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Tinta, Babas e Caos
O som de algo pesado atingindo o chão de madeira do loft ecoou como um disparo. Emanuel, que estava tentando analisar um esboço de fechamento de costas em seu tablet, fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Ele não precisava olhar para saber o que havia acontecido.
— Arthur! Não, meu amor, o vaso de Murano não! — O grito de Eduarda veio da sala, seguido pelo som de passos rápidos e o riso agudo, quase diabólico, de um bebê de oito meses que parecia ter a energia de uma usina nuclear.
Emanuel levantou-se e caminhou até a sala. A cena era digna de um filme de comédia, se não fosse trágica. Eduarda, com seus cabelos castanhos presos em um coque frouxo e desgrenhado, vestia um robe de seda clara que agora exibia uma mancha suspeita de papinha de fruta. Ela estava ajoelhada, tentando alcançar Arthur, que rastejava com uma velocidade impressionante em direção à estante de livros de arte.
Arthur era a imagem cuspida de Emanuel, mas com a sensibilidade de Eduarda nos olhos grandes e expressivos. No entanto, a personalidade era um furacão. O menino não parava. Aos oito meses, ele já tentava se levantar em tudo, escalava o que estivesse ao alcance e parecia ter uma missão pessoal de testar a resistência de cada objeto caro no apartamento.
— Deixa que eu pego esse monstrinho, Duda — disse Emanuel, aproximando-se e pegando o filho pela cintura antes que ele alcançasse um livro raro de gravuras japonesas.
No momento em que sentiu as mãos do pai, Arthur soltou um grito de alegria e começou a estapear o braço tatuado de Emanuel.
— Dá... dá... — o bebê balbuciava, os olhinhos fixos nos desenhos pretos que cobriam a pele do pai.
— Ele é fascinado pelas suas tatuagens, Emanuel. Acho que ele pensa que você é um livro de colorir ambulante — Eduarda desabafou, sentando-se no chão e limpando o suor da testa. Ela parecia exausta, a doçura habitual agora misturada com uma fadiga profunda. — Ele não parou um segundo desde que acordou. Eu tentei dar banho, e ele quase inundou o banheiro.
Emanuel riu, sentindo um calor no peito que só Arthur conseguia provocar. Ele amava Valentina, sua filha com Sara, mas a conexão com o pequeno "Tatuadorzinho", como os funcionários do estúdio o chamavam, era visceral.
— Ele tem sangue de artista, não é, campeão? — Emanuel ergueu o menino no ar, e Arthur gargalhou, um som puro que parecia dissipar metade do estresse do dia. — Quer ir para o estúdio hoje? Quer ver as agulhas do papai?
— Nem pense nisso — Eduarda interveio, levantando-se e abraçando Emanuel por trás, encostando a cabeça em suas costas. — Da última vez que você o levou, ele tentou comer um pote de tinta azul e quase derrubou a maca de uma cliente. Eu fico louca de preocupação.
— Ele só estava ajudando no design — Emanuel brincou, virando-se para beijar a testa de Eduarda. — Você está bem, meu bem? Parece que correu uma maratona.
— Eu corri. Literalmente. Ele aprendeu a se impulsionar com os pés e agora ninguém segura.
O momento de paz durou pouco. O celular de Emanuel, jogado sobre a mesa de centro, começou a tocar. O toque era específico. Era Sara.
Eduarda imediatamente se enrijeceu. O carinho no rosto dela deu lugar a uma expressão de mágoa contida. A rivalidade entre as duas mulheres não havia diminuído com o nascimento dos filhos; pelo contrário, a chegada dos bebês apenas deu novos campos de batalha para a guerra que Emanuel tentava, sem sucesso, mediar.
— O que ela quer agora? — Eduarda perguntou, a voz ficando baixa e manhosa, o sinal claro de que ela estava se sentindo acuada.
Emanuel atendeu, colocando no viva-voz enquanto tentava manter Arthur quieto em seu colo.
— Emanuel! — A voz de Sara saiu estridente e autoritária. — Eu estou chegando aí com a Valentina. Preciso que você fique com ela pelas próximas duas horas. Tenho um tratamento estético marcado e a babá teve uma emergência.
— Sara, agora não é um bom momento... — Emanuel começou, olhando para Eduarda, que já negava com a cabeça.
— Não me venha com "agora não". Eu sou a mãe da sua filha, e a Valentina sente sua falta. Além disso, ela está impecável, não vai dar trabalho nenhum, ao contrário desse seu outro filho que parece um selvagem. Eu ouvi os gritos dele daqui!
— Não fale do Arthur assim! — Eduarda gritou de volta, aproximando-se do telefone, seus olhos brilhando com lágrimas de raiva. — Você não tem o direito de entrar aqui e ditar as regras!
— Ah, a "santinha" está aí? — Sara soltou uma risada irônica. — Guarde suas lágrimas para quando o Emanuel se cansar de brincar de casinha com você, querida. Eu estou subindo.
A ligação caiu. Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo a tensão subir pela espinha.
— Ela não pode vir aqui, Emanuel. Ela sempre humilha o jeito que eu cuido do Arthur, ela faz questão de mostrar como a Valentina é "perfeita" e "educada" — Eduarda começou a chorar, escondendo o rosto nas mãos. — Eu não aguento mais essa competição.
— Calma, Duda. Eu vou resolver. Eu fico com a Valentina no escritório, vocês nem precisam se cruzar — ele tentou racionalizar, mas sabia que era impossível.
Dez minutos depois, a porta do loft foi aberta com um estrondo. Sara entrou como se estivesse em uma passarela. Ela usava um conjunto de alfaiataria justo, saltos agulha e uma maquiagem impecável que escondia qualquer sinal de maternidade. Em seus braços, ou melhor, em um carrinho de bebê cravejado de cristais, estava Valentina.
Aos seis meses, Valentina era uma mini diva. Usava um vestido de grife, um laço enorme na cabeça que parecia maior que seu rosto e sapatinhos de verniz. Ela estava sentada, imóvel, observando o ambiente com um ar de superioridade que era a cópia exata da mãe.
— Chegamos — anunciou Sara, ignorando completamente a presença de Eduarda. — Valentina, dê um tchauzinho para o papai.
A bebê levantou a mãozinha com uma preguiça aristocrática. Emanuel sorriu, pegando a filha no colo. Valentina cheirava a perfume francês caro, não a talco ou leite.
— Oi, minha princesinha. Você está linda — Emanuel a beijou no rosto. Valentina apenas soltou um pequeno resmungo satisfeito e começou a brincar com o colar de ouro de Emanuel.
— Veja só a diferença — Sara disse, apontando para Arthur, que agora estava no chão, tendo escapado do colo de Emanuel, e tentava morder o pé de uma cadeira. — Uma princesa e um bárbaro. É uma pena que eles tenham o mesmo sangue.
— Chega, Sara! — Emanuel cortou, sua voz ficando rígida. — Se você vai deixar a Valentina aqui, deixe e saia. Eu não vou tolerar que você ofenda o Arthur ou a Eduarda na minha casa.
Eduarda estava em um canto, abraçando os próprios braços, o silêncio sendo sua única defesa contra a vulgaridade agressiva de Sara. Ela olhava para Valentina e sentia uma mistura de pena e insegurança. Sara transformava a própria filha em um acessório de luxo, enquanto ela só queria que Arthur fosse uma criança feliz, mesmo que isso significasse um loft destruído.
— Eu volto em duas horas. Tente não deixar que esse menino suje o vestido dela, custou mais do que o aluguel da faculdade daquela ali — Sara disparou uma última flecha antes de girar nos calcanhares e sair, deixando o rastro de seu perfume doce e sufocante.
O silêncio que se seguiu foi tenso. Emanuel estava com Valentina em um braço, a bebê calma e silenciosa, quase como uma boneca de porcelana. No chão, Arthur havia encontrado um dos sapatos de Sara que ela esquecera no dia anterior e estava tentando desmembrar o salto com as gengivas.
— Eu vou para o quarto com o Arthur — Eduarda disse, a voz trêmula. — Eu não consigo ficar no mesmo ambiente que ela, nem que seja através da filha.
— Duda, espera... — Emanuel tentou, mas ela já havia pegado Arthur no colo.
O menino, ao ver a irmã, soltou um grito de guerra. Ele queria descer, queria puxar o laço da cabeça de Valentina, queria o caos.
— Não, Arthur! — Eduarda o segurou com força, enquanto ele se contorcia. — Vamos descansar.
Emanuel ficou sozinho na sala com Valentina. Ele olhou para a menina, que o encarava com olhos frios e calculistas. Ela era fácil de lidar, não chorava, não exigia esforço físico. Mas, ao olhar para a porta do quarto onde Eduarda se trancara com Arthur, Emanuel sentiu um vazio.
Ele amava a paz que Valentina trazia, mas era o furacão Arthur que fazia seu sangue pulsar.
Duas horas se passaram em um borrão de estresse. Valentina permaneceu sentada no tapete, brincando com um mordedor de grife, sem emitir um som. Emanuel tentou trabalhar, mas sua mente estava no quarto ao lado. Ele sabia que Eduarda estaria chorando ou se sentindo insuficiente.
Quando Sara voltou para buscar a filha, a cena se repetiu: provocações, olhares de desprezo e a sensação de que Emanuel estava sendo rasgado ao meio. Quando a porta finalmente se fechou atrás de Sara e Valentina, Emanuel correu para o quarto.
Ele encontrou a cena que sempre o desarmava.
Eduarda estava deitada na cama king size, exausta. Arthur estava finalmente capotado ao lado dela, o peito subindo e descendo ritmicamente. Ele estava com um braço jogado por cima da barriga da mãe, e a boquinha entreaberta deixava escapar um pouco de baba no lençol de seda.
Era o único momento de paz. O único momento em que o furacão descansava.
Emanuel aproximou-se em silêncio e sentou-se na beirada da cama. Ele acariciou os cabelos de Eduarda, que abriu os olhos devagar.
— Elas já foram? — ela sussurrou, a voz rouca.
— Já. Desculpe por isso, Duda. Eu não queria que você passasse por esse estresse.
Eduarda sentou-se devagar, encostando a cabeça no ombro dele.
— Ela me faz sentir pequena, Emanuel. Ela faz parecer que o Arthur é um erro porque ele é... bom, porque ele é uma criança de verdade e não um enfeite.
— O Arthur é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida — Emanuel disse com sinceridade, olhando para o filho adormecido. — Ele tem a sua alma, Duda. Ele é intenso, ele sente tudo. A Valentina... a Sara está criando ela para ser um espelho dela mesma. Mas o Arthur é nosso.
Eduarda sorriu fraco, buscando o conforto do abraço dele.
— Ele quer ir ao estúdio amanhã — ela murmurou, manhosa. — Ele passou o dia apontando para a foto do seu estúdio na revista.
Emanuel sorriu, sentindo o peso do dia começar a diminuir.
— Eu vou levar ele. Vou deixar ele sentar na minha cadeira e ver as tintas. Ele gosta do som da máquina, sabia? Ele fica hipnotizado.
— Ele é igual a você — Eduarda disse, beijando o pescoço de Emanuel. — Teimoso, decidido e completamente apaixonante.
Emanuel puxou-a para mais perto, observando o filho. O caos voltaria em poucas horas. Arthur acordaria querendo escalar as paredes, Sara ligaria com alguma nova exigência, e a guerra entre as duas mulheres continuaria a desgastar seus nervos. Ele sabia que sua vida era um desenho mal planejado, uma sobreposição de traços que não deveriam coexistir.
Mas ali, naquele silêncio temporário, com o cheiro de Eduarda e o sono pesado de Arthur, Emanuel sentia que, apesar de todo o desastre, ele não mudaria uma única linha dessa história. Ele queria as duas, queria os dois filhos, e continuaria tentando segurar o mundo nos ombros, mesmo que ele estivesse prestes a desabar.
— Eu te amo, Duda — ele sussurrou.
— Eu também te amo. Só... tente não deixar ele tatuar ninguém amanhã, por favor.
Emanuel riu baixo, deitando-se ao lado deles. O furacão Arthur se mexeu no sono, chutando levemente a perna do pai, como se confirmasse que, na manhã seguinte, o caos recomeçaria com força total. E Emanuel, o homem que amava o controle, descobriu que nunca foi tão feliz em estar no meio de uma tempestade.