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O Karma de Veludo
O sol da manhã refletia intensamente na superfície da piscina infinita da mansão de campo de Emanuel. O refúgio, uma obra-prima de arquitetura moderna encravada nas montanhas, deveria ser o cenário perfeito para o descanso do tatuador após o fiasco da boate. Mas o silêncio da natureza era constantemente interrompido pelas risadas estridentes de Sara e suas três amigas, que pareciam ter transformado a área de lazer em um cenário de reality show de baixo nível.
Emanuel observava tudo da varanda do segundo andar, com uma caneca de café preto na mão e o cenho franzido. Seus olhos, marcados pelo estresse acumulado, pousaram em Sara. Ela usava um biquíni de fita minúsculo, óculos escuros de grife e um enorme curativo cor da pele no nariz, que ainda estava levemente arroxeado.
— Ai, gente, a minha vida é um sofrimento — Sara exclamou, esticando as pernas longas na espreguiçadeira enquanto uma de suas amigas passava bronzeador em suas costas. — Aquela mulher era uma psicopata. Emanuel devia ter chamado a polícia, mas ele é muito mole com essas coisas.
— O problema não é o Emanuel, Sarinha — disse Jéssica, uma loira tão artificial quanto ela. — O problema é aquele "estorvo" que ele insiste em carregar. A Eduarda atrai energia negativa, reparou? Ela é tão sem sal que o universo tenta compensar com drama.
Eduarda, que estava sentada em um banco de madeira sob a sombra de uma mangueira, fingia ler um livro de História da Arte, mas ouvia cada palavra. Seus dedos apertavam as páginas com força. Ela usava um maiô discreto e uma saída de praia de renda branca, parecendo uma pintura delicada em meio ao cenário rústico.
— Olha lá — Sara apontou, sem o menor pudor. — Ei, Duda! Cuidado para não ler demais e o seu cérebro dar um curto-circuito. Já é tão pequeno, imagina se pifar?
As amigas de Sara caíram na gargalhada. Eduarda sentiu o rosto esquentar, mas não levantou os olhos. Ela sentia a proteção de Emanuel lá de cima, mas sabia que ele não interviria em picuinhas de "comadres". Emanuel gostava de ordem, não de babá de namoradas.
— Deixa ela, Sara — continuou Jéssica, em voz alta. — Ela está tentando entender as figuras, já que ler deve ser difícil.
Eduarda fechou o livro lentamente. Uma calma estranha e gélida começou a percorrer suas veias. Ela já tinha suportado o suficiente. O episódio da boate tinha lhe mostrado uma coisa: Sara não era invencível. E se Sara gostava de transformar a vida dos outros em um inferno público, Eduarda faria da vida de Sara um inferno privado e invisível.
— Com licença — disse Eduarda, levantando-se com sua voz mansa e caminhando em direção à cozinha interna.
Ao passar por Emanuel no corredor, ela exibiu seu melhor olhar de desamparo, o que fez o homem suspirar e puxá-la para um beijo rápido na testa.
— Não liga para elas, pequena. Elas são vazias — murmurou ele.
— Eu sei, Manu. Só vou preparar um lanche para a gente — respondeu ela, manhosa, encostando o rosto no peito dele por um segundo antes de deslizar para a cozinha.
Lá dentro, longe dos olhos de todos, a expressão de Eduarda mudou. Ela viu a garrafa térmica de chá detox que Sara insistia em beber para "desinchar do trauma". Eduarda abriu o armário de mantimentos e encontrou o que procurava: um frasco de óleo de rícino que a governanta usava para fins medicinais e um vidro de pimenta malagueta em conserva.
Com movimentos precisos e silenciosos, ela pingou generosas gotas do laxante natural no chá de Sara. Depois, pegou o protetor solar caríssimo da loira, que estava sobre o balcão da cozinha, e misturou uma pequena quantidade de extrato de pimenta no bico aplicador.
— O que você está fazendo, Duda? — A voz de Emanuel soou na porta da cozinha, fazendo o coração dela saltar.
Eduarda virou-se com um sorriso doce, segurando uma maçã.
— Só organizando as coisas, Manu. A cozinha estava uma bagunça com as coisas das meninas. Você quer que eu leve um suco para você no escritório?
Emanuel a observou por alguns segundos. Havia algo de diferente no brilho dos olhos dela, algo que ele não conseguia decifrar, mas sua mente lógica atribuiu ao cansaço.
— Quero sim. Obrigado por ser tão prestativa, mesmo com elas te tratando mal.
— Imagina, querido. Eu não me importo — disse ela, voltando ao seu tom angelical.
Meia hora depois, o caos silencioso começou.
Sara, que havia acabado de retocar o bronzeador (o "batizado" por Eduarda), começou a sentir uma queimação estranha nos ombros e nas coxas.
— Gente... está fazendo muito sol hoje, né? — Sara comentou, abanando-se. — Minha pele está ardendo.
— Deve ser o peeling que você fez semana passada, amiga — sugeriu Jéssica.
— Não, é diferente. Parece que... ai! Está pinicando! — Sara se levantou, a pele ficando levemente avermelhada. — Vou dar um mergulho para refrescar.
Ela se jogou na piscina, mas a água parecia não aliviar a sensação de calor que a pimenta causava nos poros abertos pelo sol. Ao sair da água, ela sentiu a primeira cólica. Foi uma pontada aguda, vinda do fundo de suas entranhas.
— Ai, meu estômago... — Sara levou a mão à barriga, o rosto ficando pálido sob o bronzeado artificial. — Acho que o sushi de ontem não caiu bem.
— Bebe o seu chá, Sara! — gritou uma das amigas.
Sara pegou a garrafa térmica e deu três longos goles no chá detox. Eduarda, observando tudo da janela da sala enquanto fingia limpar o pó de um vaso, deu um sorriso imperceptível.
Não demorou dez minutos. O rosto de Sara passou de pálido para verde.
— Eu... eu já volto — disse ela, tentando manter a pose, mas saindo em uma marcha acelerada e desajeitada em direção ao banheiro da suíte principal.
Emanuel, que tinha descido para pegar alguns papéis, viu a loira passar correndo por ele.
— Sara? Está tudo bem?
— Sai da frente, Emanuel! — gritou ela, batendo a porta do banheiro com estrondo.
Emanuel franziu a testa. Ele caminhou até a área externa e viu Eduarda sentada calmamente, servindo-se de um copo de água gelada.
— A Sara parece doente — comentou ele, sentando-se ao lado de Eduarda.
— Ah, que pena — disse Eduarda, com uma voz carregada de falsa empatia. — Talvez seja o estresse. Ela é tão explosiva, o corpo acaba sentindo, não é?
Emanuel não respondeu. Ele ficou observando a piscina. Algo estava errado. Sara era resistente, e aquela coincidência de sintomas — a pele irritada e o mal-estar súbito — parecia estranha demais.
Durante o jantar, a situação piorou. Sara reapareceu, visivelmente abatida e com os olhos fundos, mas não queria dar o braço a torcer na frente das amigas e de Emanuel. Ela usava um vestido longo de seda, tentando esconder a irritação na pele.
— Você está melhor, Sara? — perguntou Emanuel, cortando seu bife com precisão.
— Estou ótima. Foi só um mal-estar passageiro — mentiu ela, lançando um olhar de nojo para o prato de Eduarda. — Pelo menos eu não tenho essa cara de morta-viva da Eduarda.
Eduarda não respondeu. Ela apenas se levantou para buscar o sal. Ao passar por trás da cadeira de Sara, ela "tropeçou" levemente. Foi um movimento coreografado. Um pouco do molho de vinho tinto de sua taça caiu exatamente no decote do vestido de seda de Sara.
— Ops! Meu Deus, Sara! Me desculpa! — Eduarda exclamou, pegando um guardanapo e começando a esfregar a mancha, mas fazendo-o de tal forma que o molho se espalhasse ainda mais pelo tecido caro.
— Tira a mão de mim, sua desastrada! — Sara deu um tapa na mão de Eduarda e se levantou, furiosa. — Você tem noção de quanto custou este vestido? É um exemplar único!
— Eu sinto muito, de verdade... eu sou tão desajeitada — Eduarda começou a lacrimejar, fazendo o papel da vítima perfeita.
Emanuel se levantou, a paciência no limite.
— Chega, Sara! Foi um acidente. A Duda já pediu desculpas.
— Acidente? Ela fez de propósito! — Sara gritou, mas uma nova cólica a atingiu, fazendo-a se curvar. — Ai... de novo não...
Ela saiu correndo da sala de jantar sob os olhares de julgamento dos amigos de Emanuel. O tatuador suspirou e olhou para Eduarda, que estava com a cabeça baixa, parecendo soluçar. Ele a abraçou pelos ombros.
— Está tudo bem, pequena. Ela está nervosa. Vai para o quarto descansar, eu resolvo as coisas por aqui.
Eduarda assentiu, escondendo o sorriso vitorioso no ombro dele.
— Obrigada, Manu. Você é tão bom para mim.
Naquela noite, Emanuel não conseguiu dormir. Ele era um homem de detalhes. Como tatuador, sua vida dependia de observar pequenas nuances que outros ignoravam. Ele se levantou e foi até a cozinha buscar água. No caminho, passou pela lavanderia e viu o vestido de Sara jogado em um cesto. Ele notou algo no chão: um pequeno frasco de extrato de pimenta que não pertencia à despensa da casa, mas que estava caído perto do armário onde Eduarda guardava suas coisas pessoais.
Ele pegou o frasco, analisando-o sob a luz fraca do corredor. Seus olhos se estreitaram.
Na manhã seguinte, o clima estava pesado. Sara estava trancada no quarto, alegando que sua pele estava em carne viva e que seu estômago parecia ter sido atacado por alienígenas. Suas amigas estavam cochichando na varanda, desconfiadas.
Emanuel encontrou Eduarda no jardim, colhendo algumas flores silvestres. Ela parecia radiante, a personificação da inocência.
— Bom dia, Manu! Veja que flores lindas — disse ela, estendendo um buquê para ele.
Emanuel não pegou as flores. Ele cruzou os braços e a encarou com aquela expressão séria que costumava usar quando um funcionário cometia um erro grave em um de seus estúdios.
— Duda, podemos conversar?
— Claro, querido. Aconteceu alguma coisa? — Ela inclinou a cabeça, manhosa.
— Eu encontrei isso aqui — ele estendeu a mão, mostrando o frasco de pimenta. — E notei que o óleo de rícino da governanta sumiu quase pela metade em um único dia.
O silêncio que se seguiu foi denso. Eduarda não desviou o olhar imediatamente, mas ele viu a pequena hesitação no brilho de suas pupilas.
— Eu não sei do que você está falando, Manu — ela disse, a voz suave, mas sem a convicção de antes.
— Sabe sim — Emanuel deu um passo à frente, sua presença tornando-se imponente. — A Sara é insuportável, eu sei disso melhor do que ninguém. Ela te provoca, ela é vulgar, ela é maldosa. Mas sabotar o protetor solar dela? Dar laxante? Isso não é do seu feitio, Duda. Ou é?
Eduarda soltou as flores no chão. A máscara de timidez caiu, dando lugar a uma expressão de cansaço e uma frieza que Emanuel nunca tinha visto.
— E o que é do meu feitio, Emanuel? — ela perguntou, sua voz agora firme, sem nenhum traço de fragilidade. — Ser humilhada todo santo dia? Ouvir que eu sou um "estorvo", que eu sou feia, que eu sou uma morta-viva? Você fica aí, com essa sua postura de mediador, mas você nunca a cala de verdade. Você deixa ela me pisar porque gosta do fogo dela.
Emanuel ficou em silêncio, pego de surpresa pela retórica direta de Eduarda.
— Eu só dei a ela o que ela planta — continuou Eduarda, aproximando-se dele. — Ela queria atenção? Teve. Ela queria ser o centro das atenções? Foi, mesmo que tenha sido correndo para o banheiro. Você me acha má, Emanuel? Eu acho que fui apenas justa.
Emanuel a observou por um longo tempo. Ele deveria estar furioso. Ele odiava perder o controle da situação, e Eduarda tinha manipulado o ambiente sob o seu nariz. Mas, ao olhar para aquela mulher pequena e aparentemente frágil, ele sentiu uma onda de respeito distorcido.
— Você me enganou direitinho — disse ele, a voz rouca. — Eu realmente achei que você era incapaz de revidar.
— Todo mundo tem um limite, Manu. Até as "mocinhas" — ela estendeu a mão e tocou o rosto dele, os dedos leves deslizando pela barba por fazer. — Você vai contar para ela? Vai me expulsar?
Emanuel segurou o pulso dela, não com força, mas com firmeza.
— Não. A Sara precisava de um choque de realidade. Mas não faça mais isso. Se você quer resolver as coisas com ela, use as palavras, ou me peça para tirá-la daqui. Não transforme minha casa em um campo de guerra química.
Eduarda deu um sorriso pequeno, quase imperceptível.
— Eu não prometo nada, Manu. Depende de como ela vai se comportar hoje.
Emanuel soltou um suspiro pesado, sentindo que sua vida, que já era complicada com duas namoradas que se odiavam, tinha acabado de subir de nível na escala de perigo. Ele percebeu que, enquanto Sara era um incêndio barulhento e óbvio, Eduarda era uma inundação silenciosa: você não percebe o perigo até que já está submerso.
— Vamos entrar — disse ele. — A Sara quer que eu a leve ao médico de novo. Ela jura que foi envenenada por "energias negativas".
— Ou pelo sushi — Eduarda piscou para ele, voltando instantaneamente ao seu jeito doce e retraído. — Vou preparar um chá para ela. Prometo que desta vez será apenas camomila.
Emanuel caminhou ao lado dela, sentindo uma mistura de irritação e uma atração renovada. Ele sabia que aquela paz era temporária, e que no tabuleiro de xadrez que era seu relacionamento triplo, a rainha tímida tinha acabado de fazer seu primeiro movimento mestre. E ele, o rei, estava apenas começando a entender as regras do jogo.