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O Mestre de Cerimônias e o Pequeno Tirano

A mansão de Emanuel, que outrora fora um santuário de minimalismo e autoridade, agora parecia um tabuleiro de xadrez onde as peças se moviam por conta própria. O silêncio, antes a regra absoluta, fora substituído por uma sinfonia de pequenos ruídos: o tilintar da coleira de Chanel, os saltos de Sara e, o mais perturbador de todos, o silêncio absoluto e predatório de Artie.

Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro legítimo na biblioteca, tentando se concentrar em um projeto de expansão para sua rede de estúdios na Europa. O ambiente estava na penumbra, iluminado apenas por uma luminária de mesa de design industrial. Foi quando ele sentiu. Aquele peso leve, quase imperceptível, mas carregado de uma arrogância que Emanuel não tolerava em nenhum ser humano, muito menos em um animal de quatro quilos.

Artie, o gato cinza de Eduarda, saltou sobre a mesa de carvalho maciço, pousando exatamente em cima dos esboços de tatuagem que Emanuel estava revisando. O felino não se moveu. Ele apenas se sentou, enrolou a cauda peluda em volta das patas e fixou seus olhos azuis e gélidos no rosto de Emanuel.

— Saia daí, Artie — murmurou Emanuel, sua voz soando como um comando que costumava fazer homens feitos tremerem.

O gato nem sequer piscou. Ele inclinou levemente a cabeça, mantendo o olhar fixo, como se estivesse analisando as falhas de caráter de Emanuel. Havia algo naquela expressão felina que irritava profundamente o tatuador: uma sensação de que, para Artie, Emanuel não era o dono da mansão, o milionário influente ou o protetor de Eduarda. Para Artie, Emanuel era apenas o funcionário encarregado de abrir os sachês de comida e manter o aquecimento central ligado.

— Eu disse para sair — Emanuel estendeu a mão para afastar o animal, mas Artie soltou um sopro baixo, uma advertência sutil, e deu uma patada rápida no ar, sem mostrar as garras, mas com uma precisão insultante.

Emanuel recuou a mão, incrédulo. Ele estava sendo desafiado em seu próprio escritório.

— O que está acontecendo aqui? — A voz doce de Eduarda ecoou da porta.

Ela entrou no cômodo usando um baby-doll de seda champanhe, os cabelos soltos caindo sobre os ombros esguios. Ela parecia uma ninfa saindo de um sonho, e o coração de Emanuel, apesar da irritação, deu aquele solavanco possessivo de sempre.

— Esse seu gato está testando a minha paciência, Eduarda — disse Emanuel, apontando para o animal que, ao ver a dona, mudou instantaneamente de expressão, soltando um miado melodioso e carente. — Ele não sai de cima dos meus projetos.

— Ah, Manu, não seja rabugento — Eduarda caminhou até a mesa e pegou o gato no colo, aninhando-o contra seus seios. — Ele só quer ficar perto de você. Ele sente que você é o alfa da casa.

— Ele não sente nada disso — Emanuel levantou-se, contornando a mesa. — Ele me olha como se eu fosse um subordinado. E ele está em todos os lugares. Ontem eu o encontrei sentado no meu travesseiro. No meu lado da cama!

Eduarda soltou uma risadinha manhosa, encostando o nariz no topo da cabeça do gato.

— Ele gosta do seu cheiro. Não é, Artie? O papai é meio bravo, mas a gente ama ele, não é, meu amor?

Emanuel sentiu uma pontada de ciúme que o envergonhou. Ele, um homem de vinte e cinco anos, dono de um império, estava com inveja de um gato porque Eduarda estava dando a ele toda a atenção que ele queria para si naquela noite.

— Deixe esse bicho no chão, Eduarda — ele pediu, aproximando-se e envolvendo a cintura dela com os braços, tentando reivindicar seu território. — Eu tive um dia longo. Quero que você foque em mim agora.

Eduarda fez um biquinho, a expressão tornando-se subitamente sensível.

— Mas ele estava tão quietinho comigo... você sempre quer me tirar as coisas que me fazem bem, Manu. Primeiro o biquíni, agora o Artie...

— Eu não estou tirando nada! — Emanuel exclamou, sentindo a armadilha emocional se fechar. — Só quero um pouco de privacidade com a minha mulher.

— Sua mulher? — A voz estridente de Sara veio do corredor, seguida pelo som frenético das patinhas de Chanel. — Engraçado, eu achei que "sua mulher" fosse quem usa o anel de diamantes que você pagou o mês passado, querido.

Sara entrou na biblioteca como um furacão de neon. Ela usava um conjunto de academia rosa choque, extremamente justo, que deixava pouco para a imaginação. Chanel, a Lulu da Pomerânia, começou a latir para Artie, que permanecia no colo de Eduarda com uma indiferença aristocrática.

— Emanuel, tire esse gato daqui! — gritou Sara, pegando Chanel no colo para protegê-la. — Essa coisa olhou para a minha Chanel de um jeito estranho hoje de manhã. Eu tenho certeza de que ele está planejando um ataque.

— O Artie não ataca ninguém, Sara! — Eduarda defendeu, apertando o gato contra o peito. — Ele é educado, ao contrário dessa sua cachorra que não para de latir e já fez xixi no meu tapete persa!

— A Chanel é uma princesa! — rebateu Sara, aproximando-se de Eduarda com um olhar de pura competição. — E esse gato parece um rato de rua que tomou banho de loja. Emanuel, faça alguma coisa!

Emanuel sentia a cabeça latejar. Ele estava no centro de um triângulo de tensões, e agora os animais pareciam ser extensões das personalidades de suas donas.

— Silêncio! As duas! — Emanuel rugiu, fazendo Chanel ganir e Eduarda encolher os ombros, os olhos já marejados. — Eu não aguento mais ouvir sobre animais nesta casa. Sara, leve a cachorra para o seu quarto. Eduarda, coloque o gato no chão. Agora!

Sara bufou, lançando um olhar de puro veneno para Eduarda antes de sair rebolando, murmurando sobre como Emanuel estava ficando "insuportável e mal-humorado".

Eduarda, por outro lado, permaneceu parada. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto pálido. Ela colocou Artie no chão com delicadeza e olhou para Emanuel com uma expressão de mágoa profunda.

— Você gritou comigo... — ela sussurrou, a voz trêmula.

— Eu não gritei com você, Eduarda. Eu gritei com a situação — ele tentou se aproximar, mas ela recuou.

— É a mesma coisa. Você sempre perde a paciência comigo porque eu sou o elo mais fraco, não é? Porque eu não grito de volta como a Sara.

— Eduarda, por favor, não comece com isso...

— Eu vou dormir no quarto de hóspedes hoje — ela disse, com uma firmeza que raramente demonstrava. — Eu e o Artie. Pelo menos ele não levanta a voz para mim.

Ela saiu da biblioteca antes que ele pudesse protestar. Artie, que estava parado perto da porta, olhou uma última vez para Emanuel. O gato soltou um curto e seco som que pareceu uma risada de escárnio, balançou a cauda e seguiu sua dona, deixando Emanuel sozinho no silêncio pesado da sala.

...

Duas horas depois, Emanuel não conseguia pregar o olho. Ele estava deitado em sua cama king-size, o lado de Eduarda vazio e frio. A ausência dela era como um membro fantasma; ele sentia a falta do calor, do cheiro de baunilha e da forma como ela se aninhava nele como se ele fosse o seu mundo inteiro.

Irritado consigo mesmo, ele se levantou. Ele era o mestre daquela casa, o homem que decidia o destino de todos ali. Ele não aceitaria ser expulso do próprio conforto por causa de um gato e de uma manha de vinte anos.

Ele caminhou pelo corredor até o quarto de hóspedes. A porta estava encostada. Ele entrou silenciosamente e viu a cena que fez seu sangue ferver e seu coração amolecer ao mesmo tempo.

Eduarda estava dormindo, abraçada a um travesseiro. E lá, ocupando exatamente o lugar que deveria ser de Emanuel, estava Artie. O gato estava deitado de costas, com as patas para cima, em uma posição de total relaxamento, com a cabeça apoiada no ombro de Eduarda.

Quando Emanuel se aproximou, o gato abriu um olho. Ele não se moveu. Ele apenas olhou para Emanuel com uma calma exasperante, como se dissesse: "Tente me tirar daqui e veja o que acontece com a paz que você tanto preza".

Emanuel bufou, sentando-se na beira da cama.

— Saia daí, seu intruso — ele cochichou.

Artie apenas bocejou, mostrando os dentes afiados, e voltou a fechar o olho, encostando-se ainda mais em Eduarda.

— Manu? — a voz dela saiu abafada pelo sono. Ela abriu os olhos e viu a silhueta dele na penumbra. — O que você está fazendo aqui?

— Vim buscar o que é meu — ele disse, a voz rouca. — Volte para o nosso quarto, Eduarda.

— Não quero. Você foi grosso. O Artie me entende melhor.

— O Artie é um oportunista que está roubando o meu lugar — Emanuel esticou o braço e, com uma rapidez que surpreendeu até o gato, pegou o animal pela nuca e o colocou no chão.

Artie soltou um protesto indignado, mas Emanuel já estava puxando Eduarda para os seus braços, cobrindo-a com o próprio corpo.

— Você não vai trocar um homem por um gato — ele murmurou, enterrando o rosto no pescoço dela. — Eu peço desculpas por ter levantado a voz. Mas eu não divido você. Nem com a Sara, nem com o seu pai, e muito menos com esse bicho.

Eduarda, sentindo a possessividade dele, começou a ceder. Sua natureza manhosa sempre falava mais alto quando Emanuel demonstrava que não podia viver sem ela. Ela passou os braços pelo pescoço dele, sentindo os músculos tensos se relaxarem sob seu toque.

— Você é tão ciumento, Manu... é só um gatinho.

— É um pequeno ditador que quer me desbancar — Emanuel a beijou com uma intensidade que calou qualquer protesto. — Vamos voltar para o nosso quarto. Agora.

Eduarda assentiu, deixando-se levar pelo corredor. Emanuel a carregou no colo, sentindo-se vitorioso. No entanto, ao entrar no quarto principal e deitar Eduarda na cama, ele ouviu um ruído familiar.

Ao olhar para o pé da cama, lá estava Artie. O gato havia entrado antes deles, aproveitando a porta aberta, e já estava acomodado sobre a colcha de seda preta, observando-os com o mesmo olhar de superioridade.

— Eu não acredito nisso — Emanuel murmurou, passando a mão pelo rosto.

— Deixa ele, Manu... — Eduarda bocejou, puxando o lençol. — Ele só quer proteção.

Emanuel olhou para o gato. O gato olhou para Emanuel.

— Amanhã eu vou comprar uma casinha para ele. No jardim. Com tranca — Emanuel ameaçou, mas sabia que era uma mentira. Eduarda nunca permitiria.

Ele se deitou, puxando Eduarda para o seu peito. Por alguns minutos, houve paz. Até que ele sentiu algo peludo encostar em seus pés. Artie havia se acomodado sobre as pernas de Emanuel, usando-o como aquecedor humano.

— Ele está me usando — Emanuel reclamou em voz baixa.

— Ele te ama — Eduarda respondeu, já quase dormindo.

Emanuel ficou ali, acordado por mais algum tempo. Ele pensou em Sara, que provavelmente estava dormindo com Chanel em seu próprio quarto, sonhando com diamantes e vinganças mesquinhas. Pensou em Eduarda, que era sua paz e sua maior vulnerabilidade. E olhou para o gato em seus pés.

Ele percebeu que sua vida havia se tornado um emaranhado de dependências. Ele comandava um império de tinta e agulhas, mas em sua própria casa, ele era apenas um homem tentando navegar entre as exigências de uma mulher vulcânica, a carência de uma menina-mulher sensível e a arrogância de um gato cinza.

— Eu odeio esse gato — Emanuel sussurrou para o escuro.

No pé da cama, Artie soltou um ronrono profundo e rítmico, o som de quem sabia exatamente quem estava ganhando aquela rodada. Emanuel fechou os olhos, derrotado pelo cansaço e por um afeto que ele não conseguia mais negar. Ele era o mestre da mansão, mas naquela noite, ele era apenas mais um súdito no reino de veludo e garras que Eduarda havia construído em volta de seu coração.