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A Máscara de Seda e o Batismo da Carne

A lua de mel em Paris fora um borrão de museus, jantares à luz de velas e uma Eduarda que parecia flutuar em sua nova condição de esposa. Mas foi na primeira noite, entre os lençóis de seda do hotel na Place Vendôme, que o mundo de Emanuel sofreu um abalo sísmico. Ele esperava fragilidade; esperava lágrimas, hesitação e o medo típico de quem guardara a pureza como um tesouro intocável sob o manto da religião e da timidez.

No entanto, quando as luzes se apagaram e a porta foi trancada, a Eduarda "manhosa" deu lugar a uma criatura que Emanuel não reconhecia. Sob o toque dele, a timidez dela não apenas desapareceu — ela se transformou em uma voracidade que beirava o animalesco. Eduarda não era apenas uma virgem entregando-se; ela era uma mulher que parecia ter estudado cada ponto de prazer do corpo masculino em silêncio, esperando o momento jurídico e socialmente seguro para liberar uma luxúria reprimida e, francamente, assustadora.

— Emanuel... — sussurrou ela naquela noite, a voz não mais doce, mas rouca, enquanto suas mãos pequenas e aparentemente frágeis o puxavam para baixo com uma força inesperada. — Você esperou tanto, não foi? Agora você é meu. Todo meu.

A "safadeza" de Eduarda era cirúrgica. Ela usava a própria aparência angelical para contrastar com atos e palavras que fariam até Sara corar. Emanuel ficou obcecado. Se antes ele a queria por proteção, agora ele a queria por vício. Ele se viu cancelando reuniões em seus estúdios ao redor do mundo apenas para voltar para casa ao meio-dia e encontrar a esposa, que o recebia com o mesmo olhar de "boneca de porcelana" para os criados, mas que, assim que a porta do quarto se fechava, transformava-se em uma amante insaciável e audaciosa.

Três meses depois, o resultado dessa rotina frenética manifestou-se em um teste de farmácia sobre a bancada de mármore.

— Eu estou grávida, Emanuel — anunciou ela, sentada no sofá da cobertura, usando um vestido de linho branco, a imagem da pureza materna. — O herdeiro dos Albuquerque está aqui dentro.

Emanuel sentiu um misto de triunfo e pânico. Um filho. O laço definitivo que prenderia Eduarda a ele para sempre. Ele a beijou com adoração, sentindo-se o homem mais poderoso do mundo. Ele tinha a esposa perfeita, grávida e dedicada, que satisfazia seus desejos mais sombrios entre quatro paredes.

Mas o equilíbrio que ele tentava manter com o andar de baixo começou a ruir.

Sara, sentindo o distanciamento de Emanuel, tornou-se cada vez mais agressiva. Ela não aceitava o papel de "segunda opção" ou de "alívio vulgar". Ela queria o Emanuel que lutava com ela, que a possuía com a fúria de quem odiava o que amava.

Certa noite, sufocado pela atmosfera quase sacra que Eduarda impunha no andar de cima com suas músicas clássicas e vitaminas pré-natais, Emanuel desceu para o apartamento de Sara. Ele precisava de ruído. Precisava de algo que não fosse o perfume de baunilha de Eduarda.

Sara o recebeu com um sorriso de escárnio, usando uma lingerie vermelha que gritava por atenção.

— Veio ver como vivem os plebeus, grande mestre? — provocou ela, servindo-lhe uma dose de uísque. — Ou a santinha está com dor de cabeça por causa da barriga?

— Cala a boca, Sara — Emanuel murmurou, puxando-a para si.

Ele tentou. Ele realmente tentou se perder no corpo de Sara como fazia antigamente. Ele buscou a vulgaridade, o impacto do silicone, a pele bronzeada e o cheiro de cigarro e festa. Mas algo estava errado. O corpo de Sara, que antes era o seu templo de luxúria, parecia... vazio. Faltava o contraste. Faltava a surpresa da "santa" revelando-se "pecadora".

Enquanto Sara se movia sob ele, tentando desesperadamente recuperar o território perdido em seu coração e em sua cama, Emanuel sentiu um bloqueio físico. Pela primeira vez em sua vida adulta, ele falhou.

— O que foi isso? — Sara perguntou, afastando-se, os olhos arregalados de choque e humilhação. — Emanuel? Você... você brochou? Comigo?

Emanuel sentou-se na beira da cama, cobrindo o rosto com as mãos. O silêncio no quarto era ensurdecedor.

— Eu estou cansado, Sara. É muita pressão. Os negócios, a gravidez da Eduarda...

— Não ouse usar a gravidez daquela sonsa como desculpa! — Sara gritou, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro. — Você nunca falhou antes! Nem quando estava estressado, nem quando estava bêbado! O que ela fez com você? Ela te enfeitiçou com aquele útero sagrado?

Emanuel não respondeu. Ele se sentia tonto. A imagem de Eduarda na noite anterior, sussurrando obscenidades no ouvido dele enquanto ele a possuía com cuidado por causa do bebê, não saía de sua mente.

— Volta para a cama, Emanuel — Sara ordenou, tentando uma última cartada, ajoelhando-se entre as pernas dele. — Eu vou fazer você esquecer ela. Eu sou a Sara. Lembra? Eu sou o seu fogo.

Ela começou a beijá-lo, usando toda a sua experiência para despertá-lo. Emanuel fechou os olhos, tentando se concentrar na sensação física. Ele precisava que aquilo funcionasse. Ele precisava provar para si mesmo que ainda era o mestre do seu próprio jogo, que ainda podia ter as duas.

Sara intensificou os movimentos, sua respiração ficando curta. Emanuel sentiu um lampejo de resposta orgânica, mas sua mente estava em outro lugar. Ele via a seda branca, via os olhos manhosos de Eduarda se transformando em chamas de luxúria, sentia o cheiro de baunilha...

— Oh, Eduarda... — o nome escapou de seus lábios em um gemido profundo e involuntário, bem no momento em que Sara achou que o havia recuperado.

Sara congelou. O mundo pareceu parar por um segundo eterno. Ela se afastou dele como se tivesse sido atingida por um raio, o rosto transfigurado por uma máscara de dor e fúria que Emanuel nunca vira antes.

— O que você disse? — a voz dela saiu como um sussurro quebrado.

Emanuel abriu os olhos, a percepção do erro atingindo-o como um soco no estômago.

— Sara, eu...

— Você gemeu o nome dela! — Ela se levantou, tremendo violentamente. — Você está na minha cama, no meu apartamento, comigo... e você chama o nome daquela sonsa? Daquela vadia de luxo que você chama de esposa?

— Sara, acalme-se, foi um lapso, eu estou com a cabeça cheia...

— Um lapso? — Sara pegou o copo de uísque da mesa de cabeceira e o arremessou contra a parede, os estilhaços voando para todos os lados. — Você nunca gemeu o meu nome com essa intensidade, Emanuel! Você está viciado nela! Você está doente!

— Eu amo a minha esposa, Sara! — Emanuel gritou de volta, levantando-se, a paciência se esgotando. — Ela está carregando o meu filho! O que você esperava? Que as coisas continuassem iguais?

— Eu esperava que você fosse homem o suficiente para manter suas promessas! — Sara avançou para ele, batendo em seu peito com os punhos cerrados. — Você me disse que eu era necessária! Que ela era apenas a paz! Mas você transformou a sua paz na sua única obsessão! Você me transformou em um fantasma nesta casa!

Emanuel segurou os pulsos dela, prendendo-os.

— Você tem tudo, Sara! O apartamento, o dinheiro, as joias! O que mais você quer?

— Eu quero o que ela roubou de mim! — Sara gritou, as lágrimas finalmente descendo, borrando sua máscara de mulher fatal. — Eu quero o homem que me olhava e não via outra pessoa! Eu prefiro que você me odeie do que me compare com ela e me ache insuficiente!

Emanuel a soltou com um empurrão ríspido.

— Talvez você seja insuficiente agora, Sara. Talvez a Eduarda tenha me mostrado que existe algo além do barulho e do silicone.

O tapa que Sara deu no rosto dele ecoou pelo quarto. O impacto fez a cabeça de Emanuel virar para o lado. Ele sentiu o gosto de sangue no lábio.

— Saia daqui — Sara disse, a voz agora fria e desprovida de qualquer emoção. — Saia agora antes que eu faça uma loucura.

Emanuel não disse mais nada. Ele pegou suas roupas e saiu do apartamento, subindo as escadas de serviço como um homem derrotado. Ao entrar na cobertura, o silêncio era absoluto. Ele caminhou até o quarto principal e encontrou Eduarda acordada, sentada na cama, lendo um livro sobre a vida de Michelangelo.

Ela olhou para ele, notando imediatamente o lábio cortado e a expressão devastada.

— Você caiu, meu amor? — perguntou ela, com aquela voz doce e manhosa que agora Emanuel sabia ser apenas a superfície de um oceano profundo e perigoso.

— Foi apenas um tropeço, Duda — ele respondeu, sentando-se na beira da cama.

Eduarda fechou o livro e se aproximou, passando os dedos delicados sobre o corte no lábio dele. Ela inclinou-se e deu um beijo suave no local ferido, e Emanuel sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— Você estava com ela, não estava? — perguntou ela, sem mudar o tom de voz, mantendo o sorriso angelical.

Emanuel gelou.

— Duda, eu...

— Não precisa mentir, Emanuel. Eu sinto o cheiro do perfume dela em você. É um perfume vulgar, não acha? — Ela se afastou um pouco, acariciando a própria barriga, onde o herdeiro dos Albuquerque crescia. — Mas eu não me importo. Sabe por quê? Porque eu sei que, mesmo quando você está com ela, é em mim que você pensa. É o meu nome que você quer gritar.

Emanuel olhou para a esposa com uma mistura de horror e fascinação.

— Como você sabe disso?

— Eu conheço você melhor do que você mesmo — ela sussurrou, puxando-o para um abraço. — Eu sei que você gosta do contraste. Mas a Sara é o passado. O futuro é o que temos aqui. Eu, você e o nosso filho. Ela é apenas uma lembrança que você ainda não teve coragem de apagar. Mas você vai apagar, Emanuel. Por mim.

Emanuel deixou-se envolver pelos braços de Eduarda. Ele sentia-se um prisioneiro em seu próprio castelo. Ele tinha a mulher que queria, morando com ele, grávida, e revelando-se uma amante que superava todos os seus sonhos. Mas o preço fora a sua sanidade e a destruição da única outra pessoa que o conhecia de verdade.

No andar de baixo, Sara pegou o telefone. Sua tristeza havia se transformado em um desejo de vingança puro e cristalino. Se ela não podia ter Emanuel, ninguém teria. Especialmente não a "santinha" que o transformara em um fantoche.

— Alô? Gustavo? — Sara disse ao telefone, a voz firme. — Eu sei que você ainda está com raiva do seu irmão por ter "roubado" a sua namorada. O que você acha de nos unirmos para mostrar para o Emanuel que a Eduarda não é exatamente a virgem sagrada que ele pensa que casou? Eu tenho algumas ideias... e acho que você vai gostar de ouvir.

Enquanto isso, na cobertura, Eduarda apagava a luz do abajur. No escuro, ela se aninhou no peito de Emanuel, sorrindo silenciosamente. Ela ganhara a guerra. Ela tinha o nome, o filho e o homem. E se para isso precisara transformar Emanuel em um viciado em seu corpo e em suas manhas, era um preço pequeno a pagar.

— Durma, meu amor — sussurrou ela. — Amanhã será um novo dia. E você será apenas meu.

Emanuel fechou os olhos, mas o sono não veio. Ele sentia o peso da aliança no dedo e o peso do segredo em seu peito. Ele conseguira o que queria: as duas. Mas, ao tentar equilibrar a seda e o fogo, ele acabara incendiando a própria alma. E ele sabia, no fundo de seu ser, que o batismo de sangue e carne que começara naquela cobertura estava longe de terminar. A gravidez de Eduarda era apenas o início de um novo capítulo de obsessão, onde o amor era a mercadoria mais cara e a verdade era a primeira vítima.