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Entre o Fogo e o Orvalho
A manhã na Ilha Bela nasceu com uma claridade impiedosa, mas o clima dentro da mansão de Emanuel estava longe de ser solar. Emanuel, acostumado a ditar as regras em seus estúdios e a ter o controle absoluto de suas finanças e funcionários, sentia uma irritação latente latejar em suas têmporas. O motivo tinha nome, sobrenome e uma superproteção irritante: Lucas.
Desde o café da manhã, Lucas agia como um escudo humano. Se Eduarda ia para a varanda ler um livro de História da Arte, Lucas estava lá, oferecendo um suco. Se ela decidia molhar os pés na beira da piscina, Lucas se sentava na espreguiçadeira ao lado. Emanuel, que tentava a todo custo encontrar uma brecha para se aproximar daquela presença suave e manhosa, era constantemente bloqueado pelo olhar vigilante do amigo.
— Cara, você não tem mais nada para fazer? — Emanuel perguntou, encostado no balcão da cozinha externa, observando Lucas ajudar Eduarda a ajustar o guarda-sol.
— Tenho. Cuidar da minha irmã — Lucas respondeu sem desviar os olhos da tarefa. — Conheço o gado que frequenta a sua casa, Manu. A Duda não é pro bico dessa gente.
Emanuel apertou o copo de café, o maxilar trincado. Ele não se considerava "essa gente", mas a proteção de Lucas o colocava no mesmo saco que os outros amigos que bebiam e falavam alto ao redor da piscina.
Eduarda, sentada na sombra, usava um biquíni de crochê em tom de lavanda, delicado demais para os padrões de ostentação do lugar. Por cima, uma saída de praia de renda que revelava apenas o suficiente para incendiar a imaginação de Emanuel. Ela parecia alheia à tensão, folheando um livro grosso sobre o Renascimento, mas Emanuel notava como ela encolhia os ombros toda vez que Sara passava por perto com suas amigas.
Sara não estava sozinha. Duas de suas amigas, tão siliconadas e barulhentas quanto ela, haviam chegado para passar o dia. Elas formavam um bloco de cores neon, risadas estridentes e cheiro forte de perfume importado misturado com bronzeador.
— Ai, gente, olha aquilo — sussurrou Vanessa, uma das amigas de Sara, apontando discretamente para Eduarda. — Ela parece que saiu de um convento. Emanuel, onde você arrumou essa relíquia?
— É irmã do Lucas — Emanuel respondeu curto, seus olhos fixos em Eduarda, que agora mordia o lábio inferior, concentrada na leitura.
— Ela é tão... apagadinha — comentou a outra amiga, rindo. — Deve ser um tédio conversar com alguém assim.
Sara, que retocava o batom vermelho enquanto se olhava em um espelho de mão, deu um sorriso de lado, carregado de veneno.
— É o charme da "santinha", meninas. Elas fingem que não sabem de nada pra ver se algum homem cai na rede por pena. Mas relaxem, o Emanuel gosta de mulher de verdade, não de boneca de porcelana que quebra no primeiro toque.
Emanuel ouviu, mas não disse nada. O conflito interno o corroía. Ele sentia o desejo carnal por Sara, a familiaridade do corpo dela, a segurança de saber exatamente como ela reagiria a um toque seu. Mas o contraste com Eduarda era magnético. Ele queria saber se a pele de Eduarda era tão macia quanto parecia, queria ouvir aquela voz manhosa sussurrar seu nome em um ambiente sem gritos. Ele queria o silêncio dela tanto quanto queria o barulho de Sara.
A tensão atingiu o ápice no meio da tarde. Todos estavam reunidos na área gourmet. A música eletrônica batia forte nas caixas de som, e o álcool já começava a fazer efeito no grupo de Sara. Eduarda, sentindo-se sufocada pela energia caótica, fechou o livro e tentou se levantar para entrar na casa.
— Vai a algum lugar, princesinha? — Sara bloqueou o caminho dela, segurando uma taça de espumante. — A conversa está ruim para os seus ouvidos puros?
Eduarda parou, os olhos grandes e expressivos fixos no chão. Ela apertou o livro contra o peito, um gesto clássico de defesa.
— Eu só... eu só ia buscar um copo de água — murmurou ela, a voz tão baixa que quase sumiu sob a música.
— Tem água bem aqui, querida — Sara apontou para o cooler, com um sorriso irônico. — Ou será que você precisa que o seu irmão ou o meu namorado busquem para você? Notei que você adora fazer essa pose de coitadinha para os homens ficarem em cima.
— Eu não faço pose... — Eduarda disse, a voz trêmula, os olhos começando a brilhar com lágrimas contidas.
— Faz sim. Esse jeito de "me protejam porque eu sou sensível" é a coisa mais velha do mundo — Sara deu um passo à frente, a presença física imponente, o corpo esculpido e marcado pelo biquíni minúsculo confrontando a fragilidade de Eduarda. — Você é formada em História da Arte, não é? Deve ser por isso que é tão parada. Parece uma estátua. Uma estátua sem graça.
— Sara, chega — Emanuel interveio, dando um passo à frente, mas foi interrompido por Lucas, que se colocou entre a irmã e a loira.
Lucas estava vermelho de raiva. Ele sempre fora calmo, mas mexer com Eduarda era o seu limite.
— Escuta aqui, Sara — Lucas disse, a voz baixa e perigosa. — Eu tentei ser educado por causa do Emanuel, mas você não se enxerga.
— O quê? Eu só estou brincando com ela! — Sara riu, olhando para as amigas em busca de apoio.
— Não, você está sendo uma invejosa — Lucas disparou, e o silêncio caiu sobre o deck como uma cortina pesada. — A minha irmã não tem culpa se você é burra e precisa se comportar igual a uma prostituta para ter atenção de alguém. A Duda tem classe, tem cérebro e tem uma doçura que você nunca vai ter, não importa quanto silicone coloque nesse corpo.
O impacto das palavras foi imediato. Sara empalideceu, a boca aberta em choque, enquanto suas amigas recuavam um passo. Ela olhou para Emanuel, esperando que ele a defendesse, que ele calasse o amigo, que ele expulsasse Lucas e Eduarda daquela casa.
Emanuel, porém, permaneceu em silêncio.
Ele estava encostado na pilastra de madeira, os braços cruzados sobre o peito tatuado. Seus olhos não estavam em Sara, nem em Lucas. Eles estavam fixos em Eduarda.
Eduarda estava tremendo levemente. Ela parecia querer desaparecer, mas ao mesmo tempo, ao ouvir a defesa do irmão, ela levantou o rosto por um breve segundo. Seus olhos encontraram os de Emanuel. Foi um olhar de socorro, de vulnerabilidade pura, mas também de uma conexão profunda. Emanuel sentiu uma onda de possessividade o atingir com tanta força que ele quase perdeu o fôlego. Ele não queria apenas protegê-la; ele queria tirá-la dali, levá-la para um lugar onde ninguém pudesse gritar com ela, e mantê-la sob sua guarda para sempre.
— Emanuel! — Sara gritou, a voz estridente de indignação. — Você vai deixar ele falar assim comigo? Na sua casa?
Emanuel finalmente desviou o olhar de Eduarda para Sara. Sua expressão era gélida, a face de um homem que estava perdendo a paciência com o caos que ele mesmo permitira.
— O Lucas exagerou nas palavras — Emanuel disse, a voz seca. — Mas você começou, Sara. Eu te avisei para respeitá-la.
— Você está defendendo eles? — Sara estava incrédula. — Depois de tudo o que ele me chamou?
— Eu estou dizendo que ninguém aqui é santo — Emanuel caminhou até o centro do grupo. Ele parou perto de Eduarda, sentindo o calor suave que emanava dela. — Eduarda, você está bem?
Ela assentiu com a cabeça, mas uma lágrima solitária escapou e rolou por sua bochecha clara. Sem pensar nas consequências, sem se importar com o olhar furioso de Sara ou o olhar desconfiado de Lucas, Emanuel estendeu a mão e, com o polegar, secou a lágrima no rosto da garota.
O toque foi breve, mas eletrizante. A pele de Eduarda era ainda mais macia do que ele imaginara. Ela estremeceu sob o toque dele, e um pequeno som, quase um suspiro manhoso, saiu de seus lábios.
— Vem, Lu — Eduarda sussurrou, puxando a camisa do irmão. — Eu quero ir para o quarto.
— É o melhor que você faz, Duda — Lucas disse, lançando um último olhar de desprezo para Sara antes de guiar a irmã para dentro.
Emanuel ficou parado, observando-os sair. O cheiro de Eduarda — algo suave como baunilha e flores frescas — ainda pairava no ar, contrastando com o perfume doce e enjoativo de Sara.
— Eu não acredito nisso — Sara disse, jogando a taça de espumante no chão. O cristal se estilhaçou, espalhando líquido e cacos por todo o deck. — Você tocou nela. Você olhou para ela como se... como se ela fosse algo especial!
— Chega de escândalo, Sara — Emanuel disse, a voz carregada de uma autoridade que a fez recuar. — Vá para o quarto e se acalme. Ou pegue suas coisas e volte para a cidade. Eu não vou tolerar mais baixaria hoje.
Sara bufou, as narinas dilatadas, mas o tom de Emanuel não deixava margem para discussão. Ela deu um pisão no chão e saiu em direção à suíte principal, seguida pelas amigas que cochichavam nervosas.
Emanuel ficou sozinho na área gourmet. O sol começava a se pôr, pintando o céu de tons de roxo e laranja. Ele se sentou em uma das banquetas e serviu-se de uma dose generosa de uísque puro.
Sua mente era um campo de batalha. Ele sentia o sangue ferver de raiva por Lucas ter chamado sua namorada daquilo, mas, no fundo, uma parte racional e fria de seu ser concordava. Sara era vulgar. Ela era o excesso. E ele a amava por isso, amava a facilidade daquele relacionamento baseado em atração e status.
Mas Eduarda... Eduarda era o detalhe. Ela era a arte que ele passava horas tatuando com agulhas finas, o trabalho que exigia paciência, cuidado e silêncio.
— Ela não vai sair da minha cabeça, vai? — ele murmurou para si mesmo, observando o horizonte.
Ele a queria. E ele sabia que, para ter Eduarda, ele teria que enfrentar Lucas e domar o furacão que era Sara. O pensamento de ter as duas morando com ele, de ter o fogo de Sara à noite e a doçura manhosa de Eduarda pela manhã, começou a tomar forma em sua mente de forma obsessiva.
Emanuel era um homem de negócios. Ele sabia que tudo tinha um preço. E ele estava disposto a pagar qualquer valor para não ter que escolher entre o seu vício e a sua nova cura.
Mais tarde naquela noite, o corredor da casa estava silencioso. Emanuel caminhava em direção ao seu quarto quando viu a porta da suíte azul entreaberta. Ele parou. O som de um choro baixo e abafado vinha lá de dentro.
Ele empurrou a porta devagar. Eduarda estava sentada na beira da janela, abraçada aos próprios joelhos, olhando para o mar lá fora. Ela usava um pijama de seda clara que parecia grande demais para seu corpo esguio.
— Eduarda? — ele chamou suavemente.
Ela se assustou, limpando o rosto rapidamente com as mãos.
— Emanuel... desculpa, eu já estava indo dormir.
— Não precisa se desculpar — ele entrou no quarto, fechando a porta atrás de si. O ambiente cheirava a ela. — Eu só queria ver se você estava melhor. O que o Lucas disse... foi pesado. E o que a Sara fez foi imperdoável.
Eduarda olhou para ele, e a luz da lua refletida em seus olhos a tornava quase irreal.
— Eu não gosto de briga — ela disse, a voz manhosa e carregada de emoção. — Eu me sinto pequena quando as pessoas gritam.
Emanuel se aproximou, parando a poucos passos dela. Ele era muito maior, mais forte, uma presença imponente que normalmente a assustaria, mas ali, naquele momento, Eduarda sentiu uma segurança estranha emanando dele.
— Você não é pequena, Eduarda — ele disse, a voz grave e firme. — Você é a coisa mais preciosa que entrou nesta casa em muito tempo.
Ela baixou o olhar, as bochechas corando intensamente.
— Você não devia falar assim. A Sara é sua namorada.
— A Sara é a Sara — Emanuel deu mais um passo, reduzindo a distância entre eles. — E você é você.
Ele estendeu a mão e acariciou o cabelo castanho dela, sentindo a textura sedosa dos fios. Eduarda não recuou. Pelo contrário, ela inclinou levemente a cabeça em direção ao toque dele, como um gato buscando carinho. Era aquele jeito manhoso, aquela necessidade de proteção que desarmava Emanuel completamente.
— Eu quero que você se sinta em casa aqui — ele sussurrou, os olhos fixos nos lábios dela. — Eu não vou deixar ninguém, nem mesmo a Sara, te magoar de novo. Entendeu?
Eduarda assentiu, olhando para ele com uma mistura de medo e fascínio.
— Obrigada, Emanuel.
— Manu — ele corrigiu, dando um sorriso raro e genuíno. — Me chama de Manu.
— Manu... — ela repetiu, e o som do nome dele saindo daquela boca pequena foi a coisa mais erótica e doce que ele já ouvira.
Emanuel sabia que estava cruzando uma linha perigosa. Ele ainda podia ouvir o som dos passos de Sara no andar de cima, mas ali, no silêncio do quarto azul, ele só conseguia pensar em como faria para que Eduarda nunca mais saísse de sua vida.
Ele a queria. Ele a teria. E Sara teria que aprender a dividir o trono, ou o incêndio seria inevitável. Mas, olhando para a fragilidade de Eduarda sob o luar, Emanuel decidiu que valeria a pena queimar o mundo inteiro só para mantê-la em seus braços.