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O Trono Dividido e as Correntes do Tempo
O silêncio do escritório de Emanuel, em um dos seus estúdios mais luxuosos no centro da cidade, era apenas aparente. Por trás da fachada de couro, aço escovado e arte moderna, o clima era de uma tempestade contida. Emanuel estava sentado atrás de sua mesa de carvalho negro, os olhos fixos no relógio de parede de design minimalista. Eram 18h45. Em quinze minutos, seu "tempo de visita" estaria esgotado.
— Isso é ridículo — rosnou ele, jogando a caneta de metal sobre os esboços de uma nova tatuagem geométrica. — Eu sou um homem de vinte e cinco anos, dono de um império, e me sinto como um adolescente proibido de sair de casa.
Lucas, que estava sentado no sofá de espera folheando uma revista de negócios, nem sequer levantou os olhos.
— Dez minutos, Manu. Não se esqueça do trânsito. Se a Duda chegar em casa depois das sete e meia, a nossa conversa de ontem vai para o ralo. Eu fui bem claro sobre os horários.
Emanuel levantou-se abruptamente, a cadeira de couro rangendo sob seu peso. Sua recuperação física estava quase completa; as costelas não doíam mais ao respirar fundo e o braço, embora ainda exigisse certa cautela, já voltara a segurar a máquina de tatuar com a firmeza de sempre. No entanto, sua paciência estava em frangalhos.
— Você está sendo um tirano, Lucas — Emanuel caminhou até a janela, observando o movimento da metrópole lá embaixo. — O acordo era um ano de namoro, não um regime de internato. Eu quero ela comigo. Quero acordar e ver aquele rosto doce no travesseiro ao lado, e não ter que cronometrar cada segundo que passo com ela como se fosse um privilégio concedido.
— E você vai ter isso — Lucas finalmente fechou a revista e o encarou com seriedade. — Daqui a onze meses e duas semanas. Até lá, a Duda precisa de rotina, de foco na faculdade e, acima de tudo, de distância da fogueira que é a sua vida com a Sara. Eu vi como a loira olhou para ela na última vez que se cruzaram. Você não consegue nem controlar a sua namorada oficial, Emanuel. Como espera proteger a minha irmã vivendo sob o mesmo teto?
Emanuel apertou o parapeito da janela. Ele não tinha resposta para aquilo. Sara estava cada vez mais instável. O ódio dela por Eduarda havia se transformado em uma obsessão fria. Ela não gritava mais; em vez disso, soltava comentários ácidos e irônicos toda vez que Emanuel saía para encontrar a "santinha". O fato de ele manter as duas em sua vida era um jogo de equilíbrio que exigia cada gota de sua racionalidade, mas o desejo de ter Eduarda ali, sob sua proteção direta, era uma fome que não passava.
A porta do escritório se abriu suavemente. Eduarda entrou, trazendo consigo aquela aura de paz que parecia desacelerar o tempo. Ela usava um vestido de lã leve cor de creme e um cachecol rosa pálido. Seus olhos brilharam ao ver Emanuel, e ela caminhou até ele com aquele jeito tímido e manhoso, quase como se pedisse desculpas por ocupar espaço.
— Oi, Manu... — sussurrou ela, aceitando o abraço dele.
Emanuel a apertou contra o peito, enterrando o rosto em seu cabelo castanho. O cheiro de baunilha e flores frescas era o seu único refúgio.
— Oi, pequena. Como foi a aula hoje?
— Foi boa — ela disse, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele, fazendo um biquinho adorável. — Mas senti sua falta. O museu estava tão cheio e eu só conseguia pensar em como seria bom se você estivesse lá para me explicar as sombras daqueles quadros.
Emanuel sorriu, sentindo o coração amolecer. Eduarda tinha essa capacidade de desarmá-lo com apenas algumas palavras.
— Eu adoraria ter ido. Mas o seu irmão aqui decidiu que eu só posso te ver em horários comerciais.
Eduarda olhou para Lucas com um sorriso travesso e suplicante.
— Lu... ele podia jantar com a gente hoje, não podia? Só hoje?
— Nem pensar — Lucas levantou-se, pegando as chaves do carro. — Regras são regras, Duda. Se eu abrir uma exceção hoje, amanhã o Emanuel vai estar tentando te levar para Paris no meio do semestre. Vamos, o tempo acabou.
Emanuel sentiu uma onda de irritação, mas ao ver o olhar de resignação doce de Eduarda, ele se conteve. Ele não queria criar um conflito que a deixasse nervosa.
— Tudo bem — disse Emanuel, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Eu te ligo mais tarde, está bem? E amanhã eu vou te buscar na faculdade. Sem atrasos.
— Tá bom, Manu — ela se inclinou e deu um beijo rápido e macio no canto da boca dele, um gesto que o deixou em brasas. — Fica bem. Não trabalha até muito tarde.
Quando a porta se fechou e ele ficou sozinho no escritório, o silêncio pareceu insuportável. Emanuel voltou para sua mesa, mas não conseguiu se concentrar. A falta de Eduarda morando com ele era uma ferida aberta. Ele queria cuidar da alimentação dela, queria garantir que ela dormisse o suficiente, queria ser o primeiro rosto que ela via ao acordar. A racionalidade de Emanuel dizia que Lucas tinha razão, que o ambiente com Sara era tóxico, mas o seu lado controlador e possessivo gritava por proximidade.
Ele pegou o celular e viu uma notificação de Sara. "Onde você está? O jantar está servido e eu comprei aquela lingerie que você gosta. Não se atrase."
Emanuel suspirou, sentindo o peso da sua escolha. Ele amava Sara. Amava a intensidade dela, a forma como ela o desafiava e como o sexo entre eles era uma explosão de sentidos. Mas a vulgaridade dela, que antes o atraía, agora começava a cansá-lo. O contraste era violento demais.
Ele chegou à cobertura por volta das nove da noite. Assim que entrou, o som de música alta e o cheiro de incenso forte o atingiram. Sara estava deitada no sofá, usando apenas um robe de seda preta que deixava muito pouco para a imaginação.
— Finalmente — disse ela, levantando-se com um sorriso predatório. — Achei que tivesse se perdido no caminho daquela biblioteca empoeirada onde a sua amiguinha estuda.
— Sara, eu não estou com paciência para ironias hoje — Emanuel deixou a pasta de lado e foi direto para o bar, servindo-se de um uísque.
— Ah, o bebê está irritado? — Ela caminhou até ele, passando os braços pelo seu pescoço, pressionando os seios siliconados contra suas costas. — O que foi? O irmão dela não deixou você brincar mais um pouquinho?
Emanuel virou-se, segurando-a pelos pulsos de forma firme, mas sem machucar. Seus olhos estavam frios.
— Escuta bem. A Eduarda é parte da minha vida agora. Você aceitou isso quando decidimos continuar. Se você quer que este relacionamento funcione, pare de provocá-la.
Sara soltou uma risada estridente, soltando-se dele.
— Eu aceitei porque eu sei que você vai se cansar, Emanuel. Homens como você não aguentam dieta de açúcar por muito tempo. Você precisa de pimenta. Você precisa de mim. Aquela garota é um rascunho de mulher. Ela é um passatempo, um projeto de caridade que você inventou.
— Ela é muito mais do que isso — Emanuel disse, a voz baixa e perigosa. — Ela é a paz que eu não tenho com você.
O rosto de Sara se transformou. A confiança deu lugar a uma fúria cega.
— Paz? Paz é para os mortos, Emanuel! — Ela gritou, jogando a almofada do sofá no chão. — Eu te dou vida! Eu administro a sua imagem social, eu estou ao seu lado em cada festa, em cada evento! O que ela faz? Ela lê livros de arte e chora quando alguém fala alto? Você vai se arrepender disso. Você vai ver que o silêncio dela vai te sufocar.
Emanuel não respondeu. Ele apenas terminou seu uísque e foi para o banho. Enquanto a água quente caía sobre seus ombros, ele pensava no ano que tinha pela frente. Seria um teste de resistência. Ele teria que suportar a fúria de Sara e a distância de Eduarda.
Nos dias que se seguiram, a rotina tornou-se uma tortura metódica. Emanuel buscava Eduarda na faculdade todos os dias. Eles passavam duas horas juntos — o máximo que Lucas permitia em dias de semana — geralmente em cafés discretos ou caminhando por parques onde ninguém os conhecia.
— Manu, olha aquele passarinho — dizia Eduarda, puxando a manga do terno dele com aquele jeito manhoso, apontando para um beija-flor. — Ele parece tão livre.
Emanuel a observava, encantado com a simplicidade dela. Eduarda não pedia presentes caros, não exigia jantares em restaurantes premiados. Ela queria apenas a sua atenção.
— Você também é livre, pequena — dizia ele, acariciando o rosto dela.
— Não sou não — ela respondia, escondendo o rosto no peito dele. — Eu sou sua. O Lu diz que eu não devia dizer isso, que eu sou jovem e tenho que ser independente, mas quando eu estou com você, eu sinto que... que eu finalmente cheguei em casa.
Essas palavras eram como facas no peito de Emanuel. Como ele podia dizer a ela que, daqui a algumas horas, ele estaria jantando com Sara? Como explicar que seu coração estava dividido entre o desejo de protegê-la e o vício na adrenalina que a loira lhe proporcionava?
A situação atingiu um ponto crítico no final de semana seguinte. Emanuel havia planejado levar Eduarda para um piquenique em uma propriedade rural que possuía, longe de tudo. Lucas havia dado permissão, desde que eles voltassem antes do anoitecer. No entanto, Sara descobriu o plano.
Na manhã de sábado, enquanto Emanuel se preparava para sair, Sara apareceu na garagem, bloqueando a passagem do carro. Ela usava um vestido vermelho curtíssimo e saltos altíssimos.
— Onde você pensa que vai? — perguntou ela, cruzando os braços.
— Tenho compromisso, Sara. Saia da frente.
— Com ela? De novo? — Sara deu um passo à frente, batendo a mão no capô do carro de luxo. — Hoje é o aniversário da Vanessa, minha melhor amiga. Você prometeu que iríamos à festa na lancha.
— Eu não prometi nada. Eu disse que veria se teria tempo. E eu não tenho.
— Você prefere passar o dia no mato com aquela sonsa do que estar comigo? — Sara gritou, atraindo a atenção dos seguranças da mansão. — Você está me humilhando, Emanuel! Todo mundo vai perguntar onde você está!
— Diga a eles que eu estou cuidando da minha vida — Emanuel acelerou o motor, o som potente ecoando na garagem. — Saia da frente, Sara. Agora.
Ela saiu, mas não antes de chutar o pneu do carro com toda a força. Emanuel partiu, sentindo o estresse acumulado latejar em suas têmporas. Quando chegou à casa de Lucas, Eduarda já o esperava no portão. Ela parecia uma boneca, com um chapéu de palha e uma cesta na mão.
O dia no campo foi o mais próximo da felicidade que Emanuel sentira em anos. Eles caminharam pela grama, Eduarda colheu flores silvestres e eles se deitaram sob a sombra de uma figueira imensa. Ali, longe dos gritos de Sara e das regras de Lucas, Emanuel sentiu que poderia realmente ser o homem que Eduarda via nele.
— Manu... — ela murmurou, deitada com a cabeça em seu colo enquanto ele acariciava seus cabelos. — Você acha que um dia a gente vai poder ficar assim para sempre? Sem ter que olhar o relógio?
— Eu prometo que sim, pequena. Eu estou organizando as coisas. Só preciso que você tenha paciência.
— Eu tenho — ela disse, fechando os olhos com um suspiro manhoso. — Eu espero o tempo que for. Só não me deixa, tá? Eu tenho medo de que... de que você perceba que eu sou sem graça perto das outras pessoas que você conhece.
Emanuel inclinou-se e a beijou com uma intensidade que a fez perder o fôlego. Não era um beijo de desejo bruto, como os que trocava com Sara, mas um beijo de promessa, de posse emocional.
— Você é a única pessoa que realmente importa, Eduarda. Nunca mais diga que é sem graça. Você é a minha arte mais bonita.
No entanto, o retorno para a cidade foi o choque de realidade. Ao deixar Eduarda em casa, Lucas estava no portão, verificando o relógio.
— Dezenove horas e dois minutos, Emanuel. Você está atrasado.
— Foram dois minutos, Lucas! — Emanuel explodiu, saindo do carro. — Deixa de ser ridículo! Nós passamos o dia em paz e você estraga tudo com essa sua obsessão por controle!
— O controle é o que mantém a minha irmã segura — Lucas rebateu, a voz fria. — Entra, Duda. Agora.
Eduarda olhou para os dois, os olhos cheios de tristeza. Ela deu um beijo rápido no rosto de Emanuel e entrou, sem dizer uma palavra.
Emanuel voltou para casa em um estado de fúria silenciosa. Ao entrar no apartamento, encontrou Sara sentada no bar, bebendo direto da garrafa de champanhe. A casa estava um caos; ela havia quebrado vários vasos de porcelana e espalhado as roupas dele pelo corredor.
— Gostou do seu dia no campo, fazendeiro? — perguntou ela, a voz embriagada e perigosa.
Emanuel não disse nada. Ele apenas caminhou até o quarto, mas Sara o seguiu, agarrando seu braço.
— Responde! Você acha que pode me tratar assim? Você acha que eu sou o quê? Um móvel que você usa quando quer e ignora quando aparece uma novidade?
— Eu estou cansado, Sara. Vá dormir.
— Eu não vou dormir! — Ela o empurrou contra a parede, e antes que ele pudesse reagir, ela o beijou.
Era um beijo desesperado, violento, com gosto de álcool e raiva. Emanuel tentou afastá-la, mas o corpo de Sara, tão familiar e tão treinado para excitá-lo, começou a exercer sua influência. Ele sentiu a raiva se transformar em um desejo sombrio, uma necessidade de descarregar toda a tensão do dia.
Ele a pegou pela cintura, devolvendo o beijo com a mesma fúria. Por um momento, ele esqueceu a paz de Eduarda, esqueceu a doçura do campo. Ali, no meio do caos e dos cacos de vidro, ele era o homem que Sara queria que ele fosse.
Mas, no meio do ato, quando Sara sussurrou palavras provocantes em seu ouvido, a imagem de Eduarda colhendo flores silvestres sob a figueira brilhou em sua mente. Ele parou abruptamente, afastando-se de Sara.
— O que foi? — perguntou ela, ofegante, o robe entreaberto.
— Chega — disse Emanuel, a voz soando oca. — Eu não consigo mais fazer isso.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu quero as duas, Sara. Eu já te disse isso. Mas eu não posso continuar nesse ciclo de destruição. Você vai ter que aceitar que a Eduarda não vai embora. E se você não conseguir conviver com isso, a porta da rua é serventia da casa.
Sara o olhou com um ódio puro.
— Você está me dando um ultimato? Por causa daquela menina?
— Estou te dando a realidade. Eu amo você, mas eu preciso dela. Se você quiser ficar no meu trono, vai ter que dividir o espaço.
Emanuel saiu do quarto e foi para a varanda. O vento da noite soprava frio. Ele sabia que o ano de espera imposto por Lucas seria o período mais difícil de sua vida. Ele teria que domar uma fera e proteger um anjo, enquanto lutava contra seus próprios demônios.
Ele pegou o celular e enviou uma mensagem para Eduarda: "Durma bem, pequena. Eu estou contando os dias."
Segundos depois, a resposta chegou: "Eu também, Manu. Sonha comigo?"
Emanuel olhou para o horizonte da cidade. Ele tinha o poder, o dinheiro e as mulheres que desejava. Mas, pela primeira vez, ele percebeu que o preço de ter tudo era nunca ter paz completa. Ele suportaria as regras de Lucas, suportaria os surtos de Sara. Porque, no final daquela estrada de doze meses, ele estava decidido a ter Eduarda morando com ele, nem que para isso tivesse que construir uma redoma de vidro ao redor dela.
O jogo estava apenas começando, e Emanuel era o tipo de jogador que nunca aceitava a derrota. Ele teria o seu império completo, com o fogo de um lado e o orvalho do outro, custasse o que custasse.