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O Peso do Desejo e a Expulsão do Pudor

A manhã de segunda-feira na cobertura de Emanuel não começou com o aroma de café, mas com o som metálico de anilhas e a respiração pesada. Emanuel, em seu esforço constante para manter a sanidade e o físico, possuía uma academia particular completa em um dos andares de seu duplex, mas Sara detestava o isolamento. Para ela, malhar não era sobre endorfina; era sobre audiência.

— Emanuel, querido, eu não aguento mais ficar trancada aqui dentro olhando para essas paredes cinzas — reclamou Sara, ajustando o top de lycra neon que mal cobria a curvatura de seus seios siliconados. — Quero ir para a "Iron & Luxury". Preciso ver gente, e você precisa sair dessa caverna antes que vire um bicho do mato.

Emanuel, terminando uma série de supinos, sentou-se no banco e limpou o suor da testa. Ele sabia que, quando Sara usava aquele tom, era melhor ceder do que enfrentar horas de sarcasmo.

— Tudo bem, Sara. Vamos para a pública. Mas chame a Eduarda. Não vou deixá-la aqui sozinha.

Sara revirou os olhos, mas não protestou. Tinha um plano. No campo de futebol, a "pombinha" havia ganhado um beijo e um gol, mas na academia, no terreno do culto ao corpo e da exibição, Sara se sentia a rainha absoluta.

— Duda! — gritou Sara, caminhando pelo corredor até o quarto da morena. — Vamos, vista algo que não pareça um pijama de vovó. Estamos indo para a academia de verdade.

Eduarda apareceu na porta, esfregando os olhos, usando uma camiseta larga de uma banda de rock antiga e calças legging pretas simples. Ela parecia pequena e deslocada.

— Eu não gosto muito de academia, Manu... — murmurou ela, aproximando-se de Emanuel e buscando o calor de sua mão. — As pessoas ficam olhando.

— Eu vou estar lá com você, pequena — Emanuel disse, suavizando o tom de voz, o que fez Sara morder o lábio de inveja. — Ninguém vai te incomodar.

A "Iron & Luxury" era o epicentro da vaidade na cidade. Luzes de LED, música eletrônica pulsante e espelhos que cobriam cada centímetro das paredes. Assim que entraram, Sara transformou-se. Ela não caminhava; ela desfilava. O conjunto que usava era de uma vulgaridade calculada: uma calça legging branca, tão justa que parecia uma segunda pele, e um top que deixava o abdômen e grande parte do decote à mostra.

Emanuel, vestindo uma regata preta simples que destacava suas tatuagens nos braços e pescoço, atraía olhares de respeito e desejo, mas ele mantinha o foco em Eduarda, que tentava se esconder atrás de seus ombros largos.

— Fique aqui na esteira, perto de mim — instruiu Emanuel, apontando para o aparelho ao lado do seu.

— Tá bom, Manu... — Eduarda subiu no aparelho, colocando os fones de ouvido e começando uma caminhada lenta, os olhos fixos no painel para evitar o contato visual com os marombeiros que já começavam a secá-la com o olhar.

Sara, vendo que Emanuel estava focado em monitorar o ritmo de Eduarda, decidiu que era hora de recuperar o protagonismo. Ela se posicionou exatamente na frente do banco de pesos onde Emanuel pretendia fazer sua próxima série.

— Emanuel, me ajuda aqui no agachamento? — pediu ela, a voz carregada de uma sensualidade forçada. — Acho que exagerei no peso.

Emanuel suspirou, mas se aproximou. Ele se posicionou atrás dela, as mãos prontas para intervir na barra. Sara, percebendo a proximidade, começou a descer de forma exageradamente lenta, empinando o bumbum em direção à cintura dele e soltando gemidos que não tinham nada a ver com esforço físico.

— Sara, menos — murmurou Emanuel no ouvido dela, a voz gélida. — Tem gente olhando.

— Deixa que olhem, querido — ela respondeu, virando o rosto para ele com um sorriso petulante. — Eles querem ver o que é uma mulher de verdade, não uma criança que caminha na esteira como se estivesse indo para a escola.

Emanuel ignorou a provocação, mas o clima começou a pesar. Sara não parou por ali. Ela começou a circular pela academia, usando os aparelhos de forma provocativa. No "leg press", ela fazia questão de abrir as pernas de forma desnecessária; no "pulley", arqueava as costas de modo que o top quase cedesse à gravidade.

Eduarda, mesmo com os fones, percebia o burburinho. Algumas mulheres na academia começavam a trocar olhares de reprovação, e os homens faziam comentários baixos e risadinhas. Ela se sentia humilhada por estar associada àquela cena.

— Manu... — chamou Eduarda, descendo da esteira e aproximando-se dele, que agora fazia rosca direta com halteres pesados. — Eu quero ir embora. Estão falando dela... e estão olhando para mim também.

— Só mais dez minutos, Duda. Eu vou resolver isso — Emanuel disse, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o peso.

Ele caminhou até Sara, que agora estava sentada em uma bola de pilates, fazendo abdominais que consistiam basicamente em se deitar e exibir o decote para o instrutor que passava.

— Sara, chega — disse Emanuel, sua voz de comando silenciando a música em sua própria cabeça. — Você está passando dos limites. Coloque o casaco que você trouxe ou vamos embora agora.

— Ah, agora você virou puritano? — Sara se levantou, a confiança exalando de cada poro. — Você adora quando eu me visto assim em casa. Qual o problema de mostrar para esses pobres mortais o que você tem?

— O problema é o respeito, Sara. E o fato de que você está fazendo a Eduarda se sentir mal.

— A Eduarda se sente mal até com a própria sombra! — gritou Sara, atraindo a atenção de metade dos alunos. — Ela é uma sonsa que usa essa timidez para te controlar, e você cai como um patinho!

Nesse momento, o gerente da academia, um homem alto e de expressão severa chamado Ricardo, aproximou-se do grupo. Ele já vinha observando o comportamento de Sara há algum tempo, pressionado pelas reclamações de outras frequentadoras.

— Com licença, senhor Emanuel — disse Ricardo, com uma educação que escondia a firmeza. — Gostamos muito da sua presença aqui, mas o comportamento da senhorita está infringindo as normas de conduta do nosso estabelecimento.

Sara cruzou os braços, fazendo o peito saltar para fora do top.

— Normas de conduta? Que normas? Deixar as invejosas confortáveis?

— Normas de pudor e respeito aos outros usuários, senhorita — respondeu Ricardo, mantendo o olhar fixo no de Emanuel, ignorando Sara. — Recebemos reclamações sobre posturas inadequadas e... exposição excessiva. Infelizmente, vou ter que pedir para que a senhorita se retire.

O rosto de Sara passou do rosa do exercício para um vermelho escarlate de fúria.

— Você está me expulsando? Você sabe quem eu sou? Sabe quanto o Emanuel gasta nesta rede de academias por ano?

— O senhor Emanuel é sempre bem-vindo — continuou o gerente. — Mas a senhorita, hoje, passou do ponto. Por favor, acompanhe-me até a recepção.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo uma mistura de vergonha e um alívio sombrio. Ele olhou para Eduarda, que parecia querer enfiar a cabeça na terra, e depois para Sara, que parecia uma granada prestes a explodir.

— Eu não vou a lugar nenhum! — gritou Sara, começando a atrair uma pequena multidão. — Emanuel, faça alguma coisa!

— Eu vou fazer — disse Emanuel, sua voz saindo baixa e definitiva. — Eu vou levar a Eduarda para o carro. Você pode vir agora ou pode ficar aqui e resolver sua expulsão sozinha.

— Você não vai me defender? — Sara perguntou, a voz falhando pela primeira vez, a arrogância sendo substituída pelo choque.

— Defender o quê, Sara? — Emanuel deu um passo à frente, falando apenas para ela ouvir. — Eu te avisei três vezes. Você quis dar um show, agora lide com as críticas. Você passou vergonha e arrastou a gente junto.

Emanuel pegou a mão de Eduarda, que tremia levemente, e começou a caminhar em direção à saída.

— Emanuel! — Sara gritou, mas ele não parou.

Ela olhou em volta e viu os olhares de desprezo das outras mulheres e as risadinhas abafadas dos homens que, momentos antes, a cobiçavam. A humilhação de ser expulsa de um lugar que ela considerava seu palco foi como um soco no estômago. Sem alternativa, ela pegou sua bolsa de grife do chão e saiu batendo os pés, o rosto escondido pelo cabelo loiro.

O caminho até o carro foi um campo de batalha silencioso. Emanuel caminhava na frente, com passos pesados. Eduarda vinha logo atrás, segurando a alça de sua mochila, e Sara fechava a retaguarda, bufando de ódio.

Assim que entraram no SUV, o vulcão entrou em erupção.

— Eu nunca fui tão humilhada na minha vida! — Sara gritou, batendo no painel do carro. — E a culpa é sua, Emanuel! Você deixou aquele homenzinho me tratar como uma qualquer!

— Você se comportou como uma qualquer, Sara! — Emanuel rebateu, ligando o motor com violência. — Você não foi lá para treinar, foi para provocar. E o pior: usou a academia para tentar diminuir a Eduarda.

— E funcionou, não foi? — Sara riu, uma risada amarga. — Olha para ela! Está aí, quase chorando, a coitadinha. Você sempre defende ela!

— Eu defendo quem está certa — Emanuel disse, olhando pelo retrovisor para Eduarda, que estava encolhida no banco de trás. — Você está bem, Duda?

— Estou... — a voz dela saiu num sussurro manhoso. — Só queria que a gente pudesse ter um dia normal, Manu. Sem gritos.

— Um dia normal com essa daí é impossível — cuspiu Sara.

— Chega, Sara! — Emanuel deu um soco no volante, fazendo as duas pularem nos assentos. — Mais uma palavra e eu te deixo no meio dessa avenida. Eu estou cansado. Exausto dessa competição idiota.

O restante do trajeto foi feito em um silêncio tenso. Ao chegarem na cobertura, Sara saiu do carro antes mesmo que Emanuel estacionasse completamente, subindo pelo elevador de serviço para não ter que encarar ninguém.

Emanuel estacionou e ficou ali, com as mãos no volante, respirando fundo. Sentiu o toque macio de Eduarda em seu ombro.

— Manu... não fica assim.

Ele se virou e a puxou para um abraço por cima do banco. Eduarda era pequena, mas o abraço dela tinha uma força que o ancorava.

— Desculpa por hoje, pequena. Eu achei que levar as duas seria uma boa ideia para integrar... mas eu fui burro.

— A Sara é difícil, Manu. Ela tem muito brilho, e às vezes o brilho dela queima quem está perto — Eduarda disse, com uma sabedoria que sempre o surpreendia. — Mas eu estou aqui. Eu não vou te dar trabalho.

Emanuel beijou a testa dela, sentindo o cheiro de suor leve e baunilha.

— Vamos subir. Vou pedir para prepararem um banho para você.

Ao entrarem no apartamento, o clima não havia melhorado. Sara estava na sala, já com uma taça de vinho na mão, usando um roupão de seda aberto até o limite do permitido.

— Ah, os pombinhos chegaram — ironizou ela. — Já terminaram a sessão de consolo?

Emanuel a ignorou e levou Eduarda até o quarto dela.

— Tome seu banho, Duda. Eu já volto para ver como você está.

Ele voltou para a sala e parou diante de Sara. Ela o encarou com desafio, mas ele viu que os olhos dela estavam vermelhos. Por trás da vulgaridade e da agressividade, Sara tinha um medo mortal de ser irrelevante.

— O que você quer, Emanuel? Vir me dar mais um sermão? — ela perguntou, a voz embargada.

— Eu quero entender por que você faz isso, Sara. Por que precisa de tanta atenção de estranhos se você tem a minha?

— Porque a sua atenção é dividida! — ela gritou, levantando-se. — Eu vejo como você olha para ela. Como se ela fosse algo sagrado. Para mim, você olha com desejo, com luxúria... mas para ela, é adoração. Eu quero que você me adore também!

Emanuel sentiu um aperto no peito. O conflito central de sua vida estava ali, exposto naquela frase.

— Adoração não se conquista com escândalos em academia, Sara. Se conquista com entrega, com paz.

— Paz é chato! — ela rebateu, aproximando-se dele e colando o corpo ao seu, tentando usar a única arma que sabia que funcionava. — Você gosta do meu fogo. Você gosta de como eu te desafio. Admita.

Emanuel segurou a cintura dela, sentindo o calor da pele através da seda.

— Eu gosto. Mas o fogo que não é controlado acaba queimando a casa toda. E hoje, você quase incendiou tudo.

Sara se inclinou e o beijou, um beijo desesperado, com gosto de vinho e arrependimento disfarçado de desejo. Emanuel respondeu, mas sua mente estava dividida. Ele pensava na doçura de Eduarda, que provavelmente estava chorando no banho, e na fúria de Sara, que tentava prendê-lo pela carne.

— Promete que não vai me deixar por causa daquela sonsa? — sussurrou Sara contra seus lábios.

— Eu não vou deixar ninguém, Sara. Mas as coisas precisam mudar.

Ele a afastou gentilmente e caminhou em direção ao quarto de Eduarda. Ao abrir a porta, viu a morena saindo do banheiro, enrolada em uma toalha branca, os cabelos úmidos caindo pelos ombros. Ela parecia tão frágil, tão pura, que o contraste com a cena anterior na sala foi quase doloroso.

— Manu? — ela chamou, com a voz manhosa. — Você vai ficar comigo agora?

Emanuel sentou-se na cama e estendeu a mão. Eduarda caminhou até ele e sentou-se em seu colo, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Vou. Eu vou ficar aqui.

— A Sara está brava?

— A Sara está sendo a Sara, Duda. Não se preocupe com ela agora.

Eduarda se afastou um pouco e olhou nos olhos dele.

— Eu queria ser mais forte, Manu. Queria não ter medo dela.

— Você é mais forte do que imagina, pequena. O silêncio tem uma força que o barulho nunca vai ter.

Ele a deitou na cama e ficou ali, acariciando seus cabelos até que ela adormecesse. O cansaço emocional de Emanuel era tão grande quanto o físico. Ele saiu do quarto e encontrou Sara dormindo no sofá, a taça de vinho vazia no chão.

Ele a pegou no colo e a levou para o quarto dela, cobrindo-a com cuidado.

Emanuel foi para a varanda da cobertura. As luzes da cidade brilhavam lá embaixo, indiferentes ao drama que se desenrolava naquele andar. Ele pensou em seus estúdios de tatuagem, em sua fortuna, em como ele conseguia controlar centenas de funcionários ao redor do mundo, mas não conseguia manter a paz entre duas mulheres que amava.

Ele era um tatuador. Ele sabia que algumas marcas eram permanentes. E o dia de hoje havia deixado uma cicatriz em todos eles. Sara fora expulsa da academia por atentado ao pudor, mas a verdade era que todos eles estavam expostos.

Eduarda com sua carência, Sara com sua insegurança barulhenta, e ele, Emanuel, com sua necessidade egoísta de ter o céu e o inferno no mesmo teto.

Ele olhou para as próprias mãos. Elas eram capazes de criar arte, de causar dor controlada para gerar beleza. Talvez sua vida fosse isso: uma tatuagem em andamento. Dolorosa, sangrenta, mas que, no final, revelaria uma imagem que só ele seria capaz de compreender.

A noite avançou, e o silêncio finalmente reinou na cobertura. Mas era um silêncio frágil, carregado com a promessa de que, ao amanhecer, a guerra entre a timidez e a vulgaridade encontraria um novo campo de batalha. E Emanuel, o mestre do caos, estaria lá para mediar, sofrer e, acima de tudo, desejar cada segundo daquela loucura.