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O Eclipse da Razão
O ar no loft de Emanuel parecia ter mudado de densidade. Não era mais apenas o cheiro de tinta de tatuagem, couro caro e o perfume cítrico que Sara costumava borrifar em excesso. Agora, havia algo mais profundo, algo que parecia vibrar nas paredes de concreto aparente e se infiltrar nos pulmões de quem cruzasse a porta. Quatro meses haviam se passado desde a viagem à ilha, e a dinâmica entre o trio nunca mais fora a mesma. Eduarda, antes a menina que pedia permissão para existir, havia florescido em uma presença que dominava o ambiente sem precisar elevar a voz.
Naquela tarde de terça-feira, o calor em São Paulo estava sufocante, mas dentro do loft, a temperatura parecia subir por motivos menos meteorológicos. Eduarda estava sentada no tapete da sala, cercada por livros de História da Arte, mas não lia uma linha sequer. Seu corpo parecia reagir a um chamado invisível. Ela estava inquieta, movendo-se com uma lentidão felina, a pele levemente brilhante de suor, apesar do ar-condicionado central.
Emanuel saiu de seu estúdio particular, limpando as mãos em uma toalha preta. Ele parou no corredor, observando-a. Havia algo de primitivo na forma como Eduarda o olhou de soslaio. Seus olhos castanhos, geralmente ternos e tímidos, estavam escuros, dilatados, carregados de uma urgência que Emanuel só vira em animais ou em estados de transe.
— Duda? — Emanuel chamou, a voz saindo mais grave do que ele pretendia. — Você está bem? Está vermelha.
Eduarda não respondeu de imediato. Ela se levantou devagar, e o movimento de seus quadris sob o vestido de seda fina foi quase um insulto à sanidade de Emanuel. Ela caminhou até ele, não com a hesitação de costume, mas com uma determinação silenciosa que fazia o chão parecer tremer sob seus pés descalços.
— Está calor, Manu — sussurrou ela, parando a centímetros dele. — Um calor que vem de dentro. Eu sinto que vou desintegrar se você não me tocar.
Emanuel sentiu um soco no estômago. Eduarda estava agindo de uma forma que ele nunca vira. Era como se ela tivesse entrado em um estado de "cio" emocional e físico, uma necessidade visceral de proximidade, de marcação, de posse. Ela se esfregou levemente no braço dele, como Artie fazia quando queria atenção, mas o gesto era carregado de uma carga erótica avassaladora.
— Você está febril — disse Emanuel, tentando manter a voz firme enquanto suas mãos, por puro instinto, encontravam a cintura dela. — Vou pegar um termômetro.
— Não — ela gemeu, um som baixo que veio do fundo da garganta, enterrando o rosto no pescoço dele. — Eu não quero remédio. Eu quero o seu cheiro. Eu quero que você me prenda aqui e não me deixe sair. Nunca mais.
Nesse momento, a porta da frente se abriu. Sara entrou, carregada de sacolas de compras de grife, batendo os saltos com a agressividade habitual. Ela parou no meio da sala, os olhos azuis faiscando ao ver a cena no corredor.
— Mas que porra é essa agora? — Sara jogou as sacolas no sofá, a voz estridente quebrando o transe. — Outro teatrinho de carência, Eduarda? Já faz três dias que você está agindo como se estivesse drogada, se arrastando pela casa e choramingando pelos cantos.
Eduarda não se encolheu. Pelo contrário, ela se virou nos braços de Emanuel, mantendo uma mão firmemente cravada no peito tatuado dele, e olhou para Sara. Não havia medo. Havia um desafio territorial que fez Sara recuar meio passo, embora ela nunca admitisse.
— Ele é meu, Sara — disse Eduarda, a voz calma, mas com uma vibração que parecia um rosnado oculto. — Hoje, ele é só meu. Vá para o seu quarto. O seu barulho está me machucando.
Sara soltou uma gargalhada histérica, mas havia uma nota de incerteza em seu riso.
— Sua louca! Manu, você vai deixar ela falar assim comigo? Ela está delirando! Parece uma gata no telhado, é nojento!
Emanuel olhou de uma para a outra. Ele era o eixo daquele relacionamento, o homem que deveria mediar o conflito, mas ele se sentia tragado pela energia que emanava de Eduarda. Ela exalava uma vulnerabilidade tão extrema que se tornava uma arma de controle absoluto. Ele sentia que, se não fizesse o que ela queria, algo precioso se quebraria para sempre.
— Sara, chega — Emanuel sentenciou, a voz fria. — A Eduarda não está bem. Ela está em um estado de sensibilidade que você claramente não consegue entender.
— Sensibilidade? — Sara gritou, aproximando-se. — Ela está manipulando você! Ela descobriu que se agir como uma fêmea desesperada, você vira esse cachorrinho protetor! Eu sou sua namorada também, Emanuel! Eu quero atenção, eu quero sair, eu quero gastar!
Eduarda soltou Emanuel e deu um passo em direção a Sara. O contraste era absurdo: Sara, loira, siliconada, armada com maquiagem pesada e roupas caras; Eduarda, descabelada, com um vestido simples, sem sutiã, exalando apenas feromônios e uma necessidade crua.
— Você não entende nada sobre ele — disse Eduarda, a voz agora um fio de seda perigoso. — Você quer o que ele pode te dar. Eu quero o que ele *é*. Eu sinto cada batida do coração dele daqui. Eu sinto o estresse dele, a dor nas mãos dele... e hoje, eu sinto que ele precisa de paz. E você, Sara, é apenas ruído.
— Sua vadiazinha... — Sara levantou a mão para dar um tapa, mas Emanuel foi mais rápido. Ele segurou o pulso de Sara com uma força que a fez soltar um grito de surpresa.
— Não toque nela — Emanuel rosnou. — Nunca mais.
— Você está escolhendo ela de novo! — Sara começou a chorar, um choro de raiva e frustração. — Desde aquela ilha, você me trata como um acessório! Eu vou embora! Eu vou para a casa da minha mãe e você vai se arrepender quando sentir falta de uma mulher de verdade na sua cama!
— Vá — disse Emanuel, sem nem olhar para ela. — O cartão vai continuar funcionando. Compre o que quiser. Mas saia deste loft agora.
Sara ficou paralisada por um segundo, esperando que ele voltasse atrás, que pedisse desculpas, que a puxasse para um beijo bruto como costumava fazer. Mas Emanuel estava de costas para ela, envolvendo Eduarda em um abraço protetor, enquanto a morena gemia baixinho, escondendo o rosto em seu peito, em um estado de entrega total que beirava o colapso.
Sara pegou sua bolsa e saiu, batendo a porta com tanta força que um dos vasos de decoração de Emanuel caiu e se estilhaçou no chão.
O silêncio que se seguiu foi denso. Emanuel pegou Eduarda no colo, sentindo o calor que emanava do corpo dela. Ela parecia pequena, frágil, mas ao mesmo tempo, ele sentia que ela o possuía de uma forma que ninguém jamais conseguira. Ele a levou para o quarto principal, deitando-a na cama de dossel.
— Manu... — ela chamou, a voz manhosa, os olhos fixos nos dele. — Não sai. Por favor. Eu sinto que se você se afastar, eu vou morrer.
— Eu estou aqui, Duda. Eu não vou a lugar nenhum.
Ele se deitou ao lado dela, e imediatamente Eduarda se enroscou em seu corpo com uma urgência febril. Ela buscava o contato da pele dele com a dela, passando as mãos trêmulas pelas tatuagens de seus braços, beijando cada traço de tinta como se estivesse realizando um ritual de adoração.
— Você é meu dono — ela sussurrou, a voz carregada de uma submissão que, paradoxalmente, lhe dava todo o poder sobre ele. — Me marca, Manu. Faz eu sentir que eu sou sua de verdade. Eu não quero ser só uma namorada. Eu quero ser sua pele, seu sangue.
Emanuel sentiu a racionalidade escorregar por seus dedos. Eduarda estava agindo como se estivesse em um ciclo biológico incontrolável, uma necessidade de ser reivindicada, protegida e amada com uma intensidade que ele nunca experimentara. Era o ápice da sua natureza manhosa, levada ao extremo de um instinto "omega".
— Você já é minha, Eduarda — ele respondeu, a voz rouca, beijando-lhe a testa suada. — Desde o primeiro dia.
— Então por que você deixa aquela mulher gritar comigo? — ela perguntou, as lágrimas começando a cair. — Por que você deixa ela me humilhar? Eu sou tão pequena perto dela, Manu... eu não tenho o corpo dela, eu não tenho a voz dela...
— Você tem a minha alma, Duda. A Sara é o barulho do mundo. Você é o meu silêncio. E o silêncio é muito mais poderoso.
Eduarda sorriu entre as lágrimas, um sorriso vitorioso que Emanuel não viu. Ela o puxou para mais perto, e naquela tarde, o loft de concreto e aço tornou-se o cenário de uma entrega absoluta. Emanuel sentia que estava sendo consumido por ela, que cada desejo dela era uma ordem que seu corpo obedecia sem questionar. Era uma dinâmica perigosa, um eclipse da razão onde apenas o instinto de proteção e posse governava.
Horas depois, a noite caiu sobre a cidade. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelas luzes distantes dos prédios vizinhos. Eduarda dormia profundamente, exausta, com a cabeça descansando no peito de Emanuel. Ele estava acordado, observando o teto, sentindo o peso dela sobre si.
Seu celular vibrou na mesa de cabeceira. Era uma mensagem de Ricardo.
— "Eduarda não atende o telefone. Ela está bem? Ouvi dizer que a Sara foi vista em um bar, fazendo um escândalo sobre vocês."
Emanuel olhou para Eduarda. Ela parecia um anjo em meio ao caos, a pele alva contrastando com os lençóis escuros. Ele digitou a resposta com uma mão só.
— "Ela está ótima, Ricardo. Está dormindo. A Sara não é mais um problema. Eu estou cuidando de tudo."
Ele largou o celular e voltou a acariciar o cabelo de Eduarda. Ele sabia que, quando ela acordasse, voltaria a ser a menina tímida e sensível de sempre, mas a máscara havia caído por tempo suficiente para ele entender a profundidade do que os unia. Eduarda não era apenas uma namorada; ela era uma necessidade biológica para ele.
No dia seguinte, a rotina parecia ter voltado ao normal, mas a atmosfera permanecia carregada. Sara não voltou para casa. Ela enviou um caminhão de mudança para buscar suas coisas, enviando mensagens cheias de ódio e ameaças de que contaria para a tia Odete sobre "as perversões" que aconteciam naquele loft.
Emanuel não se importou. Ele observou os carregadores levarem as malas de grife e os sapatos caros de Sara com uma sensação de alívio que o surpreendeu.
Eduarda estava na cozinha, preparando café, usando apenas uma camisa de Emanuel que ficava enorme nela. Ela parecia calma, mas havia um brilho novo em seus olhos, uma segurança que não existia antes.
— Manu? — chamou ela, quando ele entrou na cozinha.
— Oi, pequena.
— Você está triste porque ela foi embora? — perguntou ela, aproximando-se e abraçando-o pela cintura, aninhando-se em seu peito com a manha habitual.
Emanuel a segurou com força, sentindo o cheiro de baunilha que agora parecia ter dominado o loft por completo.
— Não — disse ele, com sinceridade. — Eu sinto que, pela primeira vez, o ar aqui dentro está limpo.
Eduarda levantou o rosto e o beijou, um beijo doce que rapidamente se tornou profundo.
— Eu vou cuidar de você agora — prometeu ela. — Eu vou ser tudo o que você precisar. Eu vou ser sua paz, sua casa... sua única mulher.
Emanuel sorriu, mas no fundo, ele sentia um calafrio. Ele percebeu que a timidez de Eduarda era a cobertura de uma força de vontade titânica. Ela eliminara Sara não com brigas, mas tornando-se indispensável, transformando a necessidade dele em uma dependência mútua.
— Você é perigosa, sabia? — Emanuel brincou, passando a mão pelo rosto dela.
— Eu só sou sua, Manu — ela respondeu, com aquela voz de menina que sempre o desarmava. — E eu faço qualquer coisa para manter o que é meu.
Naquela tarde, Ricardo apareceu no loft para ver a filha. Ele encontrou um ambiente de paz absoluta. Eduarda estava sentada no sofá, estudando, enquanto Emanuel trabalhava em um desenho em sua mesa. O gato Artie dormia aos pés de Emanuel.
— Onde está a Sara? — perguntou Ricardo, aceitando um café que Eduarda lhe trouxe com um beijo na bochecha.
— Ela foi embora, pai — disse Eduarda, com uma simplicidade desconcertante. — Ela percebeu que este não era mais o lugar dela.
Ricardo olhou para Emanuel, e os dois homens trocaram um olhar de entendimento silencioso. Ricardo viu a marca no pescoço de Emanuel — não uma tatuagem, mas uma marca de posse deixada por dentes e lábios — e percebeu que sua filha não era mais a criança que precisava de proteção constante. Ela aprendera a caçar.
— Fico feliz por vocês — disse Ricardo, embora sua voz carregasse uma nota de cautela. — Mas lembre-se, Emanuel... a paz tem um preço.
— Eu estou disposto a pagar, Ricardo — respondeu Emanuel, olhando para Eduarda.
Quando Ricardo foi embora, o loft voltou ao seu silêncio sagrado. Eduarda caminhou até Emanuel e sentou-se em seu colo, afastando o tablet de desenho.
— Manu... — ela sussurrou, a voz voltando àquele tom febril e manhoso do dia anterior. — Eu sinto o calor voltando.
Emanuel fechou os olhos, sentindo a submissão e o poder dela se entrelaçarem em seu peito. Ele percebeu que o "cio" de Eduarda não era apenas um estado físico passageiro; era a nova realidade daquele relacionamento. Ela o envolvera em uma teia de doçura e necessidade da qual ele nunca conseguiria — ou quereria — escapar.
— Então vamos para o quarto, Duda — disse ele, levantando-se com ela nos braços.
A vulgaridade de Sara fora derrotada pela manha de Eduarda. O barulho fora vencido pelo silêncio. E Emanuel, o grande tatuador que marcava a pele de todos, finalmente aceitou que a marca mais profunda fora feita em seu próprio coração, por uma menina que parecia uma omega indefesa, mas que governava seu mundo com um simples sussurro.
O loft de vidro e concreto agora era um santuário. E, naquele santuário, Eduarda era a única divindade. O eclipse da razão estava completo, e Emanuel nunca se sentira tão vivo quanto naquela escuridão compartilhada.