarrando no ombro de Sara com uma coragem súbita, e saiu do escritório. O som da porta do quarto dela batendo ecoou pelo corredor.

Sara soltou uma risadinha nervosa e pegou um copo de água sobre a mesa.

— Ela está crescendo, Emanuel. Cuidado. Rosas com espinhos são mais difíceis de manusear do que as de plástico.

— Cala a boca, Sara. Apenas... cala a boca.

Emanuel ficou sozinho no escritório. Ele se sentou na poltrona, sentindo o peso da decisão. Ele queria que ela saísse da galeria por medo. Medo de que ela se machucasse, medo de que ela visse o mundo e percebesse que ele, Emanuel, era um caos organizado. Ele olhou para suas próprias mãos tatuadas — mãos que criavam arte, mas que também apertavam demais o que amavam.

Cerca de uma hora depois, ele caminhou até o quarto de Eduarda. A porta estava trancada, algo que ela nunca fazia.

— Duda? Abra a porta.

Nenhuma resposta. Apenas o silêncio pesado.

— Pequena, vamos conversar. Eu não quero brigar com você.

— Vá embora, Emanuel — a voz dela veio abafada pelo travesseiro. — Vá ficar com a Sara. Ela não chora, ela não faz manha. Vá ficar com a mulher que você não precisa proteger.

Aquelas palavras o atingiram fundo. Ele encostou a testa na madeira da porta.

— Eu não quero estar com a Sara agora. Eu quero estar com você. Eu quero saber se você e o Arthur estão bem.

Após alguns minutos, ele ouviu o clique da fechadura. A porta se abriu apenas um pouco. Eduarda estava lá, com os olhos ainda mais inchados, segurando um urso de pelúcia contra o peito, uma imagem de pura vulnerabilidade.

— Eu não vou sair da galeria — ela repetiu, a voz manhosa voltando, mas a determinação ainda presente. — Por favor, Emanuel... não me tire isso.

Emanuel entrou no quarto e a envolveu em seus braços. Ela se encaixou nele, o ventre grande criando um espaço entre seus corpos, mas a conexão emocional estava lá, vibrante e dolorosa.

— Você é a criatura mais teimosa que eu já conheci — sussurrou ele, beijando o topo da cabeça dela.

— Eu aprendi com o melhor — ela respondeu, escondendo o rosto em seu pescoço. — Promete que não vai me proibir? Promete que vai confiar em mim?

Emanuel fechou os olhos. Ele sabia que, ao ceder, estava abrindo mão de uma parte de seu controle, algo que o aterrorizava. Mas ver a luz voltando aos olhos dela, mesmo através das lágrimas, era um preço que ele estava começando a aceitar pagar.

— Tudo bem, Duda. Você continua na galeria. Mas com condições.

— Quais? — Ela se afastou um pouco, olhando-o com expectativa.

— O motorista vai te deixar na porta e te buscar na porta. Você vai ter um intervalo de descanso de duas horas no meio do dia, em uma poltrona que eu vou mandar entregar lá. E se a Helena me ligar dizendo que você teve uma tontura que seja... o acordo acaba. Entendido?

Eduarda sorriu, um sorriso radiante que iluminou o quarto escuro. Ela o abraçou com força, cobrindo seu rosto de beijos.

— Entendido! Obrigada, Emanuel! Eu te amo, eu te amo tanto!

— Eu também te amo, pequena. Até demais para o meu próprio bem.

Ele a deitou na cama e ficou ali, acariciando sua barriga até que ela adormecesse. Arthur finalmente se acalmou, e a paz parecia ter retornado, pelo menos temporariamente.

No entanto, ao sair do quarto, Emanuel encontrou Sara no corredor, observando-o com um olhar que ele não conseguiu decifrar.

— Você cedeu — disse ela, não como uma pergunta, mas como uma constatação.

— Eu fiz o que era necessário para ela ficar bem.

— Você é fraco por ela, Emanuel. E essa fraqueza vai ser a sua ruína. — Sara deu um passo à frente, tocando o peito dele com o dedo indicador. — Você acha que a protegeu hoje. Mas você apenas deu a ela o gosto da liberdade. E mulheres como a Eduarda, uma vez que descobrem que podem bater o pé e vencer... elas não param mais.

— Ela não é como você, Sara. Ela não tem malícia.

— A maternidade cria malícia, querido. Ela está protegendo o território dela agora. E o território dela é você e o futuro desse menino. — Sara sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Prepare-se. O oitavo mês é só o começo. Quando esses bebês nascerem, você não vai ter que lidar com duas mulheres. Vai ter que lidar com duas leoas. E eu garanto que eu mordo muito mais forte.

Sara virou as costas e entrou em seu quarto, batendo a porta com força.

Emanuel ficou parado no corredor escuro, entre as duas portas, entre os dois mundos. Ele sentia que estava caminhando sobre uma corda bamba esticada sobre um abismo. Ele tinha a doçura de Eduarda e o fogo de Sara, mas o equilíbrio estava se tornando uma ilusão.

Ele olhou para suas mãos novamente. Elas tremiam levemente. Pela primeira vez em sua vida racional e prática, Emanuel percebeu que não importava o quanto ele tentasse tatuar o destino, a tinta sempre encontrava uma maneira de borrar. A galeria era apenas o começo. A verdadeira batalha pela alma daquela casa e pelo coração dele estava prestes a atingir o ponto de ruptura. E ele, o mestre do controle, estava começando a perceber que, no jogo do amor e da possessividade, ninguém sai sem cicatrizes.