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O Banquete no Olho do Furacão

A mesa de jantar de carvalho maciço, situada no centro do loft espaçoso de Emanuel, parecia um campo de batalha meticulosamente decorado. Ele havia passado a tarde coordenando cada detalhe: a louça de porcelana escura, os talheres de prata fosca e o arranjo de orquídeas brancas que tentava, sem sucesso, trazer alguma neutralidade ao ambiente. O ar estava saturado com o aroma de risoto de trufas e o perfume caro que emanava das duas mulheres que, naquele momento, eram os polos opostos de sua existência.

Emanuel sentou-se à cabeceira, sentindo o peso do silêncio. À sua direita, Eduarda usava um vestido de seda rosa-quartzo, com alças finas que destacavam sua delicadeza. Ela mantinha os olhos fixos no prato, mexendo na comida com uma timidez que beirava a agonia. À sua esquerda, Sara era o contraste absoluto: um vestido vermelho vibrante, decote ousado e um sorriso predatório que não vacilava nem por um segundo.

— Emanuel, querido, a comida está divina — começou Sara, quebrando o silêncio com a precisão de um bisturi. — Embora eu ache que um vinho mais encorpado combinaria melhor. Mas, claro, imagino que você tenha escolhido algo mais... suave, para não agredir o paladar infantil de certas pessoas na mesa.

Eduarda apertou o garfo com mais força, os nós dos dedos ficando brancos. Ela respirou fundo, tentando não deixar as lágrimas subirem.

— O vinho está ótimo, Emanuel — sussurrou Eduarda, sem olhar para Sara. — Obrigada por preparar tudo isso.

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo a tensão latejar em suas têmporas. Ele sabia que colocar as duas na mesma casa, sob o mesmo teto, era uma decisão que beirava a insanidade, mas seu lado controlador e protetor não permitia outra saída. Ele queria seus filhos por perto, e queria as duas mulheres que, de formas tão distintas, ocupavam seu coração.

— Eu queria que este jantar fosse um momento de trégua — disse Emanuel, sua voz grave ecoando no salão. — Nós vivemos juntos agora. Temos dois bebês que dependem da nossa estabilidade. Por favor, apenas por hoje, podemos ser civilizados?

Sara soltou uma risada curta e seca, levando a taça de cristal aos lábios perfeitamente pintados.

— Civilizados? Emanuel, eu sou a personificação da civilidade. Eu estou aqui, não estou? Dividindo o meu oxigênio e o meu homem com uma menina que mal sabe combinar os sapatos. Se isso não é sacrifício, eu não sei o que é.

— Eu não sou uma menina, Sara — Eduarda disse, finalmente levantando o rosto. Seus olhos estavam úmidos, mas havia uma centelha de dignidade neles. — Eu sou a mãe do filho dele, tanto quanto você é da Valentina. Eu estudo, eu cuido da nossa casa e eu amo o Emanuel. Eu não estou aqui para competir com você.

— Ah, querida, você não está competindo porque já perdeu — Sara rebateu, inclinando-se para frente, a joia em seu pescoço brilhando sob a luz do lustre. — Você é o passatempo romântico dele. Eu sou a realidade. Eu sou a mulher que entende os negócios dele, que fala a língua dele. Você é apenas... o descanso de tela.

— Chega! — Emanuel bateu com a palma da mão na mesa, fazendo os talheres saltarem. — Eu não organizei isso para ouvir insultos.

Ele se levantou e caminhou até um aparador próximo, onde duas caixas retangulares, embrulhadas em papel de seda escuro, o esperavam. Ele precisava mudar o foco da conversa antes que o jantar terminasse em pratos quebrados.

— Eu trouxe algo para vocês — disse ele, voltando à mesa. — Uma forma de agradecer por estarem tentando fazer isso funcionar. Por mais difícil que seja.

Ele entregou a primeira caixa para Sara. Ela a abriu com agilidade, seus olhos brilhando ao encontrar um bracelete de ouro maciço com diamantes incrustados, uma peça pesada e imponente, exatamente como o seu estilo.

— É lindo, Emanuel — Sara sorriu, deslizando a joia pelo pulso e admirando o brilho. — Você sempre soube que eu nasci para carregar o que é valioso. Combina com a minha personalidade, não acha? Forte e impossível de ignorar.

Emanuel assentiu, embora seu olhar já estivesse voltado para Eduarda. Ele entregou a segunda caixa a ela com um gesto muito mais suave. Eduarda a abriu com as mãos trêmulas. Dentro, repousava um colar de ouro branco com um pingente delicado em formato de gota, contendo uma pequena pedra de safira clara. Era elegante, artístico e sutil.

— É a cor dos seus olhos quando você está feliz — Emanuel murmurou para ela.

Eduarda sentiu um calor percorrer seu corpo. Ela pegou o colar, sentindo a frieza do metal, e sorriu de verdade pela primeira vez naquela noite.

— É maravilhoso, Emanuel... Obrigada por se lembrar de como eu gosto de coisas delicadas.

— Que fofo — comentou Sara, o sarcasmo pingando de suas palavras como veneno. — Um brinquedinho de cristal para a boneca de porcelana. Só tome cuidado para não quebrar, Eduarda. Coisas finas demais costumam ser frágeis, assim como você.

— Sara, se você disser mais uma palavra agressiva, eu vou pedir para você se retirar da mesa — Emanuel alertou, sua paciência no limite.

— Oh, agora você vai me expulsar da mesa que eu ajudei a decorar com o meu bom gosto? — Sara arqueou uma sobrancelha. — Tudo bem. Vou ficar quieta. Vou focar no meu bracelete, que, ao contrário do colar de bijuteria da faculdade de arte, realmente tem valor de mercado.

Eduarda baixou a cabeça, mas antes que o silêncio pudesse se tornar opressor novamente, um som vindo do andar de cima mudou o clima instantaneamente. O choro de um bebê. E, logo em seguida, o choro de outro.

— Arthur acordou — disse Eduarda, já se levantando por instinto.

— E a Valentina também — completou Sara, bufando e deixando o guardanapo de linho sobre a mesa. — Eles parecem ter um radar para quando eu estou tentando ter cinco minutos de glamour.

Emanuel suspirou, mas havia um brilho de alívio em seus olhos. Os filhos eram a única coisa que forçava aquelas duas mulheres a coexistirem em uma paz armada.

— Vamos — disse ele. — O jantar acabou. O dever chama.

Eles subiram as escadas de metal do loft. No quarto de Arthur, o menino estava sentado no berço, o rosto vermelho de tanto chorar, os braços esticados em busca de colo. Eduarda correu para ele, pegando-o e aninhando-o contra o peito.

— Calma, meu amor... a mamãe está aqui — ela balançava o bebê com uma naturalidade carinhosa, a manha do filho encontrando eco na doçura da mãe.

Ao lado, no quarto de Valentina, Sara entrava com passos firmes. A bebê não gritava como Arthur, ela emitia um choro constante e exigente, como se estivesse protestando contra uma ofensa pessoal.

— Pronto, Valentina, pare com esse escândalo — Sara a pegou com certa impaciência, mas havia um cuidado técnico no modo como a segurava. — Você vai borrar minha maquiagem, mocinha.

Emanuel ficou parado no corredor, observando as duas portas abertas. De um lado, o afeto transbordante e um pouco caótico de Eduarda. Do outro, a eficiência rígida e vaidosa de Sara. E, no meio, ele — o homem que havia construído aquele cenário impossível.

Ele entrou primeiro no quarto de Eduarda. Ela estava sentada na poltrona de amamentação, com Arthur já mais calmo, brincando com o novo colar que pendia do pescoço da mãe.

— Ele gosta do brilho — Eduarda sorriu para Emanuel, uma lágrima solitária escapando e rolando pela bochecha. — Emanuel... isso vai dar certo algum dia?

Emanuel ajoelhou-se ao lado dela e beijou sua mão.

— Eu vou fazer dar certo, Duda. Eu prometo.

Ele se levantou e foi até o quarto de Valentina. Sara estava em pé diante do espelho, ajeitando o laço na cabeça da filha enquanto a bebê segurava o bracelete novo de ouro.

— Ela tem bom gosto, Emanuel — Sara disse, sem se virar. — Já sabe o que é bom. Mas não pense que esse presente apaga o fato de que eu odeio dividir você.

— Eu sei, Sara. Mas você aceitou os termos.

— Eu aceitei porque eu não perco o que é meu — ela se virou, os olhos faiscando de determinação. — E porque eu sei que, no final, é a minha força que mantém você de pé, não a fragilidade daquela menina.

Emanuel não respondeu. Ele saiu para a varanda do loft, olhando as luzes da cidade. Ele tinha duas mulheres grávidas de sentimentos opostos, dois filhos que eram extensões de sua alma e uma casa que era, ao mesmo tempo, um santuário e um hospício.

Ele tocou a própria nuca, sentindo a exaustão física e emocional. O jantar fora um desastre disfarçado de luxo, mas ele havia alcançado seu objetivo: elas ainda estavam lá. E enquanto elas estivessem lá, ele teria o controle. Ou, pelo menos, a ilusão dele.

Lá dentro, o som dos bebês balbuciando e a troca de farpas ocasional entre os quartos lembravam Emanuel de que sua vida agora era uma tatuagem inacabada — dolorosa, complexa e permanente. E ele, o mestre das agulhas, teria que aprender a viver com o fato de que algumas marcas nunca param de sangrar, não importa quão belo seja o desenho.