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O Alquimia do Cuidado e o Amargor da Inveja
A luz da manhã entrava pelas janelas do chão ao teto da mansão de veraneio, refletindo-se nas superfícies de mármore e vidro com uma intensidade que parecia projetada para expor cada imperfeição. No entanto, para Emanuel, a única coisa perfeita naquele ambiente era o som baixo de Eduarda cantarolando na cozinha.
Ele acordara cedo, sentindo uma fome que não era apenas física. Era uma necessidade de proximidade, de sentir aquele aroma de café fresco e pão na chapa que Eduarda conseguia fazer parecer a iguaria mais sofisticada do mundo. Ao seu lado, no berço portátil, Arthur já estava de pé, balançando as grades com um sorriso banguela e vitorioso.
— Mamãe! — o pequeno exclamou, esticando os braços na direção da porta.
Emanuel pegou o filho no colo, sentindo o peso sólido e saudável do menino.
— É, amigão. A mamãe está preparando o nosso combustível. Vamos lá?
Quando entraram na cozinha, a cena era um contraste absoluto com a frieza das chefs uniformizadas que Odete insistia em manter de prontidão. Eduarda estava de costas, usando um short jeans curto e uma camiseta de algodão de Emanuel que ficava enorme nela, dando-lhe um ar de vulnerabilidade que sempre fazia o sangue dele pulsar mais rápido. Ela mexia ovos em uma frigideira, enquanto fatias de pão caseiro douravam com manteiga.
— Bom dia, meus amores — disse ela, virando-se com um sorriso radiante. — O café está quase pronto. Fiz aquelas panquecas de banana que o Arthur adora e um café forte para você, Manu.
Emanuel sentou-se à mesa da copa, colocando Arthur em seu cadeirão.
— Você não imagina o quanto eu senti falta desse cheiro ontem à noite, Duda. Aquela comida da Odete... parecia que eu estava mastigando papelão perfumado.
Eduarda serviu os pratos. As panquecas eram fofas, regadas com um fio de mel, e os ovos estavam no ponto exato, cremosos e temperados com ervas frescas. Arthur começou a comer com uma sofreguidão que faria qualquer nutricionista de grife ter um colapso. Ele enfiava pedaços de panqueca na boca, soltando sons de aprovação que ecoavam pela cozinha.
— Devagar, pequeno trovão — Emanuel riu, pegando sua própria xícara. — Ninguém vai tirar de você.
Emanuel deu a primeira garfada e fechou os olhos. Era isso. Não era apenas o sabor; era a intenção. Cada fibra daquela comida parecia carregar o carinho de Eduarda, a sua dedicação silenciosa e manhosa. Ele sentiu uma onda de satisfação possessiva. Ele tinha a mulher mais rica do mundo em termos de afeto, e ela estava ali, na sua cozinha, cuidando dele.
Nesse momento, Sara e Odete entraram na cozinha, ambas impecavelmente vestidas, maquiadas como se estivessem prestes a subir em um palanque, mas com expressões que poderiam azedar o leite fresco sobre a mesa.
— Mas o que é isso? — Odete perguntou, parando bruscamente. — Eu dei ordens para que as chefs servissem o café no terraço. Há frutas tropicais, croissants vindos da melhor padaria da vila e geleias artesanais.
— Pode mandar as chefs comerem, Odete — Emanuel respondeu, sem sequer olhar para ela, focado em saborear sua panqueca. — Nós já encontramos o que queríamos aqui.
Sara caminhou até a mesa, observando o prato de Arthur com nojo.
— Emanuel, você vai deixar esse menino ficar viciado em comida de sustância logo cedo? Ele vai ficar obeso! E você... você tem reuniões importantes hoje. Devia estar comendo algo leve, algo que não te deixe pesado.
— Eu nunca me senti tão leve, Sara — Emanuel retrucou, finalmente erguendo os olhos gélidos para a namorada. — A comida da Eduarda me dá energia. A sua... bem, a sua me dá azia.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Eduarda, sentindo a tensão, aproximou-se de Emanuel e colocou uma mão suave em seu ombro.
— Manu, se você quiser, eu posso fazer um suco verde para a Sara e para a Dona Odete... — ela ofereceu, sua voz doce e conciliadora.
— Não precisa de suco nenhum! — Sara gritou, perdendo a compostura. — Eu quero que você pare com esse teatrinho de dona de casa perfeita! Você está enfeitiçando o meu namorado e o meu... o filho dele com essa gordura e esse tempero de quinta!
— Não é feitiço, Sara — Emanuel disse, sua voz baixando para aquele tom perigoso que fazia todos ao redor estremecerem. — É cuidado. Algo que você esqueceu como se faz entre uma aplicação de botox e outra.
Odete puxou a filha pelo braço, percebendo que Emanuel estava no limite.
— Venha, Sara. Deixe-os. Vamos ver se as chefs conseguem salvar o nosso dia.
As duas saíram batendo os saltos, mas a derrota estava escrita em seus ombros tensos.
O dia prosseguiu e a dependência de Emanuel e Arthur só aumentou. No almoço, Eduarda preparou um arroz soltinho, feijão com caldo grosso e um frango ensopado com quiabo que fez Emanuel repetir o prato três vezes. Ele cancelou duas videoconferências para poder almoçar com calma, observando Eduarda limpar o queixo de Arthur com um carinho que o desarmava.
— Você não vai trabalhar à tarde? — Eduarda perguntou, manhosamente, enquanto se sentava no colo dele após a refeição.
— O trabalho pode esperar, Duda. Eu quero ficar aqui. Quero sentir esse cheiro de tempero e de você.
Ele a puxou para um beijo profundo, um beijo que carregava o sabor do almoço e a urgência do desejo. Emanuel estava se tornando um viciado. Ele não queria mais os restaurantes estrelados, as festas badaladas ou as conversas vazias de Sara. Ele queria o refúgio que Eduarda construía com suas mãos pequenas e seu coração intuitivo.
À tarde, o desespero de Sara e Odete atingiu o ápice. Elas estavam reunidas na biblioteca, cercadas por catálogos de bufês de luxo e garrafas de espumante que permaneciam intocadas.
— Mãe, nós estamos perdendo ele — Sara sussurrou, as unhas cravadas nas palmas das mãos. — Ele nem olha mais para mim. Ele passa o dia naquela cozinha ou no quarto com ela. E o Arthur... o Arthur nem me deixa chegar perto! Ele rosna para mim como se eu fosse uma estranha!
— É o estômago, Sara — Odete disse, a voz amarga. — O caminho para o coração de um homem como o Emanuel sempre foi o estômago, mas eu achei que ele fosse sofisticado demais para cair nessa armadilha de comida caseira. Aquela garota é esperta. Ela está usando a única arma que tem: a servidão.
— Não é servidão, mãe! Ele olha para ela como se ela fosse uma deusa! — Sara levantou-se, andando de um lado para o outro. — Eu tentei trazer outra mulher para a cama dele para apimentar as coisas, e acabei trazendo a minha substituta! Como eu fui tão burra?
— Nós precisamos agir — Odete sentenciou. — Se ele não quer a nossa comida, vamos garantir que ele não consiga comer a dela.
Naquela noite, Eduarda planejava fazer um jantar especial: um risoto de limão siciliano com salmão grelhado, algo leve para encerrar o dia. Ela deixou os ingredientes preparados sobre a bancada e subiu para dar banho em Arthur.
Foi o momento que Sara esperava. Ela entrou na cozinha como uma sombra, os olhos injetados de raiva. Ela pegou um pote de sal e, com um movimento frenético, despejou quase metade do conteúdo dentro do molho que Eduarda havia deixado pré-preparado. Depois, pegou um vidro de pimenta malagueta líquida e despejou várias gotas generosas.
— Vamos ver se ele vai gostar do seu "tempero" agora, sua vagabunda — Sara sibilou, saindo da cozinha antes que alguém a visse.
Minutos depois, Eduarda desceu. Ela terminou o jantar com pressa, sentindo-se feliz. Emanuel estava na sala, brincando com Arthur, e a risada dos dois era a música que ela mais gostava de ouvir.
— O jantar está servido! — ela anunciou.
Emanuel sentou-se à mesa, a expectativa brilhando em seus olhos. Sara e Odete também se sentaram, trocando olhares cúmplices de antecipação. Elas esperavam o momento em que Emanuel cuspiria a comida e humilharia Eduarda pela falha catastrófica.
Emanuel pegou a primeira garfada do risoto. Ele levou à boca.
Sara prendeu a respiração. Odete inclinou-se para frente.
Emanuel mastigou. Suas sobrancelhas se franziram por um segundo. Ele olhou para o prato, depois para Eduarda. Ele sentiu o sal excessivo e o fogo da pimenta queimando sua garganta. Mas ele também viu o olhar expectante e doce de Eduarda, e o olhar carregado de veneno de Sara.
Ele era um homem observador. Ele percebeu o brilho de triunfo nos olhos de Sara antes mesmo de dar a segunda garfada.
— Algum problema, Manu? — Eduarda perguntou, preocupada com o silêncio dele. — Ficou ruim?
Emanuel engoliu a comida, sentindo o ardor, mas manteve a expressão serena.
— Pelo contrário, Duda — disse ele, a voz firme. — Está... intenso. Exatamente como eu precisava hoje.
Ele deu outra garfada, e outra, forçando-se a comer como se fosse a melhor refeição de sua vida. Sara empalideceu.
— Intenso? — Sara perguntou, a voz falhando. — Deixe-me provar um pouco...
Ela esticou o garfo para o prato de Emanuel, mas ele afastou o prato com um movimento brusco.
— Não, Sara. Este prato a Eduarda fez para mim. Você tem o seu ali, feito pelas suas chefs de confiança. Coma o seu.
— Mas eu quero provar o dela! — Sara insistiu, já estendendo a mão para a panela no centro da mesa.
Ela pegou uma colherada generosa e levou à boca. No segundo seguinte, o rosto de Sara ficou vermelho escarlate. Ela começou a tossir violentamente, as lágrimas escorrendo pelos olhos.
— Água! Água! Está salgado! Está queimando! — ela gritou, desesperada.
Eduarda levantou-se, assustada.
— O quê? Mas eu não coloquei tanta pimenta... eu nem usei pimenta malagueta!
Emanuel levantou-se lentamente, sua presença tornando-se sufocante na sala de jantar. Ele caminhou até Sara, que ainda tentava se recuperar, bebendo água direto da jarra.
— Engraçado, não é, Sara? — Emanuel perguntou, a voz gélida. — A Eduarda não usa pimenta malagueta. Ela nem sabia que tinha isso na despensa. Mas você sabia.
— Eu... eu não sei do que você está falando! — Sara mentiu, mas o tremor em sua voz a entregava.
— Você tentou estragar o jantar dela — Emanuel afirmou, e a fúria em seus olhos era algo que Sara nunca vira antes. — Você tentou sabotar a única coisa que traz paz para esta casa porque você é incapaz de criar algo por conta própria. Você só sabe destruir, Sara.
— Emanuel, querido, não seja injusto... — Odete tentou intervir.
— Cale a boca, Odete! — Emanuel rugiu. — Eu cansei de vocês duas. Cansei dos jogos, cansei da vulgaridade, cansei dessa energia podre que vocês trazem para perto do meu filho.
Ele virou-se para Eduarda, que estava parada perto do fogão, com os olhos cheios de lágrimas, sem entender como o ambiente havia se tornado tão hostil tão rápido.
— Duda, pegue as coisas do Arthur. Nós vamos embora agora.
— Mas Manu, são dez da noite... — ela começou.
— Nós vamos para um hotel. E amanhã, voltamos para a nossa cobertura. Mas desta vez, as fechaduras serão trocadas.
Sara levantou-se, o rosto manchado de rímel e ódio.
— Você não pode me expulsar assim, Emanuel! Eu estou com você há meses! Eu planejei aquela noite! Eu trouxe ela para você!
— E esse foi o único acerto da sua vida, Sara — Emanuel disse, aproximando-se dela até que suas respirações se cruzassem. — Você trouxe a mulher que me mostrou o quanto você é vazia. Você trouxe a pessoa que me deu um filho e um lar. Agora, saia da minha frente antes que eu esqueça que você é uma mulher.
Emanuel pegou Arthur, que assistia a tudo com uma seriedade impressionante, e estendeu a mão para Eduarda.
— Vamos, Duda. Eu ainda estou com fome. E eu sei um lugar no caminho que serve um hambúrguer decente, mas nada vai se comparar ao que você vai fazer para mim amanhã no nosso café da manhã.
Eduarda segurou a mão dele, sentindo a força e a proteção que emanavam de Emanuel. Ela olhou para Sara uma última vez, não com ódio, mas com uma profunda piedade. Sara tinha tudo o que o dinheiro podia comprar, mas não tinha o essencial.
Enquanto caminhavam para o carro, sob o luar da encosta, Emanuel parou e olhou para Eduarda.
— Desculpe por ter feito você passar por isso. Eu devia ter cortado o mal pela raiz antes.
— Está tudo bem, Manu — ela sussurrou, aninhando-se nele. — Eu só quero que a gente fique bem.
— Nós vamos ficar. Mais do que bem.
Naquela noite, em um quarto de hotel luxuoso mas impessoal, o jantar foi um hambúrguer de drive-thru comido na cama, entre risadas e brincadeiras com Arthur. Mas para Emanuel, tinha o melhor sabor do mundo, porque era compartilhado com a mulher que havia transformado sua vida em um banquete de afetos.
No dia seguinte, ao entrarem na cobertura, o silêncio era absoluto. As roupas de Sara haviam sido recolhidas por uma empresa de mudanças logo cedo. O perfume vulgar dela fora substituído pelo cheiro de limpeza e, logo em seguida, pelo aroma de pão de queijo que Eduarda começou a assar.
Arthur corria pela sala, espalhando seus brinquedos, e Emanuel sentou-se no sofá, observando a cena. Ele sentia uma paz que nunca conhecera. Ele era dependente de Eduarda, sim. Dependente do seu cuidado, da sua comida, do seu corpo macio e da sua alma pura. E ele não tinha a menor intenção de se curar desse vício.
— Manu? — Eduarda chamou da cozinha. — O café está na mesa!
Emanuel levantou-se, um sorriso de satisfação plena no rosto.
— Já estou indo, minha vida.
Ele caminhou até a cozinha, onde o sol da manhã iluminava Eduarda. Ele a abraçou por trás, sentindo o calor do fogão e o calor da pele dela.
— Sabe de uma coisa, Duda? — ele murmurou no ouvido dela.
— O quê?
— A Sara achou que o maior erro dela foi te trazer para cá. Mas para mim, foi o maior acerto do destino. Eu nunca mais vou deixar você sair da minha cozinha... ou da minha vida.
Eduarda riu, o som doce e manhoso que ele tanto amava.
— Então é bom você se preparar, Emanuel. Porque eu ainda tenho muitas receitas para te mostrar.
E ali, entre o aroma do café e o som da risada do filho, Emanuel soube que o seu império de tinta e poder finalmente tinha um alicerce sólido. Um alicerce feito de farinha, sal, amor e a doçura inabalável da mulher que o conquistara pelo paladar e o prendera para sempre pelo coração.