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O Intruso de Veludo
O loft de Emanuel nunca fora um lugar projetado para a delicadeza. Com suas vigas de aço expostas, paredes de concreto aparente e móveis de couro escuro, o ambiente refletia a personalidade do seu dono: prático, imponente e controlado. No entanto, naquela tarde de terça-feira, a estética industrial foi invadida por algo completamente fora do catálogo de decoração de um tatuador rico e renomado.
— Manu, olha como ele é perfeito! — a voz de Eduarda ecoou pela sala, carregada de uma doçura que fez Emanuel levantar os olhos de seu tablet, onde revisava o faturamento de um de seus estúdios em Londres.
Eduarda estava sentada no tapete persa da sala, com um sorriso que iluminava o rosto inteiro. Em seu colo, um pequeno ser de pelos brancos e manchas cinzentas tentava, sem muito sucesso, escalar a gola de seu vestido de seda. Era um gato. Um filhote de Ragdoll, com olhos azuis tão profundos que pareciam duas safiras.
Emanuel franziu o cenho, sentindo uma pontada imediata de estranhamento.
— O que é isso, Eduarda? — perguntou ele, a voz rouca e marcada por aquela autoridade natural que costumava fazer seus funcionários tremerem.
— É o meu presente, Manu! — ela respondeu, fazendo um biquinho manhoso enquanto acariciava as orelhas minúsculas do animal. — Meu pai me trouxe hoje cedo. Ele disse que eu precisava de uma companhia para quando você e a Sara estiverem trabalhando ou fora. O nome dele é Artie.
Emanuel largou o tablet no sofá e levantou-se, caminhando até ela. Ele parou com as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, observando a cena. Eduarda parecia radiante. Desde a confusão na casa da tia Odete, ela andava mais silenciosa, como se estivesse testando o terreno antes de se entregar totalmente ao carinho de Emanuel novamente. Ver aquela alegria súbita deveria deixá-lo feliz, mas o motivo daquela euforia o incomodava.
— Seu pai não me consultou sobre trazer um animal para dentro do loft — comentou Emanuel, o tom de voz gélido. — Gatos soltam pelos, arranham móveis de couro... e eu não gosto da ideia de ter algo imprevisível circulando pelo meu estúdio particular.
Eduarda levantou o olhar, e Emanuel viu as lágrimas começarem a brilhar nos olhos castanhos dela. Era o golpe baixo dela, a fragilidade que sempre o desarmava.
— Por favor, Manu... ele é tão pequenininho. Eu cuido de tudo, prometo. Eu limpo cada pelinho, e ele nem tem unhas fortes ainda. O papai disse que ele é um gato de apartamento, muito calmo.
Nesse momento, Sara saiu do quarto, usando um robe de seda vermelha que deixava suas pernas siliconadas e torneadas à mostra. Ela parou no corredor, observando a cena com um misto de deboche e curiosidade.
— Mas o que é essa bola de pelos no meio da sala? — Sara deu uma risada curta, aproximando-se. — Duda, querida, você já é manhosa o suficiente. Agora resolveu adotar um bicho que faz a mesma coisa que você? Miado por miado, o seu é mais interessante para o Emanuel.
— Não começa, Sara — Emanuel advertiu, mas sua atenção voltou-se para o gato, que agora soltara um miado agudo e tentava morder o dedo de Eduarda.
— Ele é lindo, Sara, olha! — Eduarda ignorou a provocação, estendendo o gatinho para que a outra o visse.
Sara fez uma careta, mas não conseguiu evitar um olhar de interesse.
— Ele combina com o seu estilo "santinha". Branco e fofinho. Só espero que ele não resolva usar meus scarpins como arranhador, ou ele vai descobrir o que é um voo livre pela janela desse loft.
Emanuel sentiu uma irritação crescente. Não era apenas o gato. Era o fato de Ricardo, o pai de Eduarda, ter dado algo a ela que preenchia um espaço emocional que, na cabeça de Emanuel, deveria ser exclusivamente dele. Emanuel era o provedor, o protetor, o homem que dava joias, viagens e segurança. O que era um gato perto de tudo o que ele oferecia? No entanto, Eduarda olhava para o bicho com uma adoração que ele não via há dias direcionada a si mesmo.
— Ele fica — sentenciou Emanuel, querendo encerrar o assunto antes que a irritação se tornasse uma briga. — Mas se eu encontrar um único arranhão no sofá de couro italiano, o Artie vai morar na casa do seu pai. Fui claro?
Eduarda levantou-se num salto, ainda segurando o gatinho contra o peito, e abraçou o pescoço de Emanuel, ficando na ponta dos pés.
— Obrigada, Manu! Você é o melhor! — Ela deu um beijo rápido e estalado em sua bochecha, mas logo se afastou porque o gatinho começou a se contorcer em seus braços. — Preciso ir preparar a caminha dele!
Emanuel ficou parado no meio da sala, sentindo o lugar onde o beijo dela pousara. Foi rápido demais. Curto demais. Ela estava mais interessada em "preparar a caminha" do gato do que em ficar ali com ele.
— Alguém está com ciúmes de um felino de dois quilos? — Sara sussurrou ao ouvido de Emanuel, passando as mãos por seus braços tatuados. — Relaxa, Manu. Daqui a pouco ela cansa do brinquedo novo e volta a implorar pela sua atenção.
Emanuel não respondeu. Ele apenas observou Eduarda sumir pelo corredor, conversando com o gato em uma voz infantil e carinhosa.
Os dias seguintes foram um teste de paciência para o tatuador. Emanuel estava acostumado a ser o centro gravitacional daquele loft. Quando ele chegava do estúdio, Eduarda costumava vir ao seu encontro, pedir um abraço, contar como fora o dia dela na faculdade enquanto se aninhava em seu colo. Agora, a rotina mudara.
— Manu, cuidado onde pisa! — Eduarda exclamou em uma noite, enquanto ele caminhava em direção à cozinha para pegar um uísque.
Emanuel parou abruptamente, o pé a centímetros de um ratinho de pelúcia barulhento.
— Eduarda, isso é um loft, não um playground — ele reclamou, a voz carregada de cansaço.
— Desculpa, Manu, é que o Artie adora esse brinquedo — ela disse, surgindo da lavanderia com um saco de areia higiênica nas mãos. Ela estava com o cabelo bagunçado e uma mancha de pó no nariz, mas parecia feliz. — Você viu como ele já reconhece o nome dele?
Emanuel suspirou, servindo-se da bebida.
— Incrível. Um prodígio da natureza.
Mais tarde, quando se deitaram, Emanuel esperava o momento de intimidade que costumava selar suas noites. Sara já estava dormindo no quarto ao lado, e o quarto principal era o santuário dele e de Eduarda. Ele a puxou pela cintura, sentindo o corpo macio dela sob a camisola de algodão, mas Eduarda estava tensa, olhando para a beirada da cama.
— O que foi agora? — Emanuel perguntou, a irritação começando a transparecer.
— O Artie não está acostumado a dormir sozinho, Manu... ele está miando lá na sala. Acho que ele está com frio.
— Eduarda, é um gato. Ele tem pelos. E o loft tem aquecimento central.
— Mas ele é um bebê — ela sussurrou, desvencilhando-se do abraço de Emanuel e sentando-se na cama. — Eu vou só ver se ele está bem e já volto.
Emanuel ficou olhando para o teto, ouvindo o som dos passos leves dela pelo corredor. Cinco minutos se passaram. Dez minutos. Ele se levantou, bufando, e foi até a sala.
Encontrou Eduarda deitada no sofá, com o gatinho adormecido em cima de sua barriga. Ela também estava cochilando, com a mão pequena protegendo o animal. A cena era bucólica, quase angelical, mas para Emanuel, era um insulto. Ele era o homem dela. Ele era o tatuador que dominava agulhas e máquinas, que comandava um império, e estava sendo trocado por um filhote que pesava menos que sua bota de couro.
Ele caminhou até o sofá e pegou Eduarda no colo, com cuidado para não acordá-la. O gato acordou, soltou um miado de protesto e pulou para o chão, observando Emanuel com aqueles olhos azuis julgadores.
— Nem pense em me seguir — Emanuel murmurou para o bicho, antes de levar Eduarda para o quarto.
No dia seguinte, a tensão atingiu o ápice. Emanuel estava em seu estúdio privado dentro do loft, trabalhando em um desenho complexo de uma fênix para um cliente importante. Era o seu momento de concentração absoluta. A porta estava encostada, um sinal claro de que ninguém deveria entrar.
De repente, ele sentiu algo roçar em sua perna. Ele olhou para baixo e viu Artie. O gato o encarava, com a cauda erguida.
— Fora daqui, Artie — Emanuel ordenou.
O gato, em vez de sair, pulou na bancada de desenho. Com um movimento ágil, ele derrubou um frasco de tinta nankin que estava aberto. O líquido preto espalhou-se pelo papel de alta gramatura, destruindo horas de trabalho minucioso.
— Mas que inferno! — Emanuel rugiu, levantando-se tão rápido que a cadeira tombou.
Artie se assustou e correu para debaixo de um armário. Eduarda e Sara apareceram na porta quase instantaneamente, atraídas pelo barulho.
— O que aconteceu? — Eduarda perguntou, vendo a mancha preta no desenho.
— O que aconteceu é que esse bicho estragou um trabalho de dez mil dólares! — Emanuel estava vermelho de raiva, apontando para a bancada. — Eu avisei, Eduarda! Eu disse que não queria esse bicho aqui!
Eduarda correu para debaixo do armário, tentando resgatar o gato, que estava acuado.
— Foi um acidente, Manu! Ele não sabia!
— Ele é um animal, Eduarda! Ele não sabe nada! Quem deveria saber é você, que deveria ter fechado a porta! — Emanuel estava fora de si, o ciúme acumulado dos últimos dias explodindo em forma de fúria por causa do desenho. — Esse gato é uma distração. Você não faz mais nada além de cuidar dele. Você não estuda direito, você não me dá atenção, você vive em função desse presente do seu pai!
Eduarda saiu debaixo do armário com o gato nos braços, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
— É isso então? — ela perguntou, a voz trêmula. — Você está com ciúmes do Artie? De um gatinho que meu pai me deu porque sabe que eu me sinto sozinha aqui às vezes?
Sara, encostada no batente da porta, soltou uma risada venenosa.
— Eu disse, não disse? O grande Emanuel, o mestre das tatuagens, sendo derrotado por um gato. Que patético.
Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda. O silêncio no estúdio era cortante. Ele viu o medo nos olhos de Eduarda, mas também viu uma mágoa profunda.
— Eu não estou com ciúmes — Emanuel mentiu, a voz agora baixa e perigosa. — Eu estou prezando pela ordem da minha casa e do meu trabalho.
— Sua casa, seu trabalho, suas regras — Eduarda disse, a voz ganhando uma firmeza que ela raramente demonstrava. — Você fala tanto em lealdade, Emanuel, mas você não suporta que eu tenha algo que não venha de você. Você odeia o Artie porque não foi você quem deu. Você odeia que eu tenha um carinho que você não controla.
Ela passou por ele, segurando o gato com força, e foi para o quarto, trancando a porta.
Emanuel ficou sozinho no estúdio, cercado pelo cheiro de tinta e pelo desenho destruído. Sara aproximou-se, tentando tocar seu ombro, mas ele se esquivou.
— Me deixa sozinho, Sara. Agora.
Ela deu de ombros e saiu, murmurando algo sobre como o loft estava se tornando um hospício.
Emanuel passou as horas seguintes tentando refazer o desenho, mas sua mente não estava no papel. Ele pensava nas palavras de Eduarda. "Você não suporta que eu tenha algo que não venha de você". A verdade era um espinho cravado em seu ego. Ele era um homem controlador, sim. Ele queria ser o único sol no sistema solar daquelas duas mulheres. Mas, com Eduarda, o buraco era mais embaixo. Ele tinha um instinto de proteção que beirava a posse.
Ele saiu do estúdio por volta das dez da noite. O loft estava silencioso. Ele foi até o quarto de Eduarda e bateu na porta. Sem resposta. Ele usou sua chave reserva e entrou.
Eduarda estava dormindo, ou fingindo dormir. O gatinho estava enroscado aos pés dela. Emanuel sentou-se na beirada da cama e observou os dois. A raiva tinha passado, deixando apenas um cansaço amargo. Ele estendeu a mão e, hesitante, tocou o pelo do gato. Artie abriu um dos olhos, soltou um ronrono baixo e voltou a dormir.
— Você é um problema, sabia? — Emanuel sussurrou para o animal.
Eduarda se mexeu e abriu os olhos. Ela não disse nada, apenas ficou olhando para ele na penumbra.
— Eu vou comprar uma mesa de desenho nova, com tampo de vidro e gavetas que travam — Emanuel disse, sem olhar para ela. — E vou colocar uma prateleira alta na sala, para ele subir e não ficar nos sofás.
Eduarda sentou-se devagar, os olhos ainda inchados.
— Você não vai mandar ele embora?
Emanuel suspirou, finalmente olhando para ela.
— Eu não posso mandar embora algo que te faz sorrir daquele jeito, Duda. Mesmo que esse sorriso não seja para mim o tempo todo.
Eduarda se aproximou, deslizando pela cama até abraçar a cintura dele, escondendo o rosto em seu peito.
— Eu te amo, Manu. O Artie é só um gatinho. Ele nunca vai ocupar o seu lugar.
Emanuel envolveu-a em seus braços, sentindo o peso da tensão deixar seu corpo.
— É bom que não ocupe mesmo — ele disse, a voz recuperando um pouco da sua arrogância habitual. — Porque eu ainda sou o dono desta casa. E o dono de você.
Eduarda soltou uma risadinha manhosa, beijando o pescoço dele.
— E o dono do Artie também?
Emanuel olhou para o gato, que agora se espreguiçava, exibindo as garras minúsculas.
— Não abusa da minha boa vontade, Duda.
Naquela noite, Emanuel permitiu que o gato ficasse no quarto. Ele ainda sentia uma pontada de irritação ao ver Eduarda dar um último beijo na cabeça do bicho antes de apagar a luz, mas, quando ela se aninhou em seus braços e suspirou, satisfeita, ele entendeu que a lealdade de Eduarda não era algo que ele precisava comprar ou impor. Era algo que ele precisava cultivar, mesmo que isso significasse dividir o tapete com um intruso de veludo que não respeitava seus desenhos de dez mil dólares.
Afinal, para um homem que vivia de marcar a pele dos outros para sempre, Emanuel estava aprendendo que as marcas mais profundas eram aquelas que não usavam tinta, mas sim a paciência de aceitar que o amor, às vezes, tinha quatro patas e olhos azuis que o desafiavam.