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O Batismo da Inocência e o Pacto das Sombras

A mansão de Emanuel na Ilha Bela parecia ter entrado em um estado de trégua armada. O ar, antes carregado de eletricidade estática e gritos interrompidos, agora possuía uma calmaria densa, quase artificial. Sara, em um movimento que Emanuel sabia ser puramente estratégico, decidira mudar de tática. Ela percebeu que a força bruta e os escândalos só a afastavam do centro do poder. Se Emanuel queria a "santinha", ela permitiria — contanto que ela continuasse sendo a rainha oficial, a mulher que desfilava ao seu lado e administrava sua vida pública.

— Emanuel, querido, eu andei pensando — disse Sara, cruzando as pernas esculturais enquanto se sentava à mesa do café da manhã, usando um robe de seda preta que contrastava com a claridade da manhã. — Se essa menina é tão importante para o seu "equilíbrio", eu não vou mais ser o obstáculo. Vou tentar ser... tolerante.

Emanuel arqueou uma sobrancelha, o copo de suco parado a meio caminho da boca. Ele conhecia Sara há tempo suficiente para saber que aquela docilidade tinha dentes.

— Tolerante, Sara? — Ele deu um sorriso de lado, observador. — Ontem você queria expulsá-la da ilha.

— Ontem eu estava agindo por impulso — ela deu de ombros, pegando um pedaço de fruta com elegância. — Mas eu entendi. Você é um homem de excessos, Manu. Precisa de mim para o fogo e dela para... bom, seja lá para o que serve aquele chá de camomila em forma de gente. Só não espere que eu vire a melhor amiga dela. Ainda acho que ela tem o carisma de uma porta, mas se é o que você quer, eu aceito a "divisão de bens".

Emanuel sentiu um peso sair de seus ombros, embora a desconfiança permanecesse. Ele não precisava que elas se amassem; ele precisava apenas que Sara parasse de tornar a vida de Eduarda um inferno.

— Fico feliz que tenha chegado a essa conclusão — disse ele, levantando-se e beijando a testa da namorada. — Vai ser melhor para todos nós.

A mudança de Sara teve um efeito dominó. Lucas, que observava o desgaste físico e emocional de Emanuel nos últimos meses, começou a ceder. Ele via o amigo, um homem que sempre tivera o controle de tudo, definhar pela falta da irmã. A proteção de Lucas era feroz, mas ele não era cego. Ele via como Eduarda florescia toda vez que o nome de Emanuel era mencionado, e como ela murchava no silêncio da casa deles.

— Escuta aqui, Emanuel — disse Lucas, encontrando o amigo no estúdio de tatuagem no final daquela tarde. — Eu vou afrouxar a corda. A Sara parece ter baixado a guarda, e a Duda... bom, ela não para de perguntar por você. Vou deixar ela passar o próximo fim de semana na sua casa de praia. Mas eu vou junto. Vou ficar na casa de hóspedes.

Emanuel sentiu o coração bater mais forte.

— Obrigado, Lucas. Você não vai se arrepender.

— Eu já estou me arrependendo — resmungou Lucas —, mas prefiro que ela esteja sob meus olhos do que fugindo para te ver escondida.

O fim de semana chegou com uma promessa de calor e intimidade. Eduarda chegou à casa de praia no sábado de manhã, trazendo consigo a mesma cesta de vime e o olhar carregado de uma timidez que parecia ter se tornado ainda mais doce com a saudade.

— Manu! — sussurrou ela, correndo para os braços dele assim que Lucas estacionou o carro.

Emanuel a ergueu do chão, girando-a levemente. O cheiro de baunilha dele a envolveu, e por um momento, o mundo lá fora deixou de existir.

— Senti tanto a sua falta, pequena — disse ele, beijando o topo da cabeça dela.

Sara estava na varanda, observando a cena com um óculos de sol imenso que escondia seus pensamentos. Ela desceu as escadas com um sorriso plástico no rosto.

— Olá, Eduarda. Bem-vinda de volta ao mundo dos vivos — disse Sara, a voz carregada de uma ironia polida. — O Emanuel preparou um quarto para você longe de todo o barulho. Ele é tão... protetor, não é?

Eduarda encolheu-se levemente, segurando a mão de Emanuel com força.

— Oi, Sara. Obrigada.

— Não me agradeça, querida. Estamos todos tentando ser uma grande família feliz agora — Sara deu uma risada curta e voltou para sua espreguiçadeira.

A tarde passou de forma lenta. Lucas saiu para pescar com alguns amigos na marina próxima, deixando Eduarda e Emanuel sozinhos na biblioteca da casa, enquanto Sara dormia sob o efeito de coquetéis à beira da piscina.

— Você está tão quieta, Duda — comentou Emanuel, observando-a folhear um livro de gravuras antigas.

— Eu estou feliz, Manu — ela fechou o livro e sentou-se no colo dele, com aquele jeito manhoso que sempre o desarmava. — Mas eu sinto que... que a Sara ainda não gosta de mim. Eu não quero ser um problema entre vocês.

— Você nunca será um problema — Emanuel acariciou o rosto dela, descendo os dedos pelo pescoço delicado. — A Sara tem o lugar dela, e você tem o seu. E o seu lugar é aqui, comigo.

Ele a beijou, um beijo que começou lento e exploratório, mas que rapidamente ganhou uma urgência que ambos vinham reprimindo há meses. Eduarda soltou um suspiro baixo, entregando-se ao toque dele com uma confiança que Emanuel achava quase sagrada.

— Manu... — murmurou ela entre os beijos —, o Lu não está aqui.

Emanuel parou por um segundo, olhando nos olhos dela. Ele viu o medo, sim, mas viu acima de tudo um desejo profundo de pertencer a ele. Ele a pegou no colo e a levou para o seu quarto particular, um refúgio que nem mesmo Sara costumava frequentar sem convite.

O quarto estava na penumbra, as cortinas de linho balançando suavemente com a brisa do mar. Emanuel a colocou sobre a cama de lençóis brancos, agindo com uma delicadeza que contrastava com sua aparência bruta e tatuada.

— Tem certeza, pequena? — perguntou ele, a voz grave e carregada de emoção. — Eu posso esperar. Eu prometi ao seu irmão que cuidaria de você.

Eduarda estendeu a mão, tocando as tatuagens no braço dele, traçando os desenhos com a ponta dos dedos.

— Cuidar de mim também é isso, Manu — disse ela, a voz trêmula, mas decidida. — Eu quero ser sua. De verdade. Eu não quero mais ser só a menina que você visita.

Emanuel desfez-se de sua camisa, revelando o peito largo e marcado pela arte. Ele se aproximou dela, desabotoando o vestido floral de Eduarda com as mãos trêmulas — algo que ele nunca pensou que aconteceria com um homem da sua experiência.

Quando a pele dela foi revelada, Emanuel sentiu o fôlego escapar. Ela era perfeita, uma escultura de porcelana viva. Os seios médios e macios subiam e desciam com a respiração acelerada. Ele a beijou com uma ternura que beirava a adoração, explorando cada centímetro daquela pele que cheirava a inocência.

— Você é tão linda, Duda — sussurrou ele contra a pele do pescoço dela.

Eduarda se enroscou nele, buscando o calor e a segurança que só Emanuel lhe proporcionava. O toque dele era firme, mas cuidadoso, como se ele estivesse manuseando a obra de arte mais valiosa de sua coleção. Ela sentia cada tatuagem dele contra seu corpo, a textura áspera da pele dele contra a sua suavidade.

— Dói um pouco? — perguntou ela, manhosa, quando ele se posicionou sobre ela.

— Só um pouquinho, no começo — ele beijou a testa dela, secando uma lágrima de nervosismo que escapara. — Relaxa, pequena. Eu estou aqui. Eu nunca vou te machucar.

O momento da união foi um batismo de silêncio e entrega. Emanuel moveu-se com uma paciência infinita, guiado pelos suspiros e pelos apertos de mão de Eduarda. Ele sentia que estava selando um pacto que ia muito além do físico. Eduarda era sua agora, vinculada a ele por uma entrega que ela jamais fizera a outro homem.

Quando o ápice chegou, foi como se o mundo ao redor deles tivesse se dissolvido. Eduarda soltou um grito abafado no ombro dele, e Emanuel a apertou contra si, sentindo uma onda de proteção e posse que o dominou completamente.

Eles ficaram deitados em silêncio por um longo tempo, apenas ouvindo o som das ondas lá fora e a respiração um do outro voltando ao normal.

— Você está bem? — perguntou Emanuel, puxando o lençol para cobri-los.

— Estou maravilhosa — ela sorriu, escondendo o rosto no peito dele, o jeito manhoso retornando com força total. — Eu me sinto... completa agora, Manu.

— Você é minha, Eduarda. Para sempre.

No entanto, a bolha de paz foi levemente arranhada quando, ao saírem do quarto horas depois, encontraram Sara na sala, bebendo uma taça de vinho tinto. Ela olhou para os dois — para o cabelo levemente bagunçado de Eduarda e para o olhar protetor de Emanuel — e deu um sorriso de lado, um sorriso que não chegava aos olhos.

— Ora, ora. Parece que o passarinho finalmente saiu do ninho — disse Sara, levantando a taça em um brinde irônico. — Parabéns, Eduarda. Você agora faz parte do clube das mulheres do Emanuel. Espero que tenha fôlego, porque a vida aqui não é só feita de contos de fadas.

Eduarda baixou o olhar, sentindo o rosto queimar, mas Emanuel não recuou. Ele passou o braço pelos ombros dela, mantendo-a firme ao seu lado.

— Sara, eu não estou de bom humor para suas provocações.

— Ah, relaxa, Manu! Eu disse que ia aceitar, não disse? — Sara levantou-se e caminhou até eles, parando a poucos centímetros de Eduarda. Ela estendeu a mão e ajeitou uma mecha de cabelo da garota, um gesto que parecia uma carícia, mas que tinha o peso de uma ameaça. — Só estou lembrando a ela que, no final do dia, quem conhece os seus demônios sou eu. Ela fica com a sua luz, e eu fico com a sua sombra. É um acordo justo, não acha?

Eduarda não respondeu, mas sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela olhou para Emanuel, buscando conforto, e ele a apertou mais forte.

— A Eduarda tem tudo de mim, Sara. Não tente criar divisões onde não existem.

— Veremos — disse Sara, saindo em direção à piscina com seu rebolado característico.

Naquela noite, durante o jantar, Lucas retornou da pescaria. Ele observou o clima na mesa — o silêncio triunfante de Emanuel, a doçura radiante de Eduarda e a indiferença calculada de Sara. Como um homem que conhecia bem os segredos da natureza humana, ele entendeu o que havia acontecido.

— Emanuel, podemos conversar lá fora? — pediu Lucas, após o café.

Os dois homens foram para o deck, observando a lua refletida no mar escuro.

— Você não conseguiu esperar, não é? — perguntou Lucas, sem olhar para o amigo.

— Ela queria, Lucas. E eu também. Eu não sou um santo, e você sabe disso. Mas eu te dou a minha palavra de que nada mudou. Eu vou cuidar dela mais do que da minha própria vida.

Lucas suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Eu vi o jeito que ela te olhou hoje. Ela te entregou tudo. Se você quebrar o coração dela, Emanuel, eu não vou me importar com o quanto você é rico ou poderoso. Eu vou te destruir.

— Eu sei — respondeu Emanuel, a voz firme. — Mas eu não pretendo quebrá-lo. Eu pretendo guardá-lo.

Emanuel voltou para dentro e encontrou Eduarda esperando por ele no corredor. Ela parecia pequena e frágil sob a luz suave dos abajures, mas havia uma nova força em seus olhos.

— O Lu está bravo? — perguntou ela, manhosa.

— Ele só está sendo o Lucas — Emanuel a pegou pela mão. — Vamos dormir. Amanhã o dia vai ser longo.

— Manu? — ela o chamou, parando antes de entrarem no quarto. — Você ainda ama a Sara?

Emanuel hesitou por um segundo. A honestidade era uma faca de dois gumes naquele momento.

— Eu tenho uma história com a Sara, Duda. É algo complexo, cheio de idas e vindas. Mas o que eu sinto por você... é algo que eu nunca tive. É uma paz que eu não sabia que existia. Eu quero as duas na minha vida, mas de formas diferentes. Você consegue entender isso?

Eduarda olhou para os próprios pés, processando a informação. Ela não gostava da ideia de dividir o homem que amava, mas ela era sensível o suficiente para entender que Emanuel era um homem de muitas camadas.

— Eu não gosto de dividir — sussurrou ela. — Mas eu prefiro ter um pedaço de você do que não ter nada.

Emanuel a beijou com uma intensidade renovada. Ele sabia que o equilíbrio que estava tentando manter era precário. Sara era um vulcão pronto para entrar em erupção, e Eduarda era um jardim delicado que poderia ser destruído pela primeira chuva de cinzas. Mas, naquela noite, com Eduarda em seus braços e o pacto de silêncio selado entre eles, Emanuel sentiu que era o dono do mundo.

Ele tinha o fogo e o orvalho. Tinha a paixão desenfreada de uma e a inocência devota da outra. O preço era alto, e as correntes do tempo impostas por Lucas ainda o prendiam, mas Emanuel estava disposto a lutar cada batalha para manter seu trono dividido. Afinal, para um homem que vivia de marcar a pele dos outros para sempre, ele acabara de receber a marca mais profunda de todas: o amor de uma mulher que não sabia o que era o mal, e o ódio de uma mulher que o conhecia bem demais.