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O Olhar do Falcão

O silêncio no loft de Emanuel nunca foi sinônimo de paz; era apenas o intervalo entre uma tempestade e outra. Mas, nas últimas semanas, um novo tipo de silêncio pairava sobre a rotina do tatuador, algo que não vinha de dentro de casa, mas de fora. Emanuel, um homem que fizera fortuna e nome através da observação minuciosa dos detalhes, sentia-se vigiado.

Não era a vigilância de um fã ou de um rival de negócios. Era algo mais denso, mais pessoal.

— Manu, você está distraído hoje — comentou Sara, cruzando as pernas sobre a mesa de centro enquanto lixava as unhas. — O desenho daquela cliente ficou torto na primeira linha. Você nunca erra a primeira linha.

Emanuel largou o tablet de desenho e caminhou até a imensa janela de vidro que dava para a rua arborizada. Lá embaixo, estacionado na esquina, estava o mesmo SUV preto que ele vira nos últimos três dias. Ele sabia quem estava lá dentro. Ricardo, o pai de Eduarda.

— Não é nada — respondeu Emanuel, a voz rouca. — Só cansaço.

— Se é cansaço, vamos para a cama — Sara sugeriu com um sorriso malicioso, levantando-se e caminhando até ele com o balanço de quadris que costumava paralisar Emanuel. — A Duda está na faculdade, o gato está dormindo e eu estou com tédio.

Emanuel sentiu as mãos de Sara em seus ombros, mas seus olhos não saíram do carro lá embaixo. Ricardo não estava apenas "levando e trazendo" a filha. Ele estava marcando território. O aviso que o homem dera na semana anterior — de que apagaria o rastro de Eduarda se Emanuel falhasse — não fora um blefe. Era uma promessa em execução.

— Agora não, Sara — Emanuel desvencilhou-se dela, pegando as chaves do carro. — Preciso resolver uma coisa no estúdio da Oscar Freire.

— No estúdio ou com o "sogrinho"? — Sara provocou, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada. — Eu vi o carro dele lá fora, Manu. Você está deixando aquele homem entrar na sua cabeça. Ele é só um pai superprotetor, não o dono do mundo.

— Ele é o pai da Eduarda — Emanuel disse, saindo pela porta sem olhar para trás.

Ao chegar à calçada, Emanuel não foi para o seu carro. Ele caminhou em linha reta em direção ao SUV preto. Conforme se aproximava, o vidro fumê desceu lentamente, revelando o rosto sereno e jovem de Ricardo. Ele usava óculos escuros e batia levemente os dedos no volante, seguindo o ritmo de uma música que Emanuel não conseguia ouvir.

— Boa tarde, Emanuel — disse Ricardo, com uma cortesia que irritava mais do que um insulto. — Algum problema?

— Eu que pergunto, Ricardo — Emanuel apoiou as mãos na porta do carro, inclinando-se para encarar o homem. — Você tem passado muito tempo estacionado na minha porta. Se quer ver sua filha, é só subir. Se quer falar comigo, tem meu número. Mas esse jogo de sentinela está começando a me cansar.

Ricardo tirou os óculos escuros, revelando olhos castanhos idênticos aos de Eduarda, mas sem a doçura da filha. Havia neles uma frieza analítica, a de um homem que sabia exatamente onde estavam os pontos fracos de qualquer estrutura.

— Eu não estou jogando, Emanuel — Ricardo respondeu calmamente. — Eu estou observando. Existe uma diferença. Eu observo o horário que ela sai, o estado emocional em que ela volta para o meu carro quando a busco para os almoços de domingo, e observo quem entra e sai da sua vida.

— Você está sendo invasivo — Emanuel rosnou.

— Eu estou sendo um pai — Ricardo rebateu. — Você é um homem bem-sucedido, Emanuel. Respeito sua trajetória. Mas você vive em um mundo de excessos. Duas namoradas, uma vida pública, um temperamento que beira o autoritário. Eduarda é sensível. Ela é o tipo de flor que murcha se o ambiente for tóxico demais. Eu só estou aqui para ver se o ar continua respirável para ela.

Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele detestava ser analisado, detestava que alguém questionasse sua capacidade de cuidar do que era seu.

— Ela está bem. Eu cuido dela.

— Cuida? — Ricardo deu um sorriso de canto. — Ontem ela saiu daqui com os olhos vermelhos. Ela disse que era alergia ao gato, mas eu conheço o choro da minha filha desde que ela nasceu. Ela discutiu com a Sara, não foi? E você, como sempre, tentou ser o juiz imparcial, o que na verdade significa que você não defendeu ninguém.

Emanuel travou a mandíbula. Era verdade. A convivência entre as duas estava se tornando um campo de minas novamente, e ele, exausto, havia se trancado no estúdio para não ouvir os gritos.

— Isso é entre nós três — Emanuel disse, a voz baixa. — Não interfira.

— Eu já interferi no momento em que ela nasceu — Ricardo ligou o motor do carro. — Eu não vou subir hoje. Mas saiba que eu estou vendo tudo, Emanuel. Cada passo em falso, cada vez que você deixar o ego daquela loira esmagar a sensibilidade da Eduarda, eu estarei um passo mais perto de tirá-la daqui. E você sabe que eu posso.

O SUV arrancou, deixando Emanuel parado na calçada, sentindo-se, pela primeira vez em anos, fora de controle.

Quando ele voltou para o loft, o clima estava denso. Eduarda já havia voltado da faculdade e estava sentada no chão da sala, com Artie, o gato, no colo. Ela parecia pequena, quase fundindo-se ao tapete. Sara estava na cozinha, abrindo uma garrafa de vinho com movimentos bruscos.

— O que aconteceu aqui? — Emanuel perguntou, fechando a porta com força.

— Pergunta para a sua protegida — Sara disse, servindo-se de uma taça generosa. — Eu só sugeri que ela parasse de usar aqueles vestidos de camponesa e usasse algo mais... adulto para o evento de amanhã. Ela começou a chorar e disse que eu estava tentando mudar quem ela é.

Eduarda não levantou a cabeça. Suas mãos acariciavam o gato com um ritmo nervoso.

— Ela disse que eu pareço uma criança perdida — Eduarda sussurrou, a voz embargada. — Ela disse que você sente vergonha de me levar aos lugares porque eu não sou "impactante" como ela.

Emanuel olhou para Sara, que deu um de ombros indiferente.

— Eu só falei a verdade, Manu. O mundo das artes e das tatuagens é visual. A Duda é linda, mas ela se esconde. Se ela quer estar no nosso nível, precisa agir como tal.

Emanuel caminhou até Eduarda e agachou-se à sua frente. Ele tocou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele. Os olhos dela estavam marejados, a expressão manhosa que ele tanto amava agora estava tingida de uma exaustão profunda.

— Você não precisa mudar nada, Duda — ele disse, tentando suavizar a voz.

— Mas você concorda com ela? — Eduarda perguntou, uma lágrima escorrendo. — Você sente vergonha de mim quando estamos com seus amigos tatuadores?

Emanuel hesitou por um milésimo de segundo, e ele soube que ela percebeu. A hesitação não era vergonha, era a dúvida de um homem que vivia de aparências e que, às vezes, achava que a timidez de Eduarda dificultava sua vida social complexa.

— Claro que não — ele respondeu, mas a resposta soou mecânica.

— Você mentiu — Eduarda disse, afastando a mão dele. — Meu pai tem razão. Você me ama como se eu fosse um objeto de estimação, algo para te dar paz quando você se cansa do barulho da Sara. Mas você não me respeita como mulher.

Eduarda levantou-se, pegou o gato e foi para o quarto de hóspedes, trancando a porta.

Emanuel ficou ali, no chão, sentindo o peso do olhar de Ricardo mesmo sem o homem estar presente. Ele se levantou e foi até a cozinha, tirando a taça da mão de Sara e colocando-a na bancada com força.

— Você vai parar com isso agora — Emanuel ordenou, os olhos faiscando.

— Com o quê? Com a sinceridade? — Sara desafiou, aproximando-se dele, o cheiro de vinho e perfume caro prechendo o espaço entre eles. — Manu, abre os olhos. A Duda é uma âncora. Ela te puxa para baixo, para esse mundo de família, de igreja, de timidez. Você é um gigante. Você precisa de alguém que voe com você, não de alguém que precise ser carregada no colo.

— Ela é minha namorada, Sara. Assim como você. E se você não conseguir respeitar o espaço dela, eu vou ter que tomar medidas que não vão te agradar.

Sara riu, uma risada amarga e aguda.

— Medidas? Você vai me expulsar? Por causa da santinha? Você não aguenta uma semana sem mim, Emanuel. Você precisa do meu fogo tanto quanto precisa do chá morno dela. O problema é que você é ganancioso. Quer o céu e o inferno ao mesmo tempo.

Emanuel não respondeu. Ele saiu para a varanda, precisando de ar. O SUV preto não estava mais lá, mas a sensação de ser observado permanecia. Ele sentia que estava em um tabuleiro de xadrez onde todas as suas peças estavam sendo cercadas. De um lado, a vulgaridade agressiva de Sara, que o excitava e o irritava na mesma medida; do outro, a doçura dependente de Eduarda, que era seu porto seguro, mas que agora parecia estar se desintegrando.

E, ao redor de tudo, o pai de Eduarda.

Nos dias seguintes, a presença de Ricardo tornou-se quase fantasmagórica. Ele não confrontava mais Emanuel diretamente, mas estava sempre lá. Emanuel o via no café em frente ao estúdio; o via cruzando a rua quando ele saía para jantar com as duas namoradas; o via até mesmo em eventos de arte onde Ricardo, com sua elegância discreta, conversava com colecionadores que Emanuel tentava impressionar.

Ricardo estava cercando a vida de Emanuel, mostrando que o mundo do tatuador não era tão impenetrável quanto ele pensava.

Certa noite, Emanuel chegou em casa e encontrou Ricardo sentado na sala do loft. Eduarda estava ao lado dele, parecendo mais calma do que estivera em semanas. Sara estava em um canto, fumando um cigarro eletrônico com uma expressão de puro ódio.

— O que você está fazendo aqui, Ricardo? — Emanuel perguntou, fechando a porta e sentindo a tensão elétrica no ar. — Eu não te dei a chave.

— A porta estava aberta — mentiu Ricardo com um sorriso gélido. — Eduarda me convidou para entrar. Vim trazer alguns livros que ela pediu.

— Eu já disse que não quero você interferindo na minha casa — Emanuel caminhou até o centro da sala, tentando recuperar o domínio do ambiente.

Ricardo levantou-se devagar. Ele era um pouco mais baixo que Emanuel, mas sua postura era a de um homem que nunca perdera uma batalha.

— Eu não estou interferindo, Emanuel. Estou apenas visitando minha filha. Mas, já que você tocou no assunto... notei que ela emagreceu. Notei que ela tem olheiras. E notei que a sua outra companheira continua tendo o hábito de deixar roupas íntimas espalhadas pela sala, mesmo sabendo que a Eduarda se sente desconfortável com isso.

— Isso é ridículo! — Sara gritou do canto. — Esta casa é nossa! Eu moro aqui!

— Exatamente — disse Ricardo, voltando-se para Sara com um olhar de desprezo tão profundo que a loira recuou um passo. — E é por ser "de vocês" que a Eduarda está se apagando. Ela não tem um espaço que seja só dela. Ela vive nas frestas da vida de vocês dois.

Ricardo voltou-se para Emanuel, ignorando Sara completamente.

— Eu vim fazer uma proposta, Emanuel. Ou melhor, um aviso final. Vou levar a Eduarda para passar o final de semana na fazenda da família. Sem você. Sem ela. Apenas ela e os avós.

— Ela não vai a lugar nenhum se eu não concordar — Emanuel disse, a voz subindo de tom.

— Eu quero ir, Manu — Eduarda interveio, a voz pequena, mas decidida. Ela se levantou e caminhou até o pai, buscando proteção em seu braço. — Eu preciso de um tempo. Aqui tudo é muito barulhento. Eu me sinto... invisível.

Emanuel sentiu um golpe no estômago. Ver Eduarda escolher o pai em vez dele, novamente, era a prova de que seu controle estava falhando.

— Se você for agora, Eduarda... — Emanuel começou, mas Ricardo o interrompeu.

— Não termine essa frase, Emanuel. Não ouse ameaçá-la novamente. Se ela for agora, é porque ela precisa. E se você for o homem que diz ser, você vai usar esse tempo para decidir se quer ser um parceiro para ela ou apenas um dono. Se, quando ela voltar, o ambiente continuar o mesmo, eu não precisarei mais "observar". Eu agirei.

Ricardo pegou a mala que Eduarda já havia deixado pronta perto da porta — algo que Emanuel nem sequer notara ao entrar.

— Vamos, Duda? — Ricardo chamou.

— Vamos, pai.

Eduarda olhou para Emanuel uma última vez. Não havia raiva em seu olhar, apenas uma tristeza profunda e uma súplica por algo que ele ainda não sabia como dar. Ela saiu, seguida por Ricardo, que lançou um último olhar de advertência sobre o ombro.

O silêncio que ficou no loft era ensurdecedor. Sara caminhou até Emanuel, tentando abraçá-lo.

— Finalmente! — ela exclamou. — Agora podemos ter paz, Manu. Sem os choros dela, sem o gato, sem aquele pai insuportável...

Emanuel a afastou com uma força que a surpreendeu.

— Paz, Sara? Você acha que isso é paz? — ele gritou, chutando uma poltrona de design. — Ele está ganhando! Ele está tirando ela de mim pedaço por pedaço, e você está ajudando!

— Eu não estou ajudando em nada! Eu só quero o meu lugar!

— O seu lugar está destruindo o dela! — Emanuel caminhou até a janela, vendo o SUV preto se afastar. — Ele não está apenas observando, Sara. Ele está nos caçando. E ele acabou de levar a presa principal.

Emanuel sentiu um vazio imenso. O loft parecia grande demais, frio demais. Sem a presença mansa de Eduarda, a vulgaridade de Sara perdia o contraste e tornava-se apenas... vulgar. Ele percebeu que Ricardo não estava jogando o jogo da força bruta, mas o jogo da paciência. Ele estava esperando que Emanuel se destruísse sozinho através de suas próprias escolhas.

— O que você vai fazer? — Sara perguntou, a voz agora um pouco trêmula, percebendo que perdera o controle da situação.

Emanuel olhou para as próprias mãos tatuadas. Ele era um mestre em marcar os outros, em deixar cicatrizes permanentes. Mas Ricardo estava tatuando a alma dele com a culpa e a dúvida, e ele não tinha agulha que pudesse retocar aquele desenho.

— Eu vou esperar — Emanuel disse, a voz sombria. — Vou esperar ela voltar. E se, quando ela voltar, eu não tiver mudado as coisas aqui dentro... eu sei que o carro do pai dela vai estar lá fora, esperando para levá-la para sempre.

Emanuel sentou-se na escuridão da sala, enquanto Sara se retirava para o quarto, batendo a porta. Pela primeira vez em sua vida de sucesso e poder, Emanuel sentiu-se como um amador. Ele era um tatuador renomado, mas Ricardo era o verdadeiro artista. Ele estava desenhando o fim de Emanuel, e Emanuel não sabia como apagar o rastro daquela obra-prima de destruição silenciosa.

Lá fora, a rua estava deserta. Mas Emanuel sabia que, em algum lugar, o falcão continuava observando, esperando o próximo erro para mergulhar e levar o que restava de seu paraíso fragmentado.