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D

Entre o Brilho do Aço e o Toque do Cetim

A casa de campo, envolta pelo silêncio da madrugada, parecia um organismo vivo que guardava segredos em cada fresta de suas vigas de madeira. Emanuel estava deitado, mas o sono era um artigo de luxo que ele não conseguia comprar naquela noite. Ao seu lado, Sara dormia profundamente, a respiração pesada e ruidosa, um braço jogado por cima do peito dele de forma possessiva, mesmo inconsciente. O cheiro de uísque e perfume barato que emanava dela, misturado ao suor do sexo recente, trazia uma sensação de saciedade física, mas um vazio mental absoluto.

Seus pensamentos atravessavam as paredes e se instalavam no quarto de hóspedes à esquerda, onde Eduarda deveria estar descansando. A imagem dela chorando na varanda, tão frágil e carente de proteção, agia como um ímã em sua consciência. Ele era um homem prático, um estrategista que construíra um império com agulhas e tinta, mas o que sentia por aquela menina-mulher era algo que sua lógica não conseguia catalogar. Ele a queria sob sua guarda, queria ver seus olhos brilhando ao falar de quadros renascentistas, queria ser o porto seguro onde ela pudesse se esconder da brutalidade do mundo.

Um som abafado cortou o silêncio da casa. Um baque surdo, seguido por um murmúrio que não parecia um sonho.

Emanuel sentou-se na cama imediatamente, removendo o braço de Sara com uma agilidade fria. Ele ficou imóvel por alguns segundos, os sentidos aguçados. Então, ouviu: um soluço sufocado e a voz arrastada de Gustavo, carregada de álcool e impaciência.

— Para de ser difícil, Eduarda. Eu sou seu namorado, porra! Você me deve isso.

O sangue de Emanuel ferveu instantaneamente. Ele se levantou, vestindo apenas a calça de moletom cinza, e saiu do quarto sem fazer barulho, ignorando o resmungo de Sara que se mexia na cama, incomodada com a perda do calor corporal.

No corredor escuro, a porta do quarto de hóspedes estava entreaberta. A luz do abajur projetava sombras distorcidas nas paredes. Emanuel parou na entrada e o que viu fez suas mãos se fecharem em punhos tão apertados que as juntas ficaram brancas.

Gustavo estava sobre Eduarda na cama. Ele a segurava pelos pulsos, enquanto ela tentava empurrá-lo com as pernas, o rosto banhado em lágrimas e a camisola de seda clara — aquela que Emanuel achara tão elegante e pura — estava amarrotada e puxada para cima.

— Por favor, Gustavo... não. Eu não quero, eu já disse que não estou pronta — a voz de Eduarda era um fio de desespero, trêmula, manhosa em sua dor.

— Pronta? Você nunca está pronta! Oito meses ouvindo essa merda enquanto todo mundo ri da minha cara porque minha namorada é uma freira. Se você não vai por bem, vai por mal. Eu estou cansado de esperar.

Quando Gustavo avançou para beijá-la à força, Emanuel não pensou. Ele agiu.

Em dois passos largos, ele atravessou o quarto. Sua mão, grande e calejada pelo trabalho manual, agarrou o colarinho da camisa de Gustavo e o arrancou de cima da garota com uma força bruta, jogando o irmão contra a cômoda de madeira maciça. O impacto fez os frascos de perfume e os livros de arte de Eduarda caírem no chão com um estrondo.

— Se você encostar um dedo nela de novo, eu juro que te mato — a voz de Emanuel não era um grito; era um rosnado baixo, vibrante, carregado de uma violência contida que era muito mais aterrorizante.

Gustavo, atordoado e bêbado, tentou se equilibrar, limpando um filete de sangue que escorria do lábio.

— O que é isso? O herói da família resolveu aparecer? — Gustavo riu, uma risada debochada e feia. — Ela é minha namorada, Emanuel. O que eu faço entre quatro paredes com ela não é da sua conta. Vai cuidar daquela loira vulgar que você chama de mulher e me deixa em paz.

Emanuel deu um passo à frente, a aura de controle que ele tanto prezava se estilhaçando. Ele agarrou o irmão pelo pescoço, prensando-o contra a parede.

— Ela disse não. E você sabe muito bem que "não" é a única palavra que importa aqui. Você não é um homem, Gustavo. Você é um lixo que não sabe valorizar o que tem.

Eduarda estava encolhida na cabeceira da cama, abraçando os joelhos, tremendo violentamente. Seus olhos grandes e úmidos fixos em Emanuel, como se ele fosse a única coisa sólida em um mundo que desabava.

— Emanuel... — ela soluçou, o nome dele saindo como um pedido de socorro.

— Sai daqui, Gustavo — ordenou Emanuel, soltando o irmão com um empurrão que o fez cambalear. — Agora. Antes que eu esqueça que temos o mesmo sangue.

— Você quer ela, não é? — Gustavo cuspiu no chão, ajeitando a camisa. — Ficou todo protetor... mas você é igual a mim, irmãozinho. Ou pior. Pelo menos eu não finjo ser um santo. Aproveita a "bonequinha". Ela é tão sem graça que nem vale o esforço de forçar.

Gustavo saiu do quarto tropeçando, batendo a porta com força. O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelos soluços baixos de Eduarda.

Emanuel respirou fundo, tentando baixar sua adrenalina. Ele se aproximou da cama lentamente, sentando-se na borda, mantendo uma distância respeitosa.

— Duda... olhe para mim. Ele já foi. Você está segura agora.

Eduarda levantou o rosto. A pele estava vermelha onde os dedos de Gustavo a apertaram. Ela se inclinou para frente e, sem aviso, lançou-se nos braços de Emanuel, escondendo o rosto em seu pescoço. Ele a envolveu, sentindo a fragilidade de seu corpo, o calor da pele macia e o cheiro de baunilha que parecia acalmá-lo instantaneamente.

— Eu tive tanto medo — ela sussurrou, as mãos pequenas agarrando as costas dele. — Por que ele é assim? Eu tentei gostar dele, eu tentei... mas ele sempre me faz sentir como se eu fosse um objeto.

— Porque ele é um idiota que não enxerga a joia que tem na frente dele — Emanuel acariciou os cabelos dela, sentindo uma proteção possessiva crescer em seu peito. — Mas isso acabou. Você não vai mais ficar com ele. Eu não vou permitir.

— Mas ele é seu irmão... e você tem a Sara — ela se afastou um pouco, olhando-o com uma tristeza profunda. — Todo mundo mente para mim, Emanuel. Eu sinto que sou a única que vive em um mundo real.

Emanuel sentiu uma pontada de culpa, mas sua determinação era maior.

— Eu não minto para você, Eduarda. Eu quero você. Quero você morando comigo, onde ninguém possa te tocar ou te diminuir.

— E como você faria isso? — a voz de uma terceira pessoa cortou o momento como uma navalha.

Emanuel e Eduarda se viraram bruscamente. Sara estava parada à porta, os braços cruzados sobre o sutiã de renda, um sorriso cínico e amargo nos lábios. Ela observava a cena com um misto de fúria e diversão cruel.

— Que cena mais tocante — Sara entrou no quarto, caminhando com a confiança de quem sabe que tem as cartas na mão. — O salvador e a donzela em perigo. Eu ouvi a confusão. O Gustavo realmente não tem classe, mas você, Emanuel... você é um gênio. Querendo colocar a santinha no seu harém particular?

— Sara, agora não é o momento — Emanuel disse, sua voz voltando ao tom frio e autoritário.

— Ah, é o momento perfeito! — Sara riu, aproximando-se da cama. Ela olhou para Eduarda com um desprezo palpável. — Você sabia, docinho? Sabia que o seu "herói" aqui passou a noite inteira me fodendo enquanto você lia seus livrinhos de arte? E sabe o que mais? Ele não é tão diferente do irmão. Enquanto você se guarda para o casamento, o Gustavo se guarda para as outras cinco que ele mantém na cidade.

Eduarda congelou. Seus olhos se arregalaram, passando de Sara para Emanuel.

— O quê? — a voz de Eduarda saiu quase inaudível.

— É isso mesmo, querida — Sara continuou, deleitando-se com a dor da outra. — O seu namorado perfeito te trai desde a primeira semana. Eu mesma já vi ele com duas loiras em uma boate enquanto você achava que ele estava "trabalhando até tarde". E o Emanuel sabe. Ele sempre soube.

Eduarda olhou para Emanuel, a busca por negação em seus olhos sendo recebida pelo silêncio culpado dele.

— Você sabia? — ela perguntou, a voz trêmula de uma nova forma, uma dor que não vinha do medo físico, mas da traição emocional. — Você sabia que ele me enganava e não me disse nada?

Emanuel fechou os olhos por um segundo.

— Eu sabia que ele não te merecia, Eduarda. Eu não queria te machucar com os detalhes sórdidos dele. Eu queria tirar você de perto dele antes que você sofresse.

— Você queria me "salvar" para me ter? — Eduarda se afastou dele na cama, a expressão de doçura sendo substituída por uma máscara de choque. — Você me deixou ser humilhada por ele todos esses meses?

— Ora, não seja tão dramática — Sara interveio, sentando-se em uma poltrona próxima, cruzando as pernas siliconadas. — O Emanuel é um colecionador. Ele gosta do que é raro. E você, com esse jeitinho de quem nunca quebrou um prato, é uma peça de museu para ele. Mas não se engane, ele não vai me largar. Ele gosta do fogo que eu dou para ele. Ele quer a santa e a pecadora.

— Cala a boca, Sara! — Emanuel rugiu, levantando-se. A tensão no quarto era sufocante.

Eduarda começou a chorar de novo, mas desta vez não era o choro manhoso de antes. Era um choro silencioso, de quem acabara de perder a última âncora de confiança.

— Eu quero ir embora — ela disse, levantando-se da cama com dificuldade, tentando ajeitar a camisola e procurando o robe de seda. — Eu quero sair desta casa. Todos vocês... vocês são horríveis.

— Você não vai a lugar nenhum a essa hora da madrugada, Eduarda — Emanuel tentou segurar o braço dela, mas ela se esquivou como se o toque dele a queimasse.

— Não me toque! — ela gritou, sua primeira demonstração de raiva real. — Você é pior que o Gustavo. Ele é apenas um idiota bruto. Mas você... você fingiu ser meu amigo. Você me deixou acreditar que eu podia confiar em você enquanto planejava me usar como uma... uma posse!

Sara soltou uma gargalhada aguda.

— Viu só, Emanuel? A bonequinha tem dentes. Mas ela tem razão. Você é um manipulador de primeira.

Emanuel sentiu o controle escapar por entre seus dedos. Ele olhou para Sara com ódio e para Eduarda com um desespero que raramente sentia. Ele não podia perdê-la. Não agora que ele tinha decidido que ela seria dele.

— Eduarda, escute — ele tentou suavizar a voz, aproximando-se novamente, ignorando a presença de Sara. — O mundo não é em preto e branco como nos seus livros. Sim, eu sabia do Gustavo. Sim, eu estou com a Sara. Mas o que eu sinto quando olho para você é a única coisa que me traz paz. Eu posso te dar tudo. Posso te dar uma vida onde ninguém nunca mais vai mentir para você.

— Você acabou de admitir que mentiu por omissão! — ela rebateu, as lágrimas escorrendo pelo rosto pálido. — Como você pode dizer que ninguém vai mentir para mim se a nossa relação começaria sobre uma pilha de segredos e traições?

— Porque eu te amo, porra! — Emanuel explodiu, a palavra saindo de sua boca antes que ele pudesse processá-la.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sara parou de rir, seu rosto escurecendo em uma expressão de fúria genuína. Eduarda paralisou, o peito subindo e descendo com rapidez.

— Você o quê? — Sara se levantou, a voz perigosamente baixa. — Você disse que me amava na semana passada, Emanuel. Você disse que eu era a única mulher que conseguia te acompanhar.

Emanuel não olhou para Sara. Seus olhos estavam fixos em Eduarda.

— Eu sinto coisas diferentes por vocês duas. Mas eu não vou escolher. Eu não preciso escolher. Eu tenho os meios para cuidar de ambas, para dar a cada uma o que precisa.

Eduarda olhou para ele com horror, a compreensão da perversidade daquela lógica atingindo-a em cheio.

— Você é doente — ela sussurrou. — Você quer nos colecionar como se fôssemos tatuagens na sua pele.

— Eu quero proteger você — ele insistiu, dando mais um passo.

Nesse momento, Gustavo reapareceu na porta, uma garrafa de uísque na mão e um sorriso torto.

— Que reunião de família animada. Já decidiram quem fica com quem? Porque eu acabei de ligar para uma das minhas "amigas" e ela está vindo me buscar. Podem ficar com a Duda. Ela é muita areia para o meu caminhão de qualquer jeito. Muita areia e pouco motor.

Eduarda sentiu uma náusea profunda. Ela olhou para os três — o namorado abusivo e infiel, a mulher vulgar e cruel, e o homem que ela achava ser seu salvador, mas que se revelara um mestre de marionetes.

Ela caminhou até sua mala, que ainda estava aberta no canto do quarto, e começou a jogar suas roupas dentro dela de qualquer jeito, as mãos tremendo tanto que ela mal conseguia segurar os tecidos.

— O que você está fazendo? — Emanuel perguntou, a voz ficando rígida novamente.

— Eu vou embora. Vou ligar para um táxi, vou caminhar até a estrada, não me importa. Eu não fico mais um minuto sob o mesmo teto que vocês.

— Você não vai sair sozinha no meio da noite — Emanuel bloqueou o caminho dela. — É perigoso.

— O perigo está aqui dentro, Emanuel — ela disse, olhando-o nos olhos com uma firmeza que ele nunca vira nela. — Eu posso ser tímida, posso ser lenta para entender as coisas, mas eu não sou burra. Eu prefiro o escuro da estrada do que a luz da sua casa.

Sara deu um passo à frente, um brilho de admiração relutante nos olhos.

— Deixa ela ir, Emanuel. Se ela quer ser a mártir da pureza, que seja. Nós estamos bem sozinhos, não estamos?

Emanuel olhou de Sara para Eduarda. A tensão entre o desejo de possuir a seda e a necessidade de manter o fogo o estava rasgando ao meio. Ele viu Eduarda fechar a mala com um puxão ríspido.

— Se você sair por aquela porta, Eduarda, eu não vou atrás de você — Emanuel mentiu, tentando usar o medo dela como arma final.

Ela parou por um segundo, a mala pesada em sua mão. Ela olhou para o quarto, para as sombras, e depois para o homem que ela quase amou naquela varanda.

— Eu espero que você não venha — ela disse, a voz agora calma, porém fria. — Porque se você vier, eu vou descobrir como ser tão cruel quanto a Sara para te manter longe de mim.

Eduarda passou por ele, o ombro esbarrando no dele. Ela desceu as escadas em silêncio, o som de seus passos pequenos ecoando pela casa de campo. Gustavo apenas riu e deu um gole na garrafa. Sara caminhou até Emanuel e abraçou suas costas, encostando o rosto em suas tatuagens.

— Viu? Ela não era para você, querido. Ela é muito frágil para o nosso mundo. Esquece ela. Eu estou aqui.

Emanuel não respondeu. Ele ficou parado, ouvindo o som da porta da frente se abrindo e depois o silêncio da noite retomando seu lugar. Ele sentia o calor de Sara, mas seus olhos estavam fixos no corredor vazio.

O plano dele não tinha acabado. Ele apenas precisava de uma nova estratégia. Ele era um homem que sabia que, para conseguir a tatuagem perfeita, às vezes era preciso causar dor primeiro. Eduarda achava que estava livre, mas Emanuel sabia que a seda, uma vez tocada pelo aço, nunca mais seria a mesma. Ele a deixaria ir por agora, deixaria que ela sentisse o frio do mundo sem a proteção dele.

E então, quando ela estivesse cansada e sozinha, ele estaria lá. Com Sara ao seu lado e um lugar para Eduarda em sua vida, exatamente como ele planejara. O equilíbrio do caos e da seda seria mantido, custasse o que custasse.