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O Peso da Linhagem e a Suavidade do Ventre

O sol da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro da cobertura, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Emanuel estava sentado à mesa de carvalho maciço, com vários tablets e croquis de novas tatuagens espalhados à sua frente. No entanto, sua concentração, geralmente infalível, estava fragmentada. Seus olhos vagavam constantemente para as duas mulheres que agora compartilhavam seu teto e sua vida de forma definitiva.

Oito meses haviam se passado desde aquela noite que mudara tudo. O que começou como uma experiência perigosa proposta por Sara transformou-se em uma estrutura doméstica complexa e, por vezes, sufocante. Mas o verdadeiro nó cego dessa história não era mais apenas a convivência; era o fato de que, agora, o futuro de Emanuel estava crescendo em dose dupla.

Eduarda estava sentada na poltrona perto da varanda, com um livro de História da Arte sobre o colo, embora não estivesse lendo. Ela usava um vestido de malha leve cor de pêssego, que abraçava a curva já nítida de sua barriga de quatro meses. Havia algo de quase etéreo nela sob a luz matinal.

— Emanuel... — a voz dela saiu pequena, manhosa, como sempre acontecia quando ela queria sua atenção. — Ele chutou de novo. Eu acho que o Arthur está com pressa de conhecer o mundo.

Emanuel sentiu um sorriso involuntário surgir em seus lábios. Ele se levantou, ignorando o projeto de uma filial em Tóquio, e caminhou até ela. Ajoelhou-se entre as pernas de Eduarda e colocou a mão grande e tatuada sobre o ventre dela. O toque era leve, quase reverente.

— Arthur, hein? — ele murmurou, sentindo uma vibração suave sob a palma da mão. — Você tem tanta certeza de que é um menino.

— Eu sinto, Manu — ela respondeu, passando os dedos pelos cabelos curtos dele, o olhar transbordando aquela doçura que o desarmava. — Ele vai ser forte como você, mas espero que tenha um pouquinho da minha calma.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, permitindo-se sentir aquela paz que apenas Eduarda proporcionava. Com ela, a gravidez parecia um milagre silencioso, algo que ele queria proteger do mundo exterior. Ele se sentia culpado, é claro. Eduarda tinha apenas vinte anos, estava no meio da faculdade e, por causa dele, sua vida havia sido virada do avesso. Para compensar, ele a cercava de luxos: o colar de pérolas que ela usava agora fora um presente de "bom dia" na semana anterior.

— É claro que é um menino — a voz cortante de Sara veio da cozinha, quebrando o encanto. — Homens como você só pensam em herdeiros para carregar o sobrenome e as máquinas de tatuagem.

Sara apareceu no portal, segurando uma taça de suco verde com uma expressão de desdém. Ela estava grávida de cinco meses, apenas algumas semanas à frente de Eduarda. Mas nela, a gravidez parecia uma performance de poder. Sara usava um conjunto de seda justo, saltos altos — que o médico já recomendara evitar — e sua maquiagem estava impecável, como se estivesse pronta para uma sessão de fotos. O silicone em seus seios, agora mais volumosos pela gestação, parecia prestes a explodir sob o tecido caro.

— Bom dia para você também, Sara — disse Emanuel, levantando-se, sua expressão voltando à seriedade habitual.

— Não precisa fingir que está feliz em me ver, Manu — ela disse, caminhando até eles com um rebolado que a barriga proeminente não conseguia esconder. — Eu sei que você prefere ficar aí, paparicando a "santinha". Mas não se esqueça que a Valentina também precisa de atenção. E de joias novas, já que você parece estar distribuindo diamantes como se fossem balas para a Eduarda.

Emanuel suspirou, sentindo a tensão familiar subir pela sua nuca.

— Sara, eu já disse que não falta nada para você. Comprei aquele conjunto de safiras para você no mês passado.

— Safiras? — Sara riu, uma risada seca e amarga. — Aquilo foi um cala-boca. Eu vejo como você olha para ela. Você olha para a Eduarda como se ela estivesse carregando o Santo Graal. E para mim? Você olha como se eu fosse um problema administrativo que você não consegue resolver.

— Você está sendo injusta — Emanuel retrucou, cruzando os braços. — Eu cuido das duas. Eu protejo as duas.

— Proteger não é amar, Emanuel — Sara sibilou, aproximando-se dele, o perfume forte dela lutando contra a fragrância suave de lavanda que emanava de Eduarda. — Você está fascinado pela pureza dela, por essa barriga que parece que vai quebrar se você encostar. Mas eu sou a mulher que esteve ao seu lado quando você construiu metade desses estúdios. Eu não vou ser deixada de lado por causa de um bebê "manhoso".

Eduarda encolheu-se na poltrona, fechando o livro. Ela odiava confrontos. Seu coração batia rápido, e ela sentia a agitação do bebê em seu ventre, como se ele reagisse à energia negativa de Sara.

— Sara, por favor... — Eduarda pediu com a voz trêmula. — Não precisamos brigar. O Emanuel ama os dois bebês.

— Cala a boca, Eduarda! — Sara virou-se para ela, os olhos faiscando. — Você não sabe de nada. Você é só uma menina que se deixou engravidar pelo primeiro homem rico que viu pela frente para garantir a vida.

— Isso não é verdade! — Eduarda levantou-se, as lágrimas já inundando seus olhos grandes. — Eu amo o Emanuel. Eu nunca pedi nada disso.

— Chega! — o grito de Emanuel ecoou pela cobertura, fazendo as duas se calarem instantaneamente. — Sara, para o quarto. Agora.

— Você não manda em mim — ela desafiou, embora desse um passo para trás diante da fúria nos olhos dele.

— Eu disse agora! — ele repetiu, a voz num tom baixo e perigoso. — Você não vai estressar a Eduarda e nem a si mesma. Pense na sua filha, se é que você realmente se importa com o que a Valentina sente além de luxo.

Sara bufou, jogando o cabelo loiro para trás.

— Isso não acabou, Emanuel. Você acha que pode manter esse teatrinho de família feliz para sempre, mas uma hora a conta chega.

Ela saiu batendo os saltos contra o piso de porcelanato, o som ecoando como tiros até que a porta do quarto principal se fechasse com estrondo.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Emanuel voltou sua atenção para Eduarda, que estava soluçando silenciosamente, com as mãos protegendo a barriga.

— Vem cá — ele disse, puxando-a para um abraço apertado.

Eduarda enterrou o rosto no peito dele, sentindo o cheiro de tinta e sabonete caro. Ela se sentia tão pequena perto dele, tão dependente daquela força.

— Ela me odeia tanto, Manu... Eu tenho medo do que ela pode fazer quando os bebês nascerem.

— Eu não vou deixar nada acontecer — ele prometeu, beijando o topo da cabeça dela. — Eu tenho tudo sob controle.

Mas, no fundo, Emanuel sabia que era mentira. Pela primeira vez na vida, o controle que ele tanto prezava estava escapando por entre seus dedos. Ele estava fascinado por Eduarda grávida; havia uma beleza orgânica, quase sagrada, na forma como ela aceitava a maternidade. Com Sara, era uma batalha constante de egos, uma disputa de quem ocupava mais espaço na vida dele. Ele se sentia atraído pela intensidade de Sara, pelo fogo que ela ainda despertava nele, mas o que sentia por Eduarda era algo que ele nunca experimentara: uma necessidade de ser melhor, de ser um porto seguro.

Horas mais tarde, após deixar Eduarda descansando em seu quarto — ele fizera questão de decorar um quarto anexo para ela, todo em tons pastéis e móveis românticos —, Emanuel encontrou Sara na varanda. Ela estava fumando um cigarro eletrônico, observando as luzes da cidade começando a se acender.

— Você sabe que isso faz mal para o bebê — ele disse, aproximando-se.

— É sem nicotina, Emanuel. Não comece — ela respondeu, sem olhar para ele. — O que vamos fazer? De verdade?

— Vamos criar nossos filhos. Aqui. Com tudo do bom e do melhor.

— E como vai ser? — ela finalmente se virou, e ele viu que seus olhos estavam vermelhos. — Você vai dar um beijo na minha testa e depois correr para o quarto dela para ouvir o Arthur chutar? Você vai levar a Valentina para passear e depois comprar um anel de diamantes para a Eduarda porque ela "ficou triste"?

Emanuel não respondeu de imediato. Ele se aproximou e colocou as mãos na cintura dela, sentindo a firmeza do corpo de Sara, tão diferente da maciez de Eduarda.

— Eu quero as duas, Sara. Eu já te disse isso.

— Você é um egoísta — ela sussurrou, embora não se afastasse do toque dele. — E o pior é que eu sou tão viciada em você que aceito essas migalhas. Mas aquela menina... ela vai acabar com a gente, Manu. Não porque ela seja má, mas porque ela é o que você quer ser: alguém que não precisa de armaduras.

— Ela é jovem, Sara. Ela precisa de mim.

— E eu? — Sara perguntou, uma lágrima solitária estragando sua maquiagem perfeita. — Eu não preciso de você?

Emanuel a puxou para um beijo urgente, um beijo que carregava toda a toxicidade e a paixão dos últimos meses. Era uma forma de silenciar as perguntas que ele mesmo não sabia responder.

Enquanto isso, da fresta da porta, Eduarda observava a cena. Ela apertou o colar de diamantes em seu pescoço, sentindo uma pontada de tristeza. Ela era a favorita, ela sabia disso. Ele a tratava com uma delicadeza que Sara nunca conheceria. Mas ela também sabia que, enquanto Sara estivesse ali, ela nunca teria Emanuel por inteiro.

Ela voltou para a cama, deitando-se de lado e acariciando a barriga.

— Vai ficar tudo bem, Arthur — ela sussurrou para o escuro. — O papai vai cuidar da gente.

Naquela noite, Emanuel não dormiu. Ele ficou alternando entre os dois quartos, verificando se Eduarda estava coberta e se Sara tinha parado de chorar. Ele era o centro daquele universo caótico, o mestre de obras de uma estrutura fadada ao colapso, mas ele se recusava a deixar qualquer uma das peças cair.

No dia seguinte, ele apareceu com mais duas caixas. Para Sara, um relógio de ouro maciço, cravejado de rubis. Para Eduarda, um par de brincos de esmeralda que combinavam com a cor que seus olhos ficavam quando ela estava feliz.

Era a sua forma de manter a paz. Era a sua forma de exercer controle. Mas, conforme as barrigas cresciam e o tempo passava, Emanuel começava a perceber que nem todo o ouro do mundo poderia comprar a harmonia entre o fogo e a água. E ele, o tatuador que marcava a pele dos outros para sempre, estava começando a sentir as cicatrizes internas de uma escolha que não permitia volta.

A faculdade de Eduarda logo entraria em recesso para o parto, e Sara já planejava a festa de chá de revelação mais cara da cidade, apenas para ofuscar a quietude de Eduarda. O cenário estava montado para o próximo ato dessa tragédia luxuosa, onde o amor era uma moeda de troca e a inocência era a vítima mais provável.

Emanuel olhou para suas próprias mãos, as mãos que criavam arte e que agora seguravam o destino de duas vidas inocentes e duas mulheres desesperadas. Ele respirou fundo, fechou a porta do escritório e começou a desenhar o que seria sua próxima tatuagem: duas fênix entrelaçadas, lutando para voar enquanto suas caudas permaneciam presas ao mesmo solo. Era o retrato perfeito de sua vida.