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O Canto da Sereia no Loft de Vidro
A luz do entardecer filtrava-se pelas janelas panorâmicas do loft, tingindo o concreto de tons alaranjados e melancólicos. Emanuel estava debruçado sobre a mesa de carvalho maciço, analisando o itinerário em seu tablet. Ele precisava de uma pausa. O império de estúdios de tatuagem estava operando a pleno vapor, mas o estresse acumulado nas últimas semanas — entre as brigas constantes de suas namoradas e a vigilância silenciosa de seu sogro, Ricardo — estava começando a afetar sua precisão com a agulha.
— Uma ilha — murmurou ele para si mesmo, sentindo o peso nos ombros diminuir apenas com a ideia. — Apenas nós três, o som do mar e o isolamento total. Sem sogros, sem tias religiosas, sem interferências.
Ele já havia selecionado a propriedade: uma ilha particular no litoral norte, acessível apenas por helicóptero ou lancha privativa. Um refúgio de luxo onde ele poderia, finalmente, tentar reequilibrar a balança de seu relacionamento triádico.
No entanto, o que Emanuel projetava como um retiro de harmonia, Eduarda via como uma oportunidade estratégica.
Sentada no canto do sofá, fingindo ler um livro sobre a Renascença italiana, Eduarda observava Emanuel. Ela notava a tensão na mandíbula dele, o jeito como ele esfregava a nuca. Ela sabia que Sara já estava no quarto, provavelmente escolhendo os biquínis mais minúsculos e vulgares para a viagem, pronta para transformar o refúgio em um cenário de videoclipe barato.
Eduarda fechou o livro suavemente. Ela não queria Sara naquela ilha. Ela queria o Emanuel que conhecera antes da agressividade de Sara se tornar uma constante. Ela queria o silêncio, o toque calmo e a exclusividade que sentia que merecia. Mas ela não gritaria. Ela não exigiria. Ela faria com que *ele* chegasse àquela conclusão.
— Manu? — chamou ela, a voz saindo como um sussurro melodioso, carregada daquela manha que ela sabia ser o ponto fraco dele.
Emanuel levantou os olhos do tablet e sorriu. Ver Eduarda ali, com seu vestido leve de algodão e o olhar sensível, sempre lhe trazia uma sensação de porto seguro.
— Oi, pequena. Estava vendo as fotos da ilha. Você vai adorar a biblioteca de lá, tem vista para o recife.
Eduarda levantou-se e caminhou até ele com passos lentos. Ela não o abraçou de imediato; parou ao lado da cadeira dele, deixando que o perfume de baunilha de sua pele o envolvesse primeiro.
— Parece lindo, Manu... — Ela suspirou, um som pequeno e triste que fez Emanuel franzir o cenho. — Mas eu ando tão preocupada com você.
Emanuel girou a cadeira para encará-la, pegando as mãos dela entre as suas.
— Preocupada por quê?
— Você está tão exausto — disse ela, inclinando a cabeça e deixando uma mecha de cabelo castanho cair sobre o rosto. — Eu vejo como seu braço treme um pouco depois de um dia longo. Essa viagem deveria ser para você descansar, para você se reconectar com o seu silêncio.
— É exatamente por isso que estamos indo, Duda. Nós três.
Eduarda desviou o olhar, fazendo um biquinho manhoso e apertando levemente os dedos dele.
— Eu sei... e eu amo a Sara, de verdade — a mentira saiu de seus lábios com uma suavidade angelical —, mas você sabe como ela é elétrica. Ela já está falando em levar caixas de som, convidar amigos que moram perto da costa para passarem de barco, fazer festas... Eu fico com medo de que você saia de lá mais cansado do que chegou.
Emanuel soltou um suspiro longo. Ele conhecia bem o "modo furacão" de Sara. A ideia de ter batidas de música eletrônica ecoando em uma ilha paradisíaca começou a parecer menos atraente.
— Eu vou falar com ela, Duda. Vou dizer que é uma viagem de descanso.
— Você acha que ela escuta, Manu? — Eduarda sentou-se no colo dele, aninhando-se como um gato que busca calor. — Ela é tão cheia de vida, tão... intensa. Ela não entende o seu momento de introspecção como eu entendo. Às vezes, eu sinto que ela te consome em vez de te nutrir.
Ela começou a traçar os contornos de uma tatuagem no antebraço dele com a ponta do dedo, um toque leve que causava arrepios.
— Se fosse só nós dois — continuou ela, a voz baixíssima, quase um segredo —, eu cuidaria de cada detalhe. Eu faria massagens em suas mãos todas as noites para aliviar a tensão das agulhas. Nós poderíamos ler, nadar à meia-noite sem ninguém gritando ou postando stories no Instagram a cada cinco minutos. Seria o seu santuário, Manu. Mas com a Sara... você sabe que o santuário vira um palco.
Emanuel sentiu uma pontada de dúvida. Eduarda era a paz que ele buscava; Sara era a adrenalina que ele muitas vezes cobiçava, mas que, naquele momento de estafa mental, parecia um fardo.
Nesse momento, a porta do quarto se abriu com um estrondo. Sara saiu desfilando, usando um salto agulha e um biquíni de fita isolante decorado com cristais, segurando uma garrafa de gim.
— Manu! Olha isso! — gritou ela, ignorando completamente o clima íntimo entre os dois. — Já mandei mensagem para o DJ Kox, ele disse que pode levar a lancha dele com o equipamento de som no sábado! Vai ser a maior rave particular daquele litoral!
Emanuel sentiu uma dor de cabeça instantânea latejar em suas têmporas. O contraste entre a doçura silenciosa de Eduarda em seu colo e a vulgaridade barulhenta de Sara na sua frente nunca fora tão gritante.
— Sara, eu não quero DJ na ilha — disse Emanuel, a voz ríspida. — Eu quero silêncio.
— Ai, Manu, não seja um velho rabugento! — Sara revirou os olhos e deu um gole direto na garrafa. — Silêncio a gente tem aqui no loft quando essa daí fica lendo esses livros chatos. Na ilha, a gente tem que causar! Eu já até encomendei fogos de artifício.
Eduarda se encolheu levemente no colo de Emanuel, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Viu? — sussurrou ela, apenas para ele ouvir. — Ela já decidiu por você. Ela sempre decide por você.
Emanuel sentiu o sangue subir. O controle era algo que ele não cedia facilmente, e a presunção de Sara estava atingindo o limite de sua paciência.
— Sara, eu ainda não decidi nada sobre convidados — Emanuel disse, levantando-se e colocando Eduarda de pé com delicadeza. — E, sinceramente, estou começando a achar que seus planos não batem com o que eu preciso agora.
— Ah, pronto! — Sara colocou as mãos nos quadris, fazendo o silicone do busto saltar. — Já vai dar ouvidos para a "santinha"? Ela quer te transformar em um monge, Emanuel! Você é um artista, você é rico, você é o cara! Você nasceu para o brilho, não para ficar ouvindo o barulho das ondas com uma garota que tem medo da própria sombra.
Eduarda não respondeu. Ela apenas caminhou até a cozinha, com os ombros caídos, parecendo a imagem da fragilidade ferida. Ela começou a preparar um chá, mantendo-se de costas, mas garantindo que Emanuel visse o tremor em suas mãos.
Emanuel seguiu Eduarda com o olhar, sentindo uma onda de proteção avassaladora.
— Sara, chega — Emanuel sentenciou. — Vá desfazer essa mala.
— O quê? Você está brincando, né?
— Vá. Desfazer. A mala — repetiu ele, cada palavra como um golpe de martelo. — Eu vou pensar se essa viagem é uma boa ideia para você.
Sara soltou um palavrão pesado e marchou de volta para o quarto, batendo a porta com tanta força que os quadros na parede tremeram.
Emanuel caminhou até a cozinha e abraçou Eduarda por trás. Ela se virou nos braços dele, com os olhos castanhos marejados.
— Eu estraguei tudo, não foi? — perguntou ela, a voz embargada. — Eu só queria que você fosse feliz, Manu. Se você quiser levar a Sara e os amigos dela, tudo bem... eu fico aqui com o Artie. Eu não quero ser um peso para você.
— Você nunca é um peso, Duda — disse ele, beijando a testa dela. — Você é a única coisa que me mantém equilibrado.
— É que... eu fico com medo — ela continuou, manhosamente passando as mãos pela nuca dele. — Medo de que, no meio de tanto barulho e de tantas pessoas que a Sara quer atrair, você se esqueça de como é bom estarmos só nós dois. Eu sinto que estou perdendo você para o mundo dela. E meu pai... ele me perguntou se eu estava feliz. Eu não soube o que responder, porque eu te amo, mas eu me sinto tão pequena perto dela.
Ouvir o nome de Ricardo foi o toque final. Emanuel sabia que se Eduarda chegasse ao pai com aquela tristeza, sua vida se tornaria um inferno novamente. Ele precisava garantir a felicidade de Eduarda, e a felicidade dela, naquele momento, era o silêncio.
— Escute — Emanuel disse, tomando uma decisão súbita. — Eu vou para o estúdio agora resolver umas pendências. Amanhã cedo, o helicóptero vai estar pronto.
— Para nós três? — perguntou ela, com uma esperança fingida.
— Não — Emanuel suspirou, sentindo o peso da decisão. — Eu vou conversar com a Sara. Vou dizer que ela precisa de um tempo para esfriar a cabeça aqui na cidade. Vou deixar o cartão com ela, ela pode fazer a festa que quiser no clube, mas na ilha... na ilha eu só quero você.
Eduarda escondeu um sorriso vitorioso no peito dele.
— Você tem certeza, Manu? Ela vai ficar tão brava...
— Eu aguento a braveza dela depois. Agora, eu só quero paz. E só você me dá isso.
Emanuel saiu do loft pouco depois, precisando de espaço para processar a briga que teria com Sara na manhã seguinte. Assim que a porta se fechou, a postura de Eduarda mudou. Ela não estava mais encolhida ou trêmula. Ela caminhou até o quarto de Sara e bateu na porta.
Sara abriu, ainda furiosa.
— O que você quer, sua sonsa? Veio comemorar?
Eduarda sorriu, um sorriso calmo e gélido que Sara raramente via.
— Só vim te dar um conselho, Sara. O Manu está exausto. Se você continuar gritando e exigindo festas, você só vai empurrá-lo mais para perto de mim. Ele não quer uma estrela de pornochanchada agora; ele quer uma mulher que saiba ouvir o silêncio dele.
— Você acha que ganhou, né? — Sara avançou um passo, mas Eduarda não recuou.
— Eu não acho. Eu sei. Amanhã, eu estarei em uma ilha particular, sendo massageada pelo homem que você acha que controla. E você estará aqui, gastando o dinheiro dele para tentar esquecer que, no fundo, ele tem vergonha do seu barulho.
— Sua cadela... — Sara levantou a mão, mas Eduarda a segurou pelo pulso com uma força surpreendente.
— Meu pai está observando, Sara. Se você me tocar, ou se você fizer um escândalo amanhã quando ele disser que você não vai, eu garanto que o Ricardo vai transformar a sua vida e a da sua mãe em um inferno jurídico que nem o Emanuel vai conseguir te tirar.
Eduarda soltou o pulso de Sara e deu as costas, voltando para a sala. Ela pegou o gato Artie no colo e sentou-se na poltrona, voltando a ler seu livro sobre a Renascença.
Na manhã seguinte, o loft foi palco de uma das maiores explosões temperamentais da história daquele relacionamento. Sara gritou, quebrou um vaso de cristal e chamou Emanuel de todos os nomes possíveis quando ele confirmou que ela não iria para a ilha.
— Você está me trocando por essa... essa mosca morta?! — berrava Sara, enquanto Emanuel terminava de fechar sua mala de mão.
— Eu não estou trocando ninguém, Sara. Estou escolhendo a minha saúde mental — Emanuel disse, mantendo a calma absoluta. — Você tem o loft, tem o cartão e tem a cidade. Divirta-se. Eu volto em três dias.
Eduarda apareceu no corredor, vestida com um conjunto de linho branco, simples e elegante. Ela não olhou para Sara. Ela apenas caminhou até Emanuel e pegou o braço dele, apoiando-se de forma dependente e carinhosa.
— Vamos, Manu? O piloto avisou que o tempo está abrindo.
— Vamos, pequena.
Enquanto caminhavam para o elevador, Sara gritava obscenidades da porta, mas Emanuel nem sequer olhou para trás. Ele estava focado no toque suave de Eduarda em seu braço e na promessa de paz que ela representava.
No helicóptero, o barulho das hélices abafava qualquer pensamento sobre o caos deixado para trás. Emanuel olhava para o horizonte, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, como se estivesse no comando de sua própria vida novamente.
Eduarda aproximou-se do ouvido dele, aproveitando a proximidade dos fones de comunicação.
— Obrigada por me escolher, Manu — sussurrou ela, com a voz carregada de uma manha irresistível. — Eu vou fazer com que esses três dias sejam os melhores da sua vida. Você nunca mais vai querer que outra pessoa estrague o nosso silêncio.
Emanuel sorriu e apertou a mão dela. Ele acreditava em cada palavra. Ele não via a rede que fora tecida ao seu redor, fio por fio, com a delicadeza de uma seda que, embora macia, era tão forte quanto o aço.
Ao chegarem à ilha, o cenário era de fato paradisíaco. Uma casa de vidro e madeira perfeitamente integrada à natureza, uma praia de areia branca e o azul infinito do mar. Não havia DJs, não havia fogos de artifício, não havia o cheiro de gim e cigarro eletrônico que Sara sempre carregava consigo.
Havia apenas o som do vento e o olhar atento de Eduarda.
Naquela primeira noite, enquanto jantavam à luz de velas no terraço, Emanuel sentiu-se completamente revigorado. Eduarda cumpriu sua promessa: ela massageou suas mãos, ouviu seus planos para o futuro sem interromper e manteve uma aura de adoração que alimentava o ego dele de uma forma que Sara nunca conseguira.
— Você é perfeita, Duda — murmurou ele, enquanto observavam a lua se refletir no mar. — Eu não sei como pude pensar em trazer o caos para cá.
— Eu só quero o seu bem, Manu — respondeu ela, aninhando-se no peito dele. — Eu sei o que você precisa, mesmo quando você mesmo esquece.
Longe dali, no loft em São Paulo, Sara tentava organizar uma festa para preencher o vazio e a humilhação, mas cada vez que olhava para o lado vazio da cama de Emanuel, ela sentia que estava perdendo a guerra. A vulgaridade era uma arma de impacto, mas a manha de Eduarda era uma estratégia de cerco.
Na ilha, Eduarda observava Emanuel adormecer em seus braços. Ela sabia que, quando voltassem, Sara tentaria recuperar o território perdido com sexo e escândalos. Mas Eduarda não estava preocupada. Ela agora possuía algo que Sara nunca teria: a gratidão de um homem que encontrara sua paz nela.
Ela acariciou o rosto de Emanuel, o toque leve como uma brisa, mas possessivo como uma corrente.
— Só nós dois, Manu — sussurrou ela para a escuridão da ilha. — Exatamente como deveria ser.
O Canto da Sereia havia funcionado. Emanuel estava naufragado em um mar de doçura, e ele não tinha a menor intenção de ser resgatado. Pela primeira vez, a menina tímida e manhosa não estava apenas habitando o mundo de Emanuel; ela estava, silenciosamente, redesenhando as fronteiras dele. E, naquela ilha particular, ela era a única lei.