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D

O Labirinto de Vidro e Obsessão

A estrada de terra que levava à saída da propriedade estava mergulhada em uma escuridão absoluta, interrompida apenas pela luz pálida da lua que filtrava entre as copas das árvores. Eduarda caminhava com dificuldade, o salto de seus sapatos finos afundando no cascalho, a mala pesada puxando seu ombro para baixo. O frio da madrugada atravessava o tecido leve de seu vestido e do robe de seda, mas nada era mais gelado do que a sensação de traição que pulsava em seu peito.

Ela era manhosa, era doce, e sempre fora ensinada a buscar o lado bom das pessoas. Mas ali, sozinha no vazio da noite, Eduarda sentia que sua inocência havia sido usada como um mapa para que dois irmãos a destruíssem.

O som de um motor potente rugiu ao longe, quebrando o silêncio da mata. Eduarda parou, o coração disparando contra as costelas. Ela olhou para trás e viu os faróis de xenônio da caminhonete preta de Emanuel cortando a neblina como olhos de um predador.

— Não... por favor, não — sussurrou ela para si mesma, tentando apressar o passo, mas seus pés latejavam e o cansaço emocional a tornava lenta.

O veículo reduziu a velocidade ao se aproximar, as rodas esmagando as pedras com um som deliberado e ameaçador. Emanuel estacionou atravessado na estrada, bloqueando qualquer passagem. Ele desceu do carro com a calma de quem sabe que a caça não tem para onde fugir. Ele não parecia o homem protetor de horas atrás; agora, sob a luz crua dos faróis, ele parecia o dono de um império que não aceitava perdas.

— Duda, entra no carro — a voz dele ecoou, grave e inquestionável.

Eduarda recuou, apertando a alça da mala contra o peito. Seus olhos estavam vermelhos, e ela tremia tanto que mal conseguia se manter em pé.

— Eu disse para você não vir atrás de mim — ela exclamou, a voz saindo frouxa, carregada daquela fragilidade que sempre despertava os instintos mais sombrios de Emanuel. — Me deixa em paz, Emanuel. Vá voltar para a sua namorada. Vá voltar para a sua vida de mentiras.

Emanuel caminhou até ela. Ele não usava mais a camisa de antes; vestia apenas uma jaqueta de couro aberta sobre o peito tatuado, a pele marcada por tinta contando histórias de dor e controle. Ele parou a poucos centímetros dela, o calor de seu corpo contrastando com o ar gélido da noite.

— Você acha mesmo que eu deixaria você caminhar dez quilômetros até a cidade nesse estado? — Ele estendeu a mão para pegar a mala dela, mas Eduarda a puxou de volta.

— Eu prefiro os lobos da floresta do que você! — Ela tentou parecer firme, mas um soluço escapou, traindo sua postura. — Você me usou. Você deixou o Gustavo me tratar como lixo só para poder aparecer como o salvador. Você é cruel, Emanuel.

— Eu sou prático, Eduarda — ele retrucou, estreitando os olhos. — O Gustavo nunca te daria o que você precisa. Ele ia te quebrar em mil pedaços e te jogar fora. Eu? Eu quero te guardar. Eu quero te dar o mundo que você estuda nesses livros de arte.

— Com a Sara assistindo? — Ela deu uma risada amarga, as lágrimas voltando a cair. — Você quer que eu seja o quê? Sua boneca de porcelana? Enquanto ela é sua... sua diversão? Eu não sou um objeto, Emanuel. Eu tenho sentimentos. Eu queria que você fosse diferente.

Emanuel sentiu uma pontada de algo que se assemelhava à culpa, mas seu desejo de posse era uma força muito mais avassaladora. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela até que ela fosse obrigada a encostar na lateral da caminhonete.

— Você é diferente, Duda — ele murmurou, a voz suavizando, voltando àquele tom sedutor e protetor que a desarmava. — Você é a paz que eu nunca tive. A Sara... ela é o ruído, ela é a adrenalina que eu preciso para não enlouquecer com esse império que eu construí. Mas você é o silêncio. Você é a beleza. Eu não posso abrir mão de nenhuma das duas porque eu sou um homem completo quando tenho as duas.

— Isso é egoísmo pura e simplesmente — ela disse, tentando empurrá-lo, mas suas mãos pequenas e delicadas apenas repousaram sobre o peito firme dele. — Você não me ama. Você quer me colecionar.

— E se eu quiser? — Ele segurou os pulsos dela com firmeza, mas sem machucar. — O que há de errado em ser cuidada? Em ter tudo o que você sempre sonhou? Você não precisa mais do Gustavo. Você não precisa mais se sentir acuada. Eu vou te dar um apartamento, vou pagar seus estudos na Europa, vou te colocar em um pedestal onde ninguém, nem mesmo a Sara, poderá te tocar sem a minha permissão.

Eduarda olhou para ele, sua mente em conflito. Ela odiava a arrogância dele, mas sua natureza dependente e sensível gritava por aquela proteção. Ela se sentia tão pequena diante dele, tão incapaz de lutar contra o mundo sozinha.

— Ela me odeia, Emanuel — Eduarda sussurrou, a resistência começando a ceder à sua própria carência. — Ela vai me destruir se eu ficar perto de você.

— Ela não vai — ele prometeu, aproximando o rosto do dela, o cheiro de tabaco e sândalo a envolvendo. — Eu controlo a Sara. Ela sabe quem manda. Ela reclama, ela grita, mas ela fica porque ela sabe que eu sou o único que consegue lidar com ela. E você... você vai aprender que sob as minhas asas, ninguém te faz mal.

— Você está me pedindo para ser sua amante enquanto você namora ela? — O rosto de Eduarda ardeu de vergonha.

— Eu estou te pedindo para ser minha. O nome que o mundo dá não me importa — Emanuel soltou os pulsos dela e acariciou seu rosto com o polegar, limpando as lágrimas. — Vem comigo. Vamos sair daqui. Eu te levo para o meu apartamento na cidade, longe do Gustavo, longe dessa casa.

Eduarda hesitou. Ela olhou para a estrada escura atrás dela — a liberdade incerta, a solidão, a luta para se reconstruir sozinha. Depois olhou para Emanuel — o conforto dourado, a segurança sufocante, o homem que a olhava como se ela fosse a coisa mais preciosa e frágil do universo.

Sua natureza manhosa falou mais alto. Ela se inclinou para o toque dele, fechando os olhos.

— Eu tenho medo, Emanuel... — ela murmurou, a voz infantilizada pela exaustão.

— Eu sei, meu anjo. Eu sei — ele a puxou para um abraço apertado, e desta vez ela não lutou. Ela enterrou o rosto no peito dele, deixando que ele assumisse o controle de sua vida.

Emanuel a guiou para dentro da caminhonete, colocando-a no banco do passageiro com um cuidado quase religioso. Ele colocou a mala na caçamba e entrou no lado do motorista, sentindo a vitória pulsar em suas veias.

O trajeto de volta para a cidade foi mergulhado em um silêncio tenso. Eduarda acabou pegando no sono, exausta pelo choque emocional, a cabeça pendida contra o vidro. Emanuel dirigia com uma mão no volante e a outra repousando sobre a coxa dela, sentindo a textura da seda. Ele estava satisfeito. Tinha resgatado sua joia.

No entanto, ao chegar ao seu luxuoso apartamento de cobertura no centro da cidade, a realidade o aguardava.

As luzes estavam todas acesas. No centro da sala de estar, sentada em um sofá de veludo italiano com uma taça de champanhe na mão, estava Sara. Ela ainda usava o vestido vermelho da noite anterior, mas seu cabelo loiro estava preso em um coque firme, e seu olhar era puro veneno.

Emanuel entrou carregando Eduarda nos braços, já que a menina mal conseguia se manter acordada.

— Ora, ora — Sara disse, levantando-se, o som do salto agulha batendo no mármore como uma sentença. — O herói trouxe o troféu para casa.

Eduarda acordou com o som da voz de Sara e imediatamente se encolheu contra o peito de Emanuel, os dedos cravando-se em sua jaqueta.

— Ela vai ficar aqui, Sara — Emanuel disse, sua voz assumindo o tom de comando que não admitia réplicas. — No quarto de hóspedes da ala leste. Não quero que você a incomode.

Sara deu uma risada seca, caminhando até eles. Ela parou diante de Emanuel e estendeu a mão para tocar o cabelo de Eduarda, mas a menina recuou com um ganido baixo de medo.

— Ela é tão... fofa — Sara ironizou, os olhos brilhando de raiva contida. — Parece um gatinho abandonado. Você realmente acha que isso vai funcionar, Emanuel? Você acha que eu vou aceitar essa coisinha insossa circulando pela minha casa?

— Esta casa é minha, Sara — ele lembrou, o olhar gélido. — E você aceita o que eu decidir. Você tem tudo o que quer. Joias, carros, viagens. Eduarda não vai tirar nada disso de você. Ela precisa de paz. Você gosta de guerra. Eu pretendo dar às duas exatamente o que cada uma procura.

Sara deu um passo à frente, encostando o corpo no de Emanuel, ignorando Eduarda que estava entre eles.

— E o que acontece quando eu quiser você e você estiver ocupado lendo contos de fadas para ela? Ou quando ela começar a chorar porque eu disse que o vestido dela é cafona? — Sara olhou para Eduarda com um sorriso cruel. — Ela não vai aguentar uma semana comigo, Emanuel. Eu vou comer ela viva.

— Você não vai tocar nela — Emanuel rosnou, a mandíbula travada.

Eduarda, sentindo a agressividade de Sara, começou a soluçar baixinho.

— Emanuel, por favor... eu quero ir para um quarto. Eu não quero ficar aqui — ela pediu, a voz manhosa e trêmula, escondendo o rosto no pescoço dele para evitar o olhar predatório da loira.

— Eu vou te levar agora — ele disse, ignorando Sara e caminhando em direção ao corredor dos quartos.

— Isso não acabou! — Sara gritou atrás deles. — Você pode ter o corpo dela, Emanuel, mas ela nunca vai ser como eu. Ela nunca vai te satisfazer como eu satisfaço! Ela é uma criança brincando de ser mulher!

Emanuel fechou a porta do quarto de hóspedes, abafando os gritos de Sara. O quarto era imenso, decorado em tons de creme e dourado, com uma vista deslumbrante para as luzes da cidade. Ele colocou Eduarda na cama imensa de lençóis de algodão egípcio.

— Ela vai me matar, não vai? — Eduarda perguntou, sentada na beira da cama, olhando para as próprias mãos.

— Ela é apenas barulho, Duda — Emanuel ajoelhou-se na frente dela, pegando suas mãos pequenas nas suas. — Ela tem medo de perder o espaço dela. Mas o seu espaço é outro. Ninguém tira o que é seu por direito.

— E o que é meu por direito? — Ela perguntou, os olhos expressivos buscando uma resposta que talvez nem ele soubesse dar.

— O meu cuidado. O meu silêncio. Tudo o que você quiser — ele beijou a testa dela. — Agora, tente dormir. Eu vou falar com a Sara e garantir que ela se acalme.

— Não me deixe sozinha por muito tempo — ela pediu, segurando a mão dele com força, a dependência emocional brilhando em seu olhar.

— Eu volto logo — ele prometeu.

Emanuel saiu do quarto e encontrou Sara na cozinha, virando o resto da garrafa de champanhe. Ela se virou para ele, os olhos injetados.

— Você ficou louco? Trazer a namorada do seu irmão para morar conosco? O que o Gustavo vai dizer? O que os seus sócios vão pensar?

— O Gustavo não vai dizer nada porque eu tenho provas suficientes das falcatruas dele para mandá-lo para a cadeia por dez anos — Emanuel serviu-se de um copo de água, a calma voltando ao seu semblante. — E os meus sócios não se metem na minha vida privada. Eduarda é uma estudante de História da Arte. Ela vai ser minha protegida.

— Protegida? — Sara caminhou até ele, passando os braços pelo seu pescoço, usando sua sensualidade como última linha de defesa. — Você quer foder ela, Emanuel. Admita. Você quer a pureza que ela diz que tem.

— Eu quero o que ela representa — ele confessou, segurando a cintura de Sara com força, puxando-a para perto. — Mas eu também quero você, Sara. Eu quero a sua vulgaridade, a sua inteligência ácida, a forma como você não tem medo de nada. Por que é tão difícil entender que um homem como eu não se satisfaz com um único sabor?

Sara olhou para ele, a raiva lutando contra a luxúria e a ganância. Ela amava o estilo de vida que Emanuel proporcionava, e, de certa forma, amava o poder que ele emanava.

— Se ela entrar no meu caminho, Emanuel... se ela tentar agir como se fosse a dona da casa, eu não vou me segurar.

— Ela não vai — ele garantiu, beijando-a com uma agressividade que a fez arfar. — Ela é sensível demais para lutar. E você é forte demais para se preocupar com ela.

— Eu a odeio — Sara sussurrou entre o beijo. — Odeio aquele jeito de sonsa dela.

— Eu sei — Emanuel sorriu contra os lábios dela. — Mas você vai aprender a conviver. Porque eu não vou abrir mão de nenhuma das duas.

Enquanto Emanuel lidava com o fogo de Sara na cozinha, no quarto de hóspedes, Eduarda estava deitada, olhando para o teto. Ela ouvia os sons abafados de discussão e, depois, um silêncio que ela sabia o que significava. Ela se sentia suja, sentia-se perdida, mas ao mesmo tempo, sentia um alívio doentio. Pela primeira vez em meses, ela não precisava se preocupar com o que Gustavo faria com ela. Ela estava sob a proteção de um homem que, embora sombrio e controlador, parecia venerar sua fragilidade.

Ela se encolheu sob as cobertas, sentindo o cheiro de casa nova, de riqueza e de perigo. Eduarda sabia que sua vida nunca mais seria a mesma. Ela era agora parte de um equilíbrio precário, uma peça de seda em um mundo de aço e silicone.

Sara a odiava. Emanuel a possuía. E ela? Ela apenas tentava sobreviver ao peso de ser amada por um homem que não aceitava nada menos do que tudo.

Naquela noite, Emanuel dormiu com Sara, acalmando a fera loira com o vigor que ela exigia. Mas, nas primeiras luzes da manhã, enquanto Sara ainda dormia o sono dos ébrios, ele escapuliu do quarto e foi até o quarto de Eduarda.

Ele a encontrou dormindo como um anjo, o rosto sereno, uma mecha de cabelo castanho sobre os olhos. Ele sentou-se na poltrona ao lado da cama e ficou apenas observando-a. Ele tinha o que queria. O caos e a paz. A pecadora e a santa.

O final de semana na casa de campo fora o início de um jogo perigoso, e Emanuel estava convencido de que, como mestre das agulhas, ele poderia tatuar aquela nova realidade na vida das duas mulheres sem que o desenho se borrasse. Ele só não contava com o fato de que, às vezes, a seda rasga e o fogo consome tudo, inclusive o mestre.