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O Banquete do Afeto e o Veneno na Mesa
A mansão de veraneio da família de Sara, situada em uma encosta luxuosa de frente para o mar, era um monumento à ostentação. Lustres de cristal que custavam o preço de um apartamento, tapetes persas que nunca haviam sentido o toque de pés descalços e uma equipe de cozinheiras uniformizadas que pareciam saídas de um filme de época. Dona Odete, a mãe de Sara, fizera questão de contratar as melhores profissionais da região para a estadia de Emanuel. Para ela, receber o genro bilionário e tatuador era uma oportunidade de reafirmar o status que a filha tanto prezava.
No entanto, o clima na sala de jantar era de uma tensão silenciosa. Emanuel estava sentado à cabeceira, vestindo uma camisa de linho escura que contrastava com a brancura impecável do ambiente. Ao seu lado, Arthur, agora mais ativo e observador, batia levemente com a colher de prata na mesa, recusando-se a abrir a boca para a iguaria que lhe era oferecida.
— Mas Emanuel, querido, experimente este risoto de trufas brancas — insistiu Odete, gesticulando para a travessa de porcelana. — As cozinheiras vieram da capital especialmente para preparar este cardápio. É o que há de mais refinado.
Emanuel olhou para o prato à sua frente. O risoto era visualmente perfeito, decorado com folhas de ouro comestíveis e ervas raras. Ele levou uma garfada à boca, mastigou devagar e engoliu. Seu rosto, porém, permaneceu uma máscara de indiferença.
— Está bem executado, Odete — disse ele, a voz desprovida de qualquer entusiasmo. — Mas falta algo.
— Falta o quê? — Sara interveio, ajeitando o decote do vestido justo e lançando um olhar irritado para Eduarda, que estava sentada discretamente na outra ponta da mesa, cuidando de Valentina. — É o melhor risoto que o dinheiro pode comprar, Emanuel. Não seja difícil.
Nesse momento, Arthur soltou um resmungo alto e empurrou o prato de prata que continha uma papinha gourmet de legumes orgânicos.
— Não! — o menino exclamou, apontando para Eduarda. — Mamãe! Papa!
Eduarda, que usava um vestido romântico de flores miúdas e cores pastéis, sentiu o peso de todos os olhares. Ela estava em silêncio durante todo o jantar, sentindo-se deslocada naquele ambiente onde tudo parecia ter um preço, mas nada parecia ter alma.
— Ele quer a minha comida, Manu — sussurrou Eduarda, a voz doce e manhosa, enquanto acariciava o cabelo de Arthur.
— Eu também — admitiu Emanuel, soltando o talher de prata com um som metálico que ecoou pela sala. — Essa comida é fria, Odete. Tem técnica, mas não tem sabor. Eduarda, você se importaria de ir até a cozinha?
Sara quase engasgou com o vinho.
— Você está brincando, não é? Temos três chefs na cozinha e você quer que a Eduarda vá fritar um ovo? Isso é um insulto à minha mãe!
— Não é um insulto — Emanuel retrucou, o olhar gélido fixo em Sara. — É uma necessidade. O Arthur não comeu nada desde que chegamos, e eu também não sinto prazer nessa comida de vitrine. Eduarda cozinha com o que eu gosto. Ela conhece o meu paladar.
Odete estava lívida. Suas mãos cobertas de anéis tremiam levemente sobre a toalha de mesa.
— Isso é um absurdo! Eduarda é uma convidada... ou pelo menos deveria agir como tal.
— Eu não me importo, Manu — Eduarda disse, levantando-se com Arthur no colo. — Eu faço algo rápido. Eu vi que tem alguns tomates frescos e manjericão na despensa. Posso fazer um molho simples.
— Simples? — Sara riu com escárnio. — Você vai servir macarrão com tomate em uma mesa que tem lagosta e trufas? Você é patética, Eduarda.
Mas Emanuel já havia se levantado. Ele caminhou até Eduarda, pegou Arthur do colo dela e deu um beijo casto em sua testa, um gesto que fez o sangue de Sara ferver de inveja.
— Vá. Eu e o Arthur esperamos por você.
A cozinha da mansão era um campo de batalha tecnológico. As três cozinheiras olharam para Eduarda com uma mistura de curiosidade e desdém quando ela entrou.
— Com licença — disse Eduarda, a timidez voltando ao se ver cercada por profissionais. — O senhor Emanuel pediu que eu preparasse algo para ele e para o bebê.
— Mas senhora, o risoto... — começou uma das chefs.
— Ele não gostou — Eduarda cortou com uma suavidade firme que surpreendeu até a si mesma. — Ele gosta de tempero caseiro. Eu cuido disso.
Eduarda começou a se movimentar. Era como se, ao tocar nas panelas, sua insegurança desaparecesse. Ela não precisava de balanças de precisão ou ingredientes importados. Ela precisava de alho, cebola, o azeite que ela mesma trouxera na mala e o amor que transbordava de suas mãos.
O cheiro começou a se espalhar. Não era o aroma complexo e estranho das trufas, mas o cheiro reconfortante de alho dourando no azeite, de tomates cozinhando lentamente até virarem um molho espesso e vibrante. Era o cheiro de casa.
Na sala de jantar, Emanuel estava com Arthur no colo. O menino, que antes estava irritadiço, agora olhava para a porta da cozinha, farejando o ar como um pequeno lobo.
— Mamãe! — Arthur exclamou, batendo as mãos.
— Sim, filhão. A mamãe está fazendo a nossa comida — Emanuel murmurou, ignorando completamente as reclamações de Sara e Odete.
— Eu não acredito que você está fazendo isso comigo, Emanuel — Sara sibilou, os olhos cheios de lágrimas de raiva. — Você está me humilhando na frente da minha mãe. Está preferindo o tempero de uma menina de faculdade ao luxo que eu preparei para você.
— Luxo não se come, Sara — Emanuel respondeu, sem desviar o olhar da porta. — E a Eduarda não é "uma menina de faculdade". Ela é a mulher que sabe exatamente do que eu preciso quando estou exausto. Ela me dá paz, e a comida dela reflete isso.
Eduarda voltou dez minutos depois, carregando dois pratos fundos de cerâmica simples que encontrara no fundo do armário. O macarrão estava envolto em um molho vermelho brilhante, com folhas de manjericão fresco e uma generosa quantidade de queijo ralado na hora.
Assim que ela colocou o prato diante de Emanuel, ele não esperou. Levou uma garfada generosa à boca e fechou os olhos. O sabor era intenso, acolhedor, exatamente o que seu corpo pedia. Arthur, ao receber sua pequena porção, começou a comer com uma avidez que fez Odete recuar na cadeira.
— Perfeito — disse Emanuel, a voz agora mais relaxada. — Obrigado, Duda.
Eduarda sentou-se ao lado dele, sentindo uma satisfação silenciosa. Ela viu Sara apertar o guardanapo com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos.
— Você parece um dependente, Emanuel — Sara cuspiu as palavras. — Dois dependentes. Você e esse menino. O que ela coloca nessa comida? Algum tipo de feitiço?
Emanuel soltou uma risada curta e sombria.
— Talvez seja isso, Sara. O feitiço da simplicidade. Algo que você e sua mãe nunca vão entender. Vocês acham que podem comprar a lealdade e o gosto de alguém com ouro, mas a Eduarda me ganha com o sal.
Odete levantou-se da mesa, a dignidade ferida.
— Eu não vou ficar aqui para ser insultada na minha própria casa. Sara, venha comigo. Vamos deixar os "dependentes" com sua cozinheira particular.
As duas saíram da sala, deixando para trás o rastro do perfume caro e da frustração.
Emanuel continuou comendo, mas agora sua mão buscava a de Eduarda por baixo da mesa. Ele entrelaçou seus dedos nos dela, sentindo a pele macia que cheirava levemente a alho e manjericão.
— Você não precisava ter feito isso, Manu — Eduarda sussurrou. — A Sara vai ficar furiosa por dias.
— Deixe que fique — Emanuel respondeu, olhando-a com uma intensidade que a fez corar. — Eu não vim aqui para agradar a Sara ou a mãe dela. Eu vim para descansar com você e com o Arthur. E se elas não conseguem aceitar que você é o coração desta família, o problema é delas.
Arthur parou de comer por um segundo, olhou para o pai e depois para a mãe, soltando um suspiro de satisfação que parecia um eco do de Emanuel.
— Papa, mamãe... guto! — disse o menino, tentando dizer "gostoso".
Emanuel riu, um som raro e genuíno que Eduarda amava ouvir.
— Viu só? Ele já sabe o que é bom.
A noite continuou de forma mais leve para os três, embora o clima na mansão permanecesse gélido nas outras alas. Emanuel insistiu que Eduarda não lavasse nada; ele mesmo levou os pratos para a cozinha, ignorando os olhares das chefs que ainda limpavam o local.
Mais tarde, no quarto luxuoso que dividiam, Emanuel puxou Eduarda para seus braços. O quarto era enorme, com vista para o mar, mas para ele, o único lugar que importava era o espaço entre os braços dela.
— Eu nunca imaginei que ficaria tão viciado em alguém, Duda — ele confessou, a voz rouca contra o pescoço dela. — Não é só a comida. É o jeito que você cuida de tudo. O jeito que você me olha.
Eduarda, em sua timidez habitual, aninhou-se no peito dele, sentindo as tatuagens ásperas contra sua pele.
— Eu só quero que você seja feliz, Manu. E que o Arthur cresça sentindo que é amado.
— Ele sente. E eu também.
Emanuel a beijou com uma fome que não era de comida. Era uma fome de alma, uma necessidade de se fundir àquela pureza que Eduarda representava. Ele sabia que Sara tentaria algo, que a mãe dela usaria todo o veneno social que possuía para tentar diminuir Eduarda, mas ele também sabia que nada disso funcionaria.
Pois, enquanto Eduarda tivesse aquele toque, aquele tempero de alma e aquela doçura manhosa, ele seria para sempre seu dependente. Ele era o leão, o dono do império de tinta, o homem que todos temiam, mas diante de Eduarda, ele era apenas um homem que encontrara seu lar em um prato de macarrão e em um sorriso tímido.
Na manhã seguinte, Odete tentou um último ataque. Durante o café da manhã, ela mandou servir apenas frutas exóticas e pães artesanais de uma padaria famosa.
— Espero que isso seja do agrado de Vossas Majestades — disse Odete, com um sorriso falso.
Emanuel olhou para a mesa, depois para Eduarda, que já estava preparando uma pequena omelete para Arthur em um fogareiro portátil que ela insistira em levar na viagem, temendo justamente a falta de praticidade da mansão.
— Está ótimo, Odete — disse Emanuel, pegando apenas uma xícara de café preto. — Mas a Eduarda já está cuidando do Arthur. E eu... bem, eu vou esperar o que ela preparar para mim.
Sara soltou um grito de frustração e saiu da sala, batendo a porta de vidro que dava para a piscina.
— Você está destruindo a minha filha, Emanuel! — Odete exclamou.
— Não, Odete — Emanuel respondeu, observando Eduarda virar a omelete com uma habilidade graciosa. — Eu estou apenas escolhendo o que é real. E o que é real, nesta casa, é apenas o que a Eduarda toca.
Eduarda sorriu para o prato, sentindo-se, pela primeira vez, não como a intrusa no triângulo, mas como o alicerce que mantinha tudo de pé. Ela sabia que a vulgaridade de Sara e a arrogância de Odete eram apenas cascas vazias. Por dentro, elas não tinham nada para oferecer a Emanuel além de cobranças e aparências.
E enquanto Arthur comia sua omelete e Emanuel a olhava com aquela adoração sombria e possessiva, Eduarda percebeu que o maior erro da vida de Sara não fora trazê-la para a cama de Emanuel, mas sim ter subestimado o poder de uma mulher que sabe que o caminho para o coração de um homem como ele não passa pelo silicone ou pelo ouro, mas pela simplicidade de um afeto que se prova no paladar e se confirma no cuidado diário.
A viagem para a casa da mãe de Sara, que deveria ser um triunfo para a loira, tornou-se o palco da sua derrota definitiva. Pois não importava quantas cozinheiras Odete contratasse, ou quantos banquetes de luxo fossem servidos; para Emanuel e Arthur, o único banquete que importava era aquele que vinha das mãos de Eduarda — a única mulher que conseguira transformar um tatuador implacável em um homem que só queria voltar para casa, desde que o sabor do lar fosse o dela.