D
Laços de Sangue e Sombras de Ciúme
O silêncio da madrugada na cobertura de luxo em São Paulo era rompido apenas pelo som rítmico da chuva batendo contra as imensas vidraças. Emanuel, aos 25 anos, sentia o peso de uma vida que parecia ter envelhecido uma década em apenas alguns meses. Ele estava sentado na beirada da cama king-size, observando Eduarda dormir. A luz suave do abajur revelava as feições angelicais da jovem de vinte anos, cuja barriga de quatro meses já começava a desenhar uma curva nítida sob o pijama de seda clara.
De repente, um movimento brusco sob o tecido chamou sua atenção. Eduarda soltou um suspiro manho e despertou, levando a mão ao ventre com um sorriso sonolento.
— Ele acordou, Emanuel... — sussurrou ela, a voz carregada de uma doçura que sempre desarmava o tatuador. — O Arthur está fazendo uma festa aqui dentro.
Emanuel aproximou-se e espalmou a mão grande e tatuada sobre a pele macia de Eduarda. No mesmo instante, sentiu um chute firme, um golpe vigoroso que parecia responder ao seu toque. O pequeno Arthur era um turbilhão de energia desde o início.
— Ele é forte — disse Emanuel, sentindo um calor estranho no peito, uma conexão visceral que o assustava pela intensidade. — Agitado como o pai.
— Ele não está só agitado, Emanuel — Eduarda fez um biquinho manhoso, puxando a mão dele para mais perto. — Ele está com fome. Muita fome. E ele quer... ele quer pão de queijo recheado com doce de leite. Agora.
Emanuel soltou uma risada baixa, passando a mão pelo rosto cansado. Eram três da manhã.
— Pão de queijo com doce de leite, Duda? Onde eu vou achar isso essa hora?
— Eu não sei... — ela murmurou, os olhos começando a lacrimejar com aquela sensibilidade extrema da gravidez. — Mas o Arthur não para de pular. Ele não vai me deixar dormir se não ganhar o que quer.
Emanuel suspirou, mas não havia irritação em seu gesto. Ele se levantou, vestiu uma jaqueta de couro sobre a camiseta preta e beijou a testa de Eduarda.
— Fique aqui. Eu vou encontrar. Não chore, pequena.
Enquanto descia pelo elevador privativo, o pensamento de Emanuel inevitavelmente vagou para o outro lado do corredor da cobertura, onde Sara dormia. A situação era um campo minado emocional. Ter as duas mulheres grávidas ao mesmo tempo, vivendo sob o mesmo teto, era um experimento social perigoso que ele insistia em controlar.
Sara estava grávida de Valentina. A gestação da loira era o oposto da de Eduarda: calma, silenciosa, quase imperceptível se não fosse pelo leve arredondamento de suas curvas siliconadas. Valentina quase não chutava, e Sara não sentia desejos estranhos. Para uma mulher que sempre gostou de ser o centro das atenções, essa "calmaria" biológica era uma tortura.
Emanuel dirigiu pelas ruas desertas até uma padaria 24 horas nos Jardins. Enquanto esperava o pedido, a culpa o atingiu como um soco. Eduarda era tão nova. Ela deveria estar focada apenas nos livros da faculdade de artes, aproveitando a juventude, e agora carregava o peso de uma responsabilidade imensa e de um relacionamento triplo que a esmagava em silêncio. Ele sentia que tinha roubado algo dela, mesmo que ela garantisse que estava feliz.
Ao retornar ao apartamento, ele passou pela suíte de Sara. A porta estava entreaberta e a luz do corredor iluminou a figura da loira, sentada na poltrona, observando a escuridão.
— Onde você estava? — perguntou Sara, a voz rouca e carregada de veneno.
— Saindo para buscar algo para a Eduarda. Desejos — respondeu Emanuel, tentando passar direto.
Sara levantou-se, o robe de seda preta revelando a barriga discreta. Ela caminhou até ele, parando a poucos centímetros.
— Desejos. Claro. A "santinha" quer pão de queijo e você corre como um cachorrinho — ela riu, um som amargo. — A Valentina está aqui há horas sem se mexer, Emanuel. Eu não sinto nada. Às vezes acho que ela nem quer nascer nesta casa de loucos.
— Não comece, Sara. Você sabe que eu cuido de você também.
— Cuida? Você olha para a barriga dela como se houvesse um milagre ali dentro. Para a minha, você olha como se fosse um compromisso de agenda — Sara tocou o braço tatuado dele, os olhos fixos nos dele. — Você prefere o filho dela, não prefere? Prefere o menino.
Emanuel sentiu um nó na garganta. Ele não queria admitir, nem para si mesmo, mas a agitação de Arthur, a forma como o bebê parecia interagir com ele, criava uma euforia que Valentina não despertava. Era uma preferência involuntária que o consumia de remorso.
— Eu amo os dois, Sara. E vou dar o melhor para os dois. Agora volte a dormir.
Ele entrou no quarto de Eduarda, que o esperava sentada na cama, os olhos brilhando ao ver a sacola.
— Você conseguiu! — ela exclamou, pegando um pão de queijo e mergulhando no pote de doce de leite. — O Arthur parou na hora. Veja, ele está calminho agora.
Emanuel sentou-se ao lado dela, observando-a comer com uma satisfação quase infantil.
— Duda... você tem certeza de que está bem com tudo isso? A faculdade, a Sara aqui... eu sinto que te joguei em um turbilhão.
Eduarda parou de comer por um momento, olhando para ele com uma seriedade rara.
— Às vezes eu tenho medo, Emanuel. A Sara me olha como se quisesse me apagar. E eu me sinto pequena perto de tudo o que você tem. Mas aí o Arthur chuta, e eu sinto que você está aqui para nos segurar se a gente cair. Eu só quero que ele tenha um pai presente.
— Ele terá. Eu prometo — Emanuel a puxou para um abraço, sentindo o perfume de baunilha dela. — Eu vou construir um mundo seguro para vocês dois.
No dia seguinte, o clima na mesa do café da manhã era gélido. Sara fazia questão de exibir sua independência, folheando revistas de moda e ignorando a presença de Eduarda, que se encolhia em sua cadeira, tentando não incomodar.
— Vou marcar uma sessão de fotos para a revista — anunciou Sara, sem olhar para ninguém. — Quero registrar a Valentina enquanto eu ainda tenho corpo para isso. Não pretendo ficar enorme e desleixada.
O comentário foi uma flecha direta para Eduarda, que havia ganhado um pouco mais de peso devido à retenção de líquido.
— Eu acho que a gravidez deixa a mulher mais bonita, independente do peso — interveio Emanuel, o tom de voz subindo um oitavo.
— Ah, claro — ironizou Sara, levantando-se. — A beleza da "maternidade pura". Pena que a faculdade dela não ensine como lidar com um bebê de verdade enquanto o "marido" está na cama de outra.
— Sara! — Emanuel bateu com a mão na mesa. — Chega!
Eduarda levantou-se rapidamente, os olhos cheios de lágrimas.
— Eu vou para o meu quarto estudar. Com licença.
Emanuel viu-a sair e sentiu uma irritação profunda com Sara, mas também um desejo latente. A agressividade dela ainda o atraía, uma chama que a doçura de Eduarda não conseguia apagar. Ele se levantou e segurou o braço de Sara.
— Você não cansa de ser cruel?
— Eu não sou cruel, Emanuel. Eu sou realista. Você está tentando manter um anjo e um demônio sob o mesmo teto. Uma hora, o anjo vai perder as asas ou o demônio vai queimar a casa toda.
Ela se soltou e saiu rebolando, deixando Emanuel sozinho com seus pensamentos.
Mais tarde, ele foi até o estúdio de tatuagem que mantinha em casa para trabalhar em alguns desenhos. Ele estava concentrado em uma fênix quando sentiu mãos pequenas massageando seus ombros. Era Eduarda.
— O Arthur está agitado de novo? — perguntou ele, relaxando sob o toque dela.
— Não... ele está quieto. Eu só queria ficar perto de você. Sinto que você está longe, mesmo estando aqui.
Emanuel virou a cadeira e a puxou para o seu colo. A barriga de quatro meses se encaixava perfeitamente contra ele.
— Eu estou aqui, pequena. Só estou tentando resolver as coisas.
— Você ainda a ama? — a pergunta de Eduarda foi direta, desprovida de sua habitual timidez.
Emanuel olhou nos olhos dela, vendo a vulnerabilidade e a esperança misturadas.
— Eu tenho uma história com a Sara, Duda. É um sentimento diferente. Mas o que eu sinto por você... é algo que eu nunca pensei que teria. Você me trouxe paz. E o Arthur... ele é a prova de que algo mudou em mim.
— Eu queria que fôssemos só nós três — sussurrou ela, escondendo o rosto no peito dele. — Tenho medo de que a Valentina e o Arthur cresçam se odiando por causa dela.
— Eu não vou deixar isso acontecer. Eles são irmãos. Eu sou o sangue deles.
Naquela noite, Emanuel decidiu que precisava dar atenção a Sara. Ele entrou no quarto dela e a encontrou deitada, olhando para o teto. Ele se deitou ao lado dela e colocou a mão sobre sua barriga. Valentina estava quieta, como sempre.
— Ela é tão calma — murmurou ele.
— Ela sente o clima desta casa, Emanuel — disse Sara, a voz desprovida de sarcasmo pela primeira vez. — Ela sabe que não é a favorita.
— Não diga isso. Ela é minha filha. Eu já a amo.
— Mas você ama o Arthur mais. Eu vejo nos seus olhos quando você fala dele. Você se sente culpado pela Eduarda ser nova, então compensa com uma adoração ridícula por aquele menino.
Emanuel não respondeu. A verdade doía. Ele sentia uma inclinação natural pelo filho de Eduarda, talvez por ser seu primeiro filho homem, ou talvez pela forma como Eduarda se entregava à maternidade.
— Eu vou ser um bom pai para a Valentina, Sara. Eu prometo.
— Espero que sim. Porque se você a negligenciar, eu juro que sumo com ela e você nunca mais nos verá.
A ameaça de Sara não era vazia. Emanuel sabia que ela era capaz de tudo. Ele a puxou para um beijo, um beijo carregado de tensão e de uma paixão que beirava o ódio. Eles se amaram naquela noite com uma fúria desesperada, como se tentassem apagar a existência da outra mulher no quarto ao lado.
Horas depois, Emanuel saiu da cama de Sara e caminhou pelo corredor silencioso. Ele parou diante da porta de Eduarda e entrou sem fazer barulho. Ela dormia com um livro de história da arte aberto ao lado do travesseiro. Ele o fechou, cobriu-a e ficou ali, observando-a.
Ele tinha 25 anos, um império aos seus pés, e estava perdendo o sono por causa de dois bebês que ainda nem tinham nascido. Ele sentia-se um gigante cercado por porcelana e navalhas.
Arthur deu um chute forte, visível mesmo sob o cobertor. Emanuel sorriu involuntariamente.
— Calma, garotão — sussurrou ele. — Eu já volto.
Ele sabia que a vida que levava era insustentável a longo prazo. A rivalidade entre as duas só aumentaria com o nascimento das crianças. Sara nunca aceitaria a doçura de Eduarda, e Eduarda nunca teria a casca grossa necessária para enfrentar Sara de igual para igual. E no centro de tudo, ele, o tatuador que gostava de marcar a pele dos outros, percebia que as marcas mais profundas estavam sendo feitas em sua própria alma.
Ele voltou para o seu escritório e pegou um caderno de esboços. Começou a desenhar dois nomes entrelaçados: Arthur e Valentina. Independentemente das mães, ele faria com que aqueles dois se amassem. Era sua única esperança de redenção.
A madrugada avançava e Emanuel continuava ali, entre o desejo de pão de queijo com doce de leite e a ameaça de um abandono iminente. Ele era o mestre de seu destino, mas naquele momento, sentia-se apenas um espectador da força da natureza que era a paternidade duplicada. O caos e a doçura agora tinham nomes, e ele teria que aprender a viver com ambos, ou ver seu império desmoronar sob o peso de dois berços.