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Guerra de Matriarcas: Ouro, Sangue e Verniz

A cobertura de Emanuel nunca pareceu tão pequena quanto naquela manhã de quinta-feira. O ar estava saturado com uma mistura perigosa de perfumes caros e uma cortesia tão afiada que poderia cortar vidro. O motivo da tensão não eram apenas Eduarda e Sara, mas sim as mulheres que as trouxeram ao mundo.

De um lado da mesa de café da manhã, sentava-se Dona Odete, a mãe de Sara. Uma mulher de sessenta anos que parecia ter sido esculpida em mármore e spray de cabelo. Usava um conjunto de linho bege e tantas joias de ouro que cada movimento seu era acompanhado por um tilintar metálico, como se ela fosse um aviso sonoro de arrogância iminente.

Do outro lado, Helena, a mãe de Eduarda. Aos quarenta e dois anos, Helena era a personificação da mulher moderna e bem resolvida. Vestia um jeans de corte impecável, uma camisa de seda verde-esmaecido e trazia no rosto uma serenidade que muitos confundiam com passividade. Ela era curadora de uma galeria de arte e, para Emanuel, sempre foi uma figura de admiração — uma mulher que entendia de estética, de negócios e, acima de tudo, do valor do silêncio.

Emanuel ocupava a cabeceira, sentindo-se como um juiz em um tribunal onde todas as leis haviam sido revogadas.

— Emanuel, querido — começou Odete, levando a xícara de porcelana aos lábios com o dedo mindinho em riste —, eu estava comentando com a Sara que este apartamento precisa de um toque mais... vibrante. Está um pouco pálido, não acha? Quase como a personalidade de certas pessoas presentes.

Ela lançou um olhar gélido para Eduarda, que estava sentada ao lado de Helena, mexendo distraidamente em seu iogurte. Eduarda, ainda usando o colar de água-marinha que Emanuel lhe dera, encolheu os ombros.

— Eu gosto da luz daqui, Dona Odete — sussurrou Eduarda, a voz manhosa e baixa. — É suave.

— Suave é uma palavra gentil para "sem graça", minha querida — rebateu Odete com um sorriso que não chegava aos olhos. — Mas entendo que, para quem estuda coisas velhas e empoeiradas, o brilho seja algo assustador.

Sara soltou uma risadinha, bebendo seu suco detox.

— Pois é, mamãe. Eu tento explicar para o Manu que a gente precisa de mais presença, mas ele insiste em manter esse clima de... biblioteca de convento.

Helena, que até então apenas observava, colocou sua xícara sobre o pires sem fazer o menor ruído. Ela olhou para Odete com uma expressão de curiosidade acadêmica, como se estivesse analisando uma peça de arte particularmente kitsch.

— É fascinante a sua percepção, Odete — disse Helena, sua voz aveludada e calma preenchendo o ambiente. — Mas a elegância, geralmente, reside no que não precisa ser gritado. O minimalismo deste espaço reflete a mente focada do Emanuel. É um ambiente para quem produz, não apenas para quem consome.

Emanuel sentiu um leve calafrio. Ele conhecia aquele tom de Helena. Era o prelúdio de uma execução educada.

— Ah, Helena, você sempre com essas teorias de galeria — desdenhou Odete, abanando a mão no ar. — Mas a verdade é que minha Sara nasceu para o brilho. Ela é uma mulher de administração, sabe o valor das coisas grandes. Já a sua menina... bem, ela parece que vai quebrar se a gente falar um pouco mais alto. É uma fragilidade que, francamente, deve ser exaustiva para um homem como o Emanuel.

Eduarda sentiu os olhos marejarem. A timidez a impedia de revidar, e ela buscou a mão de Emanuel por baixo da mesa. Ele apertou os dedos dela, preparando-se para intervir, mas Helena foi mais rápida.

— A fragilidade da Eduarda, Odete, é uma escolha — disse Helena, inclinando levemente a cabeça. — É a sensibilidade de quem percebe o mundo em camadas. Mas não se engane. Ela não é feita de cristal. Ela é feita de alma. E alma é algo que não se compra em joalherias, por mais que se tente cobrir a falta dela com quilos de ouro de dezoito quilates.

O tilintar das pulseiras de Odete parou bruscamente.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou a mãe de Sara, a voz subindo um oitavo.

— Quero dizer — continuou Helena, mantendo o sorriso impecável — que é admirável o esforço que você faz para manter a Sara em evidência. É quase como se você soubesse que, sem o barulho e o brilho artificial, não sobraria muito para se observar. Já a minha filha... o Emanuel não precisa de um outdoor. Ele precisa de um porto. E é por isso que ele a ama com tanta devoção.

Sara bateu o copo na mesa, o rosto vermelho.

— Você está insinuando que eu sou vazia? Emanuel, você vai deixar ela falar assim da minha mãe e de mim?

Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Sara, a Dona Odete começou as provocações. Vamos todos manter o nível.

— O nível? — Odete bufou. — Eu estou apenas sendo realista! Minha filha é formada, é decidida. Essa menina aí nem terminou a faculdade de "olhar para quadros". Ela é um peso morto na vida de um empresário como você, Emanuel. Imagine levá-la a um jantar de negócios? Ela morreria de susto antes da entrada ser servida.

Helena soltou uma risada curta, seca e absolutamente letal.

— É curioso você mencionar jantares de negócios, Odete. Eu me lembro de ter visto a Sara em algumas colunas sociais. Sempre muito... exuberante. No entanto, em um ambiente de alto nível, o excesso é frequentemente confundido com falta de berço. A Eduarda sabe transitar pelo silêncio, o que é a maior arma de uma diplomata. Já a sua filha... bem, ela parece o tipo de decoração que a gente usa em festas de réveillon: brilha muito, faz barulho, mas ninguém quer levar para casa no dia seguinte porque a ressaca é garantida.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até o som do trânsito lá fora parecia ter parado para ouvir o estalo do tapa moral que Helena acabara de desferir.

Odete abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Ela estava acostumada a bater boca com pessoas que gritavam, mas não sabia como lidar com o desprezo polido de Helena.

— Mamãe, vamos embora daqui — sibilou Sara, levantando-se e pegando sua bolsa de grife. — Eu não sou obrigada a ouvir essa mulher me comparar a decoração de festa.

— Fique à vontade, Sara — disse Helena, pegando um pedaço de torrada com uma delicadeza irritante. — A porta é a mesma por onde entrou a sua falta de modos. Emanuel, querido, este café está excelente. Onde você compra esses grãos?

Emanuel olhou para Helena com uma mistura de choque e diversão. Ele sempre soube que a sogra era uma mulher forte, mas vê-la desmantelar o ego de Odete e Sara sem sequer alterar o tom de voz foi uma lição de estratégia.

— São de uma fazenda em Minas, Helena — respondeu ele, a voz finalmente relaxando. — Eu te mando o contato depois.

Odete levantou-se, tremendo de raiva.

— Você vai se arrepender disso, Helena! Emanuel, essa mulher é uma cobra!

— Uma cobra não, Odete — corrigiu Helena, olhando-a nos olhos pela última vez naquela manhã. — Apenas uma mãe que não permite que pessoas de gosto duvidoso tentem diminuir o brilho da minha filha. Agora, se me dão licença, Eduarda e eu temos uma exposição para visitar. Arte de verdade, sabe? Algo que exige mais do que apenas um cartão de crédito para ser compreendido.

Sara e Odete saíram da sala em uma nuvem de indignação e perfume forte, batendo a porta da frente com uma fúria que fez os cristais da cristaleira vibrarem.

Eduarda olhou para a mãe, os olhos arregalados, mas com um pequeno sorriso começando a surgir.

— Mãe... você foi um pouco má.

— Não, meu amor — disse Helena, esticando a mão para acariciar o rosto da filha. — Eu fui justa. Ninguém pisa em você na minha frente. Nem mesmo se essa pessoa carregar o peso do mundo em ouro. Você é uma obra-prima, Duda. E obras-primas não se defendem sozinhas; elas precisam de uma moldura forte.

Emanuel encostou-se na cadeira, observando as duas. Ele sentia uma gratidão imensa por Helena. Ela havia feito o que ele, muitas vezes, não conseguia por estar preso entre o desejo por Sara e o amor por Eduarda.

— Helena — começou Emanuel, com um sorriso de canto —, acho que você acabou de custar uns cinquenta mil reais em compras de vingança que a Sara vai fazer hoje à tarde.

— Considere isso um investimento na sua paz, Emanuel — Helena piscou para ele. — E, sinceramente, se o preço para calar aquela mulher é uma fatura de cartão de crédito, você está saindo no lucro.

Eduarda soltou uma risadinha, encostando a cabeça no ombro da mãe. A manha estava lá, mas havia algo novo em sua postura — uma segurança que vinha de saber que, no seu canto do mundo, ela tinha defensoras ferozes.

— Manu — disse Eduarda, olhando para ele com carinho —, você ainda gosta da gente, mesmo sendo tão complicadas?

Emanuel levantou-se e deu um beijo no topo da cabeça de Eduarda, depois apertou a mão de Helena em um gesto de respeito mútuo.

— Eu não escolheria nenhuma outra vida, pequena. Mas, da próxima vez que as mães vierem visitar, acho que vou precisar reforçar o seguro do apartamento.

— Ou apenas contratar um serviço de buffet que sirva doses extras de paciência — sugeriu Helena, levantando-se com elegância. — Vamos, Duda? O verniz daquelas telas não vai se apreciar sozinho.

Emanuel as viu sair, sentindo que, por um breve momento, o equilíbrio da cobertura havia sido restaurado. Ele sabia que Sara voltaria à noite, provavelmente com dez pares de sapatos novos e um humor infernal, exigindo sua atenção e seu corpo para compensar a humilhação. E ele a atenderia, porque a energia de Sara era o que o movia.

Mas, enquanto olhava para a cadeira vazia onde Helena estivera sentada, ele percebeu que a verdadeira força não estava nos gritos de Sara ou na sua própria autoridade. Estava na resiliência silenciosa de Eduarda e na proteção implacável de uma mãe que sabia que a beleza mais cara de todas era aquela que não podia ser comprada, apenas cultivada.

Ele voltou para o seu escritório, pegou sua máquina de tatuar e começou a desenhar um novo projeto. Uma fênix, talvez. Ou uma serpente envolta em lírios. Porque, na sua vida, o veneno e a pureza andavam sempre de mãos dadas, e ele era o artista encarregado de eternizar esse caos na pele do destino.

Ao longe, ele ouviu o som do elevador subindo. O dia estava apenas começando, e ele sabia que, em algum shopping de luxo da cidade, Sara estava nesse exato momento planejando sua revanche. Ele sorriu. A vida com duas namoradas e duas sogras era um inferno particular, mas ele nunca se sentira tão vivo.