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O Peso da Vontade
O mês de dezembro chegou ao triplex de Emanuel como uma frente fria e cortante, apesar do calor escaldante que fazia lá fora, nas ruas de São Paulo. Dentro daquelas paredes de mármore e vidro, a tensão acumulada ao longo de um ano de sequestros, traumas e disputas por território estava prestes a atingir o ponto de ebulição. O Natal, que deveria ser um momento de trégua, tornara-se o novo campo de batalha entre as duas mulheres que habitavam o coração — e a paciência — de Emanuel.
Emanuel estava sentado na cabeceira da mesa de jantar, o som dos talheres contra a porcelana fina sendo o único ruído no ambiente. Ele observava Eduarda, que mexia na salada com um ar de melancolia profunda, os olhos castanhos fixos no prato. Do outro lado, Sara bebia seu vinho tinto com uma intensidade agressiva, os lábios pintados de um vermelho sangue que combinava com seu humor volátil.
— Manu... — Eduarda começou, a voz saindo como um sussurro manhoso, quase inaudível. — Eu recebi uma mensagem da minha tia hoje. Ela disse que a fazenda está linda para o Natal. Meus primos vão todos, e ela até separou o quarto que eu mais gosto, aquele com vista para o pomar.
Emanuel não levantou os olhos do seu prato. Ele sabia onde aquilo ia dar.
— Seria tão bom, Manu... — continuou Eduarda, a voz ganhando um tom de súplica. — Depois de tudo o que eu passei... o ar do campo, a família, o silêncio. Eu sinto que preciso disso para me curar de verdade. A gente podia passar o Natal lá, só nós. Longe de tudo isso.
Sara soltou uma risada ruidosa e sarcástica, batendo a taça na mesa com força suficiente para fazer o líquido balançar.
— Fazenda, Eduarda? Você quer levar o Emanuel para o meio do mato, para ser picado por mosquito e comer comida gordurosa com parentes caipiras? — Sara revirou os olhos, ajeitando o cabelo loiro platinado. — Emanuel é um homem rico, um empresário. Ele não pertence a um curral.
— Não é um curral, Sara! É a minha família! — Eduarda rebateu, a voz trêmula, mas firme. — E o Emanuel sabe o quanto isso é importante para mim. Eu quase morri este ano! Eu fui tirada da minha vida! Eu mereço um pouco de paz.
— Todos nós passamos por estresse, "queridinha" — Sara sibilou, inclinando-se para a frente, o decote generoso quase tocando a mesa. — E é por isso que eu já combinei com as minhas amigas. Vamos alugar aquela mansão em Angra. Vai ser a festa do ano. Iates, champanhe, gente que realmente importa. O Emanuel precisa se divertir, não ficar ouvindo história de boi dormir.
— Eu não vou para Angra com as suas amigas vulgares! — Eduarda gritou, levantando-se da cadeira, as lágrimas já começando a rolar. — Manu, diz para ela! Diz que nós vamos para a fazenda!
— Você não vai para lugar nenhum, sua sonsa! — Sara também se levantou, a máscara de sofisticação caindo para dar lugar à sua agressividade natural. — Emanuel vai comigo! Ele precisa de uma mulher de verdade ao lado dele nas festas, não de uma criança que chora por causa de árvore de Natal!
— CHEGA! — O grito de Emanuel não foi alto, mas foi carregado de uma autoridade tão gélida que o ar na sala pareceu congelar instantaneamente.
Ele largou os talheres e limpou os lábios com o guardanapo de linho, movendo-se com uma calma deliberada que era muito mais aterrorizante do que qualquer explosão de raiva. Emanuel levantou-se e caminhou até o centro da sala, olhando de uma para a outra.
— Vocês duas terminaram o show? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa.
— Mas Manu... a fazenda... — Eduarda tentou se aproximar, buscando o toque dele, a proteção que ela sempre usava como escudo.
— Cala a boca, Eduarda — disse ele, sem um pingo de doçura. — E você, Sara, senta a bunda nessa cadeira e para de latir.
Sara abriu a boca para retrucar, mas o olhar de Emanuel, escuro e impenetrável, a fez recuar. Ela se sentou, bufando, mas em silêncio. Eduarda permaneceu de pé, soluçando baixinho, as mãos pequenas apertando a bainha do vestido romântico.
— Vocês agem como se eu fosse um prêmio de gincana — Emanuel começou, caminhando de um lado para o outro. — Como se a minha vida e o meu tempo fossem mercadorias que vocês podem repartir de acordo com os seus caprichos. Uma quer o campo, a outra quer a praia. Uma quer silêncio, a outra quer barulho.
Ele parou diante de um grande espelho de moldura dourada, observando o próprio reflexo e as duas mulheres atrás dele.
— Eu sou o homem que sustenta este teto. Eu sou o homem que gastou milhões e moveu o submundo para trazer você de volta, Eduarda, quando a sua "família da fazenda" nem sabia por onde começar a procurar. E eu sou o homem que paga cada joia e cada luxo que você ostenta, Sara, para você se sentir superior às suas amigas de Angra.
— Manu, eu só queria um Natal feliz... — Eduarda choramingou, fazendo um biquinho manhoso.
— Um Natal feliz, Eduarda? — Emanuel virou-se para ela, os olhos brilhando com uma irritação latente. — Você acha que eu sou feliz sendo puxado de um lado para o outro por duas mulheres que se odeiam e que só pensam nos próprios umbigos?
Ele caminhou até o escritório e voltou com um envelope de couro. Jogou-o sobre a mesa de jantar.
— Abram — ordenou.
Sara, mais rápida e curiosa, pegou o envelope. Dentro, havia três passagens de primeira classe e uma reserva confirmada para um resort de luxo ultra-exclusivo nos Alpes Suíços.
— Suíça? — Sara leu, os olhos brilhando por um segundo antes de murchar. — Mas Manu, lá é frio! Eu queria sol, queria mostrar meu corpo novo! Na Suíça eu vou ter que ficar coberta de casacos!
— E é longe da minha tia! — Eduarda exclamou, batendo o pé. — Eu não quero ir para a Suíça, Emanuel! Eu quero a fazenda! Eu não vou!
Emanuel soltou uma risada seca e sem humor, um som que fez os pelos do braço de Eduarda se arrepiarem.
— "Eu não vou", Eduarda? — Ele se aproximou dela, segurando seu queixo com uma firmeza que beirava o desconforto, forçando-a a olhar para ele. — Você acha que isso é uma democracia? Você acha que eu estou pedindo a opinião de vocês?
— Você está sendo cruel — ela sussurrou, as lágrimas escorrendo por seus dedos.
— Eu estou sendo prático — ele soltou o queixo dela e olhou para Sara. — E você, Sara, se reclamar do frio mais uma vez, eu cancelo a sua passagem e você passa o Natal aqui sozinha, com a companhia das paredes.
— Você não pode fazer isso! — Sara gritou, a raiva superando o medo por um momento. — Você não é nosso dono!
Emanuel deu um passo na direção dela, sua presença física tornando-se opressiva.
— Não sou? — Ele perguntou, a voz quase um sussurro. — Quem paga as suas contas, Sara? Quem garante que você tenha um teto e uma vida de rainha sem nunca ter movido um dedo para trabalhar? E você, Eduarda... quem garante que nenhum homem chegue perto de você de novo? Quem paga os seguranças que te seguem até no banheiro da faculdade?
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda soluçava ruidosamente agora, uma birra completa, batendo o pé e balançando os braços.
— Eu odeio você! Eu odeio essa viagem! Eu quero a minha tia! — Ela gritava, deixando a máscara de menina doce cair para revelar a criança mimada que também habitava seu ser.
Sara, por sua vez, começou a chutar a perna da mesa, o rosto contorcido em uma carranca de ódio.
— Isso é ridículo! Você é um controlador, Emanuel! Um ditador! Eu não vou aceitar ser levada para as montanhas como uma prisioneira!
Emanuel sentiu a têmpora latejar. O estresse acumulado dos últimos meses, a pressão dos negócios e a constante guerra doméstica explodiram em uma frieza absoluta. Ele caminhou até a porta do triplex e a abriu, fazendo um gesto largo.
— Ótimo. A porta está aberta. Eduarda, pegue um táxi e vá para a fazenda. Sara, ligue para suas amigas e vá para Angra.
As duas pararam e olharam para ele, confusas.
— Mas... — Eduarda começou.
— Mas nada! — Emanuel cortou-a, a voz agora como um trovão. — Vão! Mas saibam de uma coisa: no momento em que passarem por essa porta, não voltem. Eu cancelo os cartões, troco as fechaduras e apago o nome de vocês da minha vida. Eu estou cansado! Cansado de manha, cansado de gritos, cansado de egoísmo!
Ele apontou para o envelope sobre a mesa.
— Eu reservei essa viagem porque eu queria paz. Eu queria ver a neve, beber um vinho caro e não ter que ouvir vocês duas brigando por um segundo que fosse. Eu pensei que, em um lugar novo, vocês poderiam finalmente se comportar como adultas. Mas eu me enganei.
Emanuel caminhou até Eduarda, que estava estática, o rosto pálido.
— Você quer a fazenda, Duda? Vá. Mas não espere que eu esteja aqui quando você decidir que o mato não é tão confortável quanto o meu colo.
Depois, ele se virou para Sara.
— E você, vá para Angra. Rebole para quem quiser. Mas não me ligue quando precisar de dinheiro para o próximo preenchimento labial.
O silêncio que se abateu sobre a sala era absoluto. Eduarda não se moveu. Sara desviou o olhar, as mãos tremendo levemente. A realidade da dependência delas — emocional e financeira — bateu como uma bofetada.
— Eu... eu não quis dizer que não ia — sussurrou Eduarda, a voz quebrada, aproximando-se dele com passos minúsculos. — Manu, desculpa... eu só... eu sinto falta de casa.
— Eu também não quis dizer que Angra era melhor que a Suíça — murmurou Sara, a voz carregada de uma submissão forçada, o orgulho ferido mas contido. — Eu só... eu gosto de calor.
Emanuel olhou para as duas com um desprezo que ele não tentou esconder.
— A vontade que prevalece nesta casa é a minha. Sempre foi e sempre será. Eu não sou um tatuador de fundo de quintal que vocês podem manipular com lágrimas ou decotes. Eu sou o Emanuel. E se eu decidi que o Natal será nos Alpes, o Natal será nos Alpes. Estão entendidas?
— Sim, Manu... — Eduarda disse, baixando a cabeça, as lágrimas ainda caindo, mas agora de forma silenciosa.
— Sim — Sara respondeu, a voz gélida, mas sem contestação.
— Ótimo — Emanuel pegou o envelope de volta. — Arrumem as malas. Partimos em dois dias. E se eu ouvir uma única reclamação sobre o frio ou sobre a falta de tias, eu juro que deixo vocês duas em uma estação de esqui isolada e volto sozinho.
Ele caminhou em direção ao escritório, parando na porta para uma última observação.
— E Eduarda... pare de bater o pé. É irritante. E Sara... tire esse batom. Você parece uma palhaça quando está com raiva.
Emanuel fechou a porta do escritório com um clique seco. Lá dentro, ele se sentou em sua poltrona de couro e fechou os olhos, sentindo a tensão latejar em seu pescoço. Ele odiava ter que chegar àquele ponto, odiava ter que usar o poder que tinha para esmagar a vontade delas, mas parecia ser a única linguagem que elas entendiam.
Lá fora, na sala, o silêncio era cortado apenas pelo som dos soluços abafados de Eduarda e pelo barulho de Sara caminhando em direção ao seu quarto, os saltos batendo no mármore com uma raiva impotente.
Eduarda sentou-se no chão da sala, abraçando os próprios joelhos. Ela se sentia pequena, humilhada e, acima de tudo, aterrorizada. O Emanuel que a resgatara do sequestro era um herói protetor, mas o Emanuel que estava ali agora era um estranho gélido, um homem que não se dobrava às suas manhas. Ela percebeu, com uma clareza dolorosa, que sua "liberdade" era uma ilusão alimentada pelas mãos dele.
Sara, dentro de seu quarto, jogou um frasco de perfume caro contra a parede, observando o vidro se estraçalhar. Ela odiava Eduarda por ser a causa daquela tensão, e odiava Emanuel por lembrá-la de que, sem ele, ela não era nada além de uma loira bonita em uma cidade implacável. Mas o medo de perder o luxo era maior que seu ódio. Ela começou a abrir as malas, jogando casacos de pele e roupas de inverno sobre a cama com movimentos bruscos.
Dois dias depois, o trio embarcou no jato particular. Emanuel estava impecável em um terno cinza, os olhos ocultos por óculos escuros, mantendo uma distância emocional que nem as investidas manhosas de Eduarda nem as tentativas de sedução de Sara conseguiam romper.
A viagem para a Suíça foi marcada por um silêncio sepulcral. No resort, cercado pela brancura estéril da neve e pelo luxo silencioso das montanhas, Emanuel finalmente teve o que queria: controle absoluto.
Eduarda passava os dias olhando pela janela, vendo os flocos de neve caírem e pensando na fazenda ensolarada da tia, sentindo-se como um pássaro em uma gaiola de gelo. Sara desfilava pelos salões do resort, atraindo olhares de todos os homens, mas sentindo-se invisível para o único homem que importava, que passava as noites bebendo uísque e olhando para o fogo na lareira, perdido em seus próprios pensamentos sombrios.
O Natal chegou com uma ceia opulenta, diamantes de presente para ambas e um Emanuel que, embora presente fisicamente, parecia estar a quilômetros de distância. Ele havia provado seu ponto. Ele havia mostrado que sua vontade era a lei. Mas, enquanto observava Eduarda forçar um sorriso e Sara beber para esquecer o tédio, Emanuel sentiu um vazio estranho.
Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar: riqueza, poder e duas mulheres deslumbrantes sob seu domínio. No entanto, naquele cenário de cartão-postal, ele percebeu que o controle total tinha um preço amargo. Ele havia matado o brilho nos olhos de Eduarda e a chama desafiadora de Sara.
— — Manu? — Eduarda chamou, aproximando-se dele na varanda do chalé, o frio da noite fazendo-a tremer sob o casaco de vison. — Você está feliz?
Emanuel olhou para ela, para o rosto delicado que ele tanto amava proteger, e depois para dentro, onde Sara estava deitada no sofá com uma expressão de vazio absoluto.
— — Eu tenho o que eu quero, Eduarda — respondeu ele, a voz levada pelo vento gelado. — E nesta casa, isso é o que chamamos de felicidade.
Eduarda encostou a cabeça no braço dele, as lágrimas congelando em seus cílios. Ela não disse nada. Não havia mais nada a dizer. Emanuel havia vencido a guerra do Natal, mas, no processo, ele havia transformado seu paraíso particular em um deserto de neve, onde a única coisa que crescia era o peso sufocante de sua própria vontade.
A noite de Natal terminou com Emanuel sozinho na varanda, observando as luzes distantes do vilarejo suíço. Ele era o mestre de seu destino e o dono de suas posses, mas, pela primeira vez, ele se perguntou se o silêncio que ele tanto buscara não era, na verdade, o som da solidão que ele mesmo construíra.