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O Eclipse do Pudor e o Labirinto dos Pecadores

O escritório de Emanuel parecia uma zona de guerra, mas em vez de estilhaços, o chão estava coberto por papel couché de alta gramatura e cores vibrantes. Sara, em toda a sua glória siliconada e sem um pingo de vergonha, estampava a capa da revista masculina mais vendida do país. Ela estava deitada em um tapete de pele falsa, usando apenas joias que Emanuel reconheceu como sendo presentes dele, e um olhar que prometia tudo a quem comprasse o exemplar.

— EU VOU MATAR O EDITOR! — o rugido de Emanuel fez os vidros da sala vibrarem.

Ele estava de pé, segurando uma das revistas com tanta força que o rosto de Sara na capa ficou completamente amarrotado. Seus olhos escuros faiscavam de um ódio frio e controlador.

— Ah, para com isso, Manu! — Sara entrou na sala, desfilando com um salto agulha dourado e um vestido que mais parecia uma tira de cetim estrategicamente posicionada. — Eu estou divina! As vendas esgotaram em duas horas. Eu sou a mulher mais desejada do Brasil, você deveria estar orgulhoso de ter isso tudo na sua cama todas as noites.

— Orgulhoso? — Emanuel caminhou até ela, a aura de perigo emanando de cada poro. — Você posou nua, Sara. Para milhões de homens baterem o olho no que é meu. Você usou as minhas joias para vender essa porcaria!

— Suas joias, meu corpo, minha vida! — ela rebateu, cruzando os braços e fazendo o decote explodir. — Você não é meu dono.

— Não sou? — Ele deu um sorriso gélido que a fez recuar um milímetro. — Pois assista. Eu já mandei meus advogados comprarem todo o estoque remanescente das distribuidoras. Eu vou recolher cada exemplar dessa lixeira. E se eu vir um único outdoor com a sua cara, eu mando derrubar a estrutura. Eu vou sumir com essa revista, Sara. Você vai ser a única estrela de capa da história que ninguém vai conseguir ver.

— Você é um doente, Emanuel! — ela gritou, a fúria subindo-lhe às faces. — É censura! É machismo!

— É propriedade — ele corrigiu, voltando-se para o telefone. — E não ouse sair de casa hoje sem um sobretudo.

Enquanto o vulcão Sara entrava em erupção no andar de baixo, no andar de cima, o ambiente era de uma paz estudantil quase angelical. Eduarda estava sentada em sua escrivaninha, cercada por livros de História da Arte e cadernos de desenho. Ela usava um vestido romântico de algodão branco, com manguinhas bufantes e um laço de fita no cabelo.

O celular dela vibrou. Era uma mensagem no grupo da faculdade.

*“Galera, o evento de Anatomia Corporal e Expressão Artística mudou de local por causa da interdição do campus. O novo endereço é o casarão na Rua das Palmeiras, 666. Começa às 21h. Venham com mente aberta para o estudo das formas!”*

Eduarda sorriu, os olhos brilhando com a empolgação de quem amava a estética do corpo humano sob a luz da arte clássica. Ela imaginava modelos vivos, poses renascentistas e discussões profundas sobre a proporção áurea.

— Manu? — ela chamou, descendo as escadas timidamente enquanto Emanuel ainda discutia com um distribuidor de revistas ao telefone.

Ele desligou o aparelho e respirou fundo, tentando suavizar a expressão ao ver a sua "pequena".

— Diga, Eduarda.

— Eu tenho um evento da faculdade hoje à noite. Sobre anatomia corporal. É um seminário prático dos alunos de Artes e História da Arte. Posso ir? O motorista pode me levar?

Emanuel olhou para ela. A pureza de Eduarda era o seu oxigênio. Depois da vulgaridade escancarada de Sara naquelas revistas, ver Eduarda com seu livrinho debaixo do braço falando sobre "seminários" era o que ele precisava para não perder o juízo.

— Claro, querida. Vá. O motorista te deixa na porta e te busca às onze. Sem falta.

— Obrigada, Manu! — Ela deu um beijinho rápido na bochecha dele, sentindo o cheiro amadeirado que tanto amava, e subiu para se preparar.

...

Às dez da noite, o clima na mansão mudou de estresse para paranoia. Emanuel estava no computador rastreando os carregamentos de revistas quando Sara, que estava bebendo martinis e olhando as redes sociais, soltou uma gargalhada histérica.

— O que foi agora, Sara? — ele perguntou, sem paciência.

— Ah, nada... é que eu acabei de ver um check-in de uma colega da faculdade da "santinha" — Sara virou a tela do celular para ele. — Parece que o evento de "anatomia" da Eduarda é no *L’Extase*.

Emanuel franziu a testa, o nome não lhe era estranho.

— *L’Extase*? O que é isso? Uma galeria nova?

— É uma casa de swing, seu idiota! — Sara riu tanto que quase derramou o drink. — A casa mais exclusiva da cidade. O tema de hoje é "Estudo do Corpo". Pelo visto, a Eduarda vai aprender sobre anatomia de um jeito bem... prático.

Emanuel sentiu o mundo girar. O sangue fugiu de seu rosto, deixando-o pálido, para logo em seguida retornar em uma onda de calor que fez suas veias saltarem no pescoço.

— O quê? — ele rugiu. — Ela disse que era um evento da faculdade!

— E deve ser! — Sara continuou provocando, adorando o caos. — Os alunos de artes hoje em dia são bem... liberais. Ela deve estar lá agora, de vestidinho branco, no meio de um monte de gente peluda e suada trocando de casal.

Emanuel não ouviu o resto. Ele pegou a chave do carro, derrubando a cadeira no processo.

— Se ela tiver um único arranhão... se alguém encostar o dedo nela... — ele murmurou para si mesmo, saindo de casa como um demônio em fuga.

...

Enquanto isso, no *L’Extase*, a confusão de Eduarda atingia níveis catastróficos.

Ela estava parada no meio de um salão decorado com veludo vermelho, luzes baixas e estátuas gregas que, se olhadas de perto, faziam coisas que não estavam nos livros de História da Arte. Ela segurava seu caderninho de anotações contra o peito, os olhos arregalados.

— Com licença... — ela disse para um homem que passava usando apenas uma máscara de couro e uma cueca de seda. — Onde vai ser a palestra sobre o David de Michelangelo?

O homem parou, olhou para a garota de vestido romântico e laço no cabelo e deu um sorriso malicioso.

— O "David" está no quarto três, boneca. Mas ele prefere ser chamado de Big Ricardo. Quer que eu te leve lá?

Eduarda sentiu um calafrio. Ela olhou ao redor e viu uma mulher sendo massageada por três homens em um divã circular.

— Nossa... — sussurrou ela, anotando no caderno: *"A técnica de massagem terapêutica integrada à expressão corporal parece ser muito difundida entre os alunos veteranos."*

Ela continuou caminhando, cada vez mais confusa. Viu uma porta com um cartaz escrito "Workshop de Amarras".

— Ah! — ela sorriu, aliviada. — Finalmente! Deve ser sobre as técnicas de escultura em gesso e sustentação de moldes.

Ao entrar na sala, ela encontrou um grupo de pessoas assistindo a uma demonstração de *shibari*. Um homem estava pendurando uma mulher no teto com cordas vermelhas, criando padrões geométricos.

— Que interessante... — Eduarda murmurou, aproximando-se com seu olhar clínico de estudante. — O uso da gravidade para destacar a musculatura é fascinante. Mas o professor não está usando jaleco? E por que ela está gemendo? O gesso está quente?

— Querida, você é nova aqui, não é? — uma mulher vestida de dominatrix, segurando um chicote de plumas, aproximou-se dela.

— Sim, sou do segundo semestre — respondeu Eduarda, educada. — Eu vim para o seminário de anatomia.

A mulher olhou para o caderninho de Eduarda e para a expressão de pureza absoluta daquela menina e começou a rir.

— Ah, você vai aprender muito sobre anatomia hoje, estrelinha. Quer experimentar a "sustentação"?

— Eu adoraria ver como vocês calculam o peso do corpo nas amarras para não comprometer a estrutura da obra — disse Eduarda, seriamente.

Foi nesse exato momento que a porta da frente do *L’Extase* foi praticamente arrancada das dobradiças.

Emanuel entrou no clube como um deus da guerra em um terno amassado. Ele ignorou a recepcionista que tentou pedir sua carteirinha de sócio, empurrando-a para o lado.

— ONDE ELA ESTÁ? — o grito dele silenciou a música lounge que tocava no salão principal.

Ele começou a abrir as cortinas dos reservados com uma fúria cega.

— EDUARDA! SE VOCÊ ESTIVER SEM ROUPA, EU VOU INCENDIAR ESTE LUGAR!

Ele chegou à sala das cordas bem a tempo de ver a dominatrix colocando uma máscara de renda nos olhos de Eduarda, que sorria, achando que era um experimento sensorial sobre a percepção da arte cega.

— SOLTA ELA AGORA! — Emanuel avançou, pegando Eduarda pelo braço e puxando-a para trás de si como se a estivesse resgatando de um ninho de cobras.

— Manu? — Eduarda piscou, surpresa. — O que você está fazendo aqui? O seminário ainda não acabou!

Emanuel olhou para o homem pendurado, para a mulher com o chicote e para o ambiente saturado de hormônios e luxúria. Ele estava tremendo de cima a baixo.

— Seminário? Eduarda, isso aqui é um clube de swing! — ele explodiu, as mãos segurando o rosto dela para verificar se ela estava bem. — Essas pessoas não são alunos! Eles são... eles são devassos!

Eduarda olhou ao redor, processando a informação. Ela olhou para o homem de máscara de couro, para a mulher no teto e, finalmente, para uma estátua de gesso que, agora ela percebia, tinha um formato muito específico e anatômico que não era de um braço.

Seu rosto passou de pálido para um vermelho tão intenso que parecia que ela ia entrar em combustão espontânea.

— O-o quê? — ela gaguejou, a voz sumindo. — Mas... o grupo da faculdade... a anatomia...

— Foi um trote, ou um erro de endereço, ou a maior burrice da história da educação! — Emanuel a pegou no colo, estilo noiva, não querendo que os pés dela tocassem mais aquele chão "pecaminoso".

— Ei, bonitão! — a dominatrix gritou. — Ela estava quase começando a aula prática! Se quiser se juntar, o preço da entrada é...

Emanuel lançou um olhar tão mortal para a mulher que ela realmente deu um passo atrás e guardou o chicote.

— Se alguém olhar para o carro enquanto eu saio, eu compro este prédio e transformo em um estacionamento de trator! — ele ameaçou, saindo a passos largos.

...

Dentro do carro, o silêncio era interrompido apenas pelos soluços baixos e envergonhados de Eduarda. Ela estava encolhida no banco do passageiro, escondida sob o paletó de Emanuel, que ele a obrigara a vestir para "cobrir qualquer centímetro de pele que pudesse ter sido contaminado pelos olhares daqueles animais".

— Eu sou tão burra, Manu... — ela chorava, escondendo o rosto nas mãos. — Eu anotei tudo no caderno... eu achei que as cordas eram para a escultura...

Emanuel, que estava dirigindo com uma mão só enquanto a outra apertava o volante com força suficiente para esmagá-lo, soltou um suspiro longo. A fúria estava dando lugar a uma percepção cômica e absurda da situação.

— Você anotou o quê, Eduarda?

— As técnicas de... de relaxamento muscular — ela soluçou. — Eu achei que eles eram muito dedicados ao estudo prático.

Emanuel não aguentou. Uma risada curta e nervosa escapou de seus lábios.

— Você é a pessoa mais inocente que já pisou na face da Terra. Como você não percebeu o que era aquilo? Tinha um homem de cueca de couro logo na entrada!

— Eu achei que ele estava representando a queda do Império Romano! — ela exclamou, manhosa e indignada. — Eles usavam pouca roupa na época!

Emanuel gargalhou de verdade agora, a tensão saindo de seu corpo.

— Só você, Eduarda. Só você para ir a uma casa de swing e achar que está em uma aula de história.

Ao chegarem em casa, Sara estava esperando na porta, com a cachorra Chanel nos braços e um sorriso de orelha a orelha.

— E então? Como foi a aula de anatomia? Aprendeu a "montar" o cavalo de Tróia, priminha?

Emanuel passou por Sara sem parar, carregando Eduarda.

— Nem uma palavra, Sara. Ou eu juro que queimo aquelas suas revistas na frente da imprensa.

— Você não teria coragem! — ela gritou, mas parou de rir.

Emanuel levou Eduarda direto para o quarto dela. Ele a colocou na cama com uma delicadeza extrema, como se ela fosse feita de cristal. Ele se sentou ao lado dela, acariciando seus cabelos.

— Você está segura agora. Mas, de agora em diante, eu vou revisar todos os seus endereços de seminários.

— Manu... — ela o chamou, puxando a manga da camisa dele, com aquele olhar sensível e doce. — O que é swing, exatamente?

Emanuel sentiu o rosto esquentar. Ele olhou para aquela carinha de anjo e percebeu que teria que ter "a conversa" que nenhum pai ou protetor gostaria de ter.

— É... é quando as pessoas não sabem o que querem e resolvem dividir tudo, Eduarda. É o oposto do que nós temos.

— E o que nós temos? — ela perguntou, a voz quase um sussurro.

Emanuel inclinou-se e beijou a testa dela, depois a ponta do nariz.

— Nós temos exclusividade. E, aparentemente, um gato que está me olhando com cara de julgamento de novo.

Artie, sentado no topo do armário, observava a cena com seu habitual desdém felino. Ele parecia saber que, naquela noite, o caos de Sara e a confusão de Eduarda haviam selado o destino de Emanuel: ele nunca teria um momento de paz, mas nunca desejaria estar em outro lugar.

— Eu vou sumir com aquelas revistas amanhã — Emanuel prometeu, mais para si mesmo do que para ela. — E vou comprar todos os livros de anatomia sérios que existirem. Você nunca mais pisa em um lugar daqueles.

— Tudo bem, Manu — Eduarda bocejou, aninhando-se no travesseiro. — Mas as cordas eram realmente bonitas. Talvez a gente pudesse...

— DORMIR, EDUARDA! — Emanuel exclamou, levantando-se e saindo do quarto antes que sua sanidade o abandonasse de vez.

Ele caminhou pelo corredor, encontrando Sara que ainda admirava sua própria foto na revista.

— Emanuel, eu decidi que quero uma festa de lançamento — disse Sara, sem olhar para ele.

— E eu decidi que vou comprar uma tranca nova para o quarto da Eduarda — ele respondeu.

E assim, entre revistas proibidas e seminários acidentais em casas de prazer, o império de Emanuel continuava a girar, movido pelo fogo, pela manha e pela absoluta incapacidade de qualquer um ali ser minimamente normal. E ele, o mestre de tudo, só conseguia pensar que, no fim das contas, a anatomia de sua vida era a mais complexa de todas as artes.