D
A Gaiola de Vidro e Ouro
O silêncio no apartamento de Emanuel não era mais o mesmo. Antes, era o silêncio da paz ou da rotina; agora, era um silêncio pesado, carregado de uma vigilância que sufocava as frestas das janelas. Dois meses haviam se passado desde que Eduarda fora resgatada daquela casa de horrores estéticos, e a dinâmica do "trisal" disfuncional havia atingido um novo patamar de toxicidade e controle.
Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro, observando as imagens das câmeras de segurança em seu tablet. Ele havia transformado o lar em uma fortaleza. Grades de design moderno, mas inquebráveis, foram instaladas. Sensores de movimento e uma equipe de seguranças no lobby que respondiam apenas a ele. Ele vivia em um estado de paranoia constante. A culpa de ter perdido Eduarda por dois meses o transformara em um carcereiro que acreditava estar agindo por amor.
— Emanuel... — A voz de Eduarda surgiu baixa, vinda do corredor.
Ela usava um pijama de seda azul-bebê, os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros. Ela parecia mais magra, mais pálida, como uma boneca que havia passado tempo demais na caixa.
— Duda, por que não está descansando? — Emanuel levantou-se imediatamente, indo até ela e envolvendo-a em um abraço possessivo. — Você sabe que o médico disse que o trauma demora a passar.
— Eu me sinto bem, Manu. De verdade — ela sussurrou, aninhando-se no peito dele, buscando aquele calor que era sua única âncora. — As meninas da faculdade... a Bia e a Luiza... elas me ligaram. Vai ter uma sessão especial no cinema hoje à noite. Um filme clássico que eu preciso ver para a matéria de Estética. Elas queriam que eu fosse.
O corpo de Emanuel enrijeceu instantaneamente. O toque carinhoso tornou-se uma pressão firme nos ombros dela.
— Cinema? À noite? — A voz dele baixou uma oitava, tornando-se perigosa. — Você perdeu o juízo, Eduarda? Depois de tudo o que aconteceu? Depois daqueles dois meses que eu passei no inferno sem saber se você estava viva?
— Mas eu vou com elas, Emanuel! — Eduarda bateu o pé de leve, as lágrimas começando a inundar seus olhos grandes. — Elas vêm me buscar na porta. Eu não aguento mais ficar trancada aqui. Eu sinto que ainda estou naquela casa de campo, só que com móveis diferentes!
— Não compare a nossa casa com aquele lugar! — ele rugiu, fazendo-a sobressaltar-se. — Eu faço tudo para te proteger! Aquele homem ainda está sendo processado, os cúmplices dele podem estar por aí. Você não sai. Ponto final.
— Você é mau! — Eduarda choramingou, escondendo o rosto nas mãos, os ombros sacudindo em soluços manhosos. — Você me prende porque não confia em mim! Eu odeio isso!
— Eu te amo tanto que não posso te perder de novo — ele disse, a voz suavizando, mas sem ceder um milímetro. — Agora vá para o quarto. Vou pedir para entregarem o seu jantar favorito.
Enquanto Eduarda corria para o quarto, batendo a porta em um acesso de birra infantil, a porta de entrada do apartamento se abriu com um estrondo. Sara entrou, carregando sacolas de marcas de luxo, o salto alto estalando contra o chão como tiros.
Emanuel havia expulsado Sara no dia do resgate, mas o exílio durou pouco. A verdade era que Emanuel era viciado no caos que Sara trazia. Ele se ressentia dela, culpava-a por tê-lo distraído na noite do sequestro, mas o magnetismo carnal e a história que tinham juntos o levaram a buscá-la de volta em um momento de fraqueza e solidão.
— Que clima maravilhoso — debochou Sara, jogando as sacolas no sofá e ajeitando o busto generoso sob o top justo de oncinha. — A bonequinha está chorando de novo? O que foi desta vez? Ela queria um pirulito?
— Ela queria sair — respondeu Emanuel, esfregando as têmporas. — E você, onde estava? Eu disse que não queria você na rua depois das seis.
Sara soltou uma risada vulgar, jogando a cabeça para trás, fazendo o loiro platinado balançar.
— Ah, Manu, poupe-me. Eu não sou a Eduarda. Eu sei me cuidar, e nenhum psicopata com complexo de curador vai me levar sem levar um chute nas bolas primeiro. Eu fui ao shopping, gastei o seu dinheiro e agora vou tomar um banho.
— Você me desobedeceu, Sara — ele caminhou até ela, a expressão sombria. — Eu coloquei regras.
— Regras que eu vou quebrar sempre que eu me sentir entediada — ela o enfrentou, colocando as mãos nos quadris, desafiando a autoridade dele. — Você está ficando louco com esse controle. Se continuar assim, vai acabar perdendo as duas, mas por vontade própria nossa.
— Eu nunca vou perder vocês — ele disse, segurando o queixo de Sara com força. — Nunca mais.
Emanuel estava dividido. Ele amava a doçura dependente de Eduarda, a forma como ela precisava dele para respirar, mas também desejava a resistência de Sara, o fogo que o fazia se sentir vivo. No entanto, o medo de uma nova tragédia sobrepujava qualquer outro sentimento.
Mais tarde naquela noite, o apartamento parecia um campo de batalha silencioso. Eduarda estava trancada em seu quarto, recusando-se a comer, fazendo greve de silêncio para punir Emanuel. Sara, por outro lado, estava no bar da sala, bebendo um martini e olhando para a porta com um sorriso conspiratório.
Emanuel recebeu uma ligação de trabalho. Um de seus estúdios em Londres estava tendo problemas com a vigilância sanitária local. Ele se trancou no escritório, mergulhando em números e contratos, tentando silenciar as vozes das duas mulheres em sua cabeça.
Sentindo que a vigilância de Emanuel havia relaxado por causa da ligação, Sara caminhou até o quarto de Eduarda. Ela não bateu; apenas entrou.
— Ei, Cinderela — chamou Sara, vendo Eduarda encolhida na cama, abraçada a um urso de pelúcia, os olhos inchados de tanto chorar.
— O que você quer, Sara? — Eduarda perguntou com a voz rouca. — Veio rir de mim porque ele não me deixou ir ao cinema?
— Na verdade, eu vim te dar um conselho — Sara sentou-se na beirada da cama, o cheiro de perfume forte invadindo o espaço delicado de Eduarda. — Você é muito boba. Fica aí chorando, fazendo manha... por isso ele te trata como um bichinho de estimação. Se você quer ir, você vai.
— Ele trancou a porta principal com a senha eletrônica. Eu não sei o código novo — Eduarda soluçou, limpando o nariz com a manga do pijama caro.
— Mas eu sei — Sara piscou, tirando um batom da bolsa. — Ele acha que eu sou burra, mas eu vi quando ele digitou hoje cedo. Eu vou sair para uma festa em um rooftop aqui perto. Se você quiser, eu te deixo na porta do cinema.
Eduarda arregalou os olhos. O medo e o desejo de liberdade lutavam dentro dela.
— Ele vai ficar furioso, Sara. Se ele descobrir...
— Ele está enterrado em papéis. E se ele descobrir, o que ele vai fazer? Nos trancar em uma masmorra? Ele já faz isso. Vamos, Duda, reage! Coloca um daqueles seus vestidos que parecem de camponesa rica e vamos.
Movida por um impulso raro de rebeldia, Eduarda se levantou. Ela escolheu um vestido de renda branca, curto o suficiente para ser provocante, mas com mangas bufantes que mantinham sua aura de inocência. Calçou suas sandálias de tiras finas e seguiu Sara pelo corredor, o coração martelando contra as costelas.
Sara digitou o código com agilidade. O clique da fechadura eletrônica soou como o hino da libertação. Elas desceram pelo elevador de serviço, evitando os seguranças principais, e saíram pela garagem, onde o conversível de Sara as esperava.
— Liberdade, baby! — gritou Sara, acelerando o carro assim que ganharam a avenida.
Eduarda sentiu o vento no rosto. Por um momento, ela foi feliz. Mas a felicidade durou pouco. Assim que Sara a deixou na frente do cinema, a ansiedade voltou a tomar conta. Ela olhou para os lados, vendo sombras em cada esquina, lembrando-se do rosto do homem que a manteve presa por dois meses.
Ela não conseguiu entrar no cinema. O pânico a paralisou na calçada. Ela tentou ligar para as amigas, mas seu celular estava descarregado — ela esqueceu de carregar na pressa de sair.
Enquanto isso, no apartamento, Emanuel terminou a ligação e foi até o quarto de Eduarda para tentar uma reconciliação. Quando viu a cama vazia e a janela aberta apenas para ventilação, sentiu o sangue congelar. Ele correu para a sala e viu que o carro de Sara não estava na garagem pelo monitor.
— NÃO! — o grito dele ecoou pelas paredes de luxo.
Ele pegou o celular e rastreou o carro de Sara. Ela estava em um clube noturno a poucos quilômetros. Ele saiu de casa como um furacão, ignorando os sinais vermelhos, o volante quase quebrando sob sua força.
Ele invadiu o clube, empurrando seguranças e clientes. Encontrou Sara no bar, rindo com um grupo de homens, um copo de vodca na mão.
— ONDE ELA ESTÁ? — Emanuel a prensou contra o balcão, os olhos injetados de raiva.
Sara perdeu o sorriso. Ela nunca vira Emanuel naquele estado de fúria cega.
— Eu... eu a deixei no cinema, Manu. Calma, ela queria sair...
— Você entregou ela de bandeja! — ele rugiu, soltando-a e correndo de volta para o carro.
Emanuel chegou ao cinema em tempo recorde. Ele viu a pequena figura branca encolhida em um banco de praça em frente ao teatro, chorando convulsivamente, cercada por estranhos que tentavam ajudar.
Ele freou o carro bruscamente e correu até ela.
— Duda!
Eduarda, ao ver Emanuel, não fugiu. Ela se jogou nos braços dele, soluçando tão alto que mal conseguia respirar.
— Manu! Me leva para casa! Por favor, me leva para casa! Tem um homem ali... ele estava me olhando... eu tive tanto medo!
Emanuel a pegou no colo, o rosto escondido no pescoço dela. Ele sentia uma mistura de alívio avassalador e uma fúria sombria. Ele a colocou no banco do passageiro e dirigiu de volta para o apartamento em um silêncio sepulcral.
Quando chegaram, Sara já estava lá, parecendo acuada pela primeira vez na vida.
— Manu, escuta... — começou Sara.
— Calada — ele disse, a voz num sussurro frio que era pior do que qualquer grito.
Ele levou Eduarda para o quarto, trocou suas roupas com uma delicadeza possessiva e a deitou. Ela se agarrou à sua mão, tremendo.
— Eu nunca mais vou sair, Manu. Eu juro. Eu vou ser boa, eu vou ficar aqui com você. Só não me deixa sozinha...
— Eu avisei, Duda. O mundo lá fora é cruel — ele beijou a testa dela, uma promessa sombria em seus olhos. — Agora você entende por que eu faço o que faço.
Ele saiu do quarto e encontrou Sara na sala.
— Você quase causou uma tragédia de novo — disse ele, aproximando-se dela. — Você acha que isso é um jogo? Que a segurança da Eduarda é algo que você pode usar para me provocar?
— Eu só queria que ela parasse de ser tão frouxa! — rebateu Sara, embora sua voz tremesse. — Você está transformando este lugar num hospício!
— Se é um hospício, então você é uma das pacientes — Emanuel segurou o braço de Sara com força. — A partir de amanhã, nenhum carro sai da garagem sem a minha autorização. Os cartões de crédito de vocês serão monitorados. E se vocês tentarem fugir de novo, eu vou levar as duas para uma das minhas propriedades isoladas na Europa. Vocês não conhecem o meu lado sombrio quando se trata de manter o que é meu.
Sara tentou sustentar o olhar, mas o poder e a riqueza de Emanuel, aliados à sua instabilidade emocional, eram uma combinação que até ela temia.
— Você nos ama ou nos coleciona, Emanuel? — perguntou ela, com um traço de amargura.
Emanuel olhou para a porta do quarto onde Eduarda dormia sob o efeito de um calmante, e depois para Sara, cujas curvas e audácia ainda o prendiam.
— Eu protejo o que é meu — respondeu ele, de forma simples e cruel. — E vocês duas são a minha vida. Quer vocês queiram, quer não.
Naquela noite, Emanuel não dormiu. Ele ficou sentado no sofá, observando os monitores, o senhor absoluto de seu pequeno e dourado reino de vidro, enquanto, nos quartos, uma mulher chorava de medo e a outra planejava sua próxima jogada em um tabuleiro onde o rei nunca perdia. A dinâmica entre os três havia se tornado um laço de fita de cetim que, se puxado com muita força, transformava-se em uma corda de enforcamento. E Emanuel estava segurando as duas pontas.