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O Batismo de Sangue e Aliança
O ar no escritório de Emanuel era denso, carregado pelo cheiro de tabaco caro e o aroma metálico de tinta de tatuagem que parecia impregnado em seus poros. Ele estava sentado atrás da imensa mesa de carvalho negro, os dedos massageando as têmporas com uma força que denunciava sua beira ao colapso. Diante dele, sobre o tampo de vidro, repousava uma pequena caixa de veludo azul-marinho. Dentro, um diamante solitário capturava a luz fria do teto, brilhando com uma pureza que parecia zombar do caos em que sua vida se transformara.
Emanuel estava enlouquecendo. Fazia três semanas que Eduarda se mudara para a cobertura. Três semanas de um jogo de sedução torturante onde ela era a seda que o envolvia e, ao mesmo tempo, a corda que o enforcava. Ela circulava pelo apartamento com seus vestidos leves, exalando aquele perfume de baunilha e flores que parecia se instalar em seus pulmões, tornando o ar de qualquer outro lugar rarefeito. Ela era carinhosa, sentava-se ao seu lado, apoiava a cabeça em seu ombro e o olhava com aqueles olhos úmidos e manhosos, prometendo-lhe o céu — mas apenas depois que o altar testemunhasse sua união.
A porta do escritório se abriu com um estrondo, sem que houvesse o anúncio da secretária. Sara entrou como um furacão de saltos agulha e fúria loira. Ela jogou uma pasta de couro sobre a mesa dele, os olhos faiscando.
— Que porra é essa, Emanuel? — ela gritou, a voz ríspida ecoando pelas paredes acústicas. — Eu recebi a notificação da transferência de propriedade do andar de baixo. Mas também recebi uma cópia de um contrato pré-nupcial que o seu advogado enviou por engano para o meu e-mail de negócios. Você vai casar com ela? Com aquela mosca morta?
Emanuel levantou os olhos lentamente. A presença de Sara, que antes era o seu escape para a adrenalina e o prazer sem culpa, agora parecia uma pressão insuportável sobre seus nervos já desgastados.
— Abaixe o tom, Sara. Você está no meu local de trabalho — disse ele, a voz perigosamente baixa.
— Eu não dou a mínima para o seu trabalho! — Ela contornou a mesa, parando ao lado dele, a respiração ofegante. — Você me disse que ela era uma protegida. Me disse que eu teria o meu espaço e ela o dela. Mas dar o seu nome a ela? Dar uma aliança? Você sabe o que isso faz comigo? Eu sou a mulher que esteve ao seu lado, que entende o seu mundo, que fode com você até o amanhecer! Ela nem deixa você tocar nela!
— É exatamente por isso, Sara! — Emanuel explodiu, levantando-se abruptamente, a cadeira rolando para trás. — Eu a quero de uma forma que você não consegue entender. Eu quero o que ela se recusa a me dar. Eu quero a porra daquela pureza que ela guarda como se fosse a única coisa que importa no mundo. E se o preço para quebrar esse lacre é um sobrenome e uma aliança, eu vou pagar.
Sara recuou, o rosto pálido sob a camada de maquiagem cara. A vulgaridade que Emanuel sempre achara magnética nela agora parecia apenas... barulhenta.
— Você está doente por ela — Sara sussurrou, a voz trêmula de ódio e mágoa. — Você está jogando fora o que temos por uma fantasia de santidade. Ela está te manipulando, Emanuel. Ela sabe exatamente o que está fazendo. Aquele jeitinho de "ai, eu sou virgem, eu sou sensível"... é a armadilha mais velha do mundo.
— Se for uma armadilha, eu escolhi cair nela — ele retrucou, pegando a caixa de veludo. — Agora saia. Vá para o seu novo apartamento. Eu já mandei transferir suas coisas.
— Você vai se arrepender — Sara disse, os olhos cheios de lágrimas que ela se recusava a deixar cair. — Quando você descobrir que, por baixo daquela seda toda, só existe uma menina fria que não sabe o que fazer com um homem como você, não venha rastejando de volta para o meu andar.
Ela saiu batendo a porta. Emanuel fechou os olhos e respirou fundo. Ele sentia seu corpo vibrar de tensão. Ele não dormia bem há dias. O desejo por Eduarda tornara-se uma fome física, uma dor que nem as noites de sexo puramente mecânico com Sara conseguiam aplacar. Na verdade, tocar Sara agora parecia uma traição à obsessão que ele nutria por Eduarda, o que o deixava ainda mais irritado.
Ao chegar em casa naquela noite, o apartamento estava silencioso. Sara já havia se mudado para o andar de baixo, um exílio dourado que ela aceitara apenas porque não tinha outra escolha financeira. Eduarda estava na sala de jantar, sob a luz suave do lustre de cristal. Ela usava um vestido de cetim champanhe que abraçava suas curvas de forma discreta, mas enlouquecedora. Ela estava lendo um catálogo de leilão de arte, mas levantou o rosto assim que ele entrou.
— Você demorou, querido — disse ela, a voz doce, levantando-se para recebê-lo.
Ela se aproximou e envolveu a cintura dele com os braços, encostando a bochecha em seu peito. Emanuel fechou os olhos, aspirando o cheiro de baunilha. Ele sentiu a maciez dos seios dela contra suas costelas e um rosnado baixo escapou de sua garganta. Ele a segurou pelos ombros, afastando-a apenas o suficiente para olhar em seus olhos.
— Eu não aguento mais, Duda — ele confessou, a voz rouca de desespero. — Eu fiz o que você queria. A Sara mudou-se para o andar de baixo. Ela tem a vida dela, e nós teremos a nossa. Eu preparei os papéis. O casamento civil será em cinco dias.
Eduarda brilhou. Um sorriso radiante iluminou seu rosto, e ela se inclinou para beijar o queixo dele, uma carícia casta que quase o fez perder o controle.
— Cinco dias? Oh, Emanuel... você não sabe o quanto isso me faz feliz. Eu me sinto tão mais leve sabendo que não terei que cruzar com ela no corredor.
— Ela ainda vai estar por perto, Duda. Ela cuida de parte da minha administração, eu não posso simplesmente apagá-la. Mas ela não entrará mais aqui. Este é o seu santuário.
— Meu e seu — ela corrigiu, manhosa, passando as mãos pelos braços tatuados dele. — O nosso santuário de amor.
Emanuel a puxou para um beijo profundo. Suas mãos desceram para as nádegas dela, apertando-as através do cetim fino. Ele a pressionou contra a mesa de jantar, o desejo subindo como uma maré incontrolável. Eduarda correspondeu ao beijo por alguns segundos, mas, quando sentiu a mão dele subir perigosamente pela sua coxa, ela o parou, segurando seus pulsos com uma força surpreendente para alguém tão frágil.
— Emanuel... não. Por favor.
— Duda, pelo amor de Deus — ele implorou, a testa encostada na dela, a respiração pesada. — São só cinco dias. O que muda se for hoje? Eu estou morrendo por você. Eu não consigo pensar em mais nada. Eu não trabalho, eu não durmo... eu só vejo você.
— Muda tudo — ela sussurrou, os olhos cheios de uma tristeza fingida ou real, ele já não sabia distinguir. — Se cedermos agora, o nosso casamento perderá o significado para mim. Eu quero entrar naquela igreja sabendo que sou sua, e só sua, a partir daquele momento sagrado. Você prometeu respeitar o meu tempo.
Emanuel soltou um grito de frustração abafado e se afastou, chutando uma das cadeiras da sala de jantar. A peça de madeira nobre deslizou pelo mármore com um som estridente.
— Eu estou respeitando! — ele rugiu. — Mas você não tem ideia do que está fazendo comigo. Eu sou um homem, Eduarda. Não sou uma estátua de mármore.
— Eu sei, meu amor — ela se aproximou dele novamente, com passos lentos, e tocou seu rosto com as pontas dos dedos frios. — E eu prometo que, na nossa noite de núpcias, eu serei tudo o que você sempre sonhou. Eu serei sua escrava, sua mulher, sua vida. Mas me dê esses cinco dias. Por favor. Por mim.
Ela fez aquele biquinho manhoso, os olhos pedindo proteção, e Emanuel sentiu sua raiva ser drenada, substituída por uma resignação doentia. Ele a pegou no colo e a levou para o quarto dela, depositando-a na cama como se ela fosse feita de cristal.
— Durma, Eduarda — ele disse, com a voz falha. — Antes que eu mude de ideia e te tome aqui mesmo, independentemente de aliança ou altar.
Ele saiu do quarto sem olhar para trás e desceu as escadas de serviço que ligavam os dois apartamentos. Ele precisava de algo. Precisava de alguém que não lhe impusesse condições, que não usasse a pureza como uma faca de dois gumes.
Ele entrou no apartamento de Sara sem bater. O lugar estava uma bagunça, com caixas ainda fechadas. Sara estava na varanda, fumando um cigarro longo e bebendo uísque puro. Ela se virou quando ouviu os passos dele, um sorriso amargo cruzando seus lábios pintados de um roxo escuro.
— Ora, ora. O noivo veio visitar a amante? — ela debochou, soltando a fumaça no rosto dele. — O que foi, Emanuel? A santinha te expulsou da cama de novo?
Emanuel não disse nada. Ele apenas caminhou até ela, agarrou-a pela cintura e a beijou com uma ferocidade que beirava o ódio. Sara soltou o copo de uísque, que se estilhaçou no chão, e envolveu o pescoço dele, correspondendo com a mesma intensidade. Era um beijo de desespero, de duas pessoas que se entendiam na lama, mas que estavam sendo separadas pela seda.
— Você é um covarde — ela murmurou contra os lábios dele, enquanto ele a empurrava em direção ao sofá. — Você vai casar com ela e vai continuar vindo aqui, não vai?
— Cala a boca, Sara — Emanuel ordenou, as mãos subindo pelo corpo dela com uma urgência que ele não sentia há muito tempo.
Mas, no meio do ato, quando ele fechou os olhos, não foi o rosto de Sara que ele viu. Foi o rosto de Eduarda. O perfume de baunilha parecia assombrá-lo mesmo ali, no meio do cheiro de tabaco e sexo de Sara. Ele parou abruptamente, afastando-se de Sara como se tivesse sido queimado.
— O que foi agora? — Sara perguntou, ajeitando o sutiã, a voz carregada de escárnio. — Até aqui ela te persegue?
— Eu não consigo — Emanuel confessou, sentando-se no chão, a cabeça entre as mãos. — Eu estou perdendo a cabeça, Sara. Eu sinto que ela está me drenando.
Sara sentou-se ao lado dele, e por um momento, a rivalidade desapareceu, substituída por uma melancolia sombria.
— Ela é um parasita emocional, Emanuel. Ela se alimenta da sua necessidade de proteger. E você, como o bom salvador que gosta de ser, caiu direitinho. Você acha que está no controle, mas ela é quem está movendo as peças.
— Eu vou casar com ela — ele disse, como se precisasse reafirmar para si mesmo. — Eu vou dar o que ela quer e, em troca, ela será minha.
— E eu? Onde eu fico nessa sua catedral de mentiras?
— Você fica onde sempre esteve. No meu sangue. Mas ela... ela é a minha paz.
Sara riu, uma risada triste que ecoou pelo apartamento vazio.
— Paz? Prepare-se, Emanuel. Porque o que aquela menina vai te dar não é paz. É uma guerra silenciosa que você nunca vai ganhar.
Nos dias que se seguiram, os preparativos para o casamento civil e a pequena cerimônia religiosa seguiram em ritmo acelerado. Emanuel gastou fortunas para garantir que tudo fosse perfeito. Eduarda escolheu um vestido de renda francesa, recatado, com mangas longas e gola alta, mas que delineava seu corpo de uma forma que fazia Emanuel querer rasgar o tecido com as mãos.
Sara observava tudo do andar de baixo, enviando mensagens sarcásticas para Emanuel a cada hora, testando os limites de sua paciência. Ela descobriu a data exata e o local da cerimônia através de um dos funcionários do estúdio.
Na manhã do casamento, o apartamento estava em polvorosa. Cabeleireiros, maquiadores e estilistas circulavam ao redor de Eduarda. Ela estava radiante, com uma aura de triunfo que brilhava mais que as joias que Emanuel lhe dera.
— Você está linda, Duda — Emanuel disse, entrando no quarto. Ele usava um terno sob medida, o cabelo cortado com precisão, mas os olhos estavam injetados de cansaço.
— Hoje eu serei sua, Emanuel. De verdade — ela sussurrou, deixando que ele beijasse sua mão.
A cerimônia no cartório foi rápida. Quando o juiz de paz declarou que eles estavam casados perante a lei, Eduarda soltou um suspiro de alívio que Emanuel interpretou como amor, mas que Sara, assistindo de longe, escondida atrás de óculos escuros na calçada, interpretou como a conclusão de um negócio bem-sucedido.
A cerimônia religiosa seria em uma capela privada na propriedade de um amigo de Emanuel. No caminho para lá, dentro da limusine, Eduarda exibia orgulhosa a aliança de ouro e platina.
— Agora eu sou a senhora Eduarda Albuquerque — ela disse, saboreando o nome. — Ninguém mais pode me chamar de intrusa. Nem a Sara, nem o seu irmão.
— Ninguém, Duda — Emanuel concordou, sentindo um peso sair de seus ombros. — Agora, a promessa.
— Hoje à noite, meu amor — ela prometeu, encostando a cabeça no ombro dele. — No nosso quarto. Sem interrupções.
Mas o destino, ou talvez a fúria de uma mulher desprezada, tinha outros planos. Quando chegaram à capela, Sara estava parada na porta. Ela não usava roupas de festa. Usava um vestido de couro preto, justo, e segurava uma garrafa de champanhe.
— Parabéns ao casal de ouro! — ela gritou, atraindo a atenção dos poucos convidados. — Emanuel, você esqueceu de me convidar para o batismo da sua santinha!
— Sara, saia daqui agora! — Emanuel avançou, os punhos cerrados.
— Calma, querido. Eu só vim trazer um presente — ela caminhou até Eduarda, que se encolheu atrás de Emanuel, fazendo seu papel de vítima acuada. — Duda, querida... você ganhou o nome, ganhou a aliança e ganhou o apartamento. Mas sabe o que você nunca vai ter? O que ele faz comigo quando você o manda dormir no sofá.
Eduarda começou a chorar, um choro silencioso e convulsivo.
— Emanuel, faça ela parar... por favor, é o nosso dia especial — ela soluçou, agarrando-se ao braço dele.
— Saia, Sara! Ou eu juro que te tiro daqui à força! — Emanuel estava descontrolado. A visão de Eduarda chorando no dia do casamento era o limite.
— Eu já vou. Mas antes... — Sara se aproximou de Eduarda e sussurrou perto de seu ouvido, alto o suficiente para que Emanuel ouvisse: — Aproveite a sua noite de núpcias, "virgenzinha". Só espero que ele não chame o meu nome enquanto possuir você. Porque é o meu rosto que ele vê quando fecha os olhos.
Sara virou as costas e saiu caminhando, deixando um rastro de perfume agressivo e destruição emocional para trás.
O resto da cerimônia foi um borrão. Eduarda estava inconsolável, e Emanuel estava possesso de raiva. Quando finalmente voltaram para a cobertura, o clima era de um funeral, não de um casamento.
Emanuel entrou no quarto, jogando o paletó no chão. Ele olhou para Eduarda, que estava sentada na cama, ainda com o vestido de noiva, retirando o véu com mãos trêmulas.
— Acabou, Eduarda — ele disse, a voz densa. — Estamos casados. Você tem o meu nome. Você tem a aliança. Agora, cumpra a sua parte.
Eduarda olhou para ele, e por um momento, a timidez desapareceu. Havia um brilho de exaustão e algo mais em seus olhos. Ela se levantou e caminhou até ele, começando a desabotoar o vestido de renda.
— Você está bravo comigo por causa do que ela disse? — perguntou ela, manhosa, deixando o vestido escorregar pelos ombros, revelando uma lingerie de seda branca, imaculada.
— Eu estou louco, Eduarda. Eu não quero conversar. Eu quero você. Agora.
Ele a jogou na cama com uma urgência que não tinha mais espaço para delicadezas. Ele a possuiu com a fúria de quem busca uma redenção que talvez não existisse. Eduarda era macia, era doce, e seus sons de dor e prazer eram música para os ouvidos de Emanuel. Mas, no fundo de sua mente, as palavras de Sara ecoavam.
Ele a queria morando com ele. Ele a queria como sua esposa. Ele tinha conseguido o que desejava. Mas, enquanto ele se perdia no corpo de Eduarda, ele sentia que a seda que ele tanto cobiçara estava começando a sufocá-lo. E no andar de baixo, ele sabia que o fogo de Sara continuava queimando, esperando pelo momento em que a paz da cobertura se tornasse insuportável demais para um homem feito de sombras e tinta.
O equilíbrio fora alcançado, mas a que preço? Emanuel Albuquerque agora tinha sua santa e sua pecadora, cada uma em seu altar. Mas ele descobriu, naquela noite de núpcias, que o labirinto que ele construíra não tinha saída. Ele era o mestre, o marido e o amante, mas acima de tudo, ele era o prisioneiro de duas mulheres que, cada uma à sua maneira, haviam tatuado suas marcas em sua alma de forma indelével.