Voltar ao resumo

D

Ouro para a Pomba, Veneno para a Serpente

O sol da tarde entrava pelas enormes janelas de vidro do estúdio principal de Emanuel, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Ele estava concentrado, o som rítmico da máquina de tatuagem servindo como uma trilha sonora hipnótica enquanto ele finalizava um fechamento de costas complexo. Emanuel era um homem de detalhes. Cada traço, cada sombra, cada nuance de cor passava pelo seu crivo perfeccionista.

Quando o cliente finalmente saiu, satisfeito e impressionado, Emanuel limpou suas ferramentas com a precisão de um cirurgião. Ele sentia a tensão habitual nos ombros, o peso de gerir um império de estúdios que agora se estendia por três continentes. Ele precisava de um momento de distração.

Ao sair para o saguão de mármore do prédio comercial de luxo onde mantinha seu escritório administrativo, seus olhos foram capturados pela vitrine de uma joalheria de alto padrão no térreo. Emanuel não era um homem dado a consumismos fúteis, mas algo naquela vitrine o fez parar.

Era um colar de ouro branco, fino e delicado, com um pingente de gota feito de uma água-marinha tão clara que parecia capturar a luz da manhã. Imediatamente, a imagem de Eduarda surgiu em sua mente. O azul da pedra era idêntico ao brilho dos olhos dela quando ela estava emocionada ou quando acordava, ainda manhosa, entre os lençóis. Aquela joia não gritava por atenção; ela sussurrava elegância e fragilidade. Era, em essência, Eduarda.

— Vou levar esta — disse ele ao gerente da loja, poucos minutos depois, sem sequer perguntar o preço.

Emanuel guardou a pequena caixa de veludo no bolso do paletó, sentindo uma satisfação genuína. Ele sabia que Eduarda não esperava presentes caros; ela ficaria feliz com uma flor colhida no jardim, mas ele sentia uma necessidade instintiva de protegê-la e adornar sua beleza discreta.

Ao chegar na cobertura naquela noite, o ambiente estava carregado. Sara estava na sala de estar, cercada por sacolas de compras de grifes famosas. Ela usava um conjunto de cetim preto que realçava seu bronzeado artificial e o loiro platinado do cabelo.

— Finalmente, Emanuel! — Sara exclamou, levantando-se e indo até ele para um beijo possessivo. — Olhe o que eu comprei hoje. Aquela bolsa da nova coleção que te mostrei. Foi uma fortuna, mas eu mereço, não acha?

— Se você gosta, Sara, está ótimo — Emanuel respondeu de forma neutra, tentando passar pela sala.

— Onde está a Duda? — perguntou ele, olhando em volta.

— Onde mais estaria? — Sara revirou os olhos, servindo-se de uma taça de vinho. — Está trancada no quarto de artes dela, cheirando tinta a óleo e fingindo que entende de estética. Ela é tão monótona, Emanuel. Não sei como você aguenta.

Emanuel não respondeu. Ele caminhou até o pequeno ateliê que havia montado para Eduarda. Ao abrir a porta, encontrou-a sentada em frente a um cavalete, com uma mancha de tinta verde na bochecha e os cabelos presos num coque desleixado. Ela parecia tão em paz que ele hesitou em interromper.

— Manu? — Ela sorriu ao percebê-lo, levantando-se rapidamente e limpando as mãos em um pano. — Você chegou cedo!

— Vi uma coisa hoje e lembrei de você — disse ele, aproximando-se e tirando a caixinha do bolso.

Eduarda arregalou os olhos. Suas mãos tremeram levemente ao pegar o presente. Quando a tampa se abriu e a luz da luminária refletiu na água-marinha, ela soltou um suspiro audível.

— É... é linda demais, Manu. Eu não posso aceitar algo assim.

— É claro que pode — ele disse, pegando o colar e posicionando-se atrás dela para colocá-lo. — Combina com você. É delicado, mas tem uma luz própria. Como você.

Eduarda virou-se para ele, os olhos marejados. Ela se jogou nos braços dele, escondendo o rosto em seu peito, exalando aquele perfume suave de baunilha que ele tanto amava.

— Obrigada... você é bom demais para mim — ela murmurou, a voz saindo pequena e manhosa.

O que eles não perceberam foi que a porta do ateliê estava entreaberta. Sara, movida pela curiosidade e pelo eterno instinto de vigilância, observava tudo do corredor. O brilho da pedra preciosa no pescoço de Eduarda agiu como um ácido em seu estômago.

Sara entrou no quarto como um furacão, o rosto vermelho de raiva sob a maquiagem impecável.

— O que é isso? — Ela gritou, apontando para o pescoço de Eduarda. — Emanuel, você comprou uma joia para ela? Uma água-marinha legítima?

Eduarda deu um passo atrás, instintivamente buscando a proteção de Emanuel.

— Sara, não comece — Emanuel avisou, sua voz assumindo aquele tom gélido que costumava encerrar discussões.

— Não comece? — Sara soltou uma gargalhada histérica. — Eu passo o dia inteiro sendo sua vitrine, Emanuel! Eu carrego seu nome, eu vou aos eventos, eu me cuido para ser a mulher mais deslumbrante ao seu lado! E você dá uma joia dessas para... para essa menina que nem sabe se vestir?

— Eu não pedi nada, Sara... — Eduarda tentou dizer, a voz trêmula.

— Cale a boca, sua sonsa! — Sara avançou um passo, os olhos faiscando. — Você manipula ele com esse jeito de coitadinha, de "ai, eu sou tão sensível". Você é uma oportunista de museu!

— Sara, chega! — Emanuel se colocou entre as duas, sua presença física imponente silenciando o quarto por um segundo. — Eu vi a joia e comprei porque quis. Eu compro o que eu quiser, para quem eu quiser.

— Você nunca me deu nada tão personalizado! — Sara continuou, a voz subindo de tom até virar um grito. — Você me dá o seu cartão e diz "compre o que quiser". Você não gasta um minuto pensando no que combina comigo! Você deu a ela algo que pensou nela! Isso é traição, Emanuel!

— Isso é consideração — retrucou Emanuel, perdendo a paciência. — Você só se importa com o preço, Sara. Eduarda se importa com o gesto.

Sara sentiu o golpe. Ela olhou para Eduarda, que agora chorava silenciosamente, segurando o pingente como se fosse um talismã. A visão daquela fragilidade vitoriosa a deixou fora de si.

— Sabe o que eu acho? — Sara disse, a voz agora carregada de um veneno frio. — Eu acho que você está ficando mole, Emanuel. Essa garota está sugando sua ambição. Ela quer te transformar num dono de casa que compra pedrinhas azuis para combinar com os olhos dela. Que cafona! Que vulgar!

— Vulgar é o seu comportamento agora — Emanuel disse, pegando Sara pelo braço, não com força, mas com uma firmeza inegável. — Você vai sair daqui agora. Vai para o seu quarto e só saia quando aprender a se comportar como uma mulher adulta, e não como uma criança mimada que perdeu o brinquedo.

— Você está me expulsando do quarto por causa dela? — Sara perguntou, incrédula.

— Estou tirando você de um lugar onde você não foi convidada.

Sara soltou o braço com um solavanco, lançando um último olhar de puro ódio para Eduarda.

— Aproveite seu colar, pombinha. Porque joias de vidro ou de ouro não mudam o fato de que você é uma sombra. E sombras desaparecem quando a luz de verdade brilha.

Sara saiu batendo a porta com tanta força que um dos quadros de Eduarda quase caiu do cavalete. O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelos soluços baixos de Eduarda.

Emanuel suspirou profundamente, sentindo o cansaço de mil anos. Ele se virou para Eduarda e a puxou para um abraço apertado.

— Desculpe por isso, pequena. Eu não queria que o seu presente fosse estragado por ela.

— Ela me odeia tanto, Manu... — Eduarda soluçou contra o ombro dele. — Talvez eu devesse devolver. Eu não quero ser motivo de briga.

— Você não vai devolver nada — ele disse, segurando o queixo dela e forçando-a a olhá-lo. — O que é seu, é seu. Sara precisa entender que o mundo não gira em torno dos caprichos dela.

— Mas ela tem razão em uma coisa... — Eduarda baixou os olhos, mexendo nervosamente na barra do pijama. — Eu não sou brilhante como ela. Eu sou... comum.

Emanuel soltou uma risada curta, mas carregada de afeto.

— Comum? Duda, você é a única coisa real na minha vida. Sara é como um diamante de laboratório: brilha muito, é cara, mas é feita sob pressão e artifícios. Você é como essa pedra no seu pescoço. Foi formada pela natureza, no silêncio, e tem uma profundidade que ninguém consegue imitar.

Eduarda sorriu timidamente, a manha voltando a tomar conta de sua expressão. Ela se aninhou mais no abraço dele.

— Você fala coisas tão bonitas quando quer...

— Eu só falo a verdade. Agora, limpe esse rosto. Vamos pedir algo para jantar aqui no ateliê mesmo. Não quero descer e encontrar a terceira guerra mundial na sala de jantar.

— Podemos comer pizza? — Ela perguntou, fazendo aquele biquinho que sempre o desarmava.

— O que você quiser, pequena.

Enquanto isso, no outro lado da cobertura, Sara estava em seu quarto luxuoso. Ela havia jogado todas as sacolas de compras no chão. O brilho da bolsa nova agora parecia opaco. Ela caminhou até a penteadeira e encarou seu reflexo. Ela era linda, era poderosa, mas sentia uma rachadura em sua armadura de confiança.

Ela pegou o celular e ligou para uma de suas amigas.

— Oi, Rebeca? — Sara disse, a voz ríspida. — Descubra para mim qual é a joalheria mais cara de Paris. Aquela que só atende com hora marcada. Emanuel acha que pode me calar com uma água-marinha de segunda categoria? Ele vai ver o que é um surto de verdade quando a fatura do mês que vem chegar.

Ela desligou o telefone e sorriu para o espelho, mas o sorriso não chegava aos olhos. No fundo, Sara sabia que não era sobre o dinheiro ou sobre a joia. Era sobre o fato de que, pela primeira vez, ela sentiu que Emanuel estava olhando para Eduarda com algo que ela nunca conseguiria comprar: devoção pura.

Mais tarde naquela noite, Emanuel estava deitado na cama de Eduarda. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas por uma luminária de sal cristalino. Eduarda dormia profundamente ao lado dele, com a mão fechada sobre o pingente de água-marinha, como se temesse que ele desaparecesse no mundo dos sonhos.

Emanuel olhava para o teto, ouvindo o som da chuva que começava a cair lá fora. Ele sabia que a paz era temporária. Amanhã, Sara acordaria pronta para a retaliação. Ela gastaria fortunas, faria cenas dramáticas, tentaria seduzi-lo de formas exaustivas para provar sua superioridade. E Eduarda, em sua timidez, provavelmente se fecharia ainda mais, buscando refúgio em seus quadros e em sua manha silenciosa.

Ele era o ponto de equilíbrio entre o excesso e a essência. Entre o barulho de Sara e o silêncio de Eduarda.

De repente, a porta do quarto se abriu silenciosamente. Uma silhueta loira apareceu na penumbra. Sara entrou, sem dizer uma palavra, e deitou-se do outro lado de Emanuel. Ela não estava mais gritando. Ela apenas se encostou nele, buscando seu calor, seu braço possessivamente rodeando o peito do homem.

Emanuel não se moveu. Ele ficou ali, no meio das duas. De um lado, a suavidade de Eduarda e o cheiro de baunilha; do outro, a firmeza de Sara e o perfume caro de Chanel.

— Eu ainda te odeio por hoje — sussurrou Sara, a voz rouca, quase sumindo.

— Eu sei — Emanuel respondeu, fechando os olhos.

— Mas eu não vou a lugar nenhum. Ela que se acostume.

Emanuel sentiu o peso das duas responsabilidades sobre seus ombros. A joia de Eduarda ainda brilhava levemente sob a luz da luminária, um pequeno ponto de azul num oceano de tensões. Ele sabia que sua vida era um jogo perigoso, uma tatuagem sendo feita na pele sensível da alma, onde qualquer erro poderia causar uma cicatriz permanente.

Mas, enquanto sentia o respirar calmo de Eduarda e a respiração tensa de Sara, Emanuel aceitou, mais uma vez, o seu papel. Ele era o mestre daquele caos. E, por mais que o ouro e o veneno se misturassem em sua cama, ele não saberia mais como viver no vazio de uma vida comum.

A noite avançou, e na cobertura silenciosa, o único som era o da chuva, lavando as calçadas da cidade, enquanto dentro daquelas paredes, o amor, o ciúme e a posse continuavam sua dança eterna e implacável.