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Gritos, Risos e Pelos: O Espetáculo da Discórdia

A manhã de sábado em São Paulo nasceu com um sol pálido, mas Emanuel já sentia o calor da tensão antes mesmo de tomar seu primeiro café. O acordo da noite anterior — o bife com batatas no quarto — havia comprado algumas horas de trégua com Eduarda, mas o silêncio de Sara durante o café da manhã era do tipo que precedia furacões. Ela estava sentada à cabeceira, usando um conjunto de ginástica de grife que custava mais do que o carro de um cidadão comum, mexendo no celular com uma fúria silenciosa.

— Vamos ao parque hoje — anunciou Emanuel, quebrando o gelo com a voz firme de quem não estava dando uma opção, mas uma ordem. — O dia está bonito, e todos precisamos de ar puro. Sem brigas, sem indiretas.

Eduarda, que usava um vestido de algodão azul claro e prendia o cabelo em uma trança frouxa, sorriu timidamente.

— Eu adoro o parque, Manu. Podemos levar uma toalha para ler na grama?

Sara soltou uma risada ríspida, sem tirar os olhos da tela.

— Ler na grama? Que programa mais emocionante, Eduarda. Quase morri de tédio só de ouvir. Eu já combinei com a Paula e a Fabi. Elas vão nos encontrar lá. Tem aquele parque de diversões itinerante que montaram na ala sul, quero ir lá.

Emanuel suspirou, sentindo a veia na têmpora pulsar.

— Sara, eu disse que queria um passeio tranquilo.

— E vai ser tranquilo, querido — disse ela, levantando-se e exibindo as curvas acentuadas pelo tecido tecnológico. — Mas eu não sou uma idosa de oitenta anos para ficar sentada vendo a grama crescer. Eu quero movimento. Ou você vai me proibir de ver minhas amigas de novo?

Emanuel olhou para Eduarda, que já desviava o olhar, encolhendo os ombros de forma manhosa. Ele sabia que, se cedesse apenas a Eduarda, Sara tornaria a vida de todos um inferno por uma semana. Se cedesse a Sara, Eduarda se fecharia em seu casulo de insegurança.

— Tudo bem. Vamos ao parque. Ficamos um pouco na grama e depois passamos no setor de diversões. Mas eu estou avisando: se eu ouvir um insulto sequer, voltamos na mesma hora.

O trajeto até o parque foi marcado por um contraste visual gritante dentro do SUV de luxo de Emanuel. No banco do passageiro, Sara retocava o batom vermelho vibrante, exalando um perfume doce que preenchia o carro. No banco de trás, Eduarda olhava pela janela, segurando um livro de bolso e parecendo uma boneca de porcelana em meio a um cenário de caos iminente.

Ao chegarem, as amigas de Sara já estavam lá, parecendo prontas para uma sessão de fotos de revista de fofocas. Paula e Fabi, ambas com lábios preenchidos e óculos escuros gigantescos, cumprimentaram Emanuel com uma intimidade que sempre o incomodava.

— Oi, gato! — disse Paula, ignorando completamente a presença de Eduarda. — Sara disse que hoje o dia promete.

— Promete muita paciência da minha parte — murmurou Emanuel, enquanto sentia a mão pequena de Eduarda buscar a sua.

Eles caminharam pelo parque por uma hora. Eduarda tentou aproveitar o momento, apontando para as árvores e comentando sobre a luz do sol, mas as provocações de Sara e suas amigas eram constantes.

— Olha só, Fabi — disse Sara, apontando para uma família fazendo piquenique. — Aquela mulher parece a Eduarda. Roupas sem corte, cara de quem não conhece um iluminador... É a estética "pobre, mas limpinha", não é?

As amigas caíram na gargalhada. Eduarda apertou a mão de Emanuel, os olhos começando a brilhar com a umidade das lágrimas que ela lutava para segurar.

— Sara, chega — avisou Emanuel, a voz soando como um trovão baixo.

— Ai, Manu, como você é tenso! — Sara se aproximou dele, passando a mão pelo seu peito de forma possessiva. — Vamos para o parque de diversões agora? Ouvi dizer que tem uma atração clássica que voltou. A Monga, a Mulher-Gorila. É kitsch, é vulgar, é a nossa cara!

Eduarda estremeceu.

— Eu... eu não gosto de coisas de susto, Manu.

— É só um truque de espelhos, sua boba — zombou Sara, puxando Emanuel pelo braço livre. — Vamos, não seja uma estraga-prazeres. Ou vai ficar aqui sozinha esperando a gente?

Emanuel, querendo apenas acabar com aquilo de uma vez e esperando que o susto pudesse, de alguma forma, unir o grupo ou pelo menos calar as línguas afiadas por alguns minutos, assentiu.

— Vamos logo. Entramos, vemos o show e depois vamos embora.

A fila para a "Monga" estava cheia de adolescentes e curiosos. O letreiro de neon piscava de forma decadente, e o som de gritos abafados vinha de dentro da tenda escura. Sara e suas amigas estavam empolgadíssimas, fazendo selfies e rindo alto, enquanto Eduarda se mantinha colada ao corpo de Emanuel, quase escondendo o rosto em suas costas.

— Manu, eu estou com medo — sussurrou ela, a voz manhosa e trêmula.

— Eu estou aqui, Duda. É só um teatro — ele tentou tranquilizá-la, embora o ambiente escuro e o cheiro de mofo da tenda não ajudassem muito.

Eles entraram em uma pequena arena circular, cercada por grades de ferro. No centro, atrás de um vidro grosso e sob uma luz avermelhada sinistra, uma mulher jovem e bonita estava sentada em um banco de madeira. Um narrador com voz rouca começou a contar a "trágica história da mulher que foi amaldiçoada na selva".

Sara estava na primeira fila, bem encostada na grade, com Paula e Fabi ao seu lado. Ela queria ver cada detalhe para poder fazer piada depois.

— Olha o estado dessa atriz — cochichou Sara para as amigas. — O silicone dela deve ser do Paraguai, olha como está torto no vestido de trapo.

Eduarda estava logo atrás, com Emanuel segurando seus ombros. Ela estava genuinamente assustada, os olhos arregalados, observando a transformação começar.

As luzes começaram a piscar. O efeito de espelhos, embora antigo, ainda era eficaz na penumbra. Aos poucos, a imagem da mulher começava a se sobrepor à de um gorila enorme e peludo. O som de rosnados ecoava pelos alto-falantes escondidos.

— Ah, por favor, que efeitos mais pobres! — exclamou Sara, virando-se para trás para olhar para Emanuel com desdém. — Você acredita que as pessoas pagam por is...

Nesse exato momento, o ápice do espetáculo aconteceu. As luzes se apagaram completamente por dois segundos. Um estrondo metálico soou — o som da "grade" sendo supostamente arrancada. Quando a luz estroboscópica voltou, o gorila (agora um ator fantasiado) não estava mais atrás do vidro. Ele estava no meio do público, pulando e rugindo.

O caos se instalou. As pessoas gritaram e correram. O ator, treinado para identificar os mais distraídos, saltou exatamente na direção de Sara e suas amigas.

— UAAAAAARGH! — o rugido do gorila ecoou bem na orelha de Sara.

Sara, que segundos antes estava cheia de si, soltou um grito agudo que quase quebrou os cristais do lustre de Emanuel em casa. Ela tentou recuar, mas seus saltos altos a traíram, fazendo-a cambalear.

Eduarda, em um reflexo puramente movido pelo susto e por um lampejo súbito de sobrevivência — ou talvez, lá no fundo, por um pingo de vingança reprimida —, sentiu o corpo de Sara colidir contra o seu enquanto a loira tentava fugir. Em vez de segurá-la, Eduarda, em meio ao seu próprio pânico manhoso, deu um empurrão firme com as duas mãos para se livrar do "obstáculo" que a impedia de chegar a Emanuel.

— Sai, sai! — gritou Eduarda, a voz aguda de medo.

O empurrão foi certeiro. Sara, desequilibrada, foi lançada diretamente para a frente, caindo de joelhos e mãos no chão, exatamente nos pés do gorila.

O ator, aproveitando a oportunidade de ouro, inclinou-se sobre ela, batendo no peito e soltando um urro gutural que fez o hálito de borracha da máscara atingir o rosto perfeitamente maquiado de Sara.

— SOCORRO! EMANUEL! ME TIRA DAQUI! — Sara berrava, a vulgaridade dando lugar a um desespero primitivo. Ela tentava se arrastar para trás, mas suas mãos escorregavam no chão de madeira, e o gorila continuava a persegui-la, rosnando e fazendo menção de pegá-la.

Paula e Fabi já tinham corrido para a saída, deixando a amiga para trás sem olhar uma única vez.

Emanuel, que estava tentando conter o próprio riso diante da ironia da situação, finalmente interveio. Ele caminhou até Sara, que estava quase em estado catatônico de terror, e a levantou pelo braço.

— Calma, Sara. É só um cara fantasiado — disse ele, a voz carregada de um sarcasmo que ele raramente se permitia usar.

Eduarda aproximou-se, tremendo, e agarrou o outro braço de Emanuel, escondendo o rosto em seu ombro.

— Ele ia me pegar, Manu! Eu tive que empurrar... eu não vi quem era! — disse ela, com uma voz tão doce e inocente que ninguém ousaria chamá-la de culpada.

Eles saíram da tenda sob a luz forte do sol. Sara estava em frangalhos. Seu cabelo loiro, antes impecável, estava bagunçado; um de seus saltos havia quebrado, e o batom vermelho estava borrado ao redor da boca, dando-lhe uma aparência de palhaço trágico.

— Aquela... aquela coisa... — Sara tentava recuperar o fôlego, apontando para a tenda. — Aquilo é um absurdo! Eu vou processar esse parque! Eu quase tive um infarto!

Ela olhou para Eduarda, que estava com os olhos arregalados e parecia a imagem da fragilidade.

— Você me empurrou, sua sonsa! Você me jogou na cara daquele bicho!

— Eu? — Eduarda fez um beicinho, os olhos se enchendo de lágrimas instantaneamente. — Eu estava com tanto medo, Sara... eu só queria fugir. Eu nem vi que era você. Desculpa... eu sou tão desastrada quando fico assustada...

Emanuel olhou para Eduarda. Ele a conhecia bem o suficiente para ver o brilho sutil de satisfação por trás daquela máscara de timidez. Ele não disse nada; na verdade, sentiu uma pontada de orgulho.

— Vamos para casa — disse Emanuel, tentando manter a face séria. — Sara, você está péssima. Paula e Fabi já foram embora, pelo visto a amizade de vocês não resiste a um gorila de pelúcia.

Sara olhou ao redor, percebendo que as amigas realmente a haviam abandonado. A humilhação era completa.

— Eu odeio este parque! Eu odeio este dia! — ela gritou, começando a mancar em direção ao estacionamento, segurando o sapato quebrado na mão.

Eduarda caminhava ao lado de Emanuel, segurando sua mão com firmeza. Ela se inclinou e sussurrou apenas para ele ouvir:

— Manu?

— Oi, Duda.

— A Monga era bem feia, né? Mas a cara da Sara quando caiu foi... interessante.

Emanuel não conseguiu mais segurar. Ele soltou uma risada alta e curta, atraindo o olhar furioso de Sara, que estava alguns metros à frente.

— É, Duda. Foi uma experiência artística muito... expressiva.

O resto do dia foi estranhamente silencioso. Em casa, Sara se trancou no quarto com um pote de sorvete e máscaras faciais, recusando-se a falar com qualquer pessoa. Eduarda, por outro lado, estava radiante em sua quietude. Ela preparou um chá para Emanuel e sentou-se aos pés dele enquanto ele trabalhava em alguns desenhos de tatuagem no tablet.

— Você não está brava comigo, está? — perguntou ela, fazendo aquela voz manhosa que sempre o desarmava.

Emanuel deixou o tablet de lado e acariciou o rosto dela.

— Eu deveria estar. Você causou uma cena e tanto. Mas... — ele deu um meio sorriso — ver a Sara perdendo a pose de rainha de São Paulo por causa de um ator de quinta categoria foi o ponto alto da minha semana.

Eduarda sorriu, encostando a cabeça nos joelhos dele.

— Eu só queria paz, Manu. E no escuro, às vezes, a gente precisa dar um empurrãozinho na vida para a paz chegar.

Emanuel suspirou, sentindo a tensão dos últimos dias finalmente se dissipar. Ele sabia que a guerra entre as duas estava longe de terminar. Sara voltaria com mais veneno no dia seguinte, e Eduarda continuaria usando sua fragilidade como uma armadura impenetrável. Mas, por aquela noite, o silêncio no apartamento era genuíno.

Ele olhou para o desenho de uma fênix que estava criando. A vida com as duas era exatamente assim: um ciclo constante de destruição e renascimento, de fogo e calmaria. E enquanto ele pudesse ser o centro desse caos, protegendo a doçura de uma e tentando domar a fúria da outra, ele continuaria ali, no equilíbrio precário de seu próprio inferno particular.

— Duda? — chamou ele, baixinho.

— Sim?

— Amanhã, nada de parques. Vamos ficar em casa. Só nós três.

Eduarda suspirou, fechando os olhos.

— Tudo bem, Manu. Desde que não tenha gorilas... ou amigas da Sara.

Emanuel riu, beijando o topo da cabeça dela. A paz era um conceito relativo, mas ali, naquele momento, era o suficiente.