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O Labirinto de Veludo e Espinhos

O ar no apartamento de 400 metros quadrados parecia cada vez mais rarefeito, saturado pelo perfume caro de Sara e pela fragrância suave de baunilha que Eduarda exalava. Emanuel, sentado em seu escritório particular, sentia o peso de uma coroa invisível. Ser o dono de um império de tatuagens e negócios imobiliários era simples comparado ao gerenciamento do caos emocional que residia sob seu teto.

Eduarda entrou no escritório sem bater, seus passos tão leves quanto o bater de asas de uma borboleta. Ela usava um vestido de algodão branco com pequenas flores bordadas, um visual que gritava pureza e fragilidade. Seus olhos castanhos, ainda um pouco avermelhados pelo choro da noite anterior, encontraram os dele.

— Manu... podemos conversar? — A voz dela era um sussurro manhoso, a própria personificação da carência.

Emanuel largou a caneta de ouro e suspirou, massageando as têmporas.

— O que foi agora, Duda? Se for sobre sair sozinha, a resposta continua sendo não.

— Não é isso — disse ela, aproximando-se e sentando-se no braço da poltrona dele, passando as mãos pequenas pelos ombros tensos do homem. — Eu estive lendo... e conversando com uma amiga da faculdade por mensagem. Eu acho que você está muito estressado. Você não dorme, você grita com os seguranças, você está... obsessivo.

Emanuel soltou uma risada seca, desprovida de humor.

— Obsessivo? Eu quase perdi você para um lunático que queria te colecionar como se fosse uma estátua. Se eu não for "obsessivo", quem vai garantir que você não suma de novo?

— Eu sei, meu amor — ela murmurou, encostando o rosto no dele, a pele macia contrastando com a barba por fazer de Emanuel. — Mas você está carregando o mundo nas costas. Talvez... talvez fosse bom se você fizesse terapia. Para aprender a lidar com esse medo. Para a gente poder viver em paz, sem que você sinta que precisa nos trancar.

Emanuel ficou em silêncio por um longo tempo. A ideia de abrir sua mente para um estranho lhe parecia absurda, uma fraqueza que ele não podia se dar ao luxo de ter. Mas o olhar de Eduarda — aquele olhar de corça ferida que sempre o dobrava — era impossível de ignorar.

— Tudo bem — ele cedeu, surpreendendo a si mesmo. — Eu vou procurar alguém. Mas não espere que eu vire um monge budista da noite para o dia.

As sessões começaram na semana seguinte. O terapeuta, um homem de meia-idade com óculos de aro fino e uma paciência infinita, tentava desconstruir as paredes que Emanuel erguera. Emanuel ia às sessões, falava o necessário, pagava o triplo da consulta para garantir sigilo absoluto e saía de lá sentindo-se apenas levemente mais calmo, mas não menos controlador.

A terapia mudou Emanuel apenas na superfície. Ele parou de gritar tanto com os funcionários e passou a usar um tom de voz baixo e gélido que era, de certa forma, ainda mais aterrorizante. Ele permitiu que Eduarda voltasse às aulas de História da Arte, mas com a condição de que dois seguranças estivessem permanentemente estacionados à porta da sala de aula. Para ele, aquilo era um "avanço". Para o mundo exterior, era apenas uma coleira mais elegante.

A trégua doméstica, no entanto, foi estilhaçada em uma tarde de terça-feira por causa de algo tão pequeno e brilhante quanto o ego de Sara.

Emanuel havia comprado um conjunto de joias em um leilão de caridade: um colar de safiras raras montado em platina. Era uma peça de museu, pesada e deslumbrante. Ele pretendia dar a peça para Eduarda, como um presente para celebrar o fato de ela estar se sentindo melhor, mas esqueceu a caixa sobre a mesa de centro da sala antes de entrar em uma videoconferência.

Sara, saindo do banho com um roupão de seda que mal cobria suas curvas siliconadas, viu a caixa de veludo azul. Seus olhos brilharam com a cobiça de quem acredita que o mundo lhe deve tributos.

— Meu presente de "mêsversário" de volta? — Sara sorriu para si mesma, abrindo a caixa. — O Manu realmente se superou.

Ela colocou o colar, admirando como o azul das pedras realçava o loiro de seu cabelo e o brilho de sua maquiagem sempre impecável. Ela estava desfilando pela sala quando Eduarda apareceu, carregando alguns livros de arte.

— Sara? O que você está fazendo com isso? — Eduarda parou, o rosto empalidecendo. — O Emanuel me disse que tinha uma surpresa para mim hoje de manhã. Ele descreveu esse colar.

Sara virou-se lentamente, um sorriso irônico e cruel curvando seus lábios pintados de gloss.

— Surpresa para você, bonequinha? — Sara soltou uma risada escandalosa que ecoou pelo apartamento. — Olhe para mim e olhe para você. Esse colar exige presença, exige um corpo que saiba carregar luxo. Em você, isso ia parecer bijuteria de festa de quinze anos.

— Devolve, Sara! — Eduarda deu um passo à frente, a voz trêmula. — É meu. O Emanuel comprou para mim!

— O Emanuel compra o que eu quiser porque eu sou a mulher que mantém o sangue dele quente, enquanto você é só a criança que ele tem medo que quebre! — Sara deu um passo agressivo na direção de Eduarda, a diferença de altura e a postura dominante intimidando a mais jovem. — Você é uma sonsa, Eduarda. Vive fazendo essa cara de choro para conseguir o que quer, mas no fundo você é só um peso morto nesta casa.

— Eu não sou! — Eduarda gritou, mas o grito saiu agudo e sem força. As lágrimas já começavam a rolar por suas bochechas. — Você é vulgar, Sara! Você só se importa com dinheiro e joias!

— E você se importa com o quê? Com os seus livrinhos de arte enquanto vive às custas do homem que eu ajudo a gerenciar? — Sara se aproximou tanto que Eduarda podia sentir o cheiro forte de seu perfume. — Esse colar fica comigo. Se você quer algo, vá chorar nos pés dele e peça outra coisa. Esta joia é para uma mulher de verdade, não para uma menina que precisa de babá para ir à faculdade!

— Por favor... — Eduarda soluçou, cobrindo o rosto com as mãos, o corpo miúdo tremendo sob o peso da agressividade de Sara. — Por que você é tão má comigo? Eu nunca te fiz nada...

— Porque você me irrita! — Sara gritou, a voz subindo de tom, tornando-se estridente. — A sua simples existência me irrita! Esse seu jeito de "vítima", essa sua mania de ser protegida... você é um fardo, Eduarda! E o Emanuel só te mantém aqui por culpa!

Eduarda desabou no sofá, escondendo o rosto entre as almofadas, chorando de forma convulsiva. Era o tipo de choro que ela usava quando queria que o mundo parasse, um pedido silencioso por socorro que sempre trazia Emanuel correndo.

E foi exatamente o que aconteceu. A porta do escritório se abriu com violência. Emanuel apareceu, o rosto contorcido em uma máscara de irritação. Ele ainda estava com os fones de ouvido pendurados no pescoço.

— Mas que inferno está acontecendo aqui? — Ele olhou para a cena: Eduarda em posição fetal no sofá, soluçando, e Sara de pé, ostentando o colar de safiras com o queixo erguido.

— A sua protegida resolveu ter um ataque de pelanca porque eu peguei o meu presente — disse Sara, cruzando os braços, sem demonstrar um pingo de remorso.

— Emanuel... — Eduarda levantou o rosto, os olhos inchados, a imagem da desolação. — Ela disse coisas horríveis... ela pegou o colar que você disse que era meu... ela disse que você só me quer por culpa...

Emanuel sentiu a têmpora latejar. A terapia o ensinara a respirar fundo, a tentar "processar" as emoções antes de agir. Ele respirou. Uma vez. Duas vezes. Não adiantou nada. A visão de Eduarda sofrendo disparava nele um gatilho de proteção que obliterava qualquer lógica clínica.

— Tira o colar, Sara — disse ele, a voz tão baixa que era quase um rosnado.

— O quê? Manu, você não vai dar razão para essa...

— Eu não vou repetir — Emanuel caminhou até Sara. Ele não a tocou, mas sua presença física era como uma parede de concreto se fechando sobre ela. — O colar é da Eduarda. Eu o comprei pensando nela. Tira agora e pede desculpas.

Sara riu, uma risada nervosa, a confiança começando a fraquejar diante da frieza dele.

— Você está brincando, né? Vai me humilhar por causa de um colar? Depois de tudo o que eu faço por você?

— Eu disse para tirar — Emanuel estendeu a mão.

Com um gesto brusco e cheio de ódio, Sara arrancou o fecho do colar, quase machucando o próprio pescoço, e jogou a joia no peito de Emanuel.

— Toma! Fica com essa porcaria e com essa garota insuportável! — Sara se virou para Eduarda, os olhos brilhando com uma promessa de vingança. — Aproveita, Duda. O brilho das pedras é a única coisa que você vai ter, porque você nunca vai ter o respeito dele. Você é uma prisioneira, e prisioneiras não precisam de joias, precisam de grades!

Sara saiu batendo os saltos com toda a força, entrando em seu quarto e batendo a porta de forma que o som ecoou por todo o andar.

Emanuel soltou um suspiro longo, sentindo o cansaço de mil anos. Ele se sentou no sofá ao lado de Eduarda e a puxou para o seu colo. Ela se aninhou nele imediatamente, escondendo o rosto em seu pescoço, molhando sua camisa com lágrimas quentes.

— Calma, Duda... já passou. Eu estou aqui.

— Ela é tão cruel, Manu... — ela soluçou, a voz abafada. — Por que ela tem que morar aqui? Por que você deixa ela falar assim comigo?

Emanuel fechou os olhos, acariciando os cabelos dela.

— A Sara é... complicada. Mas ela não vai mais te incomodar hoje. Eu vou cuidar disso.

Ele pegou o colar de safiras e o colocou delicadamente no pescoço de Eduarda. A platina estava fria, mas as pedras brilhavam sob a luz do lustre, um símbolo de propriedade e proteção.

— Viu? É seu. Só seu. Ninguém toca no que é seu enquanto eu estiver aqui.

Eduarda olhou para o próprio reflexo no espelho de prata da sala de jantar. Ela ainda soluçava baixinho, mas havia um pequeno brilho de triunfo em seus olhos castanhos por trás das lágrimas. Ela sabia que, enquanto pudesse chorar e fazer Emanuel se sentir o seu único salvador, ela seria a rainha daquela gaiola, não importa o quanto Sara gritasse ou o quanto Emanuel tentasse se curar em poltronas de terapeutas.

— Você me ama, Manu? — ela perguntou, fazendo aquela voz de criança que se perdeu no shopping.

— Mais do que tudo — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela.

Emanuel olhou para a porta fechada do escritório. A terapia estava ajudando a controlar seus surtos de raiva, mas não estava mudando o fato de que ele gostava daquele caos. Ele gostava de ser o juiz, o júri e o carrasco daquelas duas mulheres. Ele gostava da dependência absoluta de Eduarda e da resistência viciante de Sara.

Ele se levantou, ainda carregando Eduarda no colo como se ela não pesasse nada.

— Vou te levar para o quarto. Você precisa descansar.

— Você vai ficar comigo? — ela pediu, enlaçando o pescoço dele com os braços finos.

— Vou. Vou ficar com você até você dormir.

Enquanto passava pelo corredor, Emanuel viu a fresta de luz sob a porta de Sara. Ele sabia que, mais tarde, teria que lidar com ela. Teria que acalmá-la com presentes mais caros ou com a intensidade bruta que só eles compartilhavam. Era um ciclo exaustivo, um labirinto de emoções onde ele era o arquiteto e a própria vítima.

A terapia o ensinara que ele tinha um "complexo de salvador" ligado a um "transtorno de controle". Emanuel apenas sorria para o médico e pagava a conta. Para ele, não eram transtornos. Era apenas a forma como ele mantinha seu mundo intacto.

Eduarda adormeceu segurando a mão dele, o colar de safiras ainda em seu pescoço, brilhando na penumbra do quarto. Emanuel ficou ali, sentado na beira da cama, observando-a. Ele era o tatuador rico, o homem que marcava a pele das pessoas para sempre. Mas ali, naquele apartamento, ele percebeu que as marcas mais profundas não eram feitas com agulhas e tinta, mas com silêncios, joias e o medo constante de perder o que se ama.

Ele se levantou silenciosamente e foi até a varanda. A cidade de São Paulo se estendia abaixo dele como um mar de luzes nervosas. Ele acendeu um cigarro, algo que raramente fazia, e soltou a fumaça no ar frio da noite.

— Dois meses — sussurrou para si mesmo, lembrando-se do tempo em que Eduarda esteve desaparecida.

Aquele trauma era a raiz de tudo. A terapia poderia suavizar as arestas, mas nunca arrancaria a semente do medo que florescera em seu peito. Ele preferia ser um monstro controlador a ser o homem que chora diante de uma cama vazia.

A porta da varanda se abriu e Sara apareceu. Ela não estava mais de roupão. Usava um vestido preto justo e segurava uma taça de vinho. Ela não disse nada, apenas parou ao lado dele e olhou para a cidade.

— Você é um desgraçado, Emanuel — ela disse, após um tempo, a voz desprovida da agressividade de antes, restando apenas um cansaço amargo.

— Eu sei — ele respondeu, sem olhar para ela.

— Você sabe que ela faz cena. Você sabe que ela me provoca com aquele jeito de santa só para ver você se virar contra mim.

— Eu sei disso também, Sara.

— E mesmo assim você faz o que ela quer.

Emanuel finalmente virou-se para ela, a luz da lua destacando as tatuagens que subiam pelo seu pescoço.

— Eu dou a ela a paz que ela precisa. E dou a você o fogo que você busca. Por que é tão difícil aceitar que cada uma tem o seu lugar?

Sara deu um gole longo no vinho e soltou uma risada curta.

— Porque o lugar de rainha só tem espaço para uma, Manu. E você nos colocou em um trono que é pequeno demais para dois egos.

Ela se aproximou e encostou a cabeça no ombro dele, o colar de safiras de Eduarda ainda sendo uma imagem fresca em sua mente.

— Um dia, esse seu castelo de cartas vai cair — ela profetizou.

— Talvez — Emanuel jogou a bituca do cigarro lá do alto, observando o ponto incandescente desaparecer na escuridão. — Mas enquanto não cai, eu sou o dono do baralho.

E naquele luxuoso apartamento, entre joias, lágrimas e sessões de terapia que mal arranhavam a superfície, a vida continuava. Um jogo perigoso onde o amor era a aposta e a liberdade era o preço que ninguém estava disposto a pagar.