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O Sal e o Veneno: Sob o Sol de Emanuel

O sol do meio-dia sobre a areia branca de Angra dos Reis era implacável, refletindo-se nas águas cristalinas com uma intensidade que quase cegava. Emanuel estava sentado sob o amplo guarda-sol de linho da área VIP do beach club, observando o cenário com sua habitual expressão de controle contido. Um ano havia se passado desde que ele trouxera Eduarda para seu mundo de forma definitiva. Um ano de uma convivência que muitos chamariam de loucura, mas que ele chamava de seu equilíbrio particular.

À sua direita, Sara era a personificação da exuberância. Ela estava de pé, rindo alto com um grupo de amigos de Emanuel, segurando uma taça de cristal que reluzia sob o sol. O biquíni de Sara era minúsculo, uma estampa de oncinha com fios dourados que mal cobria o necessário, destacando o silicone impecável e as curvas bronzeadas que ela exibia com o orgulho de uma pavoa. Emanuel respirou fundo, o odor de protetor solar caro e maresia prechendo seus pulmões. Ele olhou para Sara e, por um breve momento, sentiu aquela velha pontada de possessividade, mas logo a reprimiu. Ele conhecia Sara. Sabia que reclamar do biquíni dela seria como tentar apagar um incêndio com gasolina; ela apenas riria, faria um comentário sarcástico e desfilaria ainda mais. Sara era o seu fogo público, a mulher que não ligava para regras e que ele, em certo nível, desistira de domar completamente.

— Emanuel, querido! — gritou Sara, balançando a taça vazia. — Mande trazerem mais três garrafas daquela safra de Champagne que custa o preço de um carro popular! Meus amigos estão com sede e o sol está divino!

Emanuel apenas acenou para o garçom, um gesto discreto e autoritário.

— Traga o que ela pediu — ordenou ele, a voz barítono cortando o barulho da música eletrônica ao fundo.

Mas seu olhar não permaneceu em Sara por muito tempo. Seus olhos, como os de um gavião em vigília, voltaram-se imediatamente para a espreguiçadeira ao lado da sua.

Eduarda estava terminando de passar o protetor solar, alheia à agitação ao redor. Ela parecia uma visão de outro mundo, algo etéreo e delicado demais para aquela praia barulhenta. No entanto, o que fez o sangue de Emanuel ferver não foi a beleza dela, mas o biquíni que ela escolhera. Era um modelo sexy, de renda branca, com amarrações laterais que subiam pelas coxas esguias. Era curto. Curto demais para o gosto de Emanuel. Nele, a peça parecia um convite, uma exposição de uma pele que ele considerava seu santuário particular.

— Eduarda — disse ele, o tom de voz mudando drasticamente, perdendo a indiferença que usara com Sara para assumir uma rigidez protetora. — O que é isso?

Eduarda levantou os olhos grandes e expressivos, piscando devagar sob o chapéu de palha de abas largas.

— O quê, Manu? É o biquíni que eu comprei para a viagem. Você não gostou? — Ela fez um biquinho manhoso, a voz doce e levemente infantil que sempre o desarmava.

— Gostei — admitiu ele, os olhos percorrendo o corpo dela com uma fome possessiva —, mas você não vai usar isso aqui. Tem muita gente. Homens demais olhando. Vá para o bangalô e troque por aquele modelo azul de cintura alta que eu te dei.

Eduarda arregalou os olhos. O biquinho de antes transformou-se em uma expressão de teimosia pura. Ela se sentou na espreguiçadeira, cruzando os braços sobre os seios médios e macios, que saltavam levemente pelo decote da renda.

— Não vou trocar! — ela exclamou, batendo o pé na areia com uma birra que faria uma criança parecer madura. — A Sara está usando um que é metade do meu e você não disse nada!

— A Sara é a Sara, Eduarda — Emanuel levantou-se, sua estatura imponente fazendo sombra sobre ela. — Você é diferente. Eu não quero esses caras devorando você com os olhos. Agora, levante-se e vá trocar.

— Não vou! — Ela começou a chorar, as lágrimas rolando rápidas pelo rosto delicado. — Você sempre faz isso! Quer me esconder, quer me guardar numa caixa! Eu quero me sentir bonita também, eu quero usar o que eu gosto! Eu não vou trocar, Emanuel!

— Eduarda, não me teste — ele avisou, a mandíbula travada.

— Eu vou para o mar! — Ela se levantou num salto, ignorando o comando dele, e começou a caminhar em direção à água.

Emanuel sentiu a pulsação acelerar. Ele viu os olhares dos homens ao redor seguirem o movimento dos quadris de Eduarda. Viu um grupo de rapazes em uma lancha próxima apontar em direção a ela. A raiva subiu como uma maré. Ele pegou sua camisa de linho preta que estava sobre a cadeira e saiu atrás dela com passos largos.

— Eduarda! Pare agora! — ele ordenou, alcançando-a quando a água já batia em seus tornozelos.

— Me deixa! — ela gritou, tentando correr para o fundo, mas ele foi mais rápido.

Emanuel a segurou pela cintura, puxando-a contra o seu corpo firme. Antes que ela pudesse protestar, ele jogou a camisa preta sobre os ombros dela, forçando-a a vestir as mangas, cobrindo quase todo o biquíni branco.

— Você vai ficar coberta ou vai sair da água agora mesmo — ele disse, os olhos fixos nos dela, uma mistura de fúria e um cuidado doentio. — Escolha.

— Você é um chato! — Eduarda soluçou, mas acabou cedendo, deixando que ele abotoasse os primeiros botões da camisa nele que ficava enorme nela. — Estragou meu dia.

— Eu estou protegendo o que é meu — ele murmurou, segurando o rosto dela com as duas mãos, ignorando o fato de que estavam sendo observados. — Não suporto a ideia de outro homem imaginando como você é por baixo dessa renda.

Ele a guiou de volta para a areia, mantendo um braço firmemente em volta dos ombros dela, como um escudo. Ao chegarem à área das espreguiçadeiras, Sara os observava com um sorriso enviesado e irônico, bebendo sua champagne diretamente da taça que transbordava.

— Que cena romântica — debochou Sara, a voz carregada de veneno. — O grande Emanuel cuidando da sua bonequinha de porcelana. Por que não coloca ela em uma redoma de vidro logo, querido? Seria mais prático.

— Fique na sua, Sara — Emanuel respondeu, sem olhar para ela.

— Ah, não fique bravo — Sara se aproximou, o corpo siliconado brilhando de óleo bronzeador, e passou a mão livre pelo peito de Emanuel. — Eu estou ótima. A champagne está maravilhosa. Por que não relaxa um pouco?

Emanuel suspirou, sentindo o estresse acumulado. Ele olhou para Eduarda, que agora estava sentada na borda da espreguiçadeira, com a camisa dele ainda vestida, os olhos vermelhos e um bico enorme nos lábios.

— Onde está o garçom? — perguntou Eduarda, a voz embargada. — Eu quero minha bebida de cereja. Aquela sem álcool que você prometeu que teria aqui.

Emanuel olhou ao redor e chamou o responsável pelo atendimento da área privativa.

— Onde está o coquetel de cereja da senhorita? — perguntou ele.

O garçom pareceu desconfortável, limpando o suor da testa.

— Mil perdões, Sr. Emanuel. Tivemos um problema com o fornecedor das frutas frescas e o xarope artesanal não chegou a tempo para o lote de hoje. Temos de morango, abacaxi, coco...

Eduarda soltou um suspiro pesado, as sobrancelhas se juntando em uma expressão de profunda tristeza.

— Mas eu queria de cereja... — ela murmurou, a voz sumindo. — Você disse que teria tudo o que eu gosto aqui, Emanuel. Você prometeu.

— Eduarda, é só uma bebida — disse Sara, revirando os olhos. — Beba um pouco de água de coco ou tome um gole dessa champagne de dez mil reais e pare de ser tão mimada.

— Eu não quero champagne! — Eduarda explodiu, as lágrimas voltando a cair. — Eu odeio o gosto de álcool! Eu queria a minha bebida de cereja!

Ela se encolheu na espreguiçadeira, puxando os joelhos contra o peito, escondida dentro da camisa de Emanuel. O bico em seus lábios era tão grande que parecia que ela nunca mais sorriria. Emanuel sentiu uma pontada de culpa. Ele sabia que, para Eduarda, aquelas pequenas coisas eram seu refúgio. Ela não ligava para o preço das garrafas que Sara ostentava; ela queria o doce, o suave, o simples.

— Eu vou dar um jeito — disse Emanuel, tentando acalmá-la.

— Não tem jeito, Emanuel! — ela choramingou. — Não tem cereja na praia toda! Você cuida de tudo, menos do que me faz feliz de verdade.

— Ora, me poupe — Sara riu, sentando-se no colo de Emanuel de forma possessiva, ignorando a fragilidade da prima. — Deixe ela com o bico dela, Manu. Vamos aproveitar. Olhe para esse mar! Olhe para mim! Eu estou incrível hoje, não estou?

Emanuel olhou para Sara. Ela estava, de fato, deslumbrante em sua vulgaridade planejada, exalando uma energia que exigia atenção. Mas então ele olhou para Eduarda, pequena e triste sob sua camisa preta, e sentiu aquele puxão constante em seu coração. Ele era um homem dividido entre dois mundos: o furacão e a brisa.

— Sara, saia um pouco — disse ele, afastando-a gentilmente, mas com firmeza.

— O quê? Você vai mesmo dar atenção para essa crise existencial por causa de um suco de cereja? — Sara levantou-se, indignada.

Emanuel não respondeu. Ele se aproximou de Eduarda e sentou-se ao lado dela, passando o braço por suas costas.

— Escute — ele sussurrou perto do ouvido dela —, eu vou mandar o meu motorista ir até a cidade agora mesmo. Ele vai percorrer todos os mercados gourmet até encontrar o que você quer. Em menos de uma hora, sua bebida estará aqui.

Eduarda olhou para ele, os olhos ainda úmidos.

— Promete?

— Eu sempre cumpro o que prometo para você — ele afirmou, limpando uma lágrima do rosto dela com o polegar. — Mas, em troca, você não tira essa camisa. Entendido?

Eduarda assentiu devagar, o bico diminuindo levemente, embora a expressão manhosa ainda permanecesse. Ela se inclinou e encostou a cabeça no ombro de Emanuel, buscando o conforto que só ele sabia dar.

Sara, observando a cena, bufou e virou o restante de sua taça de champagne de uma vez só.

— Vocês são patéticos — ela disse, embora houvesse uma centelha de inveja em seus olhos. Ela tinha as joias, as festas e a atenção pública, mas sabia que Emanuel nunca olharia para ela com a adoração protetora e quase sagrada com que olhava para a "sonsa" da Eduarda.

Emanuel permaneceu ali, sob o sol escaldante, com uma mulher em cada lado de sua vida. Ele observava o horizonte, sentindo o peso da responsabilidade de manter aquelas duas forças opostas em órbita. Ele era o mestre, o protetor e o carcereiro. E enquanto o motorista partia em busca de cerejas e as garrafas de champagne continuavam a estourar, ele sabia que, por mais exaustivo que fosse, ele nunca abriria mão de nenhuma das duas. O caos de Sara e a manha de Eduarda eram as tintas com as quais ele agora pintava sua própria existência.