Voltar ao resumo

D

O Sangue, a Lama e o Doce Refúgio

O ronco dos motores de 450 cilindradas ecoava pelo vale como um trovão metálico, rasgando o silêncio da trilha fechada. Emanuel sentia a adrenalina pulsar em suas veias, um dos poucos momentos em que a pressão de gerenciar seus estúdios de tatuagem e o caos de sua vida amorosa pareciam desaparecer sob a lama e o suor. Nas últimas semanas, sua mente havia se tornado um labirinto. Ele ainda voltava para casa e encontrava o corpo escultural de Sara, suas exigências barulhentas e seu amor possessivo, mas seu coração fugia, invariavelmente, para a imagem de Eduarda.

Ele tinha passado o último mês em uma perseguição silenciosa. Mensagens curtas, flores entregues na faculdade de História da Arte, visitas "casuais" à casa de Lucas. Eduarda, com seu jeito manhoso e tímido, parecia sempre prestes a se assustar, mas seus olhos brilhavam toda vez que o via. Emanuel estava viciado naquele contraste: a intensidade carnal de Sara e a pureza etérea de Eduarda. Ele queria as duas, e a ideia de abrir mão de qualquer uma delas parecia impossível.

— Ei, Manu! Concentra no terreno! — gritou Lucas, passando à frente com sua moto, levantando uma nuvem de terra úmida.

Emanuel deu um sorriso de lado sob o capacete e acelerou. Ele queria ultrapassar o amigo, mostrar que ainda era o melhor, mesmo com a cabeça nas nuvens. Foi em uma curva fechada, onde a raiz de uma árvore centenária se projetava traiçoeiramente para fora da terra, que o desastre aconteceu.

A roda dianteira travou. A moto de Emanuel deu um solavanco violento, jogando o corpo dele para o alto. Por um segundo, ele sentiu o peso da gravidade desaparecer, antes de ser arremessado contra um barranco de pedras. O som do impacto foi seco, seguido pelo silêncio súbito do motor que morreu.

— Emanuel! — Lucas freou bruscamente, derrapando na lama.

Emanuel estava caído de costas, a perna direita presa sob o metal quente da moto e o braço esquerdo em um ângulo que claramente não era natural. Ele tentou respirar, mas o ar parecia ter se transformado em chumbo nos seus pulmões.

— Cara, não se mexe! Puta merda, Emanuel! — Lucas correu até ele, tirando o capacete e jogando-o de qualquer jeito no chão.

— Lu... — Emanuel tossiu, sentindo o gosto metálico de sangue na boca. Sua visão estava começando a escurecer nas bordas, e a dor, que antes era um choque, agora vinha em ondas lancinantes. — Eu... eu acho que dessa vez eu quebrei o motor.

— Para de piada, idiota! Você tá sangrando muito na cabeça — Lucas estava pálido, as mãos tremendo enquanto tentava estabilizar o amigo. — Vou chamar o resgate. Aguenta firme, mano.

Emanuel fechou os olhos por um momento. O pânico começou a se instalar, mas não era o medo da morte que o dominava, e sim uma necessidade súbita e desesperada de ver um rosto específico.

— Lucas... — Emanuel segurou a mão do amigo com a força que lhe restava. — Escuta... eu tô indo, cara. Eu tô sentindo... o túnel tá chegando.

— Que túnel o quê, imbecil! É só uma fratura, para de drama! — Lucas gritou, embora o suor frio em sua testa denunciasse seu próprio pavor.

— Não... eu tô nas últimas — Emanuel disse com uma voz arrastada, meio dramática, meio delirante pela dor. — Se eu morrer... eu preciso ver a Duda. Traz ela... traz ela no hospital. Eu não posso partir sem ver aqueles olhos de novo... por favor, Lu. É o último desejo de um homem caído.

Lucas olhou para o amigo, dividido entre a irritação pelo drama e a preocupação real com o estado dele. Emanuel era um homem forte, vê-lo ali, coberto de lama e sangue, falando em "partir", abalou as estruturas do irmão de outra mãe.

— Tá bom, seu desgraçado! Eu trago ela! Mas você não vai morrer, tá ouvindo? Se você morrer, eu te mato de novo!

O resgate chegou vinte minutos depois. Emanuel foi imobilizado e levado às pressas para o hospital particular mais próximo. Lucas, cumprindo a promessa feita no calor do desespero, nem passou em casa para se limpar. Ele ligou para Eduarda, sua voz saindo rouca e urgente.

— Duda? Se arruma. O Emanuel sofreu um acidente feio. Ele tá pedindo por você. Eu tô passando aí agora.

No hospital, o clima era de tensão. Emanuel havia sido levado para a sala de trauma. Ele tinha uma fratura exposta no rádio e na ulna, três costelas trincadas e um corte profundo no supercílio que exigia vários pontos. Mas, assim que foi estabilizado e transferido para um quarto privativo, sua primeira pergunta para a enfermeira foi:

— Ela já chegou?

— Sua namorada? Sim, uma moça loira está lá fora criando um escândalo no corredor — respondeu a enfermeira, ajustando o soro.

Emanuel fechou os olhos e suspirou. Sara. Ele sabia que ela viria como um furacão.

— Não... a outra. A pequena.

Antes que a enfermeira pudesse responder, a porta do quarto foi escancarada. Sara entrou como uma força da natureza, usando um conjunto de seda justo que atraía todos os olhares do hospital. Seus olhos estavam vermelhos de choro, mas sua postura era de puro ataque.

— Emanuel! Meu Deus, você quer me matar do coração? — Ela se jogou sobre a cama, ignorando os avisos de cuidado. — Eu recebi a ligação do estúdio! Como você faz isso comigo? Aquelas motos malditas!

— Cuidado, Sara... as costelas — Emanuel gemeu, tentando se afastar da pressão dos seios dela contra seu peito ferido.

— Eu estava desesperada! — Ela se afastou um pouco, retocando o rímel borrado com o dedo. — Mas agora eu estou aqui. Eu vou cuidar de você. Já avisei que não quero nenhuma daquelas enfermeiras engraçadinhas entrando aqui sem a minha permissão.

Emanuel ia responder, mas o som de batidas leves na porta o fez congelar. Lucas entrou primeiro, ainda sujo de lama, e logo atrás dele, encolhida como se quisesse se fundir à parede, estava Eduarda.

Ela usava um vestido simples de algodão azul-bebê e segurava uma pequena caderneta contra o peito. Seus olhos estavam arregalados, úmidos, e quando ela viu Emanuel enfaixado e pálido, soltou um soluço baixo que partiu o coração do tatuador.

— Manu... — ela sussurrou, a voz saindo tão manhosa e doce que o ambiente pareceu esfriar dez graus instantaneamente por causa do olhar de Sara.

— Duda... você veio — Emanuel disse, ignorando completamente a presença de Sara ao seu lado. Ele estendeu a mão boa na direção dela. — Chega mais perto.

Eduarda deu um passo hesitante, mas parou ao sentir o campo de força de ódio que emanava de Sara.

— O que ela está fazendo aqui? — Sara disparou, levantando-se da cadeira como se estivesse pronta para um combate físico. — Lucas, você perdeu o juízo? Isso aqui é um hospital, não é uma creche para sua irmãzinha sonsa vir brincar de enfermeira.

— Cala a boca, Sara! — Lucas rosnou, cruzando os braços. — O Emanuel pediu por ela. Ele achou que ia morrer e a única coisa que ele falava era o nome da Duda.

O rosto de Sara passou de vermelho para um tom de púrpura perigoso. Ela olhou para Emanuel, esperando uma negação, mas ele apenas mantinha os olhos fixos em Eduarda.

— É verdade, Sara — Emanuel disse, a voz cansada, mas decidida. — Eu precisava ver a Eduarda.

— Você precisava ver essa... essa mosca morta? — Sara gritou, apontando o dedo para a garota. — Eu sou sua namorada! Eu sou a mulher que está com você todos os dias! E você pede por ela?

Eduarda começou a tremer. Ela se apoiou no braço de Lucas, escondendo o rosto no ombro do irmão.

— Lu... eu quero ir embora... a moça está brava — sussurrou ela, com aquele jeito de criança perdida que despertava em Emanuel um instinto de proteção quase violento.

— Você não vai a lugar nenhum, Duda — Emanuel ordenou, tentando se sentar na cama, o que lhe custou uma careta de dor. — Sara, saia do quarto. Agora.

— O quê? Você está me expulsando? — Sara estava incrédula.

— Você está fazendo um escândalo e a Eduarda está assustada. Sai, toma um café, se acalma. Depois a gente conversa.

— Isso não vai ficar assim, Emanuel! — Sara pegou sua bolsa de grife do chão, os olhos faiscando. — Você prefere essa santinha de pau oco? Pois fique com ela! Vamos ver quanto tempo você aguenta esse tédio!

Ela saiu batendo a porta com tanta força que o quadro na parede tremeu. O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pela respiração descompassada de Eduarda.

— Desculpa... eu não queria causar problema — disse Eduarda, aproximando-se da cama com passos curtos e silenciosos.

— O problema não é você, pequena — Emanuel disse, sua voz suavizando de uma forma que ele nunca usava com ninguém. — Vem aqui. Senta perto de mim.

Lucas pigarreou, claramente desconfortável com a cena.

— Eu vou lá fora garantir que a Sara não quebre o hospital — disse ele, lançando um olhar de aviso para Emanuel. — Dez minutos, Manu. Só dez minutos.

Quando Lucas saiu, o quarto pareceu diminuir de tamanho. Eduarda sentou-se na beirada da poltrona ao lado da cama, tocando timidamente a ponta dos dedos de Emanuel.

— Eu fiquei com tanto medo... o Lu disse que você estava morrendo — ela disse, e uma lágrima caiu sobre a mão dele.

— Eu exagerei um pouco — ele admitiu com um sorriso fraco. — Eu só queria ter certeza de que você viria. Eu precisava sentir que você estava por perto, Duda. Sua paz me faz bem.

Eduarda inclinou a cabeça, o cabelo castanho caindo sobre o rosto. Ela se inclinou e, de forma muito lenta e manhosa, encostou a testa no ombro dele, evitando as bandagens.

— Você é muito teimoso, Manu. Não faz mais isso. Eu não ia saber o que fazer se... se você sumisse.

Emanuel sentiu o perfume de baunilha dela e, por um momento, a dor das costelas desapareceu. Ele a queria ali, não apenas por dez minutos, mas para sempre. Ele queria que ela estivesse em sua casa, lendo seus livros de arte enquanto ele desenhava novas tatuagens. Mas ele também sabia que, assim que saísse daquela cama, Sara estaria esperando por ele com seu fogo e suas garras.

Ele fechou os olhos, aproveitando o contato delicado de Eduarda. O conflito em seu peito era tão real quanto as fraturas em seu corpo. Ele amava a vida que tinha com Sara, a adrenalina, o sexo selvagem, a presença marcante. Mas ele estava perdidamente encantado pela fragilidade de Eduarda, pela forma como ela precisava dele, pela doçura que parecia curar suas feridas mais profundas.

— Você vai ficar bem? — ela perguntou, levantando o rosto e olhando-o com aquela expressão de vulnerabilidade que o desarmava.

— Agora que você está aqui, eu vou — ele respondeu, puxando-a para um beijo casto na testa. — Mas eu vou precisar de muita atenção quando sair daqui. Você vai cuidar de mim, Duda?

— Vou... — ela sussurrou, fazendo um biquinho manhoso. — Mas o Lu não pode saber. Ele diz que você é perigoso.

Emanuel deu uma risada curta, que terminou em um gemido de dor.

— Ele está certo, pequena. Eu sou perigoso. Especialmente porque eu decidi que não vou deixar você ir embora.

Eduarda não respondeu, apenas sorriu de forma tímida e voltou a se apoiar nele. Do lado de fora, ele podia ouvir os gritos de Sara no corredor e a voz de Lucas tentando contê-la. Emanuel sabia que sua vida estava prestes a se tornar um campo de batalha permanente, mas, enquanto sentia o peso leve de Eduarda contra seu braço, ele decidiu que aceitaria qualquer guerra para manter aquele pedaço de céu e aquele pedaço de inferno sob o mesmo teto.

Ele teria as duas. Ele só precisava sobreviver ao hospital primeiro.