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O Eco do Medo sob as Luzes de Neon
A manhã de sábado na cobertura começou com o tilintar de pratos e o som de uma discussão que já se tornara o despertador oficial da casa. Emanuel, sentado à cabeceira da mesa de mármore, massageava as têmporas enquanto observava o contraste absoluto à sua frente.
— Emanuel, é o último fim de semana da roda-gigante panorâmica no parque! — Sara exclamou, gesticulando com uma fatia de mamão, as unhas impecavelmente pintadas de vermelho vibrante. — Eu já combinei com a Rebeca e o pessoal. Vai ser incrível, adrenalina pura, algodão-doce, fotos maravilhosas para o meu perfil... Você prometeu que íamos ter um dia de aventura!
— Eu não prometi nada, Sara, eu disse que pensaria — Emanuel respondeu, sua voz grave carregada de cansaço. — E a Eduarda?
Eduarda, que até então estava em silêncio, bebendo seu chá de camomila com a delicadeza de quem teme quebrar a própria xícara, levantou o olhar. Seus olhos estavam suaves, mas havia uma determinação silenciosa neles.
— Manu, eu já tinha te falado... Hoje é a estreia da peça sobre o Renascimento no Teatro Municipal. Minhas amigas da faculdade compraram os ingressos há um mês. Eu realmente quero ir. O teatro é lindo, e a peça é fundamental para o meu seminário de História da Arte.
— Teatro? — Sara soltou uma risada anasalada, carregada de deboche. — Que mofo, Eduarda! Você quer passar a noite trancada num lugar escuro vendo gente fingir que é estátua? Emanuel, diga a ela que o parque é muito mais divertido.
— Eu não quero ir ao parque, Sara — Eduarda murmurou, a voz ficando manhosa, quase infantil, enquanto se inclinava na direção de Emanuel. — Tem muito barulho, muita gente esbarrando... Eu fico tonta naqueles brinquedos. Manu, você não quer vir ao teatro comigo?
Emanuel sentiu o puxão invisível de ambos os lados. Seu espírito, sempre inquieto e acostumado com a intensidade da vida noturna e dos estúdios de tatuagem, ansiava pela energia do parque. Ele queria o vento no rosto, a altura, o movimento. Mas seu instinto protetor, aquele que o ligava a Eduarda como uma âncora, gritava um alerta.
— Eu quero ir ao parque, Duda. Preciso de um pouco de adrenalina para desestressar da semana — Emanuel disse, vendo o brilho nos olhos de Sara aumentar e o de Eduarda murchar. — Mas eu não gosto da ideia de você atravessar o centro da cidade à noite com aquelas suas amigas sonhadoras. O centro está perigoso, o teatro fica em uma área deserta depois que o espetáculo acaba.
— Eu vou estar com a Bia e a Luísa, Manu — insistiu Eduarda, segurando a mão dele sobre a mesa, os dedos entrelaçados nos dele. — O Uber nos deixa na porta. Por favor... Deixa eu ir? Eu não quero ir ao parque ser o alvo das piadas da Sara e das amigas dela.
Emanuel olhou para Sara, que já estava digitando no celular, provavelmente confirmando com o grupo. Depois olhou para Eduarda, tão frágil e doce em seu vestido de linho claro.
— Tudo bem — ele cedeu, soltando um suspiro pesado. — Vá ao teatro. Mas quero que você me mande a localização em tempo real. E me ligue assim que a peça terminar. Eu saio do parque e passo para te buscar, não importa a hora.
— Obrigada, Manu! — Eduarda se levantou e deu um beijo casto na bochecha dele, um sorriso tímido iluminando seu rosto.
— Ótimo! — Sara levantou-se logo em seguida, vitoriosa. — Agora, Emanuel, vá se trocar. Quero que você use aquela jaqueta de couro que te deixa com cara de bad boy. Vamos mostrar para aquele parque quem é que manda.
***
O Parque de Diversões "Skyline" era um caos de luzes coloridas, música pop em volume ensurdecedor e o cheiro onipresente de pipoca e óleo quente. Sara estava em seu elemento. Usava um short jeans curtíssimo, botas de cano alto e uma blusa que deixava seus ombros e o início do decote generoso à mostra. Ela brilhava sob os neons, rindo alto com Rebeca e outros amigos que se juntaram a eles.
Emanuel, inicialmente, sentiu-se culpado. Ele olhava para o celular a cada dez minutos, conferindo se Eduarda havia chegado bem.
19:45 - Eduarda: "Cheguei, Manu. O teatro é maravilhoso! Já vamos entrar. Te amo."
Ele guardou o aparelho e tentou relaxar. Sara o puxou para a montanha-russa mais alta. A subida lenta, o estalo das correntes e a queda livre súbita fizeram seu sangue bombear. Ele gritou junto com os outros, sentindo a descarga de dopamina limpar as teias de aranha de sua mente.
— Viu só? — Sara gritou quando desceram, o cabelo loiro levemente bagunçado, os olhos faiscando de excitação. — Isso é viver, Emanuel! Nada de quadros velhos ou silêncio de museu!
Eles foram para o "Kamikaze", depois para o estande de tiro, onde Emanuel ganhou um urso gigante para Sara, que ela carregava como um troféu de guerra. O tempo começou a passar de forma fluida. As risadas das amigas de Sara, as piadas internas, a cerveja gelada no bar do parque... Emanuel, pela primeira vez em semanas, permitiu-se esquecer o papel de mediador. Ele não era o juiz entre a doçura e o veneno; era apenas um homem jovem e rico aproveitando a noite.
Ele parou de olhar o celular.
A última vez que checou as horas eram 21:15. A peça deveria durar duas horas. Ele estava seguro em sua bolha de diversão.
***
Por volta das 22:30, o grupo estava sentado em uma mesa próxima à praça de alimentação, rindo de uma história que Rebeca contava sobre um cliente do estúdio de Emanuel. O som do parque era um zumbido constante ao fundo.
Thiago, um dos amigos de Sara que estava mergulhado no celular, de repente parou de rir. Sua expressão mudou de diversão para um choque pálido.
— Gente... caramba. Vocês viram isso? — Thiago perguntou, a voz cortando o clima festivo.
— Viu o quê, Thiago? Deixa de ser chato, a Rebeca estava na melhor parte — Sara reclamou, bebendo um gole de seu drink.
— Não, sério. Acabou de sair no G1 e no Twitter. Teve um tiroteio agora mesmo, no centro. Tentativa de assalto que virou arrastão na saída de um evento.
Emanuel, que estava relaxado na cadeira, sentiu um frio súbito percorrer sua espinha. O mundo pareceu ficar em câmera lenta.
— Onde no centro? — Emanuel perguntou, sua voz saindo baixa e perigosa.
Thiago deslizou o celular pela mesa.
— No Teatro Municipal. Dizem que os bandidos cercaram a saída principal quando o público estava saindo. Tem feridos.
O coração de Emanuel deu um solavanco tão violento que ele sentiu uma dor física no peito. O urso de pelúcia de Sara caiu no chão, esquecido. Ele tateou os bolsos freneticamente em busca do celular.
— Emanuel, calma, deve ser exagero da mídia... — Sara tentou dizer, tocando o braço dele.
— Cala a boca, Sara! — ele rugiu, levantando-se tão rápido que a cadeira tombou para trás.
Ele desbloqueou a tela. Havia sete chamadas perdidas de Eduarda. Todas feitas nos últimos dez minutos. E uma mensagem de áudio de apenas quatro segundos.
Com as mãos tremendo, ele deu o play. O som era um caos de gritos, barulho de vidros quebrados e o estalo seco de disparos ao fundo. A voz de Eduarda era um soluço desesperado, quase inaudível.
— Manu... por favor... socorro... eles entraram...
O áudio terminava com o som de algo caindo e um grito abafado.
Emanuel sentiu o ar sumir de seus pulmões. A culpa o atingiu como um trem de carga. Ele a tinha deixado ir. Ele tinha escolhido o parque, as luzes, a futilidade de Sara, enquanto a sua "pombinha", a menina que ele jurara proteger de tudo, estava no meio de um pesadelo sangrento.
— Eu vou para lá — Emanuel disse, os olhos vidrados, a voz soando como se viesse de outro lugar.
— Emanuel, você está louco? A polícia deve ter fechado tudo! — Sara gritou, levantando-se também. — Você não pode me deixar aqui com esse urso e sair correndo atrás dela! Ela está com as amigas, ela vai ficar bem!
Emanuel virou-se para Sara. O olhar que ele lançou para ela não era de raiva; era de um desprezo tão profundo que a fez recuar um passo.
— Se acontecer um arranhão com ela, Sara... se ela não voltar para casa... eu juro por tudo o que eu construí que nunca mais quero ver o seu rosto na minha frente.
Ele não esperou resposta. Emanuel disparou em direção ao estacionamento, atropelando quem estivesse no caminho. Ele não sentia as pernas, não ouvia a música do parque, não via as luzes. Em sua mente, apenas a voz de Eduarda pedindo socorro e a imagem dela, pequena e indefesa, encolhida em algum canto escuro daquele teatro frio.
Ele entrou no SUV e arrancou, os pneus cantando no asfalto. O trajeto que normalmente levaria trinta minutos foi feito em quinze. Ele ignorou sinais vermelhos, subiu em calçadas, o motor do carro rugindo em protesto.
Enquanto dirigia, ele tentava ligar de volta. Caixa postal.
— Atende, Eduarda... por favor, atende... — ele implorava, as lágrimas finalmente escapando e embaçando sua visão. — Eu estou chegando, pequena. Eu estou chegando.
Ao se aproximar da praça do teatro, o cenário era de guerra. Dezenas de viaturas de polícia com as luzes azuis e vermelhas girando, ambulâncias do SAMU, pessoas correndo em pânico, sapatos abandonados pelo chão. O cordão de isolamento já estava montado.
Emanuel freou o carro de qualquer jeito no meio da rua e saltou antes mesmo de desligar o motor.
— Senhor, você não pode passar! — um policial gritou, colocando a mão em seu peito quando ele tentou ultrapassar a fita amarela.
— Minha namorada está lá dentro! — Emanuel gritou, tentando empurrar o oficial. Ele parecia um louco, o rosto transtornado, a jaqueta de couro manchada de suor. — Ela me mandou um áudio, ela está em perigo! Sai da minha frente!
— Calma! Estamos fazendo a varredura. Houve reféns no saguão, mas os bandidos já fugiram pelos fundos. Estamos retirando os feridos agora.
Emanuel sentiu os joelhos fraquejarem. Feridos.
Ele olhou para a escadaria de mármore do teatro. Uma maca estava descendo, coberta por um lençol branco. Ele sentiu o mundo girar. Mas logo depois, um grupo de pessoas começou a sair, amparadas por paramédicos.
— Eduarda! — ele gritou com toda a força de seus pulmões. — EDUARDA!
No topo da escada, uma figura pequena, com o vestido de linho agora manchado de cinza e poeira, parou. Ela estava abraçada a si mesma, tremendo violentamente. Quando ouviu a voz dele, ela levantou a cabeça.
— Manu? — a voz dela saiu fraca, mas ele a ouviu através do caos.
Emanuel não esperou permissão. Ele se desvencilhou do policial com um solavanco e correu. Ele subiu os degraus de três em três e a alcançou antes que ela desse o próximo passo. Ele a envolveu em seus braços com tanta força que quase a tirou do chão.
Eduarda desabou. Ela soltou um grito sufocado que estava preso em sua garganta e começou a chorar convulsivamente contra o peito dele.
— Eles... eles atiraram em todo mundo, Manu... a Bia... a Bia foi atingida na perna... estava tudo escuro... eu achei que você não vinha... — ela soluçava, as mãos pequenas agarrando a jaqueta de couro dele como se fosse a única coisa sólida no universo.
— Shhh... eu estou aqui. Eu estou aqui, pequena — Emanuel murmurava, beijando o topo da cabeça dela, as lágrimas dele misturando-se às dela. — Me perdoa. Me perdoa por ter te deixado vir. Eu nunca mais vou te deixar sozinha. Nunca mais.
Ele a afastou um pouco para examinar seu rosto. Ela tinha um corte pequeno na testa, provavelmente de algum vidro estilhaçado, mas estava viva. Ele a abraçou novamente, sentindo o cheiro de pólvora e medo que agora impregnava o perfume de baunilha dela.
— Vamos para casa — ele disse, a voz firme agora, o modo protetor assumindo o controle total.
Ele a carregou no colo até o carro, ignorando os repórteres e os curiosos. Ele a colocou no banco do passageiro, prendeu o cinto e segurou sua mão durante todo o caminho de volta. Eduarda não parava de tremer, os olhos fixos no nada, em choque profundo.
Quando chegaram à cobertura, o silêncio era sepulcral. Sara ainda não havia voltado. Emanuel levou Eduarda direto para o banheiro. Ele mesmo tirou as roupas sujas dela, colocou-a sob a água morna e a lavou com uma delicadeza que contrastava com a fúria que sentira minutos antes.
Ele a vestiu com uma de suas camisetas grandes e a deitou na cama, cobrindo-a com três edredons. Eduarda agarrou a mão dele.
— Não sai daqui, Manu. Por favor.
— Eu não vou a lugar nenhum, Duda. Vou ficar aqui até você acordar.
Ele sentou-se na beira da cama, observando-a. A culpa ainda ardia em seu estômago como ácido. Ele olhou para o próprio celular sobre a mesa de cabeceira. Havia dezenas de mensagens de Sara.
Sara: "Emanuel, onde você está?" Sara: "Isso é ridículo, você me deixou sozinha no parque!" Sara: "A Rebeca disse que foi só um susto no teatro, para de ser dramático." Sara: "Responde! Eu estou indo para casa e quero conversar!"
Emanuel sentiu uma náusea profunda. Ele bloqueou o número de Sara. Naquela noite, algo havia se quebrado de forma definitiva. A diversão, o brilho, a vulgaridade barulhenta de Sara agora pareciam cinzas na boca. O medo de perder Eduarda tinha revelado a ele a verdade nua e crua: sem aquela doçura manhosa, sem aquela fragilidade que ele tanto criticava mas que era o que o mantinha humano, ele não passaria de uma casca vazia.
A porta da frente da cobertura bateu. Sara entrou no quarto momentos depois, ainda com a roupa do parque, o rosto carregado de indignação.
— Emanuel! Você tem noção do que... — ela começou, mas parou ao ver Eduarda dormindo, pálida como um fantasma, e Emanuel sentado na penumbra, com um olhar que ela nunca vira antes.
— Sai — Emanuel disse, em um sussurro que era mais assustador do que qualquer grito.
— O quê? Emanuel, eu...
— Sai deste quarto, Sara. E amanhã, arrume suas coisas.
— Você está me expulsando por causa disso? — ela perguntou, a voz subindo de tom. — Ela está bem! Foi só um susto!
Emanuel levantou-se lentamente. Ele caminhou até Sara e parou a centímetros do rosto dela.
— Ela quase morreu enquanto eu estava rindo das suas piadas idiotas. Eu escolhi o seu egoísmo em vez da segurança dela. E esse foi o maior erro da minha vida. Eu não vou cometer esse erro de novo.
— Você vai se arrepender, Emanuel! — Sara sibilou, as lágrimas de raiva borrando sua maquiagem cara. — Você vai morrer de tédio com essa menina!
— Eu prefiro o tédio da paz dela do que o barulho do seu veneno. Agora, saia.
Sara recuou, percebendo que, desta vez, não havia sedução ou briga que pudesse reverter a situação. Ela saiu do quarto, e Emanuel ouviu a porta da suíte de hóspedes bater.
Ele voltou para o lado de Eduarda e deitou-se ao lado dela, por cima das cobertas. A menina, mesmo dormindo, sentiu sua presença e se aconchegou nele, buscando seu calor.
Emanuel fechou os olhos, ouvindo a respiração curta dela. O eco dos tiros no teatro ainda ressoava em sua mente, mas o peso do corpo de Eduarda contra o seu era a única realidade que importava. Ele era o mestre do caos, o tatuador que desenhava destinos, mas naquela noite, ele percebeu que o desenho mais importante era aquele que ele protegia com a própria vida.
A guerra entre o ouro e o veneno havia terminado. E, no silêncio daquela madrugada, o ouro — puro, frágil e precioso — tinha finalmente vencido.