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O Labirinto do Desejo e a Promessa de Fogo
O silêncio do interior de Minas Gerais era quase ensurdecedor para quem estava acostumado com o zumbido constante das máquinas de tatuagem e o caos urbano. Eduarda estava sentada no balanço de madeira da varanda da casa de sua tia, observando o pôr do sol tingir o céu de um laranja melancólico. Fazia três dias que ela havia fugido da capital, desligado o celular e buscado refúgio naquela fazenda isolada.
Ela se sentia pequena, um grão de areia sendo arrastado por uma tempestade chamada Emanuel. Cada vez que fechava os olhos, sentia o toque firme dele em seu pulso, o cheiro amadeirado de sua pele e a promessa sombria de que ele não a deixaria ir. Era errado. Ele era o namorado de Sara. Sara, que a olhava com um ódio que parecia capaz de incinerar sua alma. Eduarda não era uma guerreira; ela era feita de porcelana e sonhos, e aquele triângulo distorcido estava estilhaçando sua paz.
— Você não comeu quase nada, Duda — disse a tia, aproximando-se com uma caneca de chá de erva-doce. — Está fugindo de quê, minha querida? Ou de quem?
Eduarda deu um sorriso triste, as mãos pequenas envolvendo a caneca quente.
— De mim mesma, tia. E de algo que eu não sei como parar.
O som de um motor potente rasgando a estrada de terra interrompeu a tranquilidade do campo. O coração de Eduarda deu um solavanco doloroso contra as costelas. Ela conhecia aquele som. Era um carro esportivo, deslocado naquela paisagem rústica. Uma nuvem de poeira subiu quando o veículo parou bruscamente diante da cerca.
Emanuel saiu do carro. Ele não usava terno hoje; vestia uma camiseta preta que marcava seus ombros largos e deixava à mostra as tatuagens que subiam pelo pescoço, uma imagem de força bruta contra a delicadeza das flores ao redor. Ele parecia furioso. A mandíbula estava travada e os olhos, geralmente observadores e calmos, brilhavam com uma intensidade perigosa.
— Emanuel... — sussurrou Eduarda, levantando-se, o corpo tremendo instintivamente.
Ele caminhou até a varanda com passos pesados. Ignorou a presença da tia de Eduarda, fixando o olhar apenas na figura frágil à sua frente.
— Você achou mesmo que o interior seria longe o suficiente? — A voz dele era um trovão contido. — Eu disse que te encontraria, Eduarda. Eu sempre encontro o que é meu.
— Eu não sou sua! — ela exclamou, as lágrimas já começando a turvar sua visão. — Você tem a Sara! Por que você não pode simplesmente me deixar em paz? É pecado, Emanuel. É errado com ela, é errado comigo!
Emanuel subiu os degraus da varanda em um segundo, reduzindo a distância entre eles. Ele a segurou pelos ombros, não com violência, mas com uma possessividade que a deixava sem ar.
— Eu não me importo com o que é certo ou errado — ele disse, a voz baixando para um tom rascante. — Eu tentei ser paciente. Tentei te dar espaço. Mas você foge, e cada quilômetro que você coloca entre nós só me deixa mais obcecado. Você vai voltar comigo. Agora.
— Ela não vai a lugar nenhum se não quiser, rapaz — interveio a tia, mas Emanuel apenas lançou um olhar tão gélido para a mulher que ela recuou um passo, intimidada pela aura de poder e perigo que ele exalava.
— Duda, por favor... — Emanuel suavizou o tom, mas a mão subiu para o rosto dela, o polegar acariciando o lábio inferior que tremia. — Não me obrigue a ser o homem que eu não quero ser com você. Você sabe que precisa de proteção. Sara está fora de controle, e só eu posso garantir que ela não te machuque. Mas para isso, você tem que estar onde eu possa te ver.
Eduarda soluçou, fechando os olhos e inclinando o rosto para o toque dele. Era sua fraqueza. Ela era manhosa, carente de um porto seguro, e Emanuel, com toda a sua escuridão, oferecia uma estabilidade que ela nunca encontrara. Ele era o seu predador e o seu protetor.
...
Quatro meses se passaram.
A vida na mansão de Emanuel era um equilíbrio delicado sobre o fio de uma navalha. Ele havia cumprido sua promessa: Eduarda agora morava com ele, ocupando uma suíte que parecia saída de um conto de fadas, repleta de livros de arte e luz natural. No entanto, no andar de baixo, ou frequentemente no quarto principal, estava Sara.
A convivência era um campo de minas. Sara não escondia sua vulgaridade agressiva, desfilando pela casa com lingeries mínimas, fazendo questão de gemer mais alto do que o necessário quando estava com Emanuel, apenas para que Eduarda ouvisse através das paredes. Ela provocava, insultava e testava os limites de todos.
Emanuel, no entanto, parecia um maestro regendo o caos. Ele dava joias a Sara para calar seus gritos e dava flores e silêncio a Eduarda para curar suas feridas. Ele as queria ali, sob seu teto, sob seu comando.
Em uma tarde de domingo, o pai de Eduarda, o Sr. Augusto, solicitou uma reunião privada com Emanuel em um dos seus estúdios de tatuagem de luxo. Augusto era um homem de posses, mas sabia que o império de Emanuel e sua influência no submundo e na alta sociedade eram algo que ele não podia enfrentar de frente.
Emanuel recebeu o sogro — ou futuro sogro de ambas as formas — em seu escritório envidraçado. Ele estava terminando um desenho complexo de uma fênix.
— O que devo a honra, Augusto? — perguntou Emanuel, sem desviar os olhos do papel.
— Vamos pular as formalidades, Emanuel — disse o homem mais velho, sentando-se e cruzando as pernas. — Eu sei o que está acontecendo. Minha sobrinha Sara é uma mulher difícil, mas minha filha... Eduarda é sensível demais para esse jogo que você está jogando.
Emanuel finalmente levantou os olhos. A frieza neles era absoluta.
— Eu cuido delas. Elas têm tudo.
— Elas têm tudo, menos paz — rebateu Augusto. — Eu vim aqui para te fazer um aviso, não um pedido. Eu conheço o seu tipo. Você é um colecionador. Mas se você permitir que a vulgaridade e a maldade da Sara causem um dano permanente à saúde mental da minha filha... se eu ver um único arranhão na alma da Eduarda por causa dessa situação...
Emanuel inclinou-se para a frente, os olhos estreitados.
— O que você faria?
— Eu a levarei para um lugar que nem todo o seu dinheiro e todos os seus contatos poderiam alcançar — disse Augusto, a voz firme. — Existem refúgios na Europa, propriedades de amigos antigos que não constam em nenhum mapa digital. Eu tirarei Eduarda de você e ela nunca mais ouvirá seu nome. Você nunca mais verá aquele rosto doce.
O silêncio que se seguiu foi carregado de uma eletricidade estática. Emanuel sentiu uma onda de fúria genuína subir por sua garganta. A ideia de perder Eduarda, de não ter sua presença suave para equilibrar o fogo de Sara, era insuportável. Era como se alguém ameaçasse cortar um de seus braços.
— Você está me ameaçando na minha própria casa? — a voz de Emanuel era um sussurro perigoso.
— Estou te dando um limite — corrigiu Augusto, levantando-se. — Você quer as duas? Pois bem, você é o mestre do controle, não é? Controle a Sara. Porque se a Eduarda quebrar, você a perde para sempre.
Augusto saiu do escritório, deixando para trás um Emanuel possesso. Ele pegou o copo de cristal sobre a mesa e o arremessou contra a parede, estilhaçando-o em mil pedaços. A raiva era um animal vivo dentro dele. Ele odiava ser desafiado, odiava a ideia de que alguém pudesse ter poder sobre sua possessão mais preciosa.
Ele saiu do estúdio e dirigiu de volta para a mansão como um louco. Ao entrar, o som de uma discussão já ecoava pelo hall de entrada.
— Você é uma coitada, Eduarda! — a voz de Sara era estridente. — Olha para você, chorando por causa de um comentário? Você acha que o Emanuel te ama? Ele só tem pena dessa sua cara de cachorrinho abandonado. Ele gosta de mulher de verdade, de carne, de fogo. Você é só um passatempo para quando ele quer dormir.
Eduarda estava encolhida no sofá da biblioteca, as mãos tapando os ouvidos, o rosto vermelho de tanto chorar. Ela usava um vestido de seda rosa pálido, parecendo uma flor sendo pisoteada.
— Para, Sara... por favor, me deixa em paz... — soluçava Eduarda.
— Deixar em paz? Nesta casa? — Sara riu, aproximando-se e puxando o cabelo de Eduarda com força. — Eu vou fazer você pedir para ir embora. Eu vou...
— CHEGA! — o grito de Emanuel fez as duas mulheres pularem.
Ele atravessou a sala como um espectro de morte. Sara soltou o cabelo de Eduarda, mas manteve o queixo erguido, desafiadora.
— Ah, o protetor chegou! — ironizou Sara. — Vai me bater, Emanuel? Vai defender a santinha?
Emanuel caminhou até Sara. Ele era muito mais alto, e a sombra que projetava sobre ela era sufocante.
— Eu avisei você, Sara. Eu fui claro sobre os limites — ele disse, a voz tão baixa que era quase um rosnado. — Se você tocar nela de novo, se você dirigir a palavra a ela com esse tom de novo, eu juro por tudo o que construí que você vai parar na rua com a mesma roupa que está no corpo. Sem dinheiro, sem joias, sem o meu nome.
Sara empalideceu. Ela sabia que ele não estava blefando. Emanuel era prático e, quando levado ao limite, cortava os excessos sem piedade.
— Você não faria isso... — ela murmurou, a confiança vacilando. — Você precisa de mim. Você gosta do que eu te dou.
— Eu gosto do que você me dá, mas eu amo o controle que eu tenho sobre a minha vida — ele retrucou. — E você está virando um problema.
Ele se virou para Eduarda, que ainda soluçava baixinho. O contraste era absurdo. A fúria dele evaporou instantaneamente, substituída por aquela proteção automática e quase obsessiva. Ele se ajoelhou diante dela, ignorando Sara completamente.
— Vem cá, minha pequena — ele murmurou, puxando Eduarda para o seu colo.
Eduarda se agarrou a ele como se fosse sua única boia de salvação em um oceano revolto. Ela enterrou o rosto no pescoço dele, manhando-se, buscando o calor e o cheiro de Emanuel para apagar as palavras venenosas de Sara.
— Ela me odeia, Emanuel... eu quero ir embora, eu quero meu pai... — ela balbuciou entre soluços.
As palavras "meu pai" acionaram o alerta na mente de Emanuel. Ele lembrou da ameaça de Augusto. "Eu a levarei para um lugar que você nunca vai achar".
O aperto de Emanuel em volta de Eduarda tornou-se quase doloroso. Ele a pressionou contra o peito com uma força que dizia ao mundo que ninguém a tiraria dali. Nem Sara, nem o pai dela, nem o destino.
— Você não vai a lugar nenhum — ele disse, beijando o topo da cabeça dela. — Você é minha paz, Eduarda. E eu não permito que ninguém roube a minha paz.
Pelo ombro de Eduarda, ele lançou um olhar para Sara. Era um olhar de advertência final. Sara, sentindo-se pela primeira vez em perigo real de perder seu status, recuou. Ela caminhou até o bar da biblioteca e serviu-se de uma dose generosa de uísque, as mãos tremendo, o ódio por Eduarda agora misturado com um medo frio de Emanuel.
— Eu vou cuidar de tudo — Emanuel sussurrou no ouvido de Eduarda, enquanto a balançava levemente. — Eu vou construir um muro em volta de você, se for preciso. Mas você fica. Comigo. Sempre.
Eduarda, em sua natureza sensível e dependente, sentiu um conforto perigoso naquelas palavras. Ela sabia que era uma prisioneira em uma gaiola de ouro, dividindo seu dono com uma mulher que a desprezava. Mas, naquele momento, sentindo o coração de Emanuel bater forte contra o seu, ela não conseguia encontrar forças para fugir novamente.
Emanuel olhava para o vazio, a mente já traçando planos. Ele precisava neutralizar a influência de Augusto e domar a impulsividade de Sara. Ele era um tatuador; ele sabia que a beleza vinha da dor, e que para criar uma obra-prima, às vezes era preciso perfurar a pele profundamente.
Ele tinha as duas. O fogo e a água. O cetim e o caos. E ele queimaria o mundo antes de deixar que qualquer uma delas escapasse do seu labirinto.