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O Labirinto da Teimosia e o Resgate do Coração
O réveillon em São Paulo fervilhava com a promessa de recomeços, mas dentro do triplex de Emanuel, o clima era de uma guerra de trincheiras que parecia não ter fim. O trauma do Natal nos Alpes Suíços ainda ecoava nos corredores silenciosos. Emanuel, sentado em sua poltrona de couro legítimo, observava as duas mulheres à sua frente como um general exausto que contempla um mapa de batalha impossível de vencer.
— Eu já disse e não vou repetir — Emanuel falou, a voz baixa, mas carregada daquela autoridade que costumava fazer seus tatuadores tremerem nos estúdios. — Nós vamos passar a virada no iate, em Ilhabela. Já está tudo organizado. Segurança reforçada, buffet exclusivo e o isolamento que eu exijo.
Sara, sentada no braço do sofá oposto, bufou, fazendo as unhas recém-feitas estalarem contra a tela do celular de última geração. Ela usava um vestido justo de paetês dourados que gritava luxo e vulgaridade na mesma proporção.
— Ah, Manu, iate de novo? Que tédio! — Sara reclamou, jogando o cabelo loiro para trás. — As meninas vão estar todas naquela festa na White Party em Jurerê. Vai ser épico! Eu quero champanhe, flash e gente bonita, não ficar balançando no mar com você e a "Santa Eduarda" fazendo cara de choro.
Emanuel lançou um olhar gélido para Sara. Ele conhecia o preço do silêncio dela.
— Sara, se você fechar a boca e entrar naquele carro sem reclamar, eu dobro o limite do seu cartão de crédito para a temporada de janeiro em Paris. E você pode levar aquela bolsa da Hermès que ficou namorando na vitrine semana passada.
O efeito foi instantâneo. O rosto de Sara se iluminou, a ganância brilhando mais forte que o ouro de seu vestido.
— Paris? — Ela sorriu, uma expressão predatória e satisfeita. — Bom, o iate tem um deck maravilhoso para fotos, afinal. Eu aceito. Mas quero a bolsa antes de embarcarmos.
— Feito — Emanuel sentenciou, sentindo um gosto amargo na boca. Ele sabia que Sara era fácil de manejar; ela tinha um preço. O problema real estava sentado no chão, ao lado de sua poltrona.
Eduarda não estava usando paetês nem ouro. Ela vestia um vestido de seda branca, simples e romântico, que realçava sua fragilidade. Suas mãos pequenas apertavam um pingente de prata, e seus olhos castanhos estavam vermelhos de tanto chorar.
— Eu não quero Paris, Manu — Eduarda sussurrou, a voz falhando. — E eu não quero iate. Eu quero a minha mãe. Eu quero o cheiro de rabanada da minha tia. Eu quero estar com a minha família.
Emanuel suspirou, passando a mão pelo cabelo curto. Com Eduarda, a lógica do dinheiro não funcionava. Com ela, tudo era sobre o emocional, sobre aquela manha que o enlouquecia e o encantava ao mesmo tempo.
— Duda, a gente já conversou. É perigoso. O mundo não é seguro para você lá fora, você sabe disso. Eu não posso te proteger no meio de uma fazenda cheia de gente entrando e saindo.
— Você não quer me proteger, você quer me esconder! — Eduarda levantou-se, o bico enorme se formando nos lábios, a expressão de birra mais pura que Emanuel já vira. — Eu passei o Natal naquele gelo da Suíça por sua causa! Eu fiz tudo o que você quis! Mas o ano novo é meu! Eu vou para a fazenda, Emanuel! Eu vou!
— Você não vai a lugar nenhum sem a minha permissão — ele retrucou, a paciência se esvaindo. — E eu estou dizendo que nós vamos para o iate.
— Então você vai sozinho com a siliconada! — Eduarda bateu o pé com tanta força que o som ecoou na sala. — Eu odeio você! Você é um monstro controlador!
A paciência de Emanuel, que já estava por um fio desde o sequestro dela meses atrás, finalmente arrebentou. O medo constante de perdê-la de novo se transformava em uma raiva defensiva, uma necessidade de mostrar quem detinha o poder.
— Quer saber? — Emanuel levantou-se, sua estatura imponente fazendo Eduarda recuar um passo, embora ela mantivesse o queixo erguido de forma desafiadora. — Vá. Vá para a sua fazenda. Vá para o meio do nada. Mas se você passar por aquela porta agora, Eduarda, não volte mais. Eu estou cansado dessa sua manha, desse choro por tudo. Vá e suma da minha vida!
Eduarda empalideceu. O silêncio que se seguiu foi cortante. Sara, no fundo, deu um sorrisinho de triunfo, achando que finalmente a rival tinha sido descartada.
— Você está me mandando embora? — Eduarda perguntou, a voz trêmula.
— Estou dizendo que, se você não aceita as minhas condições, você é livre para ir. Mas as portas deste triplex estarão trancadas para você para sempre — Emanuel falou, as palavras saindo mais frias do que ele pretendia. Ele achava, lá no fundo, que ela ia desabar, pedir desculpas e se aninhar em seu peito como sempre fazia.
Mas Eduarda, movida por uma mistura de mágoa profunda e uma astúcia feminina que Emanuel ainda subestimava, fez o oposto. Ela limpou as lágrimas com as costas das mãos, deu as costas e caminhou em direção ao quarto.
— Ótimo! — ela gritou enquanto andava. — Eu vou mesmo! Eu prefiro ficar sozinha do que com um homem que não me ama de verdade!
Cinco minutos depois, ela passou pela sala carregando uma mala pequena, o bico ainda maior, os olhos brilhando com uma determinação que Emanuel nunca vira nela. Ela passou por ele sem olhar, o perfume de baunilha deixando um rastro de saudade antecipada no ar.
— Eduarda! — ele chamou, mas a porta bateu com estrondo.
Sara riu, levantando-se para abraçar o braço de Emanuel.
— Finalmente, Manu! Agora podemos curtir o iate em paz. Deixa essa chata ir chorar no mato.
Emanuel não respondeu. Ele ficou olhando para a porta fechada por um longo minuto. Dois minutos. Cinco minutos. O silêncio do apartamento começou a sufocá-lo. Ele imaginou Eduarda sozinha, na rua, vulnerável. Imaginou o perigo, os homens que a observavam, o trauma que ela ainda carregava.
A raiva foi substituída por um pânico avassalador.
— O que você está fazendo? — Sara perguntou, vendo-o pegar as chaves do carro e o paletó.
— Cala a boca, Sara! — Emanuel rugiu, a voz carregada de uma fúria que a fez recuar de verdade. — Se acontecer alguma coisa com ela, eu juro que acabo com tudo!
Ele saiu do apartamento em um desespero cego. No elevador, ele socava a parede de metal. Como ele pudera ser tão estúpido? Ele sabia que Eduarda era manhosa, sabia que ela batia o pé apenas para ser convencida com carinho, e ele a expulsara.
Emanuel pegou seu carro esportivo na garagem e saiu em alta velocidade pelas ruas de São Paulo. Ele sabia o caminho que ela faria. Eduarda não tinha carro próprio; ela provavelmente pegaria um táxi ou um aplicativo para a rodoviária.
O trânsito de fim de ano estava caótico, o que só aumentava a agonia de Emanuel. Ele ligava para o celular dela freneticamente, mas ela não atendia.
— Atende, Duda... por favor, atende... — ele murmurava, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante.
Ele a encontrou a poucos quilômetros do prédio, em um posto de gasolina onde ela esperava por um transporte. Eduarda estava sentada em sua malinha, o vestido branco contrastando com o asfalto cinza, parecendo a criatura mais solitária e frágil do mundo sob as luzes de neon do posto.
Emanuel freou o carro bruscamente, os pneus cantando no asfalto. Ele saltou do veículo antes mesmo de desligar o motor.
Eduarda o viu. Ela se levantou rapidamente, cruzando os braços e fazendo o bico mais exagerado de sua vida. Quando ele se aproximou, ela virou o rosto.
— Vá embora, Emanuel! Vá para o seu iate! — ela gritou, embora o alívio estivesse estampado em seus olhos, escondido sob a máscara de irritação.
— Duda, entra no carro agora — Emanuel ordenou, a voz rouca de emoção e alívio.
— Não! — Ela bateu o pé no chão do posto. — Eu vou para a fazenda! Você disse que eu podia ir! Você disse para eu não voltar!
— Eu fui um idiota, Eduarda! Eu estava nervoso! — Ele tentou segurar o braço dela, mas ela se esquivou com uma agilidade manhosa.
— Agora você se arrependeu? Pois eu não volto! Eu vou passar o ano novo com gente que gosta de mim, não com um carcereiro que me troca por uma bolsa de grife para a Sara!
— Eduarda, para com isso! — Emanuel estava perdendo o controle de novo, mas desta vez não era raiva, era desespero. — Você sabe que eu não vivo sem você. Você sabe que eu morro de medo de algo te acontecer.
— Então você devia ter pensado nisso antes de me mandar embora! — Ela deu as costas para ele, tentando caminhar em direção à conveniência do posto.
Emanuel não aguentou mais. Ele não ia mais discutir, não ia mais negociar. Ele precisava dela de volta ao seu domínio, de volta ao seu abraço, onde ele sabia que ela estaria segura.
Com dois passos largos, ele a alcançou. Antes que Eduarda pudesse protestar, Emanuel a segurou pela cintura e, com um movimento firme e vigoroso, a ergueu do chão.
— Ei! Me solta! Emanuel! — ela gritou, batendo com as mãos pequenas nas costas dele enquanto ele a jogava por cima do ombro como se ela fosse um saco de plumas.
— Você vai voltar comigo agora, Eduarda. E não quero ouvir mais um pio sobre fazenda ou sobre ir embora — Emanuel falou, sua voz vibrando contra o corpo dela.
Ele caminhou até o carro com ela esperneando em seus ombros. Eduarda gritava, mas havia algo no tom de seus gritos que não era de medo. Suas mãos, que antes batiam, agora se agarravam à camisa dele. Ela amava aquela demonstração de força bruta, aquela possessividade que Emanuel só mostrava quando estava no limite. Era o seu "toque de romance" distorcido, a prova definitiva de que ela era o centro do mundo dele.
Emanuel a colocou no banco do passageiro com uma firmeza quase bruta, fechando a porta e travando-a imediatamente. Ele deu a volta e entrou no lado do motorista, respirando pesadamente.
O silêncio no carro era denso. Eduarda estava sentada, muito reta, o bico ainda presente, mas suas bochechas estavam coradas e seus olhos brilhavam.
— Eu ainda te odeio — ela murmurou, ajeitando o vestido.
Emanuel não disse nada. Ele apenas esticou a mão e segurou a nuca dela, puxando-a para um beijo faminto, desesperado, que cheirava a possessão e arrependimento. Eduarda cedeu instantaneamente, as mãos entrelaçando-se nos cabelos dele, soltando um suspiro de rendição.
— Você não vai a lugar nenhum, Duda — ele sussurrou contra os lábios dela. — Nunca mais. Se você tentar fugir de novo, eu te busco no inferno se for preciso.
— Você é um bruto — ela disse, a voz agora doce e manhosa, aninhando-se no peito dele enquanto ele dava partida no carro. — Mas eu só volto se você prometer que a Sara não vai ganhar aquela bolsa.
Emanuel soltou uma risada curta, a primeira daquela noite.
— Esqueça a Sara, Duda. O ano novo vai ser do seu jeito. Se você quer o cheiro de rabanada, eu mando o melhor chef da cidade preparar uma ceia de fazenda dentro daquele iate. Mas você fica comigo. Entendido?
Eduarda sorriu, vitoriosa, escondendo o rosto no pescoço dele.
— Entendido, Manu. Mas eu ainda quero que você me carregue no colo até o barco.
— Eu carrego você para onde você quiser, pequena — Emanuel prometeu, acelerando em direção ao porto.
A guerra do réveillon tinha um vencedor. Sara teria seu cartão de crédito, mas Eduarda tinha o homem. E enquanto o carro cortava a noite paulistana, Eduarda sabia que, entre manhas e batidas de pé, ela tinha Emanuel exatamente onde queria: perdidamente rendido à sua fragilidade. O sequestro a mudara, o trauma a fizera frágil, mas nos braços de Emanuel, ela descobria que sua maior fraqueza era, na verdade, sua maior força. E ele, o grande Emanuel, nunca se sentira tão poderoso quanto naquele momento em que, finalmente, tinha sua boneca de porcelana de volta ao seu castelo.