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O Peso da Esperança e o Veneno do Triunfo

— Isso é impossível! Esse laboratório é incompetente! — o grito de Sara ecoou pelos corredores assépticos da ala VIP do hospital, atraindo olhares curiosos de enfermeiros e pacientes. — Emanuel, você está ouvindo? Eles erraram! Eu senti os enjoos, eu senti tudo! Aquela mosca morta deve ter pago alguém para trocar os exames!

Sara estava lívida. O rosto, ainda com resquícios das manchas roxas da briga na boate, agora estava retorcido em uma máscara de descrença e fúria. Ela sacudia o papel do resultado negativo como se pudesse forçar as letras a mudarem de forma por puro poder de vontade.

Emanuel, no entanto, não parecia disposto a alimentar o drama. Ele mantinha o braço firmemente ao redor dos ombros de Eduarda, que permanecia em silêncio, com a cabeça encostada em seu peito, a imagem perfeita da serenidade vitoriosa.

— Chega, Sara — disse Emanuel, a voz baixa e carregada daquela autoridade que raramente falhava. — Os exames de sangue não mentem. Você se deixou levar pelo psicológico ou por alguma virose. Aceite.

— Aceitar? — Sara riu, uma gargalhada histérica que beirava o desespero. — Você vai ter um filho com ela? Com essa... essa coisinha de porcelana que mal sabe se cuidar? Emanuel, ela fez isso de propósito para me anular!

Emanuel soltou um suspiro pesado e se aproximou de Sara, sem soltar Eduarda completamente. Ele olhou nos olhos da loira, que brilhavam com lágrimas de raiva.

— Escute bem — começou ele, com uma frieza racional. — Eu amo as duas. Eu já disse isso mil vezes e provei das mais diversas formas. A gravidez da Duda é uma bênção, e eu vou assumir todas as minhas responsabilidades como pai, mas isso não muda o que eu sinto por você. Você ainda é minha namorada, Sara. Nada vai mudar na nossa dinâmica, a menos que você torne a convivência impossível com esses surtos.

Sara olhou para ele, depois para Eduarda, que mantinha um meio sorriso quase imperceptível nos lábios. A loira sentiu um gosto amargo na boca. As palavras de Emanuel deveriam confortá-la, mas para uma mulher competitiva como ela, ser "mantida no posto" não era o suficiente. Ela queria o trono absoluto. Ela queria o vínculo inquebrável que só um filho poderia proporcionar.

— Não muda nada? — Sara sibilou, limpando as lágrimas com as costas da mão, borrando o rímel caro. — Muda tudo. Ela ganhou um trunfo, Emanuel. Mas não pense que eu vou ficar para trás.

Sem dizer mais nada, Sara virou as costas e saiu do hospital pisando fundo, o barulho de seus saltos soando como tiros no piso de granito.

Eduarda, que até então parecia uma espectadora passiva, apertou a mão de Emanuel.

— Ela está sofrendo, Manu... — sussurrou ela, com aquela voz manhosa que ele tanto amava. — Eu me sinto mal por estar feliz enquanto ela está assim.

Emanuel beijou o topo da cabeça de Eduarda, sentindo o cheiro doce de seus cabelos.

— Você é boa demais, Duda. Não se culpe por uma coisa maravilhosa. A Sara é impulsiva, ela vai acabar se acalmando. Vamos para casa, você precisa descansar e começar a se cuidar.

Nas semanas que se seguiram, a mansão de Emanuel tornou-se um campo de batalha silencioso e estranho. Eduarda vivia o auge de sua "fragilidade". Ela passava os dias lendo livros sobre maternidade, escolhendo cores pastéis para um possível quarto de bebê e sendo paparicada por Emanuel, que trazia presentes, vitaminas e se certificava de que ela não fizesse o menor esforço.

Sara, por outro lado, tornou-se uma sombra obsessiva. Ela não saía mais com as amigas para as boates. Ela não gastava horas no salão. Sua nova rotina consistia em visitas diárias a clínicas de fertilidade, nutricionistas e em monitorar seu ciclo com uma precisão militar. Ela estava determinada a engravidar, custasse o que custasse.

— Você está obcecada, Sara — disse Emanuel certa noite, enquanto a encontrava na cozinha tomando uma mistura de vitaminas e chás que cheirava a ervas amargas. — A Duda está grávida, isso é um fato. Por que você não pode simplesmente aceitar a situação e aproveitar o que temos?

— Porque eu não aceito ser a "outra" — Sara respondeu, colocando o copo com força na bancada. — Eu sou formada em administração, Emanuel. Eu sei o que é uma gestão de crise. E a minha crise é que eu estou perdendo espaço para uma menina de vinte anos que mal sabe combinar os sapatos. Eu vou ter um filho seu, e vai ser o filho que você mais vai amar, porque ele vai ter a minha garra.

Emanuel balançou a cabeça, sentindo o estresse acumulado. Ele amava a energia de Sara, o fogo que ela trazia para a cama e a forma como ela desafiava o mundo, mas aquela fixação estava drenando suas energias.

— Eu não sou um prêmio de uma competição, Sara.

— Ah, é sim — ela sorriu, aproximando-se dele e passando as mãos pelo seu peito tatuado. — E você adora ser disputado. Não minta para si mesmo.

Enquanto Sara se afundava em sua busca frenética, Eduarda observava tudo de longe, com uma calma que chegava a ser perturbadora. Ela não ficava triste com a ideia de Sara também engravidar. Na verdade, em sua mente intuitiva e silenciosa, Eduarda sabia que um filho de Sara seria o começo do fim para a loira.

— Você não se importa, Duda? — perguntou Jéssica, uma das amigas de Sara que, por curiosidade e interesse, acabara se aproximando de Eduarda em uma tarde de sol à beira da piscina. — A Sara está fazendo de tudo para engravidar também. Ela quer dividir a atenção do Emanuel a qualquer custo.

Eduarda deu um gole em seu suco de melancia, olhando para o horizonte com seus olhos sensíveis.

— Por que eu me importaria? — perguntou ela, suavemente. — O Emanuel tem coração para todos. E um bebê é uma vida. Se ela quer tanto isso, que tenha.

Jéssica franziu a testa, confusa.

— Você é muito evoluída... ou muito indiferente.

Eduarda apenas sorriu. Ela não era indiferente. Ela era observadora. Ela sabia que Sara odiava a rotina, odiava a perda de controle sobre o próprio corpo e, acima de tudo, odiava não ser o centro das atenções. Um bebê exigiria tudo o que Sara não estava disposta a dar de verdade: abnegação. Eduarda, por outro lado, nascera para cuidar, para se anular em favor de quem amava. Ela sabia que, no longo prazo, sua maternidade seria um porto seguro, enquanto a de Sara seria um espetáculo de estresse.

Dois meses depois, o resultado que Sara tanto buscava finalmente apareceu.

Ela não esperou o jantar. Ela invadiu o escritório de Emanuel enquanto ele estava em uma videoconferência com seus sócios em Dubai.

— Positivo! — ela gritou, jogando o teste digital sobre o teclado dele. — Eu consegui, Emanuel! Eu estou grávida!

Emanuel desligou a câmera abruptamente, ignorando os protestos dos sócios. Ele olhou para o visor do teste e depois para Sara, que pulava de alegria, chorando e rindo ao mesmo tempo.

— Você... você realmente conseguiu — disse ele, uma mistura de choque e uma resignação cansada atravessando seu rosto.

— Você não está feliz? — a voz dela subiu um tom, pronta para o confronto.

— Estou, Sara. É claro que estou. É mais um filho meu — ele se levantou e a abraçou, mas seus olhos buscaram a porta, onde Eduarda estava parada, observando a cena.

Eduarda não parecia abalada. Ela caminhou até eles com passos leves e, para a surpresa de ambos, abraçou Sara.

— Parabéns, Sara — disse Eduarda, com uma doçura que parecia genuína. — Que bom que o seu desejo se realizou. Agora nossos filhos serão irmãos e poderão crescer juntos.

Sara congelou no abraço. Ela esperava resistência, lágrimas, uma cena de ciúmes. O acolhimento de Eduarda foi como um balde de água fria em sua fúria competitiva.

— É... obrigada — Sara resmungou, desvencilhando-se do abraço, sentindo-se estranhamente desconfortável.

A partir dali, a dinâmica da casa mudou drasticamente. Emanuel, agora com duas namoradas grávidas, sentia-se como se estivesse equilibrando pratos sobre um arame farpado. Ele tentava ser equânime, mas as necessidades das duas eram opostas.

Eduarda era a grávida clássica: sentia sono, pedia carinho, queria massagens nos pés e falava com a barriga. Ela se tornou ainda mais próxima de Emanuel, buscando sua proteção de forma quase constante. Emanuel sentia-se o provedor, o herói, o porto seguro de Eduarda.

Sara, por outro lado, odiava cada segundo da gestação.

— Eu estou gorda! — ela gritava diante do espelho, apenas três meses depois. — Meus peitos estão enormes, minha pele está cheia de espinhas e eu não consigo beber meu espumante! Emanuel, eu odeio isso!

— Você quis isso, Sara — ele lembrava, tentando manter a paciência enquanto examinava um novo projeto de tatuagem. — Você fez de tudo para engravidar. Agora precisa ter paciência.

— Paciência? Olhe para a Eduarda! — Sara apontava para a sala, onde Eduarda tricotava calmamente (algo que ela aprendera apenas para compor a imagem). — Ela parece uma santa de altar. Eu pareço uma bola de retenção de líquido!

A vulgaridade de Sara, que antes Emanuel achava excitante e autêntica, começou a soar como reclamação constante e ingratidão. Ele passava cada vez mais tempo no quarto de Eduarda, onde havia silêncio, música suave e uma aceitação doce da nova realidade.

Certa noite, Emanuel encontrou Eduarda sentada na varanda, olhando as estrelas. Ele se sentou ao lado dela e colocou a mão sobre o ventre dela, que já exibia uma protuberância clara.

— Você está tão calma, Duda — murmurou ele. — Como você consegue? A Sara está destruindo a casa com os gritos dela.

— Eu estou feliz, Manu — ela disse, inclinando a cabeça no ombro dele. — Eu tenho você, tenho nosso bebê... a Sara só está assustada. Ela sempre baseou o valor dela na aparência, e agora o corpo dela está mudando. Ela não sabe quem ela é sem o silicone e o vestido justo.

Emanuel olhou para ela, admirado com a percepção.

— Você é muito mais madura do que eu pensava.

— Eu só observo, Manu. Eu amo você o suficiente para não deixar que o caos dela me atinja.

Mas o caos de Sara estava apenas começando. Determinada a não ser "apagada" pela doçura de Eduarda, Sara decidiu que seu chá de revelação seria o evento do ano. Ela gastou uma fortuna do dinheiro de Emanuel em decorações luxuosas, fogos de artifício e convidados que mal conhecia.

No dia do evento, Sara usava um vestido curtíssimo, tentando forçar uma sensualidade que a barriga de quatro meses tornava desajeitada. Ela estava nervosa, gritando com os garçons e bebendo generosas doses de coquetéis sem álcool que ela jurava terem um gosto horrível.

Eduarda apareceu usando um vestido longo, de linho azul claro, com flores bordadas. Ela parecia uma ninfa da floresta, radiante e tranquila. Todos os convidados foram atraídos para ela, elogiando sua "aura de mãe".

— Ela está fazendo de propósito! — Sara sibilou para Jéssica no canto do jardim. — Olhe para ela! Parecendo a Virgem Maria enquanto eu estou aqui suando como uma porca!

— Calma, Sara. Hoje é o seu dia — Jéssica tentou consolar.

O ápice da festa chegou. Sara e Emanuel ficaram diante de um enorme balão preto. Eduarda estava ao lado, batendo palmas suavemente, com um olhar de expectativa.

Quando Sara estourou o balão, confetes rosas voaram para todos os lados.

— É uma menina! — gritou Sara, tentando parecer radiante, mas seus olhos buscaram imediatamente a reação de Emanuel.

Emanuel a abraçou e a beijou, mas seu olhar logo se desviou para Eduarda, que sorria de forma enigmática.

— Parabéns, Sara! Uma menina! — disse Eduarda. — O meu é um menino, você sabe. O exame saiu ontem.

Sara sentiu o chão sumir. Um menino. O herdeiro. O "mini-Emanuel" que ela tanto queria. Eduarda tinha conseguido o que ela desejava, e de forma silenciosa, sem festas, sem alarde.

— Um menino? — Sara repetiu, a voz falhando.

— Sim — disse Emanuel, com um brilho nos olhos que Sara nunca tinha visto antes. — Um pequeno tatuador.

A festa continuou, mas para Sara, a vitória de ter uma filha foi ofuscada pelo "triunfo" de Eduarda. Ela se sentia em segundo lugar, novamente.

Naquela noite, após todos os convidados irem embora, o clima na mansão explodiu.

— Você sabia! — Sara gritou com Eduarda no hall de entrada. — Você guardou a notícia do sexo do bebê só para me desestabilizar no meu dia!

— Eu não queria estragar sua festa, Sara — Eduarda respondeu, mantendo o tom de voz baixo, o que irritava a loira ainda mais. — Eu achei que você ficaria feliz em saber que teremos um casal na família.

— Mentira! Você é uma manipuladora! — Sara avançou para cima de Eduarda, mas Emanuel se colocou entre as duas com uma rapidez assustadora.

— Já chega, Sara! — a voz de Emanuel trovejou pela casa, fazendo os cristais dos lustres vibrarem. — Eu não vou tolerar isso. A Duda não fez nada além de ser gentil. Você está fora de controle.

— Você sempre defende ela! — Sara soluçou. — Ela é a perfeita, a santa, e eu sou a vulgar, a louca!

— Você é quem escolhe como agir, Sara — Emanuel disse, com uma decepção profunda. — Eu amo as duas, mas você está tornando impossível amar você neste momento. Vá para o seu quarto. Agora.

Sara subiu as escadas correndo, chorando histericamente.

Emanuel se virou para Eduarda e a abraçou com força. Ele tremia de estresse.

— Me desculpa, Duda. Eu não queria que sua gravidez fosse assim.

Eduarda o abraçou de volta, acariciando seus cabelos curtos.

— Está tudo bem, Manu. Eu estou aqui. Eu sempre vou estar aqui para você.

No silêncio do abraço, Eduarda olhou para o topo da escada. Ela não sentia ódio de Sara. Sentia apenas a confirmação de sua estratégia. Sara era como um fogo de artifício: brilhante, barulhenta, mas que se apagava em segundos, deixando apenas fumaça e cheiro de queimado. Eduarda era como a terra: profunda, constante e capaz de gerar vida em silêncio.

Ela sabia que, com o tempo, o estresse de Sara afastaria Emanuel. E ela estaria lá, com seu filho nos braços e sua doçura inabalável, para recolher os pedaços e ser a única rainha daquele império.

A gravidez de Sara, que deveria ser seu trunfo final, estava se tornando sua maior prisão. E Eduarda, a timidez e a manha personificadas, observava o desenrolar do destino com a paciência de quem sabe que a verdadeira vitória não precisa de gritos, apenas de tempo.

— Vamos dormir, Manu — sussurrou Eduarda. — O bebê precisa de descanso. E você também.

Emanuel assentiu, deixando-se guiar pela mão pequena e macia de Eduarda em direção ao quarto, para longe do barulho, para longe do caos, e para mais perto do futuro que ela, e somente ela, estava escrevendo.