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O Rugido do Pequeno Trovão e o Brilho da Mini Diva

O loft de Emanuel, que antes era um santuário de minimalismo, luxo e o cheiro onipresente de tinta de tatuagem, agora parecia o cenário de uma guerra tátil e barulhenta. Aos oito meses, Arthur não era apenas um bebê; ele era uma força da natureza, um pequeno furacão de cabelos castanhos e olhos curiosos que parecia ter herdado toda a energia acumulada e a intensidade do pai, mas com a disposição indomável de quem ainda não conhece a palavra "limite".

— Arthur! Não, meu amor, o pincel da mamãe não! — Eduarda exclamou, correndo pelo corredor de mármore com o rosto levemente suado.

Ela usava um vestido de algodão leve, romântico e fluido, mas que agora estava desalinhado. Eduarda tentava conciliar o final de sua tese em História da Arte com o fato de que seu filho havia decidido que as tintas a óleo de seus estudos eram muito mais interessantes do que qualquer brinquedo educativo e caro que Emanuel trouxesse para casa.

Arthur, rastejando com uma velocidade impressionante que desafiava as leis da física para um bebê de oito meses, soltou uma gargalhada ruidosa, um som puro e desafiador. Ele carregava um pincel seco na boca como se fosse um troféu, indo em direção à sala onde Sara tentava manter sua sanidade.

— Tira essa criatura daqui, Eduarda! — Sara gritou, levantando os pés para cima do sofá de couro branco. — Ele acabou de tentar morder o meu salto de verniz! Emanuel, faça alguma coisa!

Sara estava sentada no outro extremo da sala, impecável como sempre. Mesmo em casa, ela não abandonava o visual de "mulher de negócios que não trabalha". Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e tenso, e em seus braços, Valentina, também de oito meses, observava tudo com um olhar de profundo desdém.

Valentina era o oposto absoluto do irmão. Vestida em um conjunto de grife rosa choque, com um laço de fita maior que sua própria cabeça e pequenos brincos de brilhantes que Emanuel fora forçado a comprar na semana do nascimento, ela era a "mini diva" de Sara. A bebê não engatinhava se houvesse o risco de sujar os joelhos; ela preferia ser carregada, balançando seus pezinhos calçados com sapatos de sola de couro macio, observando o caos ao redor com uma expressão blasé que era a cópia fiel da mãe.

— Ele é só um bebê, Sara — Emanuel disse, saindo do seu escritório particular.

Ele parecia exausto, mas no momento em que seus olhos encontraram o pequeno Arthur, que agora tentava escalar a perna da mesa de centro de vidro, um brilho diferente surgiu em seu olhar. Emanuel pegou o filho no colo com um movimento ágil. Arthur imediatamente parou de tentar destruir a mobília e começou a puxar a gola da camiseta preta do pai, tentando alcançar as tatuagens que subiam pelo pescoço de Emanuel.

— Dá, dá! — Arthur balbuciou, batendo as mãozinhas gorduchas nos desenhos de tinta na pele do pai.

— Ele é fascinado por isso, não é? — Emanuel murmurou, dando um beijo no topo da cabeça do menino, que cheirava a talco e aventura. — Você quer ser tatuador como o papai, pequeno trovão?

— Ele quer é destruir a casa, isso sim — Sara resmungou, ajeitando Valentina no colo. — Olhe para a sua filha, Emanuel. Ela é uma lady. Não faz esse barulho infernal, não quebra nada e já sabe que o lugar dela é no topo. Valentina é classe pura. Já esse aí... é um bárbaro.

Emanuel olhou para Valentina. Ele a amava, sentia um orgulho imenso da beleza clássica da filha e da forma como ela parecia ter nascido pronta para o tapete vermelho. Era fácil lidar com Valentina; ela era previsível, elegante e exigia apenas luxo e silêncio. Mas Arthur... Arthur era um desafio. Arthur era o fogo que Emanuel sentia dentro de si, mas transformado em alegria e caos.

— Arthur tem personalidade, Sara — Emanuel respondeu, sentando-se no sofá, ainda com o menino tentando "limpar" as tatuagens de seu braço com a palma da mão. — Ele é intenso.

— Ele é um terrorista — Sara corrigiu, levantando-se. — Vamos, Valentina. Vamos para o quarto porque o cheiro de "bebezinho comum" e suor de correria da sua madrasta está me dando dor de cabeça.

Eduarda, que finalmente alcançara a sala, parou na entrada, respirando fundo. Ela ouviu o comentário de Sara, mas, como sempre, preferiu o silêncio. Ela se aproximou de Emanuel e sentou-se ao lado dele, encostando a cabeça em seu ombro.

— Ele está muito agitado hoje, Manu — ela sussurrou, a voz manhosa e cansada. — Acho que são os dentes.

— Ou talvez ele só queira ir ao estúdio — Emanuel sorriu. — Toda vez que eu o levo para ver as máquinas, ele fica paralisado. É o único lugar onde ele não tenta derrubar nada.

— Você não vai levar um bebê de oito meses para um estúdio de tatuagem, Emanuel! — Sara gritou do corredor. — É insalubre!

— É o meu estúdio, Sara. É mais limpo que um hospital — ele retrucou, sem se dar ao trabalho de levantar a voz.

Arthur, percebendo que a atenção estava voltada para ele, soltou um grito agudo de felicidade e acertou um tapa acidental no nariz de Emanuel. O tatuador soltou uma risada curta, algo raro de se ouvir.

— Viu só? — Emanuel disse para Eduarda. — Ele já está treinando o peso da mão.

— Eu só queria que ele dormisse um pouco — Eduarda confessou, fechando os olhos. — Ele me fez correr o loft inteiro três vezes só nesta manhã.

— Deite-se um pouco — Emanuel ordenou com suavidade, mas com aquela firmeza que não aceitava réplicas. — Eu cuido dele. Vou levá-lo para ver os novos desenhos.

Eduarda sorriu, grata. Ela se levantou, deu um beijo rápido em Arthur — que tentou morder sua bochecha em um gesto de carinho bruto — e foi para o quarto.

Emanuel ficou sozinho na sala com o filho. O contraste era fascinante. Valentina, no quarto ao lado, provavelmente estava sentada sobre um tapete de pele de carneiro, brincando com um chocalho de prata da Tiffany sob a supervisão de Sara. Arthur, por outro lado, agora estava no chão, tentando arrancar o tapete da sala para ver o que havia por baixo.

— Você não para, não é, garoto? — Emanuel murmurou, pegando o menino novamente e levando-o para o estúdio anexo no loft.

Assim que entraram no ambiente cheio de luzes fluorescentes, macas de couro e o brilho do aço inoxidável, o milagre aconteceu. Arthur ficou imóvel. Seus olhos grandes e expressivos, tão parecidos com os de Eduarda, mas com o brilho de aço de Emanuel, percorreram as paredes cobertas de artes.

Emanuel sentou o filho na bancada de mármore — mantendo a mão firme na cintura do bebê — e pegou uma máquina de tatuagem desligada.

— Olha aqui, Arthur. Isso aqui é o que o papai faz.

O bebê esticou a mãozinha, tocando o metal frio com uma reverência que ele não demonstrava por mais nada. Por dez minutos, o loft conheceu o silêncio. Foi uma conexão silenciosa entre pai e filho, um entendimento de linhagem que não precisava de palavras. Emanuel sentia uma pontada de algo que beirava a emoção pura. Ele amava Valentina, amava a delicadeza dela, mas Arthur... Arthur era a sua continuação bruta, sem filtros.

O silêncio, porém, durou pouco.

— Emanuel! A Valentina quer o tablet dela e eu não acho o carregador! — o grito de Sara rompeu a paz.

Arthur, assustado pelo som estridente, soltou a máquina e começou a chorar. Não era um choro de bebê comum; era um rugido de frustração.

— Ótimo, Sara! — Emanuel resmungou.

Ele pegou o filho e voltou para a sala. O caos recomeçou. Arthur, agora irritado por ter sido interrompido em seu momento de "estudo", decidiu que sua missão de vida era atormentar a irmã. Ele se soltou do colo de Emanuel assim que foi colocado no chão e rumou direto para o quarto de Sara.

— Não deixe ele entrar aqui! — Sara gritou, tentando fechar a porta, mas Arthur já havia enfiado a mãozinha gorda na fresta.

— Arthur, volta aqui! — Emanuel chamou, mas o menino era rápido.

Ele invadiu o quarto rosa e branco, indo direto para Valentina, que estava sentada em seu trono de almofadas. Arthur não queria bater; ele queria interação. Ele agarrou o laço de fita da cabeça de Valentina e puxou com força.

A menina, que raramente chorava, soltou um grito de indignação que faria uma rainha se orgulhar. Ela não chorou de dor, chorou de ofensa. Sara entrou em colapso.

— Ele destruiu o penteado dela! Emanuel, esse menino é um animal! Olha para ela, ela está traumatizada!

Valentina olhava para o irmão com um beicinho de puro nojo, enquanto Arthur balançava o laço rosa como se tivesse caçado uma fera na selva.

— É só um laço, Sara — Emanuel disse, entrando no quarto e pegando o filho, que agora soltava gargalhadas vitoriosas.

— Não é "só um laço", é a imagem dela! — Sara pegou Valentina no colo, que imediatamente se aninhou no silicone da mãe, escondendo o rosto como se o mundo fosse feio demais para ser olhado. — Eduarda! Venha buscar seu filho agora!

Eduarda apareceu na porta, com o cabelo bagunçado e os olhos sonolentos. Ela viu a cena: Sara furiosa, Valentina ofendida, Emanuel tentando não rir e Arthur em um estado de euforia absoluta.

— Oh, meu Deus... Arthur... — Eduarda suspirou, pegando o filho dos braços de Emanuel.

No momento em que o corpo de Arthur tocou o de Eduarda, a energia do menino começou a mudar. O "furacão" encontrou seu porto seguro. Ele enterrou o rosto no pescoço da mãe, soltando um suspiro longo.

— Ele está com fome — Eduarda disse, sentindo o pequeno corpo relaxar contra o seu. — É o único jeito de ele parar.

Ela se sentou na poltrona do corredor mesmo, sem se importar com a etiqueta, e começou a amamentar. O loft, subitamente, mergulhou em uma paz quase irreal. Arthur mamava com uma intensidade que era só dele, os olhos fixos nos de Eduarda, uma mãozinha agarrada ao colar de esmeraldas que Emanuel lhe dera.

Emanuel ficou parado no corredor, observando a cena. De um lado, no quarto principal, Sara reclamava enquanto retocava o laço de Valentina, que aceitava os cuidados com uma passividade real. Do outro, Eduarda amamentava o filho deles em um momento de entrega absoluta e silenciosa.

Ele sentiu aquela velha pressão no peito. O amor por Sara era uma corda esticada, cheia de tensão, história e uma paixão que queimava. O amor por Eduarda era um bálsamo, uma necessidade de proteção e uma ternura que o assustava. E os bebês... eles eram o reflexo perfeito de suas mães, amplificados pela genética de Emanuel.

— Ele finalmente apagou — Eduarda sussurrou, cerca de vinte minutos depois.

Arthur estava em um sono profundo, os lábios entreabertos, parecendo um anjo que nunca seria capaz de tentar morder um sapato de grife ou puxar um laço de fita.

Emanuel aproximou-se e pegou o filho com cuidado, levando-o para o berço no quarto de Eduarda. Ele ficou ali por um tempo, observando o peito do menino subir e descer.

— Ele vai dar trabalho, não vai? — Eduarda perguntou, parando ao lado dele.

— Muito — Emanuel admitiu, passando o braço pela cintura dela. — Ele é como eu, Eduarda. Ele não sabe querer pouco. Ele quer o mundo todo, e quer agora.

— E a Valentina?

— Valentina já acha que o mundo pertence a ela. Ela só está esperando que entreguem a chave em uma bandeja de prata.

Eduarda riu baixinho, encostando a cabeça no peito dele.

— Você gosta disso, não gosta? Desse caos.

Emanuel olhou para a porta, onde Sara passava agora, carregando Valentina como se estivesse em uma passarela, lançando um olhar de advertência para os dois.

— Eu não saberia viver de outro jeito — ele confessou. — Mas às vezes eu só queria que o Arthur não tentasse tatuar o sofá com canetinha permanente.

— Ele tentou o quê? — Eduarda se afastou, os olhos arregalados.

— Ontem, enquanto você estava no banho. Eu consegui limpar antes que a Sara visse, ou ela teria tido um enfarto.

Eles compartilharam um sorriso cúmplice, um pequeno segredo naquela casa onde tudo era disputado. Emanuel sabia que a paz era temporária. Em poucas horas, Arthur acordaria como um trovão, Valentina exigiria seu próximo acessório de luxo, e Sara e Eduarda continuariam sua dança de silêncios e confrontos.

Mas, enquanto observava o filho dormir e sentia o perfume de Eduarda, Emanuel sentia que, apesar de todo o erro inicial, de toda a vulgaridade de Sara e da timidez quase doentia de Eduarda, ele havia construído algo indestrutível. Um império de tinta, diamantes, fraldas de seda e um amor que, embora dividido, era a única coisa que o mantinha inteiro.

Ele beijou a testa de Eduarda e saiu do quarto, pronto para enfrentar a fúria de Sara, que já reclamava da temperatura do leite de Valentina. Era o seu mundo. Era o seu caos. E ele não mudaria uma única linha dessa história tatuada em sua alma.