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Herança de Sangue e Silêncio

O ar condicionado do casarão de Emanuel trabalhava silenciosamente, mas o clima no interior da sala de estar era de uma eletricidade estática quase palpável. Eduarda caminhava descalça pelo corredor de mármore, seus passos leves e discretos como os de um felino. Ela carregava um livro de gravuras renascentistas, mas seus sentidos estavam aguçados para qualquer som que viesse do terraço.

Foi então que ela ouviu. A risada de Sara, aquela nota aguda e estridente que sempre parecia arranhar os nervos de Eduarda, ecoava vinda da área externa. Sara estava acompanhada de suas sombras habituais — as amigas que viviam às custas da generosidade indireta de Emanuel.

Eduarda parou rente à cortina de veludo pesado da porta francesa, ocultando-se nas sombras. Ela não gostava de bisbilhotar, ou pelo menos era o que dizia a si mesma, mas o nome de Emanuel foi pronunciado com uma entonação que a fez congelar.

— ...e eu estou falando sério, meninas — dizia Sara, o tom de voz carregado de uma autoconfiança predatória. — O Emanuel está cada vez mais focado nos negócios, abrindo o terceiro estúdio em Londres. Ele precisa de algo que o prenda aqui, algo que seja um legado real.

— E você acha que ele quer isso agora, Sarinha? — perguntou Jéssica, entre um gole de espumante e outro. — Ele parece tão... controlado.

— Homem nenhum resiste a um herdeiro, querida — Sara retrucou, e Eduarda pôde quase ver o sorriso malicioso no rosto da loira. — Imagine um mini-Emanuel, com aqueles olhos dele, mas com a minha genética. Eu já parei com o anticoncepcional há duas semanas. Vou começar a "tentar" de verdade a partir de hoje. Ele nem vai ver o que o atingiu. Quando a barriga aparecer, aquela mosca morta da Eduarda vai ser chutada para o escanteio de vez. Quem vai querer uma estudante de arte sem graça quando se tem a mãe do seu filho em casa?

As amigas riram em coro, celebrando o plano como se fosse uma vitória garantida. No corredor escuro, o coração de Eduarda deu um solavanco violento contra as costelas. O livro em suas mãos pareceu pesar toneladas.

Uma fúria fria, muito diferente da irritação passageira que costumava sentir, começou a se espalhar por seu peito. Sara não queria apenas um filho; ela queria uma arma. Queria usar uma vida humana para selar o destino de Emanuel e aniquilar a presença de Eduarda.

Eduarda respirou fundo, fechando os olhos. Ela sempre fora a "boazinha", a sensível, a que buscava o abraço protetor de Emanuel quando o mundo ficava barulhento demais. Mas a ideia de Sara — aquela mulher vulgar, egoísta e cruel — carregando o fruto do homem que ela amava era algo que Eduarda não poderia permitir. Nunca.

— Você não vai ter esse privilégio antes de mim, Sara — sussurrou Eduarda para o vazio do corredor, sua voz soando como um juramento sombrio.

Ela deu meia-volta e caminhou em direção ao escritório de Emanuel. Sabia que ele estava lá, mergulhado em planilhas e desenhos de novas tatuagens. Antes de entrar, ela parou diante de um espelho antigo no hall. Puxou os cabelos castanhos para o lado, ajeitou a alça do vestido de seda clara e forçou uma expressão de vulnerabilidade e doçura. A menina frágil precisava voltar ao palco.

Ela bateu suavemente na porta de carvalho.

— Entre — a voz de Emanuel soou grave e cansada.

Eduarda entrou, fechando a porta silenciosamente atrás de si. Emanuel estava sem paletó, com as mangas da camisa branca dobradas, revelando as tatuagens intrincadas que subiam por seus antebraços. Ele parecia exausto.

— Manu... atrapalho? — perguntou ela, aproximando-se com passos tímidos.

Emanuel levantou o olhar e suas feições relaxaram imediatamente. Ele estendeu a mão para ela, um gesto automático de busca por conforto.

— Nunca, Duda. Vem aqui.

Ela se sentou no colo dele, sentindo o perfume de madeira e tabaco caro que ele exalava. Envolveu o pescoço dele com os braços, escondendo o rosto na curva de seu ombro.

— Você parece tenso — murmurou ela, manhosa. — O trabalho está consumindo você.

— É a expansão para a Europa, pequena. Muita burocracia, muita gente tentando me passar para trás — ele suspirou, acariciando as costas dela. — Às vezes eu só queria que as coisas fossem simples como você.

Eduarda sorriu contra a pele dele. "Simples". Se ele soubesse o que ela acabara de ouvir e o que estava planejando.

— Eu sinto que a casa está tão vazia ultimamente — disse ela, começando o seu jogo com uma delicadeza cirúrgica. — A Sara está sempre com aquelas amigas, fazendo barulho... e eu fico aqui, pensando no nosso futuro.

Emanuel travou levemente o movimento das mãos.

— O que quer dizer com futuro, Duda?

— Ah, não sei... — ela se afastou um pouco para olhá-lo nos olhos, deixando que uma lágrima solitária e bem ensaiada brilhasse no canto da pálpebra. — Eu ando me sentindo tão sozinha. Às vezes acho que você precisa de algo mais sólido, algo que nos una de verdade. Algo que seja nosso.

Emanuel franziu a testa, a mente racional tentando processar a mudança de tom.

— Você está falando de um filho?

Eduarda baixou o olhar, parecendo envergonhada.

— Eu sei que é cedo, que você é ocupado... mas eu ando sonhando tanto com isso, Manu. Um bebê com o seu rosto. Eu cuidaria tanto dele, seria o centro do meu mundo.

Emanuel sentiu um aperto no peito. Ao contrário de Sara, que ele via como uma força da natureza indomável e muitas vezes irritante, Eduarda era seu porto seguro. A ideia de ter um filho com ela evocava imagens de paz, de uma casa silenciosa e cheia de afeto. Mas ele ainda não estava pronto para ceder ao caos da paternidade.

— Duda, meu amor... a gente já conversou sobre isso. Eu tenho muita coisa acontecendo agora. Não seria justo com você, nem com a criança.

— Eu entendo — ela disse, a voz falhando propositalmente. — Mas e se... e se acontecesse? Você ficaria triste?

Emanuel a puxou para um beijo calmo, tentando dissipar a melancolia dela.

— Eu nunca ficaria triste com algo que viesse de você. Mas vamos esperar o momento certo, tá bem?

Eduarda assentiu, mas por dentro, ela já estava movendo as peças. Ela sabia que Emanuel usava preservativos com Sara — ele não confiava na loira o suficiente para deixar a responsabilidade apenas com ela. Mas com Eduarda, muitas vezes ele relaxava, confiando que ela, em sua "inocência", jamais faria algo sem o consentimento dele.

Naquela noite, o jantar foi uma guerra fria disfarçada de etiqueta. Sara exibia o decote e falava sobre viagens, enquanto lançava olhares triunfantes para Eduarda. Ela agia como se já carregasse o herdeiro do império de Emanuel no ventre.

— Emanuel, querido — disse Sara, passando a mão pelo braço dele de forma possessiva —, eu estava pensando que a gente podia passar o próximo final de semana no iate. Só nós dois. Sinto que precisamos de um tempo de... qualidade.

Eduarda sentiu o estômago revirar. Ela sabia exatamente o que "tempo de qualidade" significava nos planos de Sara.

— Eu não posso, Sara — Emanuel respondeu, sem tirar os olhos do prato. — Tenho uma reunião com os investidores de Londres no sábado de manhã.

— Ah, mas você sempre tem reuniões! — Sara bufou, fazendo um biquinho vulgar. — Você está me negligenciando.

— Eu estou trabalhando para sustentar esse estilo de vida que você tanto gosta — ele retrucou, o tom de voz ficando gélido.

Eduarda aproveitou o momento de tensão.

— Se você quiser, Manu, eu posso ficar no escritório com você no sábado. Posso ajudar a organizar os portfólios, como fiz da última vez. É silencioso e a gente pode almoçar por lá mesmo.

Emanuel olhou para Eduarda e sentiu um alívio imediato.

— Seria ótimo, Duda. Eu agradeceria muito a companhia.

Sara quase quebrou a taça de cristal que segurava. Seus olhos faiscaram de ódio em direção à Eduarda, que apenas lhe devolveu um olhar de incompreensão angelical.

Quando o jantar terminou e Emanuel se retirou para terminar uma ligação, Sara encurralou Eduarda na cozinha.

— Escuta aqui, sua songamonga — sibilou a loira, aproximando o rosto do de Eduarda. — Eu sei o que você está tentando fazer. Mas não adianta se esfregar nele com esse seu jeito de santa. O Emanuel quer uma mulher de verdade, não uma boneca de porcelana que chora por qualquer coisa.

Eduarda continuou secando uma xícara, mantendo a calma que aprendera a cultivar como uma armadura.

— Eu não estou tentando fazer nada, Sara. Eu só amo o Emanuel.

— Ama o dinheiro dele, você quer dizer — Sara riu, uma gargalhada seca. — Pois fique sabendo que os seus dias de "favorita" estão contados. Eu vou dar a ele o que você nunca teria coragem de dar. E quando eu estiver grávida, você vai ser apenas uma lembrança irritante no passado dele.

Eduarda parou de secar a xícara. Ela se virou lentamente para Sara. Pela primeira vez, ela não desviou o olhar. Não houve timidez, nem medo. Apenas uma determinação fria que fez Sara recuar um passo, instintivamente.

— Você fala muito, Sara — disse Eduarda, a voz baixa e firme. — Mas você esquece que o Emanuel valoriza a lealdade acima de tudo. E ele sabe que você é movida a interesse. Você acha que um filho vai te dar o controle? Talvez. Mas para isso, você precisa que ele queira ter esse filho com você. E, pelo que eu vejo, ele mal consegue suportar sua voz por mais de uma hora.

— Sua vadia... — Sara levantou a mão, mas Eduarda não piscou.

— Tente me bater — desafiou Eduarda. — O Emanuel está logo ali na sala. Vamos ver quem ele vai expulsar de casa: a namorada que o ajuda e o acalma, ou a que agride as pessoas dentro da própria casa dele. De novo.

Sara baixou a mão, tremendo de raiva. Ela deu as costas e saiu pisando fundo, os saltos estalando contra o chão.

Eduarda respirou fundo, sentindo a adrenalina baixar. Ela sabia que a guerra tinha escalado. Sara ia tentar engravidar a qualquer custo, provavelmente sabotando os preservativos ou mentindo sobre o ciclo. Eduarda precisava ser mais rápida.

Naquela madrugada, enquanto a casa dormia, Eduarda entrou no banheiro da suíte que Sara ocupava às vezes. Ela sabia onde a loira guardava suas coisas. Encontrou a cartela de anticoncepcionais que Sara exibia para as amigas, mas que agora estava supostamente "aposentada". Eduarda abriu a gaveta de remédios de Sara e encontrou o que procurava: um frasco de vitaminas pré-natais que a loira já tinha começado a tomar por conta própria.

Com uma agulha fina que trouxera de seu kit de costura, Eduarda fez pequenos furos em cada um dos preservativos que Emanuel mantinha na gaveta da cabeceira de Sara. Era um jogo sujo, ela sabia. Mas Sara estava jogando para matar, e Eduarda não pretendia ser a vítima.

No entanto, ela não parou por aí. Se Sara queria um filho para prender Emanuel, Eduarda teria um filho para amá-lo.

Ela voltou para o quarto de Emanuel. Ele dormia profundamente, a expressão séria mesmo no sono. Eduarda deslizou para debaixo dos lençóis e se aninhou contra o corpo quente dele.

— Eu vou proteger o que é nosso, Manu — sussurrou ela, beijando o ombro tatuado dele. — Ela nunca vai ter o seu sangue correndo nas veias dela se eu puder impedir.

Nos dias que se seguiram, a tensão na mansão tornou-se quase insuportável. Sara estava em sua fase de "caça", sendo excessivamente carinhosa com Emanuel, tentando seduzi-lo a cada oportunidade. Eduarda, por outro lado, agia como a sombra perfeita. Ela era o conforto, o silêncio, a mão que massageava os ombros dele após um dia longo.

No sábado, durante o tempo que passaram sozinhos no escritório, Eduarda foi mais longe. Ela usou toda a sua manha, toda a sua sensibilidade para envolver Emanuel. Ela o fez sentir que o mundo lá fora era perigoso e exaustivo, e que somente nos braços dela ele estava seguro.

— Você me faz sentir que eu não preciso de mais nada, Duda — disse ele, em um momento de entrega, enquanto a segurava nos braços sobre o sofá de couro do escritório.

— Então não use nada, Manu — ela sussurrou no ouvido dele, a voz carregada de uma urgência que ele nunca tinha sentido nela. — Só por hoje. Eu quero sentir você de verdade. Eu confio em você.

Emanuel hesitou por um segundo. Sua mente lógica gritou sobre responsabilidades e riscos. Mas o cansaço, o desejo e a doçura manipuladora de Eduarda foram mais fortes. Ele cedeu.

Enquanto isso, no andar de baixo, Sara esperava, impaciente, pelo retorno de Emanuel, sem saber que a "mosca morta" acabara de desferir o golpe de misericórdia em seus planos.

Semanas se passaram. O clima de expectativa pairava sobre as duas mulheres como uma nuvem de tempestade. Sara começou a reclamar de enjoos constantes, exibindo-os para quem quisesse ver, certa de que seu plano tinha funcionado.

— Eu acho que estou grávida, Emanuel — anunciou Sara durante um café da manhã, com um sorriso triunfante, olhando diretamente para Eduarda. — Meu ciclo está atrasado e eu não me sinto bem.

Emanuel parou de ler o jornal, o rosto ficando pálido.

— Você tem certeza, Sara? Nós fomos cuidadosos.

— Às vezes o destino é mais forte que o cuidado, querido — ela disse, fazendo um carinho no próprio ventre ainda plano.

Eduarda sentiu um frio na espinha, mas manteve a expressão neutra. Ela sabia dos furos nos preservativos, mas também sabia de algo que Sara não desconfiava.

— Que coincidência — disse Eduarda, sua voz soando fina e trêmula, atraindo a atenção de Emanuel.

— O que foi, Duda? — perguntou ele, a preocupação com a namorada favorita superando o choque da notícia de Sara.

Eduarda levou a mão à boca, parecendo lutar contra uma náusea real.

— Eu também não tenho me sentido bem, Manu. Eu ia te contar hoje... eu fiz um teste de farmácia ontem à noite.

O silêncio que caiu sobre a mesa foi absoluto. Sara arregalou os olhos, a cor fugindo de seu rosto.

— O quê? — a voz de Sara saiu como um guincho. — Você está mentindo! Sua cópia barata! Você está tentando me imitar até nisso?

— Eu não estou imitando ninguém, Sara — Eduarda disse, começando a chorar silenciosamente, o que imediatamente fez Emanuel se levantar e ir até ela. — Eu só... aconteceu.

Emanuel estava em choque. Duas mulheres. Duas namoradas que se odiavam, possivelmente grávidas ao mesmo tempo. O controle que ele tanto prezava tinha acabado de ser pulverizado.

— Nós vamos ao hospital. Agora — sentenciou Emanuel, a voz dura como aço. — As duas. Vamos fazer exames de sangue e acabar com essa dúvida.

O trajeto até o hospital foi um inferno de silêncio e olhares de ódio trocados pelo espelho retrovisor. Sara estava possessa, convencida de que Eduarda estava inventando tudo. Eduarda permanecia encolhida no banco, a imagem da fragilidade, embora por dentro seu coração batesse em um ritmo de guerra.

Após as coletas de sangue, a espera na sala VIP do hospital parecia eterna. Emanuel andava de um lado para o outro, as mãos nos bolsos, a tensão emanando dele em ondas.

Finalmente, o médico entrou na sala com dois envelopes.

— Senhor Emanuel? Temos os resultados.

Sara se levantou primeiro, arrancando o envelope da mão do médico.

— Eu sabia! Eu sinto que sou mãe! — ela exclamou, abrindo o papel com pressa.

Mas, conforme seus olhos percorriam o resultado, seu sorriso desapareceu. O papel tremeu em suas mãos.

— Negativo? — ela sussurrou, a voz falhando. — Mas... mas eu tive todos os sintomas! Eu furei... eu quero dizer, eu tinha certeza!

Emanuel olhou para ela com uma mistura de alívio e desprezo. Ele sabia que Sara seria capaz de qualquer coisa, e o "negativo" era a prova de que suas suspeitas sobre a manipulação dela tinham fundamento.

— E o da Eduarda? — perguntou Emanuel, a voz quase sumindo.

Eduarda pegou o envelope com as mãos trêmulas. Ela o abriu lentamente. Seus olhos brilharam ao ver as palavras que mudariam tudo.

— Positivo — ela leu, a voz doce e carregada de uma satisfação que só ela compreendia plenamente. — Eu estou grávida, Manu.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, processando a notícia. Quando os abriu, ele não olhou para Sara, que estava em choque e à beira de um ataque de nervos. Ele olhou para Eduarda. Ele a pegou nos braços, protegendo-a, como sempre fizera, mas agora com um novo propósito.

— Eu vou cuidar de vocês — prometeu ele.

Sara desabou na cadeira, derrotada pela própria arrogância e pela subestimação de sua adversária. Ela não percebeu que, enquanto ela jogava de forma vulgar e óbvia, Eduarda tinha jogado com a alma.

Eduarda, escondida no abraço de Emanuel, olhou por cima do ombro dele para Sara. Não houve pena em seus olhos castanhos. Apenas a frieza de quem tinha garantido seu lugar no trono. Ela vencera a primeira batalha da herança. E, enquanto sentia a mão firme de Emanuel em sua cintura, ela soube que aquele era apenas o começo de seu novo império silencioso.